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24 maio 2011

Onde traçar a linha contra a cultura da morte?

(ou como foi que aborto, Bin Laden e US marines se juntaram para debater em minha pobre cabeça...)

Não sei se curiosa coincidência ou o quê, mas tudo aconteceu no mesmo dia. Primeiro foi aquela faixa que se agarrava dos gradis das sacadas quase francesas daquela esquina central de Montevidéu: “Legalizar o Aborto Já!”.

Não foi por indiferença, creio eu, mas segui o meu caminho. Parei. Dei meia-volta e a inspecionei. Seria uma ONG? A sede de um partido político? Não havia qualquer identificação que sugerisse algo aparentemente institucional. Apreciei então, ainda que desanimado, a coragem de quem quer que seja para manifestar-se assim publicamente sobre o seu, como se diz, “direito de escolha”.

Ao chegar a casa, vejo no noticiário a amarga história sobre uma mãe no Texas que é presa por tentar assassinar o seu filho de quatro meses. Os médicos desconfiam, a tecnologia ajuda, e uma câmara escondida revela que ela havia tentado asfixiar seu rebento. As imagens são exibidas, a notícia comove, com o pico da emoção na seqüência que mostra os enfermeiros resgatando a criança. Um é levado a salvo, a outra é levada pela polícia.

Os dois temas se mesclaram inevitavelmente em minha mente. Onde traçaria a linha para definir que algo é condenável em um caso e no outro não. A pergunta simplista, reconheço, que me martelou foi: “qual é a diferença”? Ou pelo menos para buscar entender por que me emociono em um caso e sou indiferente ou ainda defendo arduamente a causa oposta no outro?

E logo no Texas, vejam só… Foi lá que surgiu o emblemático caso “Roe vs. Wade”, depois levado a Suprema Corte, onde em 1973 foi decidido que, em toscas linhas, o aborto seria permitido até que o feto se tornasse “viável”, ou seja, até que fosse potencialmente capaz de viver fora do útero materno, sem ajuda artificial.

Então me veio a pergunta: teria sobrevivido sem ajuda (“artificial” ou não) aquele bebê de quatro meses? Refiro-me ao bebê já nascido da notícia e não aos inúmeros não nascidos, “viáveis” e “inviáveis” que morrem antes, (des)amparados ou não pela lei. Minha cabeça dá voltas. A quem o Estado deve proteger e por quê? Bebês, nascidos e não nascidos, ou as suas mães? Tanto as que desejam ter, como as que preferem abortar ou ainda aquelas que preferem uma coisa mas são coagidas por outros a fazer a outra (e isso vale tanto para as que abortam como as que não). A quem protejo? Quem merece a vida, a educação, a prevenção ou a punição pelo Estado?

Difícil, reconheço, mas sou da cultura pela vida, e nunca celebro a morte. Aliás, nem a de alguém como Bin Laden, se me permitem trazer este outro espinhoso tema à uma conversa já difícil. Emocionei-me ao ler o artigo de Donna Marsh O’Connor, “Every day is 9/11, every day is pain”. Sua filha Vanessa havia morrido no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em setembro de 2011. Ao ver a notícia da morte do assassino de sua filha, ela foi ao Facebook e escreveu: “Osama Bin Laden está morto. Vanessa também. Nós não celebramos a morte em nossa família”. Logo estava dando entrevistas na TV sobre porque seu sentimento não era o mesmo dos milhares de jovens que saíram às ruas para festejar a “operação”. Tampouco ela quis julgar esses jovens. Lembrou que eles eram muito pequenos à época do atentado e concluiu com sabedoria de mãe: “não devemos julgá-los e sim ensiná-los”.

Donna Marsh O’Connor é a porta-voz do grupo pacifista “September 11th Families for Peaceful Tomorrows”. Ainda que alguns possam criticar a “efetividade” da paz contra o “terrorismo”, é impossível não se perguntar se a “cultura de morte” presente na despedida dos US Marines quando saem à guerra não traria perigosas semelhanças ao “culto à morte” entre jihadistas islâmicos. Se violência, ódio e morte se retroalimentam, me alegro que haja vozes buscando alternativas para entender as causas do terrorismo, para promover educação e a consciência de novas maneiras de atuar, tanto para os indivíduos como para os estados.

Onde traçar a linha contra a cultura da morte? Até onde o Estado deve atuar, decidir, legislar ou intervir? A mesma pergunta vale para “Estados”, no plural, no que se refere à ordem global. Que devemos esperar do(s) Estado(s) ou o que fazer quando não estamos de acordo com suas políticas ou leis? Por agora lhes deixo com as perguntas e logo pretendo voltar a elas como uma desculpa para contar-lhes sobre os livros que venho lendo sobre o tema, e outros que ainda pretendo ler.

16 abril 2009

Sobre rótulos e ídolos



“Você é conservador?” Foi assim, na lata, que um aluno procurou arrancar de mim uma confissão. Voltávamos juntos no ônibus, depois daquela primeira aula. Uma vez que recém havíamos nos conhecido, quis sondar em que “time” eu jogava.

