11 março 2008

Como (não) falar em público


O microfone enorme me intimidava mais do que o repleto e desconhecido auditório. Disfarcei o nervosismo, puxei todo o ar que pude e de uma vez soltei bem forte a saudação Akurhula ka Hossi (“A Paz do Senhor”).

Silêncio no salão. Seria minha pronúncia tão ruim assim? Rápido, porque não basta ter confiança, é preciso transmitir confiança, engatei uma segunda frase, Xikwembu xi ku Katikisse (“Que Deus os abençoe”, ou “Que a presença de Deus esteja aqui com vocês”).

Mais silêncio, olhares raros e tenho quase a certeza de ter ouvido alguma risadinha. Posso estar enganado, aliás, nem estava seguro ou confiante como queria parecer.

Foi aí que uma alma caridosa, na primeira fila, me sussurrou algo assim, “Você está falando em Shangana, e os estudantes aqui em sua maioria falam Sena”. Foi um misto de alívio e de vergonha. Na verdade, mais dessa última quando soube que a mesma palavra usada para Deus em uma língua significa chuva em outra, e ainda “pessoa de raça branca” nas línguas faladas por outros estudantes ali.

Ou seja, desejar que todos ali se ensopassem na chuva ou ainda dizer que o branco (estrangeiro, colonizador) os abençoasse com sua presença, não eram as saudações de ouro que pretendia usar no início de um congresso estudantil em terras estrangeiras.

Era a primeira conferência nacional para estudantes universitários cristãos organizada pela Aliança Bíblica Estudantil de Moçambique (ABEMO). Tínhamos sido convidados a ir com um grupo do Brasil para apoiá-los nessa iniciativa pioneira.

Desfrutamos de semanas de aprendizado sem igual, muito mais para nós do que para aqueles a quem supostamente tínhamos ido ajudar. Não tenho como descrever a maneira como fomos abençoados pela generosidade, carinho e criatividade em meio à adversidade de nossos irmãos moçambicanos.

Além da conferência em si, diversas outras oportunidades para falar em público apareceram, a pequenos e grandes grupos, bem variados, em diferentes situações, e em circunstâncias que apareciam como que sobre o momento.

Pensei em compartilhar com vocês algumas rápidas dicas acerca de como preparar-se um pouco melhor para falar em público, e em especial em situações de improviso. Algumas sugestões:

• Faça perguntas sobre o público, quem são, pelo que se interessam, porque estão ali, o que supostamente já conhecem sobre o tema (tudo bem, também não custa perguntar que língua falam, para o caso de querer fazer uma graça... mais seguro ainda seria deixar de lado a graça e usar o expediente do humor em outra ocasião, com um público mais conhecido);

• Se a oportunidade surgiu em cima da hora, peça um tempo e faça um pequeno esboço, mental ou de preferência em notas discretas, sobre o que falará;

• Sempre leve consigo algumas notas de palestras e de temas que você já maneja bem. Melhor se forem textos completos, sem que você os leia ao falar, mas que o ajudem a memorizar, ou pelo menos a manter uma linha de raciocínio, sempre acompanhados de esboços mais acessíveis à rápida consulta. Eles poderão te salvar. E não custa dizer, não tente se aventurar, ainda mais de improviso, em águas ou temas não antes navegados;

• Nunca deixe que os recursos audiovisuais “falem” mais alto do que o ponto que você quer enfatizar. Se um recurso não ajuda, ou se tira o foco do ponto principal (qual era ele mesmo?...), deixe-o de lado. Três coisas são mais importantes do que a tecnologia: conteúdo, conteúdo e conteúdo;

• Conte uma história, dê um exemplo relevante e obviamente ligado ao tema, busque ser divertido. O humor deve ser comedido, sem exageros e, não custa dizer, há situações em que não convém usar esse expediente. Por exemplo, em uma cultura bem diferente da sua, ou num momento solene, ou em um velório, bem, já pegaram o ponto. A história ou o humor devem servir somente de apoio à boa comunicação. É verdade que um bom conteúdo, quando mal apresentado, é pouco ou nada aproveitado;

• Não queira dizer tudo de uma só vez. Querer falar muito e acerca de tudo pode ser pouco produtivo. Ainda mais quando se pode deixar um gostinho de "quero mais", um desejo de ouvir a próxima parte, quando...


Foto: © Pablo Nogueira
123 Probando!
Upload feito originalmente por nogue

4 comentários:

Jake disse...

che ricardo:
estoy haciendo una campaña contra un tipo cruel...podés leer en el blog de FF

http://freeway-flyer.blogspot.com/

por favor...así se suma gente.

gracias

Jake disse...

sé que parece remar contra la corriente...pero el único pez que nada contra la corriente es el que está vivo!!

:)
besos a ruth y las pibas bellas

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Hola Jake,
Gracias por la amistad, la buena compañía y las sugerencias para el blog.
Abrazos!

jake disse...

no quiero hablar en público.
no quiero!
no!!

ok
bueno...cuándo?