16 noviembre 2009

Jenga, a culpa do rico e as desculpas do pobre

Em um evento recente no Texas, à pergunta de um jovem estudante sobre o que fazer para mudar a mentalidade de um viciado em drogas que mendiga nas ruas, Ramachandra rebateu perguntando por que as pessoas sempre questionam o pobre, e não o rico, quando se trata de mudanças.

Vinoth Ramachandra é o secretário de IFES para o Diálogo e o Compromisso Social, autor de vários livros com profundas reflexões e saudáveis provocações acerca da missão da igreja, entre eles o ótimo e mais recente “Subverting Global Myths”.

Nele ele confronta alguns mitos que vêm conformando a cosmovisão dominante em nossa era, muitas vezes excluindo outras maneiras de enxergar a realidade, e obviamente afetando o modo como nela intervimos. Os temas são tão amplos como desafiadores, diversos mas conectados, como o terrorismo, a violência religiosa, os direitos humanos, o multiculturalismo, a Ciência e o pós-colonialismo. Vale a pena sua leitura e a torcida para que em breve esteja disponível em português.

Voltando à maneira como Vinoth respondeu à pergunta que lhe foi dirigida nesse evento em uma universidade texana, penso no triste fato de que muitos destituídos já assimilaram essa visão de que a culpa deve ser em última análise algo que lhes toca. Recordo do episódio quando minha esposa tentou ajudar um hurgador (“catador de lixo”) nas ruas de Montevidéu, onde vivemos, quando ele não parava de lhe pedir desculpas. Ora, ele não havia feito nada que justificasse seu pedido, mas era como se sentisse que ele era um estorvo e uma carga em uma sociedade limpa e exclusiva. Chocou-nos essa óbvia percepção de que estávamos mais do que nunca desse lado de cá desse muro de exclusão.

Outro dia eu jogava Jenga® com minha filha mais nova, de 6 anos. Trata-se daquele jogo de blocos de madeira empilhados, em que se busca fazer a torre cada vez mais alta. Entediada com sua pequena metáfora da Babel bíblica, ela me propôs um jogo diferente. Faríamos um hotel com os bloquinhos. “Que faremos no hotel?”. Sua resposta foi que não era pra nosso desfrute e sim para os pobres do mundo todo.

Surpreso com a súbita consciência turístico-social de minha filha, amei a explanação de seu projeto. “Será para os pobres do mundo que não têm casa.” Me arrastou até o mapa-múndi que temos na parede e me pediu que a mostrasse onde havia pobres. “Ui, tarefa difícil, ou fácil, não sei, estão por toda a parte.” Passemos a outro ponto, “como construiremos o hotel?”. “Essa é fácil”, disse ela, “pediremos ajuda dos países ricos” (será que ela andou vendo muito noticiário sobre reuniões do G-8 ou do G-20?).

A coisa avançou, com uma lista de tudo o que deveria conter o tal “Grande Hotel Jenga para os pobres do mundo”. Outra surpresa, “um cassino?! Para que um cassino?”, perguntei intrigado. “Ora, para conseguir mais dinheiro para os pobres!”. Fabuloso! Robin Hood estaria orgulhoso da ideia de sua discípula mirim sobre como sacar dinheiro dos ricos e destiná-lo aos pobres.

Claro, ao fim, aproveitamos para uma breve reflexão de que o esforço começa em nossa casa, em nossos pequenos atos e atitudes, assumindo nossa responsabilidade. “Também somos ricos”, disse quase arrependido quando pude vislumbrar em seus olhinhos a maquinação para o próximo pedido de aumento da mesada. Tudo bem, o acréscimo será um pequeno sacrifício caseiro perto das mazelas e injustiças de nosso mundo.

Com a construção terminada te convidamos ao grande hotel. Também ao cassino, claro. Perder dinheiro aí será por uma nobre causa.

Foto: Jenga® en el campamento de CBU (2008).

25 octubre 2009

O tempo, o sonho e a conexão



Falar de suas próprias experiências, do que lhe é mais íntimo e pessoal, implica em óbvias limitações. Por sua natureza, elas não são normativas, somente podendo aspirar a ser humilde ilustração, exemplo, talvez uma motivação para o outro. Com a confiança de que o pedido implícito de perdão dessa introdução seja considerado, conto-lhes o encontro e o sonho que tive.

Recebemos a visita de um casal de amigos. Não tão jovens e já maduros na vida, darão em breve o passo de unir-se em casamento. Depois que se foram, fui dormir comovido pelo convite que fizeram para que eu lhes dirigisse a palavra em sua cerimônia.