“Bem, depende do quê você está falando e do que você entende por essa palavra”, lhe devolvi em meio a um sorriso quase dissimulado.

Nesse dia voltei a pensar em nossa necessidade de definir de antemão quem são nossos interlocutores. Sobre esse desejo de conhecer de onde falam, a que tribo pertencem, e assim supostamente preparar-me para melhor escutá-los. Na verdade, para alguns, essa inclusive é a senha para escolher a quem eu dedicarei, ou não, meu precioso tempo.

Se já consigo adivinhar ou enquadrar a fulana em algum grupo, e se essa linha de pensamento em particular não me atrai, se me desgosta, então não a ouço, não a leio, ou ainda o faço mas com o objetivo de refutar-la desde minha cômoda e confortável posição já bem definida.

Outro dia tive uma grata surpresa ao ler um artigo de um excelente historiador uruguaio, Lincoln Maiztegui Casas. Tenho admirado a qualidade e o rigor de seus escritos, que vêm me apresentando uma faceta interessante da história política do Uruguai. Escreve bem, além de desfilar sua integridade intelectual.

Essa última foi mais uma vez atestada outro dia quando ele, que é rotulado como um autor mais à direita no espectro político, digamos que um “conservador”, nos regalou um breve e interessante artigo sobre a queda de um de seus “ídolos” (La irresistible caída de Paul Johnson) .

Ao revelar sua admiração pelo historiador britânico, mostrou-nos como ler bem e criticamente. Ao fazê-lo nos confessou sua descoberta. Seu herói veio ao chão. Não dava mais para tragar os equívocos ou os preconceitos desvelados por uma cuidadosa leitura. Bem-vinda lição de que a simpatia ou adesão a uma ideologia não devem quitar nosso juízo crítico.

Se me contento apenas com a primeira impressão, ou se aceito qualquer coisa apenas pela imagem e pelo nome de quem veio a opinião, caio em armadilhas causadas pela preguiça intelectual.

Então os rótulos são assim. Evitam que eu “leia” bem a vida e os aportes que o outro tem para me oferecer, para me desafiar. Por isso tenho que encontrar-me com aquilo que me incomoda, que me tira de minha posição cômoda, que me faz pensar e amadurecer naquilo que sou e em que creio.

Meu aluno ficou sem resposta. Por uma desventura, ou para minha felicidade, meu destino chegou logo depois daquela capciosa pergunta. Melhor assim. Através de seus olhos e de sua “leitura”, mais do que ele espero ganhar eu novas percepções de minha própria identidade, crescendo e amadurecendo, como na vida deve ser.

Foto: © Paris, 26/04/2008.
Upload feito originalmente por DPC★313

04 setembro 2008

Amor líquido como sabão



“O fracasso de uma relação é com freqüência um fracasso de comunicação”
Zygmunt Bauman


Confesso que fiquei tentado em colocar o seguinte título nesse texto: “Uma garotinha de 5 anos resenha livro de Zygmunt Bauman”. Depois pensei melhor, imaginei que poderia suscitar incontáveis visitas ao blog pela curiosidade que tal frase provocaria nos mecanismos de busca na Internet, e daí optei por esse que está aí. Conto-lhes como ele surgiu.

Carolina, a tal garotinha do título abortado, que sucede ser minha filha caçula, viu um exemplar de “Amor líquido” descansando em minha mesinha de cabeceira. Curiosa, e dando seus primeiros passinhos com as letras, leu-me em voz alta a capa.

Ela saiu dali intrigada. Creio que o subtítulo não a ajudou muito, “Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos”. Sim, minha versão é em espanhol e a pobre criatura ainda tem que aprender a ler em dois idiomas. O mundo é assim mesmo, cruel e injusto.

Passamos os dois ao banheiro, com o nobre propósito de lavar as mãos antes do almoço. Seu olhinho se iluminou, apontou para o pote de sabonete líquido e aí me disse triunfante “Amor líquido como sabão!”. Que pai, por mais insensível que fosse não concordaria com a brilhante e breve resenha que sua jovem filha acabara de fazer do livro de Bauman?

Estou apenas no começo do que me parece ser um excelente ensaio. O primeiro capítulo sobre como a gente se enamora e se desenamora (como se diz isso em português?) em nosso mundo é fabuloso. Creio que tem muito a ver com aquela estranha idéia, comentada aqui anteriormente, de colocar prazo de validade nos casamentos.

Foi outro dia, quando cruzei ao outro lado do rio e visitei minha livraria preferida, que resolvi acabar com essa pendência com o catedrático em sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Adquiri então esses quatro títulos: Amor líquido, Miedo líquido (la sociedad contemporânea y sus temores), Modernidad líquida, Vidas desperdiciadas (la modernidad y sus parias).

Tudo bem, reconheço que há muito “líquido” nesse pacote. Não tem problema, estou em dieta mesmo. Não por razões estéticas, claro. Nem porque minha esposa tenha insinuado que eu precisasse. Ou será que ela o fez e eu não entendi o que ela tentava me dizer? Espero que o Bauman resolva meu dilema no próximo capítulo.

Foto: ©
The soap dispenser formerly known as Gonzo
Upload feito originalmente por Andreas Reinhold

19 agosto 2008

De onde você é?



