26 outubro 2007

Entre táxis e beijos

Andar em táxi é barato por aqui. Ainda que não tão barato nem culturalmente instigante como os ônibus públicos da cidade. Neles sempre têm gente vendendo de tudo, cantando, tocando, contando histórias, recitando poesias. E se vê como o uruguaio é solidário. As moedinhas sempre aparecem em socorro do vendedor ou artista equilibrista. Já viu um cara tocando violão, cantando e trocando o pé de apoio em cada curva? É de se admirar e vale o ingresso.

Voltando aos táxis. Tomei um outro dia. No banco da frente, que o detrás sempre tem um vidro e uma incômoda placa separando-nos do condutor. Pois é, acham a vida insegura por aqui. Quem nunca foi ao inferno não sabe o que é o paraíso.

O taxista logo me confrontou. “O que o Lula quer fazer com o Uruguai?” Não respondi, inseguro por não ter ouvido os últimos esclarecedores discursos de Lula nem de Celso Amorim. Ele avançou, “o Brasil não tem que temer um paisinho insignificante de 3 milhões de habitantes!”. Achei que ele não devia chamar o Uruguai assim, “insignificante”, mas a prudência me alertou que não retrucara.

Aos poucos tomei coragem e resolvi lhe dizer minhas humildes opiniões acerca da justiça nas relações internacionais. Contei-lhe o que vim fazer, algo acerca do meu trabalho, do meu interesse na juventude do país, em ver crescer as boas oportunidades para que os jovens encontrem sentido na vida, vocações dignas, melhores oportunidades, etc. Tudo bem, talvez tenha exagerado um pouquinho no alcance de nosso pequeno ministério entre estudantes. Mas talvez tenha ajudado.

Paramos em frente de casa. O tempo foi passando, 5, 10, 15 minutos, e o galego-espanhol-uruguaio não me deixava ir embora. Fazia perguntas. Queria saber o que levava esse brasileiro a viver aqui. Finalmente desci. Ele também. Deu a volta no táxi. Ele era enorme. Me deu um forte abraço, e me beijou. Agradeceu-me por ter escolhido o Uruguai para viver. Quase achei que seus olhos começavam a marear. Mas foi embora antes que eu pudesse comprovar.

Entrei em casa matutando no que havia mudado o rumo da conversa. Ainda não sei bem.

Interesse genuíno ou predador? Ar superior ou disposto a ouvir e servir? Diferenças que abrem ou fecham portas. E que te fazem ganhar beijos! Ok, talvez não custe dizer que a saudação entre homens com um beijo na bochecha é absolutamente normal em terras uruguaias.

Vou me acostumando... Mas que seja bochecha contra bochecha. Minha aclimatação cultural dificilmente irá além disso.

(Foto: © Daniel Schweimler)

2 comentários:

Anderson Moraes disse...

Ótima notícia é esse seu blogue, Malária. Tenho certeza de que os uruguaios estão ganhando!

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Eu ganho mais que eles nessa equação, tenha certeza!...
Obrigado e abraço!