Dormi e sonhei. Aclaro em uns parênteses. De maneira alguma esse seria um “método” que utilize para preparar alguma mensagem. Raras vezes me lembro de sonhos, ainda que já tenha refletido
aqui sobre a relação entre sonho e chamado, e também já tenha compartilhado uma disciplina espiritual que aprendi relacionada ao tempo em que dormimos.

Resumindo, sonhei que Ruth, minha esposa, e eu saíamos de uma visita. Essa havia sido inundada por um peso emocional negativo. Saíamos cabisbaixos. Então recordo que comecei a falar com Ruth sobre
“Culpa e Graça”, de Paul Tournier.

O colóquio girou em torno ao conceito de culpa falsa e culpa verdadeira. Em um mover crescente de intimidade, cumplicidade, entendimento e aceitação mútuos, em que Ruth com seu olhar já entendia o que eu queria dizer, e inclusive completava as frases que minha emoção bloqueavam ainda na garganta, choramos juntos.

Foi, se me permitem prosseguir em minha confissão e exposição íntima, um êxtase de profunda conexão. Quando despertei, o primeiro que quis fazer foi lhe contar em detalhes tudo o que havia sonhado. Aquilo que por anos eu reclamei de Ruth (o completar minhas frases ou pensamentos antes que fossem concluídos) foi no sonho o mais puro sinal de uma especial conexão de vida a dois. Daquelas que levam toda uma vida para cultivar, em abertura, confiança e entrega mútuas.

Uma vez li em um artigo que defendia o “amor livre dos fardos do compromisso eterno” (perdão que não encontrei esse texto agora) que seria impossível, por exemplo, ter sonhos eróticos com o cônjuge de muitos anos. Obviamente que discordo, em todos os sentidos. O tempo é exatamente a oportunidade que se é dada para a aventura do enlace mútuo, de descobrir-se nos olhos do outro e entregar-se em verdadeira intimidade, e não em uma caricatura fugaz da mesma.

Ainda não sei bem como abordar o tema no sermão do casamento. Mas já tenho um ponto por compartilhar. Conhecer o outro leva tempo. Por isso se requer toda uma vida. Mas a conexão verdadeira a que chegamos vale todo o esforço e perseverança. Sim, vale.

Foto: © Ciruelito
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Milagros Sierra

31 julio 2009

A verdade nua e crua



50 cm e 3,540 Kg. Assim, direto ao ponto e com riqueza técnica recebi ontem uma chamada anunciando o nascimento de meu sobrinho.

Isso me fez pensar por que nos fascinamos com certo tipo de informação e não com outro? Por que me interessa saber quão grande nasceu o rebento (com implicações diretas para a dor da feliz mãe) e não perguntamos, por exemplo, se ele é bonito como um ou inteligente como o outro (falando dos progenitores, é claro, e deixando com os mesmos a disputa por um ou outro atributo...).

A verdade, nua e crua, é que outros detalhes são menos prazerosos e um tanto incômodos: a usual cara amassada, o choro, a dor da mãe, o cansaço do pai (ou a vergonha por ter desmaiado na sala de parto), etc.

Mas não devemos perguntar sobre o que é incômodo, ou devemos? Lembro-me dessa metáfora que Kierkegaard usou para referir-se ao que seria um evangelista. Seria aquele que fica escondido por detrás de um arbusto, e quando o transeunte passa, sai de onde está, lhe dá um pontapé no traseiro, e volta a esconder-se. O caminhante se vira, não entende o que lhe passou, e segue o seu caminho.

Mas agora sua caminhada será diferente. Estará pensativo, intrigado, tentando imaginar o que pode haver passado. Há algo mais que ele não entende, não sabe a resposta, e isso o faz questionar-se, sair de suas próprias certezas. Andará mais desconfiado e atento. Alguém o incomodou em seu mundo sólido e seguro.

Quando dou aulas sobre evangelismo, animo os alunos a seguir a metáfora do dinamarquês. Saiam e dêem seus pequenos pontapés! “O cara me disse que os crentes são pobres”. “Claro, diz pra ele que somos todos pobres, eu, você, ele, todo mundo! Ou ele acha que é algum tipo de faraó que levará pro além dinheiro, servos e concubinas?” Se digo pra alguém que somente quando reconheço minha pobreza absoluta posso então encontrar a riqueza verdadeira, esse é um bom cutucão em seu orgulhoso traseiro.