Outro dia me perguntaram, “Você é de Rivera?”. A pergunta me deixou com aquele sentimento indefinido entre a decepção e a esperança.

Algumas explicações são necessárias. Um tanto óbvias, me desculpe, mas vamos a elas. Sou brasileiro. Vivo no Uruguai, em sua capital, Montevidéu. Rivera é uma cidade na fronteira com o Brasil. Muitos aí falam português ou portunhol. Ser de Rivera poderia significar ser um uruguaio, mas um que tem esse forte sotaque da fronteira.

Não tenho ainda muita quilometragem uruguaia. No momento, 1 ano, 7 meses e 10 dias. Quase nada. Mas as ambições costumam ser grandes. Uma delas é a de querer se identificar com a gente do país que adotamos. Não é fácil, mas está aí a aspiração.

Outro dia confessei-a a um amigo uruguaio, “quero que as pessoas me confundam com um uruguaio”. Ele me olhou em silêncio, e depois disse bem sério “se for um húngaro, talvez ele imagine isso”. Amo a doce ironia uruguaia.

Nem ligo. Inclusive, como minha amada esposa não deixa que me esqueça, sou irônico, a assim renovo minha esperança. Ao menos algo estou aprendendo. É bem verdade que possa ter vindo do Brasil assim, desse jeito, mas nem me lembro bem. É sempre mais fácil ver defeitos nos outros. Eu disse defeito?! Bom, deixemos isso de lado por enquanto.

Volto a pensar nesses montões de missionários transculturais em tantas partes do mundo. Conheci vários. Leio muitas de suas cartas desde os confins distantes de suas pátrias amadas. Tem uma coisa que não aprecio nessas cartas. É claro que eu possivelmente também faça o mesmo. Mas como eu disse sobre os defeitos...

O que me incomoda é ver em muitas delas essa equação “eles” e “nós”. Os “outros”, os “nativos”, tão diferentes e tão indecifráveis. Às vezes isso se revela mais claramente. Outras, sutilmente. É a revelação de um detalhe mais pitoresco, a afirmação de um grande obstáculo ou desafio “nessas terras”, ou mesmo um pedido de oração para que Deus faça algo entre “eles”. Ou seja, é fácil perceber que se trata de um estrangeiro em terras alheias.

Matutei sobre o tema, confesso que também sou pecador, mas resolvi adicionar uma ambição à minha lista. Trata-se de imaginar que, se alguém que não me conhece venha a ler uma das cartas que envio do “campo missionário”, não consiga identificar de onde sou, imaginando que eu seja um obreiro qualquer trabalhando entre tantos outros na seara em terras uruguaias.

Cometo a ousadia de sugerir esse saudável exercício para colegas missionárias e missionários transculturais. Ainda que não mudemos a realidade de que somos de onde somos, e creio que esse é um grande benefício do trabalho em equipes multiculturais, ganharemos todos com o esforço sincero de identificação e integração nas culturas onde servimos.

Por aqui sigo com minha aspiração. Estou louco para me encontrar com aquele húngaro e ver o que ele me dirá.

Foto: © El Salvo
Upload feito originalmente por Libertinus

27 maio 2008

Um estudante coerente

Hoje me deparei com um estudante coerente. Aconteceu em uma dessas reuniões da Comunidade Bíblica Universitária do Uruguai. Um grupo relativamente pequeno, seis ao todo, mas em um fascinante encontro.

Todos ansiosos por compartilhar sua fé com seus colegas não-cristãos, em um esforço comunitário, com método e dinâmica que buscam ser adequados a esse contexto.

Eu disse todos? Bem, um deles talvez não tanto. Foi assim. Ele me pediu uma conversa reservada ao fim de nosso encontro. Seu objetivo, explicar-me as razões pelas quais não participaria do grupo.

Não lhes revelarei os detalhes. Não desejo lhes passar uma imagem negativa de meu novo amigo. Posso sim lhes dizer que ele foi coerente com a tradição de fé onde foi criado. Sugeriu-me que nosso esforço evangelístico seria algo incompleto. A razão era que nos faltariam elementos importantes “da verdade”.

Intrigado, pedi-lhe um exemplo. Ao ouvir sua resposta, tentei argumentar que eram coisas secundárias, doutrinas de sua igreja, e que havia que focar no essencial quando se tratava de um esforço missionário interdenominacional. “Aqui estamos para que aqueles que não conheçam a Jesus possam dele se acercar”, disse. “Depois, pela graça de Deus, cada um vai naturalmente se conectando em diferentes comunidades e congregações cristãs, onde poderão crescer e amadurecer sua fé”.

Mas eu via que essa idéia de cada um se conectar a uma igreja diferente era algo que o incomodava. Explicitamente sugeriu que esse seria um "problema".

Resolvi então confrontar-lo com a lógica de Francis Schaeffer. Ou seja, levá-lo a experimentar ou a assumir as conseqüências de sua maneira de pensar. Fazer com que ele seguisse seu próprio raciocínio e visse aonde isso o levava. Desafiei-lhe, “assim, se você for coerente com seu pensamento, você deveria me evangelizar, porque essa é a necessidade absoluta decorrente de sua maneira de pensar”.

