16 agosto 2012

Como incidir na sociedade


El megáfono
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Fui motivado por uma demanda dos estudantes universitários uruguaios, desejosos de entender como sua fé delineia a maneira como incidimos no espaço público. Entrei então no espinhoso desafio de buscar entender como incidimos na sociedade, os possíveis caminhos, mas também as penosas dificuldades. Compartilho aqui algumas ideias iniciais, dentro dos limites do espaço e escopo de um breve artigo.

Parece que muitas vezes imaginamos que as ideias mudam o mundo. Outras vezes pensamos que os atores principais das mudanças são os indivíduos, que, no exercício de sua autonomia e razão, em especial se são gênios carismáticos, produzirão grande impacto na sociedade. Esse tipo de idealismo e individualismo algumas vezes aparece na roupagem de um certo tipo de pietismo cristão expressado no conceito de que ao “mudar as mentes e os corações das pessoas” teremos uma nova nação e sociedade. Converter o indivíduo seria então suficiente, pois tudo o mais viria como consequência.

Confesso que minha própria ação missionária por toda a minha vida tenha sido nutrida desse tipo de expectativa. Ainda admiro líderes cristãos como os irmãos Wesley e também Wilberforce, que com suas ações missionárias foram agentes de profundas mudanças em seu tempo. Vejam o caso de Wiliam Wilberforce, que somente depois de 42 anos de lutas no parlamento britânico viu seu projeto de lei que abolia a escravidão ser aprovado.

Mas como se dão essas mudanças? E seria esse o caso de um herói que agiu sozinho? Não, pois houve uma rede de homens de negócios, das igrejas, das artes e da política que se juntaram com o propósito explícito de promover reformas sociais. Esse grupo, conhecido mais tarde como “Círculo de Clapham” (“Clapham Sect” ou ainda “Clapham Saints”) foi muito influente na Inglaterra do início do século XIX.

O exemplo do grupo de Clapham reforça a ideia de alguns sociólogos(1) que defendem a tese de que não é pela força de uma ideia ou pela simples conversão de corações e mentes que chegaremos a ver mudanças nas estruturas de uma cultura e sociedade. Que na verdade essas mudanças são mais complexas, difíceis ou impossíveis de controlar e prever, mas que quando ocorrem frequentemente estão associadas a elites educadas, redes e instituições que se tornam centros de poder e influência.

Reconheço que tenho dificuldades com essa ideia, a de que as principais mudanças se dão normalmente de cima para baixo, ou do centro para fora. Penso em Jesus e seus discípulos, na periferia do mundo da época; também nas mulheres escravas que foram líderes de muitas daquelas primeiras comunidades. Mas provocado por algumas leituras, também presto atenção agora no argumento de que Paulo e a maioria dos pais da Igreja eram uma elite educada e altamente qualificada, que a fé se expandiu até atingir os centros de poder e que, desses centros de prestígio e influência, muitas vezes exercendo o poder de maneira ambígua, a fé se espalhou e se consolidou em diversas partes do mundo.

Isso me leva a outro ponto relacionado ao tema da incidência na sociedade. O que fazer com a aspiração de alguns por uma “nação cristã”? Seria possível ou mesmo desejável? Sem entrar no mérito da discussão se sequer já tivemos alguma “nação cristã” na história, sugiro que muitas vezes esse caminho está talhado pela ambição de que certos valores ou princípios sejam impostos pela coerção, imposição ou pela lei. É perigosa a ideia de que se pode mudar o comportamento das pessoas pela força de uma política de estado. Parece que muitos cristãos, seja à direita ou à esquerda, creem que a principal maneira de incidir na sociedade se dá através da mobilização política, do referendo, do voto ou da lei.

Ainda que leis ou políticas públicas mais justas sejam desejáveis, o ideal seria a ação de cristãos que defendam em todas as áreas de ação o bem comum de todos, em especial dos menos favorecidos e sem voz, e não simplesmente a defesa dos “seus direitos como cristãos”. Liberdade religiosa ou de expressão é um bem para todos; a defesa da vida digna também.

Mas como entrar nesse debate a partir de uma perspectiva da fé? Se adequadamente excluo a coerção e os interesses sectários, então surge o espaço para a investigação (não a arrogância de achar que já se tem a resposta para todos os problemas), o debate respeitoso (não o ataque com ânsias de destruir o outro), o diálogo (não a tergiversação a respeito do que crê o outro), a persuasão (com humildade e responsabilidade compartilhando o que se crê), levando a ações baseadas não só em valores abstratos, mas em uma presença cristã humilde, fiel e atuante nas diversas esferas da sociedade.

As cosmovisões e as matrizes de cada cultura, ainda que dinâmicas e sempre em mudança, não se transformam da noite para o dia, nem qualquer grupo deve acreditar ingenuamente que tenha em suas mãos as chaves para conduzir essas mudanças. Evangelismo, ações políticas, mobilizações sociais, todo tipo de produção cultural em várias esferas da sociedade, serão por si só positivos, mas não necessariamente ou separadamente a panaceia para desafios enfrentados ou os caminhos certos para as mudanças esperadas.

As ações mais significativas sempre serão as menos interessadas no poder e mais interessadas nos beneficiários de um almejado bem comum, menos enfocadas na dominação de uma agenda ou de “seus direitos” e mais dirigidas aos “direitos de todos”, em especial dos mais excluídos e à margem. No final das contas, muda-se uma sociedade (se é que chegamos a ver o final de certos processos) menos por estar interessado nessas mudanças como um fim em si mesmo do que por estar sacrificialmente comprometido com o serviço, a doação e preservação da vida.

Nota:
(1) Como o excelente e, às vezes, polêmico livro de James Davison Hunter, “To Change the World: The Irony, Tragedy, and Possibility of Christianity in the Late Modern World”, Oxford University Press, 2010.

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Sem ser diretamente ligado ao tema, o livro de Jaques Ellul, "Cristianismo e Anarquia" é uma reflexão genial.