06 fevereiro 2008

Vale a pena publicar?

pen

“Não importa ao editor que não leiam seus livros, e sim que eles vendam”. Anos atrás essa frase saltou do artigo que lia e atingiu meu rim sem piedade. Vinha da pena do grande guru da administração, Peter Drucker. Teria ele razão?

Acabo de voltar do Paraguai, onde as exposições no livro de Isaías por Vinoth Ramachandra provocaram profundas reflexões e desafios, em um encontro de formação de estudantes universitários do Cone Sul. Um excelente material, que deverá gerar algo merecidamente publicável.

Foi lá, num desses dias, que Vinoth abandonou a cadeira em frente ao computador com cara de poucos amigos. Veio em minha direção e contou-me que havia recebido uma resposta negativa de seu editor em língua espanhola, ao que murmurou algo incompreensível (culpa de meu pobre Inglês ou seria um desabafo em sua língua materna Tâmil?).

Tal editor o havia alertado que somente após a publicação da versão em espanhol de “A Falência dos Deuses” ("Gods that Fail"), e da vendagem de uma quantidade razoável desse título, poderia então considerar publicar um segundo livro de sua autoria.

Lembrei-me então de Stacey Woods, o australiano pioneiro em levantar movimentos estudantis que conformariam a IFES. Nos anos 40, quando ajudou a fundar a revista HIS (atualmente, "Student Leadership journal"), que projetou e deu prestígio ao movimento estudantil norte-americano, ele delineou três objetivos para sua política editorial:

• Primeiro, tudo que fosse impresso deveria ser para a glória de Deus;
• Segundo, todos os artigos deveriam ter aquela paixão que os leva a serem lidos, pois não importa quão bom seja um artigo se ele não for lido;
• Terceiro, cada artigo deveria atender a uma necessidade ou buscar resolver um problema real.

Em meio às dificuldades financeiras, a política foi mantida e se registra que o movimento em suas primeiras duas décadas não teria sido o mesmo sem a revista e sua influência.

Meu caro Vinoth, o Peter podia ter suas razões e argumentos. Quanto a mim, terei mais paz em minha consciência trabalhando para que bons livros e artigos continuem a ser publicados, vendidos (ou doados, emprestados, divulgados na Internet), lidos, discutidos, formando e confrontando nossos próprios acomodados paradigmas.

Algum editor se candidata (ou se arrisca) a dizer que o Peter não tinha toda a razão?

Foto: © Ben Singleton,
pen,
upload feito originalmente por Cruscotto.

2 comentários:

Ziel disse...

Estou plenamente de acordo contigo Ricardo. Existem outras formas de se avaliar projetos de natureza missionária, afinal se fosse por viabilidade econômica, ninguém deixaria suas coisas para se meter em algo assim. É verdade que se deve ser razoavél e economicamente responsável, e assumir um déficit significa buscar soluções responsáveis sobre o mesmo. A lógica do mercado não tem a última palavra, nem para publicar nem para deixar de publicar. Se o que buscamos é fruto e não produto, deve haver uma outra forma de lidar com este impasse. Abraços Ziel

Ricardo Wesley M. Borges disse...

oi Ziel,
Valeu pelo comentário. Quando voltei a ler o texto, fiquei com a impressão de talvez ter sido injusto com os editores. Afinal, poderia se argumentar que mesmo alguém com uma visão, digamos, mais ministerial, estaria preocupado com a viabilidade desse ministério no longo prazo. Talvez a solução passe pelo que você comentou, a de buscar alternativas e caminhos que vão além da lógica mercadológica. Claro que essa tarefa seria mais ampla, e um editor ou publicadora, principalmente quando pequenos, ficam muitas vezes "sós" no meio da selva.
Abraços
Ricardo