31 março 2008

Talvez demore, mas espero que você veja



Todo mundo tem uma ambição. Ou várias. Boas e más, se é que já me permite de entrada emitir um juízo de valor acerca daquela que você tem.

Hoje não falarei das suas. Revelarei uma das minhas. Sabe, é pessoal, mas pode ser esse o espaço e o momento para a confissão.

Talvez demore, mas espero que você veja Cristo em mim. Pronto, disse, e agora não tem volta. Serei julgado e analisado por essa desmedida ambição. Posso me explicar, ou ao menos tentar. Passo então a essa delicada tarefa.

Foi em algum momento da vida, desculpe-me se não sei precisá-lo bem, em que tive essa, digamos, iluminação. Aí estava um ponto bem importante da fé que eu abraçava. Diria crucial. O de que em Cristo eu via a Deus, esse conceito e pessoa tão grande e tão difícil de abarcar, mas também via como eu deveria ser.

Abro um parêntese. Se você me disser que já entende tudo do Proprietário lá de cima (lá de baixo, dono do passado, do futuro, de tudo e daquele mais um pouco...) avise-me e lhe acendo uma vela. Mudo de devoção. Na verdade, talvez não, mas ficarei tentado diante de tal sapiência. Bom, fecho o que abri.

Ora, se em Cristo eu vislumbro algo desse Deus, ou ainda melhor, encontro-me com a essência e o coração do antes indecifrável, vou descobrindo que não existe melhor disciplina espiritual no mundo do que aproximar-me desse Cristo histórico e existencial, objetivo e apaixonadamente pessoal.

Depois de vê-lo, não há como continuar o mesmo. Não me achego a ele e saio assim sem aviso ou sem marcas dessa experiência.

Parte das cicatrizes do impacto que esse encontro produz me levam a uma simples conclusão e uma decisiva ambição. A de que quero ser parecido com ele. Confesso, na verdade, que essa é a minha construção e versão da história. O melhor seria dizer que foi ele quem, ao me atrair a esse encontro, queria isso desde o princípio. Creio que era sua a primeira ambição, a de que eu fosse mais parecido com ele.

Daí confesso algo mais. Só ele mesmo para enxugar minhas lágrimas quando reconheço quão longe estou dessa Sua ambição. Minha natureza parece que não combina com a ambição do Cristo. Eu, egoísta, avaro, indiferente, impulsivo, perfeccionista vaidoso e obstinado orgulhoso (que orgulhoso não pensa que sempre está correto e que teimoso não chega a padecer de orgulho?).

Então por isso penso que talvez demore até que você veja Cristo em mim. Viu como minha vaidade e meu orgulho me traíram, agora e no título desse artigo? Por certo que o melhor seria dizer “tenho certeza que tardará para que você veja Cristo em mim”.

Pode demorar, ou é certo que demorará. Agora lhe digo que nem ligo. Só confio. Espero naquele que disse que a semente leva seu tempo, primeiro o talo, depois a espiga, e só depois o grão que enche a espiga. E no mesmo agronômico capítulo 4 do evangelho de Marcos surge a promessa da ignorância. Diz lá que o agricultor dorme e acorda, noite e dia, sem poder saber como acontece a poderosa transformação. Mas, esperança, chega a hora da colheita!

Então depois você me conta quando conseguir vir Cristo em mim. Pensando bem, melhor não! É bom respeitar as fraquezas de cada um, aquele orgulho e vaidade ainda perambulam por aqui. Então me faz o seguinte. Por que não me conta a sua ambição? Abraço e até a próxima.

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2 comentários:

Jonathan Menezes disse...

Bacana seu blog, Ricardo. Um confessionário. Coloquei lá na minha lista de links recomendados. Quanto à pergunta por você levantada, também não tenho respostas. na verdade, fujo dessa pecha de especialista em "x", porque com ela entramos num caminho perigoso que ´de achar que sabemos alguma coisa. O fato de me especializar nessa ou em outra área, deveria me levar outra vez à famosa máxima de Sócrates: "Só sei que nada sei". Isto pois, quanto mais sei, mais deparo-me com o fato de que não sei um porção de coisas; quanto mais próximo, mais distante estou do conhecimento. Creio que seja um paradoxo saudável...
Abraços!

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Valeu, caro Jonathan.
O exemplo de Sócrates é uma boa. Ele busca com afinco o conhecimento, para dizer no fim da vida que nada sabe.
Sobre isso dos especialistas, o tema é que no mundo de hoje (e no de ontem também, eu acho...) as pessoas valorizam e buscam o cara (ou "a" cara) que sabe muito sobre certo assunto. Desejo isso quando procuro um médico, o construtor que vai reformar minha casa, o cara que irá arrumar meu computador.
Agora, o saber teológico, ao menos para a fé cristã, é um saber que essencialmente se constrói comunitariamente. Pelo menos assim deveria ser. E daí o papel dos "especialistas" deveria ser algo relativizado, ou mesmo bastante diminuído.
Você vê que nem em blog somos "especialistas", uma vez que estamos discutindo o outro post, mais recente, nesse aqui, hehe...
Talvez um sinal saudável de nossa própria desordenada e saudável construção do saber...
Valeu e forte abraço!