06 março 2008

Do outro lado do Atlântico

(Série Entrevistas – III)1

É 1992, num dia quente em Nairóbi, Quênia. Oito mil estudantes da Universidade de Nairóbi marcham em protesto contra um governo autoritário e corrupto. Logo adiante, um batalhão de soldados os espera, armas prontas para atirar. Poucos dias antes estudantes haviam tombado vítimas de suas balas. O momento do confronto se aproxima.

Antes, porém, um grupo de estudantes se adianta de mãos dadas e interpõe-se entre seus companheiros e a tropa. Um deles caminha a passos firmes em direção ao pelotão e começa a negociar. Ele assume a responsabilidade por uma manifestação pacífica caso os policiais recuem. Seguem alguns momentos tensos e ao fim o batalhão recua. O jovem estudante então volta e persuade seus colegas a que façam um protesto não-violento.

Iniciativa e coragem, evitando outra tragédia. Duncam Olumbe, àquela época um dos estudantes cristãos que avançou de mãos dadas e o responsável pela negociação, nos relata sua história de lutas em seu envolvimento com o FOCUS, o movimento estudantil cristão equivalente à ABUB (Aliança Bíblica Universitária) no Quênia. "Nós decidimos ser uma voz para os estudantes, nos envolvendo e trazendo-lhes bom senso."

Após episódios como esse e depois de formado, Duncan teve fortes razões para continuar se dedicando ao ministério estudantil, já que conheceu a Cristo através da União Secundarista Cristã, o ramo desse movimento que atua a partir do ensino médio no Quênia. Quando ele entrou na Universidade de Nairóbi, foi natural o seu envolvimento com o ministério do FOCUS e, depois de sua graduação, tornou-se assessor do movimento. "Eu realmente desfrutei estar no 'front': pregando, visitando, trazendo-lhes questões, orientando os grupos pequenos e envolvido no ministério um a um".

Seiscentos estudantes cristãos (isso mesmo, 600!!!) faziam parte do grupo na faculdade onde Duncan mais atuava como assessor. Que desafio! Talvez não muito para Duncan. Por quê? "Eles não precisam de muito encorajamento. Eles têm a iniciativa para fazer o que precisa ser feito e são bastante dedicados na tarefa de compartilhar o evangelho com outros estudantes".

Nem tudo são flores. Os estudantes sofrem por causa da corrupção, hostilidade entre as tribos e o aumento da incidência da AIDS. "Nós precisamos ajudar os estudantes para que sejam capazes de permanecer firmes contra a corrupção. Precisamos ajudar estudantes de diferentes tribos a se relacionarem melhor. Com relação ao problema da AIDS, precisamos ajudar os estudantes do grupo a perceberem que eles têm um papel importante a desempenhar na ajuda a seus colegas com AIDS, no acolhimento, aconselhamento, no testemunho e cuidando-os em todas as suas necessidades".

Os estudantes muçulmanos estão crescendo em número, “agora em cada
campus há uma mesquita, ou pelo menos um lugar para adoração”. No começo, os estudantes cristãos abordavam os muçulmanos de uma maneira inadequada. “Eles diziam ‘Alá não é Deus’, ‘Maomé está morto’. No mínimo, não eram sábios, porque os muçulmanos sentiam que haviam sido profundamente desrespeitados pelos cristãos”.

O bom foi que os estudantes não tiveram medo de reconhecer os seus erros, procurando melhores meios para compartilhar o evangelho. “Nós começamos um grupo de interesse sobre o Islã. Nós orávamos, líamos a respeito do que criam e aprendíamos a dialogar com os muçulmanos”.

O último desafio que Duncan compartilhou conosco tem a ver com os estudantes na sua vida pós-universidade. “O problema é: nós temos um número enorme de cristãos comprometidos nos grupos. Mas quando eles se formam, o efeito na sociedade é muito pequeno. A questão é como ajudá-los a se tornarem maduros em Cristo, de tal forma que quando eles entram na sociedade como profissionais, se tornam de maneira evidente sal para o mundo".


Vocês acham que isso também vale para a nossa realidade? Vozes e ações se levantam do outro lado do Atlântico, com suas lutas e vitórias, para nos estimular e nos ensinar em nossa missão tupiniquim.

1 Esse artigo foi escrito por ocasião de uma entrevista que fiz com meu amigo Duncam Olumbe, em 1997, quando ambos estudávamos no All Nations Christian College. Duncam adorava não ter que marcar hora para bater na porta de seus amigos brasileiros para uma boa conversa e café.

Foto: Peter Kozikowski - Copyright © 2008 TrekEarth

2 comentários:

Lissânder disse...

Oi Ricardo! Vc escreve muito bem, cara!
Li os seus 3 últimos textos com prazer.
Abraço!

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Valeu, Lissânder.
Os estímulos sempre ajudam. Vovó me anima, sabe, mas quando vêm dos amigos é algo bem bacana...
Abraços fraternos!