11 novembro 2007

Crianças da carroça

“No te enojes! No te enojes!”. Ele a agradecia, sem lhe olhar nos olhos, repetindo essa frase que a princípio Ruth não conseguia entender.

Voltávamos à casa depois da festa de nossa filha e minha esposa resolveu entregar alguns excedentes ao “hurgador” que passava por aí.

“Hurgadores”, do verbo “hurgar”, que quer dizer “revirar, inspecionar, procurar com afinco”. Aqui, na capital do país, é cena comum cruzar com a carroça de um hurgador, muitas vezes acompanhado de menores de idade, que mais facilmente entram nos contêineres verdes onde os sacos de lixo doméstico são depositados. Há um desses recipientes em cada quadra. Buscam de tudo o que se possa aproveitar.

Diferentes estimativas dizem que há entre 5 e 10 mil hurgadores em Montevidéu. Talvez mais de 20 mil pessoas dependam economicamente dos que “procuram com afinco” no lixo.

No começo, Ruth não entendeu o que ele quis dizer. Depois caiu a ficha. Como ele havia pedido se ela também tinha alguma roupa de criança que pudesse lhe prover, ele teve medo e lhe pediu desculpas à maneira em que, traduzido livremente, seria “não se chateie ou se incomode comigo”.

Como não me incomodar com a pobreza, com a fome, com a necessidade absoluta?

Montevidéu aparece hoje em manuais de “missão” com especial destaque para a chamada área menos alcançada com o evangelho, talvez de todas as Américas. Desde Punta Carretas até Carrasco, passando pelo bairro judeu de Pocitos (mistura de Copacabana-Leme-Leblon), concentra-se a população mais rica do país, com uma quantidade ínfima de igrejas evangélicas ou supostamente de cristãos espalhados por essa zona.

Uma boa quantidade de recursos das “missões evangélicas” é mobilizada para essa área. Novos missionários, especialmente de países mais ricos, com recursos para manter projetos nessa vizinhança, vão aos poucos sendo atraídos para a região.

Os resultados ainda são tímidos. Há que investir mais. Os ricos também sofrem, têm carências, também precisam de salvação.

O pobre hurgador segue seu caminho. Quase culpado por nos incomodar com seus pedidos e necessidades.

Fico aqui pensando se Deus não pensa em pregar uma peça na laica e culta sociedade uruguaia. Já pensou se ele usa esses homens, mulheres e crianças da carroça para revolucionar esse país com o evangelho de Cristo?

Eu não me “incomodaria”. Continuo “procurando com afinco” uma melhor explicação para nossos preconceitos e estratégias missionárias.

(Foto: © Ivon Ruiz)

3 comentários:

Lissânder disse...

Ricardo,
Posso publicar estes dois artigos "Crianças da carroça" 1 e 2 em nosso site de Mãos Dadas?
Grato,

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Olá Lissânder,
Claro, se você acredita que estão adequados pra esse propósito, manda ver. Para mim é um privilégio.
Forte abraço!

Lissânder disse...

Valeu, Ricardo! Se você mais coisas escritas sobre crianças, pode nos enviar que publicamos, ok?
Abraço!