Momentos de tensão e silêncio, olhar fixo um nos olhos do outro. Passados alguns instantes, ele se volta, abre sua mochila, agarra um material bíblico que aí levava, e faz exatamente isso, começa a me “evangelizar”. Entre atônito e surpreso, eu o ouvi.

Quando terminou a conversa, vim embora trazendo o material comigo. Prometi voltar a vê-lo em uma semana e dizer-lhe o que penso daquilo. Não sei onde essa conversa irá nos levar, e confesso que estou agora mais preocupado com seus colegas não-cristãos.

Mas devo reconhecer que fazia tempos que não encontrava alguém tão decidido e coerente. Não concordar com ele agora era um detalhe. Saí pensando em como posso ser mais coerente com o que penso e acredito. E também em como posso animar os outros estudantes a experimentar essa coerência e valentia em sua fé e missão.

Preciso revisar meus velhos livros do Schaeffer e ver se ele me diz alguma coisa sobre os próximos passos em situações como essas. Até a próxima!

Foto: © Tali KF - Copyright © 2008 TrekEarth

18 maio 2008

Mandou-o ao inferno 2

Era 1980, em Pattaya, Tailândia. O uruguaio Emilio Castro1 se intrigava com o que se passava durante a visita do dignitário real à consulta realizada pelo Comitê de Lausanne para a evangelização mundial, com a participação de cerca de 900 líderes de todo o mundo.

Vieram os procedimentos do protocolo. Agradeceram ao enviado do rei por sua hospitalidade e pelo gesto de visitar o evento. Emilio descreveu depois sua inquietação nos seguintes termos:

“... a esse dignitário real se presenteou uma Bíblia, mas em nenhum momento lhe foi dito: ‘E lamentamos muito que não vamos nos ver no outro mundo, porque vossa senhoria vai ao inferno’. Eu comentava com meus amigos: ‘Percebem que estamos convencidos de que há salvação em Jesus Cristo e que ninguém vem ao Pai senão por mim, mas ao mesmo tempo não temos a coragem de dizer àqueles que estão ao meu lado: “Está perdido e você vai ao inferno”.2


Bom, minha filha de 9 anos teve outro dia essa, digamos, “coragem missionária”. Aconteceu assim. O simpático vizinho, de sua mesma idade, nos visitava. Em algum momento, creio que Ana Júlia buscava explicar-lhe os motivos de nossa mudança ao Uruguai, e isso envolvia falar do trabalho de seu pai. Depois de mencionar a Bíblia e Deus umas duas ou três vezes, o garoto, meio que desafiante, lhe disse “pois eu não acredito em Deus”.

Foi aí que minha querida filha lhe retrucou algo assim, “quem não acredita em Deus vai pro inferno”. Singela e direta, um amor de criança. Resolvi intervir quando ouvi o garoto gaguejar ao tentar defender-se. “Eu, quer dizer, não vou, minha mãe disse, não é porque eu não acredito que eu vou para o inferno...”. Logo percebi que a sua crença no inferno andava bem mais desenvolvida do que as outras.

Convidamos o garoto para o almoço. Nada como o bom testemunho da hospitalidade à mesa para que tentássemos avançar. Quase tudo vai por água abaixo quando Carolina, nossa menor de 5 anos, irrompe logo após a oração de gratidão, “Você estava de olho aberto e Jesus não escuta oração de olho aberto”. Os reflexos das chamas do inferno voltaram a brilhar nos olhos do garoto. Enquanto eu me perguntava quem havia ensinado isso a Caro, tratei de tentar voltar à teologia da mesa e da hospitalidade com nosso convidado.

Refletindo sobre o que se passou entendo que não posso escapar do que o próprio Jesus falou acerca do juízo e da condenação. É verificável que, mesmo sem a presença da fé, freqüentemente encontramos que mesmo um básico senso comum demanda um conceito de justiça. Ou seja, sem a noção de reparação ou retribuição, ficamos sem lastro ou sem referência, inclusive para que possamos viver bem e harmoniosamente em uma sociedade.

O problema se dá quando examinamos nossas próprias noções sobre o que é necessário para que haja reparação ou justiça. Vemos que, nos evangelhos, nossas concepções de juízo e de castigo são confrontadas por Jesus. Parece que elas vêm de nossa natureza humana caída, quando muitas vezes ambicionamos ser mais justos do que o Rei.


Falando em reis, não sei o que se passaria se houvessem dito o seguinte ao enviado do rei da Tailândia,
“olha, diga ao seu chefe que se ele não ler esse livro ou se não acreditar no que está aí, estará no sal, ou pior ainda, estará no fogo”. Suspeito que essa não seria a melhor "estratégia" evangelística, e tampouco seria ela embasada no modelo de Jesus.

Talvez Jesus o convidasse para a mesa, e de olhos bem abertos o rei poderia ver e ouvir de Jesus acerca do caminho de vida que há nEle e através dEle. Daí o monarca teria dois caminhos simples a tomar, segui-lo ou rejeitá-lo. Opções que teriam seus desdobramentos. Mas não creio que atirar em sua cara essas conseqüências iria ajudá-lo a abraçar e seguir a Jesus. A voz e o olhar de Jesus à mesa, esses sim seriam um enorme e atrativo convite.

