05 dezembro 2008

...mas não sou herege



O título forte da reflexão anterior, “sou trevas”, ainda que com a ressalva de que seja o primeiro passo na direção de rejeitar o “andar em trevas”, me leva inevitavelmente ao necessário complemento: “mas não sou herege”.

Pode ser que eu me saia melhor do que estava antes da primeira linha. Ou pior, mas não me julgo, como se isso fosse possível. O juízo estará em seus olhos e em seu coração.

Contarei com a ajuda de uma testemunha a quem convido a esse tribunal. Minha memória não anda boa, mas creio que era conhecido em sua época como “abade Antão”*. Viveu lá entre o século III e IV d.C. e foi considerado um dos “pais do deserto”, nesse que foi um movimento de rejeição à mundanização da fé cristã.

Vivia como eremita, radicalizado (deveria dizer arraigado?) em seu simples estilo de vida. As pessoas vinham até ele para pedir conselhos, orientações, alguma palavra de luz que penetrasse no mundo de trevas em que jaziam.

Parece que ele sempre a tinha pronta e fresca. Mas também suponho que soubesse que seu isolamento não o deixava imune às armadilhas da tentação e do pecado. A morte tinha seus mensageiros. E ela chegou um dia disfarçada de um punhado de “discípulos”, supostamente ávidos por palavras de sabedoria, mas na verdade enredados em suas próprias más intenções.

Logo quiseram informar seu “amado mestre” o que ouviam a seu respeito. Algo assim, “amado mestre, desculpe-nos a ousadia, mas é que ouvimos dizer que tu és um mentiroso”. Antão deixa sua inseparável cuia e colher a um lado, levanta os olhos, franze os lábios pensativo e lhes responde “sim, é verdade”.

Surpresos, mas não totalmente desprevenidos, seus “discípulos” continuam, “também ouvimos dizer que tu és cobiçoso”. Antão passa então a mão por sua única e puída túnica antes de lhes responder, “é verdade, sou cobiçoso”.

Um pouco confusos, mas sem dar trégua, seus “amigos” seguem, “e também imagine que ouvimos dizer que tu és adúltero”. O eremita passa os olhos pela parede rochosa da cova onde havia decidido viver sozinho, antes de respirar fundo e dizer “também é verdade que sou adúltero”.

Sem saber bem o que passava, ainda atiram uma última pedra, “também ouvimos que és um herege”. Rápido o profeta lhes atira de volta, “não, não sou herege”.

Após um silêncio embaraçoso e alguma troca de olhares, talvez o mais sábio e humilde de seus visitantes, lhe propõe “não entendemos, pode nos explicar?”.

Antão olha-os com amor, antes de lhes esclarecer, “as primeiras acusações eu as faço a mim mesmo todos os dias, em confissão, arrependimento, para que a luz do Senhor invada as minhas trevas e me salve”. “E a acusação de ser herege?”, insistem. “Herege é aquele que está afastado de Deus, longe de sua Palavra. E não estou assim, porque minha confissão e meu arrependimento me levam todos os dias para perto dele.”

Em silêncio se vão. Também aqui me calo, para poder voltar à saudável e diária disciplina da confissão e do arrependimento.


* em minha época de estudante universitário li esse livreto, que se não me engano tinha por nome “Os Pais do Deserto”. Pode ser que o nome do profeta eremita seja outro (seria abade Agatão?) e minha memória subjetiva me leva a reconstruir essa versão pessoal que lhes apresento da história. Desde então busco carregar comigo essa importante lição espiritual desse longínquo mestre do deserto.


Foto: ©
The wind blows where it wishes. You hear the sound of it, but to where it goes you cannot tell. So is it with everyone who is born of the Spirit.
Upload feito originalmente por Instrumental Illness

7 comentários:

Patrick Timmer disse...

De acordo com o que minha memória me diz, de um Curso de Férias em Cabuçu (SP), no remoto ano de dois mil e quatro (eu mesmo também tô ficando velho),...

...acho que era Agatão.

Um abraço!

Patrick.

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Boa, Patrick, você deve ter razão.
Antão, Agatão, também com esses nomes, hehe....
Forte e saudoso abraço!

heloisa lima disse...

O Patrick tem razão. Esta história é atribuída ao abade Agatão, um dos Pais do Deserto, conhecido também como Pai Agatão.
Esses nomes confundem mesmo a gente...
abraços,

Heloisa

Vinicius Barajas disse...

Boa Noite,

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Vinicius

M.Segundo disse...

Nossa... gostei muito dos textos, é ótimo para refletirmos sobre como temos vivido e o que temos feito tanto para nós p/ Deus e p/ o próximo... é uma leitura bem proximar do leitor e não é nada forçado... os textos são uma benção... li muitos deles e vou continuar lendo... estou linkando seu site no meu blog...(tenha liberdade se quiser fazer o mesmo)

Fique na Paz...
Abs...

http://cavernadezion.wordpress.com

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Olá Vinicius, estarei em contato contigo através de teu e-mail.
Forte abraço!

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Beleza, Moacir,
Valeu pelo incentivo. Seguimos em contato e receba um forte abraço!