“Ah, esses religiosos abraçam sua fé como uma tábua de salvação, são uns fracos!” “Claro, e eu racionalmente te explico que você abraça a tábua de sua razão como uma bóia e ídolo, sem admitir sua idolatria, enquanto eu reconheço que abraço minha fé, aceitando que ela é razoável, mas que também é baseada em uma revelação que vai além do racional. Se respeitosamente assentimos que cada um tem a sua bóia, então podemos conversar aberta e honestamente sobre onde encontramos a que cada um leva debaixo de seu braço e aonde esperamos chegar com elas”. E antes que eu me esqueça, foi o mesmo Kierkegaard quem disse que somos todos fracos, que há só um que é “o forte”. Mas volto a esse ponto em outro momento.

Como foi que saímos de um bebê e fomos parar em pontapés filosóficos nos traseiros alheios? Acho que o nexo foi esse de aprender a cortesmente incomodar o outro sobre as verdades mais profundas e importantes da vida, certamente um bom e saudável exercício.

Concluindo, devo dizer, a crua verdade é que o garoto de fato nasceu bonito! Teria puxado o tio? Não, melhor deixar essa ilusão vaidosa, antes que me dêm um pontapé...

Foto: © Life seems harder than we think
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Alexandre Bertin

10 junio 2009

A fama é um mal-entendido


“Quais são os famosos que vocês estão produzindo hoje?”. A pergunta direta fez a farofa do frango entalar. Foi em meus tempos de ministério com a ABU quando curtia um até então pacífico intervalo gastronômico nessa interessante conferência missionária em terras mineiras.

Ante meus olhos esbugalhados e atento a um ossinho galináceo pendurado em minha muda boca, meu interlocutor, um importante líder eclesiástico, aparentemente resolveu esclarecer sua indagação. “Digo, no passado, vemos que nomes hoje destacados, como Valdir Steuernagel e Robinson Cavalcanti, militaram nas bases da ABU. Quem são as pessoas famosas da próxima geração que vocês estão preparando hoje?”

A lembrança do episódio me remete a um excelente escritor uruguaio, Juan Carlos Onetti, que se estivesse vivo completaria seu centenário nesse ano de 2009. Dizem seus biógrafos que para ele a fama era obra de um mal-entendido. Em suas palavras:

“A grande maioria de nossos escritores trata de alcançar o triunfo. E a esse se chega de maneira incidental e nunca deliberada. Se alcançamos o êxito nunca seremos artistas plenamente. O destino do artista é viver uma vida imperfeita.”1

Deixo para críticos literários a avaliação se isso é algo mais do que o arroubo e o drama de um artista. Ou se há alguma verdade importante em suas palavras. Por agora, não deixo de pensar no papel dos profetas bíblicos e em seu aparente quase sempre “fracasso”.

Outros poderiam argumentar que o artista só é artista quando busca a fama e o reconhecimento público. E que talvez essa ambição seja mais comum e universal do que gostaríamos de admitir.

Pois bem, uma vez que falamos de artistas e de escritores, tomo a liberdade de abusar de sua paciência com outra citação, agora brasileira e machadiana:

“Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego…”
2


Claro, também decida o leitor porque alguém escreve e publica sobre o assunto da fama, se não é o caso que ambiciona ser lido por muitos. Não seria essa uma contradição interna? Ou pelo menos um flerte com essa tal busca pela ‘glória temporal’?

Ou seja, isso me obriga a refletir sobre a característica própria quer seja do artista, do escritor, do profeta, do pregador, ou da simples testemunha de sua fé em Cristo. Sobre essa que me parece ser uma obrigação inescapável, a de que vivam a expressão de seu ser e do que produzem para que todos vejam, para que esteja aí, na esfera pública.

Ora, nenhum crente em Cristo é chamado a esconder-se. Sempre deve expor tudo o que é e o que crê ao crivo do juízo público. É parte da essência de sua própria fé. Ou parte da própria identidade do profeta ou do artista.

Teria então razão meu nobre colega pastor que interrompeu meu seco galináceo? Creio que não. No mínimo diria que sua pergunta estava fora de foco. Isso porque penso em duas marcas necessárias do artista, profeta ou do ‘cristão comum’: integridade e compromisso público.

Primeira, a integridade que aponta à honestidade de sua própria essência interna, à fidelidade quanto à sua identidade. Para o crente ela vem dessa convicção profunda produzida pelo chamado de seu Senhor.

E a segunda, o compromisso público que tem a ver com a ‘prova’ exterior do cumprimento de seu chamado, que por sua vez sempre deve ser vivido debaixo do olhar alheio. O chamado daquele que carrega uma verdade que só é verdade quando é contada a todos. Mas que nessa exposição corre um duplo risco: o da rejeição e o da fama.

Óbvio, ambos são riscos. A desaprovação sempre é algo sofrido pessoalmente e pode levar, ou não, à revisão de sua integridade íntima. Aquele que é rejeitado pode querer ao fim abandonar sua verdade em função do acolhimento alheio. Por isso mesmo trata-se de uma tentação.