1 Isso se passou quatro anos antes de Emilio Castro vir a assumir a secretaria geral do Concílio Mundial de Igrejas. Em tempo, quem ler o livro de onde extraio a história verá que, na verdade, Emilio criticava essa possível postura de enviar os outros para o inferno.


2 Em entrevistas publicadas em “Paixão e compromisso com o Reino de Deus”, Manuel Quintero Pérez e Carlos Sintado, Kairós Ediciones, 2007.


Foto: © David Sidwell - Copyright © 2008 TrekEarth

05 abril 2008

Especialistas

Uma amiga uruguaia me fez a seguinte pergunta outro dia: “Ricardo, você que é um especialista em Bíblia, saberia me dizer qual foi o meio de transporte que Noemi e Rute usaram em sua viagem a Palestina?”

Demorei alguns segundos para tentar engatar uma resposta. Não tanto pela minha assumida falta de conhecimento acerca dos meios de transporte no Meio Oriente do século XI ou XII a. C., e sim por ficar pensando na palavra que ela usou para referir-se a mim, “especialista”.


Junto com a surpresa veio rápido à minha mente que poderia ter sido eu mesmo o culpado pela disseminação
de tal propaganda enganosa. Devo ter irresponsavelmente incluído essa expressão em algum breve currículo de minha curta vida acadêmica ou usado-a em alguma apresentação pessoal onde tenha desejado melhorar o verniz de minha imagem pública.

Suei frio. Seria eu um especialista? Imagino que não. Desejaria ser um? Daí comecei a titubear.


Imagino que muita gente que se dispõe a dar conferências, escrever um livro, um artigo ou uma série de artigos, por exemplo, em um blog (qualquer semelhança com o que você vê aqui não é casual coincidência), possivelmente se trata de alguém que se vê como “especialista” em um tema e assim se dispõe a “ensinar” a outros.


Desculpem-me por esse público exercício de autocrítica, mas inclusive pretendo ampliar o escopo desse crivo crítico.


Suspeito que uma comunidade que Jesus modelou não deveria ser composta por “especialistas”. Há um interessante comentário naquele livro que lhes recomendei ler tempos atrás (“Que tal ler um livro?”), que fala do “compromisso radical dos Anabatistas com a crença de que em todos os cristãos, independente de educação ou profissão, habita o Espírito Santo e assim legitimamente todos podem e devem interpretar a Bíblia. [Para eles] Não há o pressuposto de que os acadêmicos [ou ‘scholars’, ou ‘especialistas’] deveriam ter a última palavra em matérias de fé e vida.”1


Junto à ela há também outra provocativa citação de um autor Menonita, Thomas Finger, dizendo que “a imersão em livros nos rouba tempo dos atos de misericórdia”.


São palavras que devem ser lidas em seu contexto, e que as entendo como também proferidas contra mim, que aqui estou escrevendo um artigo e recomendando livros no mesmo momento em que supostamente poderia estar exercendo misericórdia para com meu vizinho. Meu consolo, se é que há algum, está no fato de que apenas posso receber essa exortação do Thomas, contrária à especialização mais “acadêmica” ou “teológica”, porque ele também escreveu isso em algum lugar e eu, por minha vez, investi tempo e energia para lê-lo.


Fecho a digressão para concordar que o melhor seria se não tivéssemos tantos especialistas. Ou que então todos fôssemos “especialistas”, em uma óbvia e irônica contradição. Talvez necessária, para denunciar os modelos de dependência de alguns poucos e para encorajar uma interpretação da Palavra mais comunitária. Também para que tivéssemos mais livros (ou blogs) escritos por várias mãos, mais dinâmicas de formação e aprendizado que privilegiem o protagonismo daquele que aprende, mais trabalho em equipe, mais confiança na cooperação de muitos do que no estrelismo de poucos.


Qual seria então o papel reservado aos chamados líderes e mestres? Que seria desejável ou recomendável para as pessoas que estão, por diferentes razões, em posições onde influenciam a outros?


Parecem-me boas perguntas, mas a autocrítica a que me propus me inibe, ao menos por agora, de tentar respondê-las. Apenas peço-lhe socorro quanto à primeira pergunta desse artigo. Quem sabe você me ajuda a salvar minha reputação, se é que essa seja uma ação louvável depois do que conversamos por aqui. Até a próxima, a cavalo, camelo, burrinho, ou à pé mesmo.


1
“Exploring Protestant Traditions, an invitation to theological hospitality”, de W. David Buschart (IVP, 2006), p. 71.

Foto: © Ivon Ruiz

11 fevereiro 2008

Fugindo do Deus que tudo vê



Mais de 100.000 indígenas vivendo em forma organizada, pacífica e produtiva. Uma fantástica experiência catequética, social e política. Trinta e três verdadeiras cidades que serviram como um freio ao expansionismo português no continente sul-americano.

