
27 maio 2008
Um estudante coerente

18 maio 2008
Mandou-o ao inferno 2

Vieram os procedimentos do protocolo. Agradeceram ao enviado do rei por sua hospitalidade e pelo gesto de visitar o evento. Emilio descreveu depois sua inquietação nos seguintes termos:
“... a esse dignitário real se presenteou uma Bíblia, mas em nenhum momento lhe foi dito: ‘E lamentamos muito que não vamos nos ver no outro mundo, porque vossa senhoria vai ao inferno’. Eu comentava com meus amigos: ‘Percebem que estamos convencidos de que há salvação em Jesus Cristo e que ninguém vem ao Pai senão por mim, mas ao mesmo tempo não temos a coragem de dizer àqueles que estão ao meu lado: “Está perdido e você vai ao inferno”.2
Bom, minha filha de 9 anos teve outro dia essa, digamos, “coragem missionária”. Aconteceu assim. O simpático vizinho, de sua mesma idade, nos visitava. Em algum momento, creio que Ana Júlia buscava explicar-lhe os motivos de nossa mudança ao Uruguai, e isso envolvia falar do trabalho de seu pai. Depois de mencionar a Bíblia e Deus umas duas ou três vezes, o garoto, meio que desafiante, lhe disse “pois eu não acredito em Deus”.
Foi aí que minha querida filha lhe retrucou algo assim, “quem não acredita em Deus vai pro inferno”. Singela e direta, um amor de criança. Resolvi intervir quando ouvi o garoto gaguejar ao tentar defender-se. “Eu, quer dizer, não vou, minha mãe disse, não é porque eu não acredito que eu vou para o inferno...”. Logo percebi que a sua crença no inferno andava bem mais desenvolvida do que as outras.
Convidamos o garoto para o almoço. Nada como o bom testemunho da hospitalidade à mesa para que tentássemos avançar. Quase tudo vai por água abaixo quando Carolina, nossa menor de 5 anos, irrompe logo após a oração de gratidão, “Você estava de olho aberto e Jesus não escuta oração de olho aberto”. Os reflexos das chamas do inferno voltaram a brilhar nos olhos do garoto. Enquanto eu me perguntava quem havia ensinado isso a Caro, tratei de tentar voltar à teologia da mesa e da hospitalidade com nosso convidado.
Refletindo sobre o que se passou entendo que não posso escapar do que o próprio Jesus falou acerca do juízo e da condenação. É verificável que, mesmo sem a presença da fé, freqüentemente encontramos que mesmo um básico senso comum demanda um conceito de justiça. Ou seja, sem a noção de reparação ou retribuição, ficamos sem lastro ou sem referência, inclusive para que possamos viver bem e harmoniosamente em uma sociedade.
O problema se dá quando examinamos nossas próprias noções sobre o que é necessário para que haja reparação ou justiça. Vemos que, nos evangelhos, nossas concepções de juízo e de castigo são confrontadas por Jesus. Parece que elas vêm de nossa natureza humana caída, quando muitas vezes ambicionamos ser mais justos do que o Rei.
Falando em reis, não sei o que se passaria se houvessem dito o seguinte ao enviado do rei da Tailândia, “olha, diga ao seu chefe que se ele não ler esse livro ou se não acreditar no que está aí, estará no sal, ou pior ainda, estará no fogo”. Suspeito que essa não seria a melhor "estratégia" evangelística, e tampouco seria ela embasada no modelo de Jesus.
Talvez Jesus o convidasse para a mesa, e de olhos bem abertos o rei poderia ver e ouvir de Jesus acerca do caminho de vida que há nEle e através dEle. Daí o monarca teria dois caminhos simples a tomar, segui-lo ou rejeitá-lo. Opções que teriam seus desdobramentos. Mas não creio que atirar em sua cara essas conseqüências iria ajudá-lo a abraçar e seguir a Jesus. A voz e o olhar de Jesus à mesa, esses sim seriam um enorme e atrativo convite.
1 Isso se passou quatro anos antes de Emilio Castro vir a assumir a secretaria geral do Concílio Mundial de Igrejas. Em tempo, quem ler o livro de onde extraio a história verá que, na verdade, Emilio criticava essa possível postura de enviar os outros para o inferno.
2 Em entrevistas publicadas em “Paixão e compromisso com o Reino de Deus”, Manuel Quintero Pérez e Carlos Sintado, Kairós Ediciones, 2007.
Foto: © David Sidwell - Copyright © 2008 TrekEarth
11 maio 2008
Mandou-o ao inferno

Foto: © Adilson Faltz - 2008 TrekEarth
03 maio 2008
Você enviaria seu filho a uma faculdade cristã?
Por um lado, poderia cair no equívoco de desconsiderar o valor que se deu à educação em séculos de missão cristã no mundo. Também poderia, caso fosse alguém conhecido e dessem ouvidos à sua opinião, afetar os interesses econômicos e mesmo a viabilidade de várias instituições.
Vendo por outro lado, poderia ser um saudável exercício de questionar as motivações por que um indivíduo (ou sua família) prefere ir estudar em um centro de estudos conhecido por sua confessionalidade ou por suas tradições cristãs. O que buscariam ao refugiar-se em uma escola assim?
O tema é complexo, suscita paixões e polêmicas. Talvez por isso é que Stacey Woods, há mais de 60 anos, precisamente em 1944, tenha escrito um artigo usando um pseudônimo, na revista HIS, da IVCF-USA, com o sugestivo título “Deveria ir a uma Faculdade Cristã nesse outono?”.1
Stacey foi esse entusiasta australiano que assumiu como o primeiro secretário geral dos movimentos estudantis cristãos debaixo do guarda-chuva da IFES, e que à época desse artigo estava ainda “somente” liderando os movimentos estudantis da IVCF-USA e IVCF-Canadá, ao mesmo tempo!
No referido artigo, após animar jovens estudantes cristãos a escolherem uma faculdade “não-cristã”, ele lançou o alerta: “Cuidado com o perigo de viver em outro mundo, falhando em entender o mundo dos homens e mulheres não convertidos, com os quais ao fim você terá que conviver, e diante dos quais você terá que testemunhar.”
Ele então concluiu com as retumbantes palavras: “Porque o campus secular é o seu campo de missão e sua gloriosa oportunidade. Deus o colocou aí para ser Sua testemunha – Seu missionário – Seu embaixador.”
Em meu caso, se me permitem a confissão, fico pensando se não deveria eu mesmo escrever esse breve artigo usando também um pseudônimo. É porque eu estudei em uma faculdade cristã e desfrutei da experiência. Mas também poderia defender-me dizendo que já estudei em uma universidade “secular” e que essa foi a mais significativa experiência de aprendizado (inclusive quanto à maturidade cristã) de minha vida.
Ou então a incoerência maior viria por minhas filhas. Ambas estudam em uma escola confessional cristã e que ainda por cima é vinculada à comunidade cristã onde nos congregamos.
Ora, ao fim, poderia desavergonhadamente dizer que me proponho aqui a levantar perguntas, inclusive para mim mesmo, e não a tentar ser coerente. E que talvez revisando nossas motivações e “estratégias” possamos todos, cada um em sua praia, vocação e caminho, sermos as tais testemunhas e missionários a que o Stacey se referiu.
Ou ainda ser um bom “embaixador do evangelho”, como Woods concluiu em seu artigo lá dos anos 40. Só uma última e rápida dica: sugiro não usar esse singelo nome para seu grupo estudantil na tal universidade não-cristã. Abraço e até a próxima!
1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.
Foto: © Rice
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