E a fama também o é, na medida em que sou levado pelo deleite da glória e da aceitação, esquecendo-me que ela é muito mais fruto de um incidente, e que também pode distrair-me de minha vocação mais sublime, que nem sempre me levará ao aplauso.

“Quais são os famosos que estamos produzindo hoje?” Não sei, nem me importa a pergunta. Mas se ajudo a formar discípulas e discípulos íntegros, fiéis ao seu chamado, em lugares ou circunstâncias que pouca atenção venha a receber dos microfones e holofotes, entendo que devo estar contente. E feliz volto ao meu frango com farofa.

1 Oneti. Perfil de un solitário Omar Prego Gadea, Ediciones de la Banda Oriental, 1986, p. 38.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas Machado de Assis. Agradeço ao Laion Monteiro por essa citação.


Foto: ©
Applause

Upload feito originalmente por Justin Cormack

Artigo escrito originalmente para o Portal Cristianismo Criativo

02 mayo 2009

Entre livros, mentiras e o microscópio de Satanás



Depois da tensão, houve um silêncio. Ela inclinou seu rosto e, antes de ir-se, disparou “você leu e estudou muito”. Como para ela isso não foi um elogio, e orgulhosa de sua suposta ignorância, partiu dando o assunto por encerrado.

Foi já há alguns anos. Eu estava ali, naquele lindo estado com nome de uma das pessoas da trindade, onde devia expor todo um livro da Bíblia, do começo ao fim, durante uma semana. Tudo bem, eram somente quatro capítulos, mas ainda assim uma tarefa e tanto.

A jovem estudante universitária não entrou no mérito de minha abordagem do texto bíblico que levava a cabo cada manhã. Na verdade, o que a havia incomodado era minha posição (ou a falta de) com relação a uma festa à fantasia que os estudantes haviam organizado naquele agitado evento da ABU.

Não sei bem se foi algo quanto às fantasias usadas, ou se pelo ar de festa, ou se o fato que havia alguma tímida dança, ou ainda devido a alguma das músicas tocadas. Talvez não tenha ajudado muito que ela me visse em minha improvisada e precária fantasia de Lanterna Verde. Bom, não quero me justificar, que não é do meu estilo, mas ela não era mesmo muito vistosa. Fiz o que pude com as peças verdes que casualmente havia levado ao acampamento.

Já havia perdido boa parte da festa nessa conversa. Não sei se as preocupações pastorais devem sempre vir antes do prazer, mas naquele momento em que fui "acusado" sobre minhas muitas supostas leituras, quase me arrependi de haver dado prioridade a essas tais preocupações. Além do mais, já pensava que o mais “fraco na fé” (aquele que vale seu peso em ouro e todo o cuidado que possamos oferecer) possivelmente não era, nesse caso, quem me julgava e que espetava seu dedo acusador em meu verde nariz.

Interessante essa idéia sobre como a muita leitura pode prejudicar sua fé. E olha que segundo uma investigação feita no Reino Unido, muitos mentem sobre o que lêem para buscar impressionar a alguém. E outros ainda ocultam o que de verdade lêem temendo ficar negativamente associados a alguns autores ou a certo tipo de literatura. Bizarro isso, não? Melhor que alguém não me pergunte sobre os livros que ando recomendando por aqui, ou sobre outros que leio sem mencionar. Mentirei até a morte ou até ser resgatado pelo Lanterna Verde.

Seria algo comum essa associação entre o muito estudar e a falta de fé? Unamuno nos conta desse quadro em um seminário da Companhia de Jesus, em que Satanás, pisado pelo arcanjo Miguel, tinha em suas mãos um microscópio! “No que diz respeito aos chefes daquele estabelecimento, investigar demasiado a natureza e o significado das coisas era assunto diabólico.”1

Para mim, o maior perigo é o achar-se sábio, crendo que não preciso ouvir o outro e suas percepções distintas das minhas. Por isso ainda acredito que fiz bem em dedicar meu tempo para aquela conversa. O dia em que pensar que minhas leituras e meu suposto saber me bastam, terei que arranjar uma fantasia de vilão para a próxima festa.

Falando em festa, voltei em tempo de participar do concurso de fantasias. Claro, perdi. É certo que terei que comprar e ler o “Faça sua própria fantasia com sucesso”. Quem sabe vou de arcanjo na próxima. Será melhor, e mais seguro, do que ir com um microscópio nas mãos.

1 A história sobre Unamuno e a citação são de Juan A. Mackay, em “El Otro Cristo Español”, Ediciones La Aurora, p. 127.

Foto: ©
Under the microscope
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