Uma das causas do sucesso das missões ou reduções jesuíticas dos séculos XVII e XVIII teria sido a maneira como se respeitou em grande medida o modo comunitário de viver, organizar-se e produzir dos índios guaranis. Por outro lado, a empreitada missionária combateu suas crenças religiosas, sua poligamia e sua antropofagia ritual.

Sobre essa última, deve-se dizer que diferia do canibalismo, comum em outros grupos. Para os guaranis, tratava-se de um rito em que, ao alimentar-se de seu inimigo derrotado, adquiria-se seu espírito e sua força.

Os missionários jesuítas tiveram algumas dificuldades na banda oriental do rio Uruguai, em território que hoje faz parte do formoso país onde vivo. E elas não tiveram relação com o suposto perigo de tornarem-se eles mesmos especiarias da culinária indígena.

Conta-se que, ao tentar reunir os yaros (um dos povos nominados como os indígenas charrúas, célebres antepassados dos uruguaios), em mais uma de suas reduções, passou-se o seguinte.

Líderes do grupo disseram que queriam deixar o povoado, e voltar ao seu modo de vida, digamos, mais primitivo. O padre então lhes perguntou a razão, se era porque lhes faltava algo, se estavam infelizes, se desejavam alguma comodidade mais, enfim, o que poderia oferecer-lhes.

Eles então responderam que estavam bem, que tinham tudo o que precisavam. Mesmo assim, queriam ir embora, porque “lhes pregavam que o Deus dos cristãos sabe tanto que nada ignora, e é tão Imenso que em todo lugar está, olhando a tudo o que acontece; que eles não queriam um Deus que visse tanto”.1

O Deus que tudo vê afugentou os yaros. Voltaram às sombras dos bosques.

Fico pensando no que os incomodou. O que lhes foi anunciado e o que foi que entenderam? E é verdade que essas duas coisas, anúncio e entendimento, são bem entrelaçadas.

Como é que eu olho de volta ao Deus que tudo vê? Hagar, a escrava desamparada do Antigo Testamento, encontrou consolo no “Deus que vive e que me vê”.

Consolo naquele que me vê? Ou fuga diante dos olhos que me esquadrinham?

Pagaria bastante naquele último modelo de máquina do tempo para voltar e saber melhor o que se passou com os yaros. Olharia de longe, não me intrometeria. Além do mais, sou apenas um curioso, e não o Deus que tudo vê.

1 Em: Diego Bracco: Charrúas, Guenoas y Guaraníes. Interacción y destrucción indígenas em el Río de la Plata, pág. 375; citado em Historia y Geografía del Uruguay, Santillana, 2007, pág. 21.

Foto: ©
Upload feito originalmente por Omar Junior

03 dezembro 2007

O tango e o chapéu do Gerardo

Gerardo tinha duas paixões na vida. Minto, três. Quase ia me esquecendo do chapéu. Comecemos então com essa, antes de falar das outras duas.

Becho, como Gerardo era conhecido, sonhava em ter um chapéu igual àquele que viu seu pai usar, um sóbrio chapéu côco feito de feltro de pêlo de lebre, um clássico do fim do século XIX e início do século XX.

Não tinha ainda 20 anos, mas também já sonhava em projetar um arranha-céus, uma novidade ousada na América do Sul de sua época. Essa era a segunda paixão desse estudante do curso de Arquitetura, da saudosa “Faculdade de Matemáticas”.

Era o ano de 1916, e chegamos à terceira (ou seria a primeira?) paixão de Gerardo, a música. Foi assim. O tímido Becho viu o piano do grêmio estudantil vazio. Aproximou-se, tomou assento e de uma vez compôs aquela marcha. Imaginava que seus amigos, do grupo estudantil conhecido como “La Cumparsa”, gostariam de usá-la no carnaval.

Um ano depois, uma orquestra a tocava pela primeira vez no café “La Giralda”, bem onde foi erigido alguns anos mais tarde (1925) o majestoso Palácio Salvo, com suas linhas exóticas e controversas. Ironias do destino para o jovem músico que nunca chegou a formar-se arquiteto.

Gerardo não tinha idéia do que sucederia com o correr do tempo. Em inúmeras gravações e versões, “La Cumparsita” tornou-se o tango mais famoso e tocado de todos os tempos. O Becho tampouco vislumbrava esse futuro. Talvez por isso tenha vendido os direitos da obra para a editorial Breyer, de Buenos Aires. Arrependido, depois lutou para recuperá-la.

O que se passou então foi uma longa disputa pelos direitos autorais, agravada pelas múltiplas versões do tango. Talvez um consolo para o Becho tenha sido a amizade que fez com o Carlos. Por causa dela Gerardo foi chamado a musicalizar o filme “Luces de Buenos Aires”, cujas canções se imortalizaram na voz potente de seu amigo. Inesquecível a voz do Carlos, o Gardel, esse uruguaio de Tacuarembó que até hoje dizem ser argentino ou francês, vai entender...

Anos mais tarde, em abril de 1948, Gerardo lutava contra uma penosa enfermidade. Surpreendeu-se então, naquela tarde de repouso forçado, com a chegada de uma encomenda trazida pela “Dirección Nacional de Correos”: uma atraente caixa de papelão ovalada, decorada com fotos de cartões-postais do Rio de Janeiro.

