01 março 2008

O ensimesmado e suas tentações



(Série Entrevistas - I)

Ernesto Sabato uma vez disse que “uma entrevista quase sempre inclui ao menos duas pessoas ensimesmadas tratando de entender-se”
1.

Há alguns anos, uma repórter de um jornal chamado “Expressão Nacional” me entrevistou. Propunha uma pauta sobre as “tentações na universidade”. Eu não me sentia tentado pela pauta e tentava (haja trocadilho...) levá-la em outra direção.

Conversa vai, conversa vem, saiu uma matéria e a entrevista no tal jornal (não me recordo agora se era um jornal do ministério
Palavra da Fé ou da Internacional da Graça, algo assim...). E se você está curioso por saber, saiu um título em letras garrafais assim: “Jovens são tentados na universidade”.

Se o Sabato tem razão e mesmo assim você ainda tem a paciência de ler uma entrevista, deixo-lhe com o relato. O perigo está em que eu me anime e reproduza aqui outras entrevistas que estou descobrindo no porão... Desculpe-me, fazer o quê, devo ser mais um desses ensimesmados, caindo em suas próprias tentações...

EN – O ambiente universitário, por sua filosofia humanista, dificulta a vivência de crentes. Que cuidados um estudante evangélico deve tomar ao ingressar na faculdade?

Acredito que o problema não seja tanto certa ‘filosofia’ defendida na universidade, e sim essa ‘mística’ do que representa o ambiente universitário e como o estudante encara esse momento de sua vida. Para muitos, esse é um momento de deixar a casa dos pais, de assumir maior autonomia em sua
vida, de tomar decisões e de assumir convicções que provavelmente o acompanharão pelo resto de suas vidas. Assim, se a cabeça não estiver bem resolvida e algumas convicções não estiverem bem assentadas, o estudante pode vir a ser tentado a simplesmente acompanhar ou fazer o que a maioria faz, buscando aceitação, integração, ou a experimentar o que considera ‘adrenalina’ e ‘aventura’ da vida universitária.

EN – Quais são os principais focos de tentações neste meio?

As tentações não são diferentes das que todos experimentamos no mundo. De novo, o problema se dá com o momento de vida da pessoa, e se suas convicções são superficiais ou se são adquiridas e assimiladas. Por causa da faixa etária em que normalmente essa entrada na universidade se dá, diria que muitos nessa época estão em construção do que crêem, de como vêem sua fé, a vida, as suas relações e o que desejam para o futuro. Assim, de fato, é um momento crítico, em que experimentar o novo pode ser muito tentador.
Quando falamos de tentações, é preciso falar também de oportunidades. Assim, equilibramos o cuidado necessário em firmar a nossa fé com o mandamento de colocar nossa fé à prova, compartilhando-a com outros no contexto onde estamos. Assim, o jovem evangélico ao entrar na universidade deve ser chamado não apenas a guardar a sua fé, mas ser desafiado a viver sua fé junto com irmãos que ali encontrar, compartilhando-a de maneira contextualizada e ousada no campo de missão onde o Senhor o colocou.

EN – Existem organizações que se interessem em aconselhar estes jovens universitários?
Há ministérios de capelania universitária, e movimentos estudantis cristãos, como a Aliança Bíblica Universitária (ABU), ministério com o qual eu trabalho. Talvez mais do que aconselhar os estudantes, um movimento como esse se propõe a ser missionário, onde os próprios estudantes são desafiados a assumir a responsabilidade de serem testemunhas de Cristo nesse ambiente onde estão inseridos. E a ABU, por exemplo, se propõe a estar na retaguarda, em encontros de capacitação, fornecendo assessoria e boa literatura, procurando apoiar o estudante em seu ‘front’ de missão. Creio que o desafio de vivenciar e compartilhar sua fé, junto a outros estudantes
cristãos, por si será uma experiência muito rica de conhecer melhor a Deus e ter sua fé provada e aprofundada.

EN – A Igreja tem apoiado essas iniciativas?

Um movimento como a ABU se vê como parte da Igreja, como uma extensão dessa fazendo missão dentro da universidade. Se pudesse resumir em poucas palavras, diria que é um movimento estudantil, evangélico, interdenominacional e missionário. Quando passamos para a realidade de cada igreja local, as posturas são bem variadas. Há muitas que têm a visão de apoiar seus jovens nesse esforço missionário, em retaguarda de oração, discipulado e acolhimento dos novos convertidos. Outras, nem tanto. Mas talvez o principal problema se dê com a linguagem e a postura em muitas igrejas. Fala-se muito de fugir das tentações do mundo, inclusive as do mundo universitário, mas pouco em como fazer pontes de boa comunicação do evangelho, em como ser sal e luz nesse contexto.


EN – Além dos cuidados extra-classe, como o jovem universitário deve se prevenir para não ser enlaçado pela filosofia anti-bíblica ministrada durante as aulas?

Em nossa experiência, boa literatura e espaço para reflexão em grupos de estudo bíblico, onde se discute também os temas da atualidade, são uma boa ajuda. Agora é preciso ler e ouvir de tudo, de maneira crítica, aprendendo a questionar e a construir uma visão de mundo bíblica, sólida, inteligente e articulada. E essa leitura crítica também é necessária para a chamada ‘literatura evangélica’, porque muito do que se escreve reforça preconceitos e estereótipos, não ajudando na formação de uma boa mente cristã.


Foto: ©
stark doing his thing
Upload feito originalmente por sergio_recabarren


1 Em: Medio Siglo con Sabato – Julia Constela, Textos Libres.

3 comentários:

Humberto Ramos disse...

Olá, Ricardo! Fugindo da temática de ser ou não ser a entrevista uma conversa entre ensimesmados, prefiro falar de suas respostas.

Achei muito sábia a forma como você tratou a palavra da palavra "tentações", e também achei muito propícia sua perspectiva de Universidade como lugar para se vivenciar a fé cristã, e não somente um vale escuro no qual apenas devemos procurar manter nossa fé...

Nem o escapismo nem a capitulação são opções viáveis a um jovem estudante cristão.

Abraços fraternos.

Jake disse...

Es que hoy por hoy , las líneas divisorias son más tenues...lo correcto e incorrecto no se ven tan claro...
las tentaciones son desdibujadas.
ya no solo estamos ante un contexto humanista , sino una confluencia de filosofías e ideologías.

ya te escribiré en portugués la próxima.

jiji

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Obrigado, Humberto; Gracias, Jake.
A tentación de verdade é que yo me confunda y no sepa a quem responder y em que língua.
Muchas gracias pelos comentários y aportes.
Abrazos, com apreço!