24 outubro 2007

Livros, blogs e o fim do mundo...

Parece que a memória é imprecisa, seletiva. Acho que é isso, ainda que não me lembre bem. Então me recordo, mas mais ou menos, do conto sobre o fim do mundo que escreveu o argentino Julio Cortázar.

Dizia do dia em que todos os leitores resolveram ser escribas. Surgiram tantos livros que não havia mais espaço no mundo. Pilhas de livros em todos os lados. Ninguém mais os lia, é verdade, mas todos escreviam. A situação se agravava. Veio o caos, livros foram lançados ao mar. Tantos livros que o mar subiu ou secou, não me lembro bem (viu só!?…). Chegou o fim do mundo.

Cortázar descreveu esse apocalipse muito tempo antes da Internet. Bem antes da invasão dos milhões de escribas blogueiros, onde todos têm (ou querem ter) algo que dizer, sobre tudo e sobre nada. Todos os leitores se tornaram escribas. E talvez os escribas não leiam mais. Nem sejam lidos (bom, minha mãe disse que lê o meu…).

Claro que um blog é um exercício narcisista. Pode ser mais, ou menos, mas sempre o é. Ainda assim pode sair algo bom dessa, por assim dizer, disciplina e risco saudável. Disciplina porque pode obrigar um a pensar sobre sua vida, vocação, o que o move e o empaca, seus medos, idéias, sonhos. Risco saudável porque qualquer verdade sempre tem que passar pelo crivo do espaço público.

Um ouve, contesta, retruca, reconstrói, interpreta e aplica. Supostamente em um processo comunitário. Sem que a chave do entendimento esteja na mão de um só iluminado. Está na mão do público, povo, igreja, essa gente do caminho e do “Livro”, que entende e vive essas verdades em qualquer lugar, em todo lugar.

Disso depende que outro leia e retruque. Mas… minha mãe não vai retrucar… Como se dará o santo processo hermenêutico comunitário?

Quer saber de uma coisa? Chega de crise e auto-crítica. Já está decidido. O Blog segue. Darei minha humilde contribuição para o rápido advento do fim do mundo.

(Foto: © Luis Alfonso)

3 comentários:

Gustavo Abadie disse...

Gostei do título, da escrita, da temática, gostei até do layout. Não é só a tua mãe que lê o teu blog. Abraço largo!

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Grande Gustavo, surpresa agradável vê-lo por aqui. Minha mãe ficará com ciúmes...
Abraço largo de volta!

Flávio Conrado disse...

Rapaz, que bom saber que podemos nos comunicar por aqui. Eu, claro, venho aqui pra beber de suas reflexões de longe, mas de perto. Afinal, como vc disse num outro texto somos todos missionários e eu tenho minhas próprias fronteiras a cruzar. Bom receber notícias suas por aqui e por Nicolás Iglesias, agora um amigo em comum. Estivemos juntos na semana passada em Buenos Aires e me falou dos encontros em sua casa. Que Deus te ajude nessa caminhada missionária. Essa é minha oração... Abração.