No cartão, escrito em Português, lia-se:“do admirador de sua música, Remígio Fernandes Braga – Chapéus Mangueira”. Poucos dias depois Gerardo se foi. Uma nota em seu bolso dizia "Levo o Mangueira comigo". Talvez pensasse que deveria estar elegante em uma possível audição celestial de sua mais famosa criação.

[Remígio Fernandes Braga foi o avô de minha esposa. Neto de um dos fundadores dos saudosos Chapéus Mangueira, foi Diretor Técnico da fábrica por muitos anos. Tinha por costume enviar chapéus para amigos e missionários ao redor do mundo. Nunca soube se o seu Braga gostava de tango, mas pensei que seria uma singela homenagem à sua memória.
Se o encontro do chapéu com o Gerardo nesse artigo é ficção, os outros detalhes da história são, no geral, verdadeiros.
Um dos pontos altos desse ano foi assistir no Teatro Solís às celebrações dos 90 anos do tango “La Cumparsita”, composto pelo uruguaio Gerardo Matos Rodríguez.]

Foto: - palacio salvo -
Upload feito originalmente por Cecilia Brum

Ouça "La Cumparsita":




Cena de "Luces de Buenos Aires", musicalizado por Gerardo Matos Rodríguez e estrelado por Carlos Gardel:

23 novembro 2007

Precisamos de heróis, Roberto

Logo estacionamos em frente à sua casa. Obviamente eu estava ansioso, e grato pela oportunidade de conhecer a Roberto. Fomos com um grupo de estudantes, graças a uma impagável gentileza de nosso anfitrião.

Trinta e cinco anos atrás, esse simpático médico cardiologista foi um dos sobreviventes do avião bimotor Fairchild F-227 da Força Aérea Uruguaia que caiu no meio dos Andes. O filme "Vivos" de Frank Marshall (1993) retomou um interesse pela história, que ainda fascina 35 anos depois do ocorrido.

Eram 45 ao todo, em sua maioria jovens jogadores de rugby do Old Christians Club. Morreram 16 no dia do acidente. Outros tantos não resistiram os ferimentos, a fome, o frio e as avalanches. Foram 16 os que sobreviveram aos 72 dias de isolamento na montanha.

Depois de ouvirem pelo rádio que as buscas haviam se encerrado, e depois de várias tentativas de escapar da prisão de gelo, três deles partiram para o que seria a derradeira missão em busca de ajuda. Um deles regressou ao acampamento e Roberto Canessa foi um dos dois que seguiu adiante. Após 10 dias de extenuante jornada encontraram o tropeiro chileno que os levou de volta à civilização.

Entramos, nos sentamos em silêncio, meio constrangidos. Na estante uma foto dos sobreviventes na neve. Na poltrona, sentada à minha frente estava sua velha mãe, atenta à história que seu filho contava pela enésima vez.

Roberto foi nos desvelando algo do drama com uma honestidade e simplicidade que me surpreenderam. Tomei coragem e lhe perguntei qual havia sido o momento mais difícil. Rápido devolveu “ah, foi depois do deslizamento”, fazendo menção à avalanche que os atingiu 16 dias depois do acidente. Mais oito companheiros morreram nesse dia. Parecia que qualquer esperança se esvaíra junto.

Queria lhe perguntar também qual havia sido seu momento de maior esperança, mas hesitei e não consegui. Na verdade, a pergunta se tornou desnecessária. Quando ele nos relatava as agruras da fuga das montanhas, contou-nos como foi do cansaço e desespero a uma experiência de renascimento da fé. Numa noite, ao entrar em seu saco de dormir, costurado com o isolante térmico da fuselagem do avião, viu uma lua gigantesca surgir por detrás da montanha. Também identificou as Três Marias. E pensou, “isso é o mesmo que vejo em casa, a casa onde eu quero chegar e para chegar lá eu preciso continuar nesse caminho”.

Suas muitas menções a Deus provocaram a pergunta de uma estudante, “se você não cresse em Deus, pensa que teria sobrevivido?”. “Não sei, pergunte isso a Ele. Quanto a mim, penso que não crer em Deus é um ato de grande soberba”.

Hora de ir. No jardim, ele me diz “incrível como essa história chama tanto a atenção”. Precisamos de heróis, Roberto. Hoje quisemos que você cumprisse esse papel. Vou embora pensando se talvez não devêssemos lhe pedir desculpas por isso.

Foto: © Copyright Viven 2007

20 novembro 2007

Visões laicas


Você já deve saber que o Uruguai é um país laico. O que muitos não sabem é que esse é um processo que remonta à gênese da identidade do país, no final do século XIX e início do século XX.

Essa gestação da identidade nacional ocorreu não sem tensões e lutas, na administração de cemitérios e hospitais, na educação e registro civil, na formação das leis do país (uma lei aprovando o divórcio, considerando a vontade da mulher ao pedí-lo, data de 1907!) e em confrontações públicas, às vezes hilárias, se não fossem desrespeitosas...

