16 novembro 2007

Que tal ler um livro?


Desligue o computador e vá ler um livro. Mas não um qualquer. Busque um que tenha uma visão de mundo distinta da sua.

Todos nós, fundamentalistas, ecumênicos, conservadores e liberais, demasiadas vezes caímos na mesma tentação. A de ler apenas o que nos convém, o que nos agrada e que reforça o que já acreditamos.

Quando incorro nesse pecado, giro ao redor de meu eixo e não desenvolvo aquela capacidade de enxergar além. Esse olhar que me leva não apenas a alargar a fronteira da compreensão, mas também a voltar com uma percepção renovada (revisada?) e quiçá mais autêntica de quem eu sou.

Momento para uma digressão. Convém lembrar que há algo fundamental acerca do prazer na leitura. Parece que foi o Borges (não eu, o outro, o Jorge Luis) quem defendia a idéia de não ler um clássico somente por ser um clássico. Se a experiência é frustrante, dizia ele, feche o livro sem culpa.

Meu homônimo tem razão, em especial quanto às novelas, os contos e as poesias. Ainda assim penso no benefício de ler aquilo que me é diferente, mesmo ou em especial o que não me agrada. Examinar idéias e cosmovisões alheias, que me provocam e desafiam.

Compartilho uma mui humilde lição de casa à qual me dedico no momento, lendo o aclarador “Exploring Protestant Traditions, an invitation to theological hospitality”, de W. David Buschart (IVP, 2006). Uma rica ainda que concisa jornada pelas tradições reformada, luterana, wesleyana, anglicana, anabatista, pentecostal e dispensacionalista. De cada uma o autor se acerca de sua história, contexto eclesiástico, suas ênfases hermenêuticas e teológicas.

Sua leitura tem me ajudado a construir pontes de entendimento e cooperação, necessárias em um mundo evangélico tão fracionado. O óbvio, confesso, é que esse exemplo é tímido, pois ainda é leitura dentro de um escopo circunscrito de tradições. Talvez seja apenas um bom passo, um começo que me socorra no plano estreito de minhas idéias.

Penso que quem quer viver e servir em outra cultura tem que aprender a ler as vozes dos novos “atores” que conhece, os mestres, os que formam e desinformam, os amigos, vizinhos ou inimigos. Os que são a favor ou muito pelo contrário. Suas razões e também incoerências. Os que me ensinam e também agregando minha própria disposição de adicionar ao caldo minhas reações e percepções, com santa abertura para repartir tudo o que de precioso eu possa trazer a essa conversa.

Se você leu até aqui é porque não acatou a sugestão da primeira frase. Talvez o faça agora. Apague a máquina e agarre um bom livro. Nos vemos na próxima.

Foto: Leggendo
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4 comentários:

Heloisa Lima disse...

Ricardo, descobri hoje seu blog e estou gostando muito dos seus textos, especialmente esse, em que vc nos estimula a ler um livro. Mas não qualquer livro. Um livro que me faça enxergar o mundo de maneira diferente, que me abra os horizontes e me permita enxergar o outro, aquele que é diferente de mim. Nossa tendência é ficar isolado em nosso mundinho, rodeado de gente que pensa como a gente e de livros que confirmam nossas crenças. Isso é tão forte que muitas vezes nos sentimos culpados ao ler certos livros, principalmente no meio evangélico. Parece que temos medo que as nossas convicções não sejam tão firmes como imaginamos. Precisamos nos lembrar do conselho de Paulo: "Examinai todas as coisas, retende o que é bom". É isso. Abraço.

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Oi Heloísa. Foi justamente nessa atitude e espírito que você comenta que me veio a idéia do artigo.
Muitas vezes ouço a recomendação de leitura de um livro acompanhada de algo assim "é fantástico, exatamente como eu pensava... até que enfim encontrei alguém como eu... sempre pensei assim...". Mas é justamente na situação contrária em que, na maioria das vezes, mais aprendemos.
Valeu e forte abraço!

Humberto Ramos disse...

Bacana, uma proposta sábia e sensata.

Recordo-me de dois fatos que me levariam a ler: a crise em relação à instituição religiosa, e o contato com a abu e um pastor que veria a ser meu mentor (pessoa que sugeriria que começássemos um grupo da abu aqui em Pouso Alegre/MG).

De início, eu me encantei quando descobri que tinha gente que pensava como eu, ou melhor, que eu pensava como elas (como dizer que C.S. Lewis pensava como eu? rsrs).

Mas depois foi importante me debruçar em livros que tinham propostas diferentes das visões que já estavam se consolidando em mim.

Essa boa proposta gera em nós um equilíbrio, uma tolerância e compreensão muito favoráveis à nossa caminhada cristã.

Abraços fraternos.

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Oi Humberto,
Eu penso como você. E C.S.Lewis pensava como nós dois! Hehe...
Abraço fraterno de volta.