Na década de 20 do século passado, anúncios colocados nos principais jornais do país convidavam a população a churrascos grátis, ao ar livre. O detalhe geográfico e temporal impressiona. A carne era assada na praça em frente à catedral, justo na sexta-feira santa. A fumaça da gordura racionalista da época penetrava nos vãos do templo barroco e enlouquecia igualmente a clérigos e ovelhas (aquelas ironicamente chamadas pela igreja de “leigos”, do latim
laicu, numa triste e irônica coincidência…ou não…).

Atrás das churrasqueiras estava uma elite intelectual e política que bebeu em sua formação do liberalismo e positivismo francês, além da maçonaria, e que estava em aberta luta contra o poder da Igreja Romana. Histórias interessantes às quais voltarei em momento oportuno.

Por agora, queria lhe deixar um excerto do saudoso Norberto Bobbio a respeito da diferença entre uma visão religiosa do mundo e da história, distinta de uma visão de mundo laica. Que seriam essas visões laicas da realidade? Para conhecer o outro, nada melhor do que deixar ele mesmo se apresentar e falar de si. Deixo-lhe então com o Norberto. Desculpe-me o texto longo. Como da
última vez você desligou a máquina e descansou os olhos, imagino que deva estar mais disposto agora. Boa leitura e até a próxima!

“Para dizer a verdade, mais que de uma ética laica, deveríamos falar de uma visão laica do mundo e da história, distinta de uma visão religiosa. Pode-se também falar, com uma linguagem compreensível por todos, de distinção entre uma concepção sagrada e uma concepção profana ou desconsagrada, ou ainda, como se prefere dizer hoje, dessacralizada do mundo e da história, distinção que teria tido sua origem no início da era moderna, no período weberianamente chamado de ‘desencantamento’.

Segundo o cristão, ao lado da história profana existe uma história sagrada, da qual o único guia seguro é a Igreja ou as diversas igrejas que retiram sua inspiração das Sagradas Escrituras.

Para o laico, a história é uma só, e é a história em que estamos imersos, com nossas dúvidas não resolvidas e com as nossas questões inelimináveis, cujo guia é a nossa razão, de modo algum infalível, que extrai da experiência os dados a partir dos quais se pode refletir.

Esta é uma história por detrás da qual e acima da qual não há nenhuma outra história da qual esta nossa história seria apenas uma prefiguração imperfeita, um reflexo infiel ou mesmo enganoso.

Na visão do laico, falta a dimensão da esperança em um resgate final, em uma redenção, em uma palingênese, numa palavra, na salvação. Não pode haver salvação numa visão do mundo em que não existe sequer a idéia de uma culpa originária, que teria maculado para sempre toda a humanidade desde a origem e ao longo dos séculos.

Para o laico, a história não se desenrola segundo um percurso predeterminado, e já traçado desde o início, entre uma culpa original e uma redenção final. É uma história de eventos de que se pode, ainda que nem sempre, encontrar a concatenação das causas, mas em que não se pode chegar à atribuição de culpas.

É uma história da qual é inútil procurar um sentido último, porque um sentido último não existe ou ainda não se revelou de modo claro o suficiente para nos levar à aprovação.”

Norberto Bobbio, em Elogio da serenidade e outros escritos morais, UNESP, 2002.

Foto: Palácio Legislativo, Montevidéu- Legislación
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14 novembro 2007

O que o prazo de validade uniu...



A quantidade de divórcios aumentou 80% nos últimos 10 anos aqui no Uruguai. Mais da metade dos que se casam a cada ano se divorciam algum tempo depois.

Um psicólogo da terra, Gustavo Ekroth, anda defendendo que a durabilidade de um casamento se sustenta em quatro pilares: atração sexual, amizade, admiração e projetos em comum.

Ele ainda sustenta(1) a curiosa teoria de que o matrimônio deveria ser um contrato com prazo de validade, que se pode renovar, ou não, conforme o desejarem. Para ele, “ainda que agora estejam bem, não têm porque ser assim a vida inteira; assim deixariam de prometer no altar coisas que terminem sendo uma mentira”.

Já imagino a cena. O conselheiro no curso de noivos lhes pergunta “por que só um ano, não querem logo partir para três?”. Ou, ao revés, “acho dez anos muito arriscado; vamos colocar cinco e ver como anda o negócio?”.

Pensando bem, se esse papo de compromisso e permanência já não manda tanto, proponho que radicalizemos.

Criemos um novo sistema de avaliação diária do casal! Por meio de pontuação, e cores que nos auxiliem já que nossa inteligência emocional não anda lá essas coisas.

Acima de 7, cartão verde, passou. Entre 4 e 6, dá-lhe um cartão amarelo. O imbróglio é feio, demanda convocar uma reunião urgente para recompor as metas. Abaixo de 4 não dá. Segue um cartão vermelho junto com o singelo texto “dessa vez não deu, procure outra” (ou outro, sei lá).

Para evitar indelicadezas, nada de mostrar a nota e o cartão assim, cru, na cara do outro. Deixemos discretamente a avaliação de nosso companheiro sobre o criado-mudo, a cada manhã ou noite, como lhes convier.

Outro dia passei pelo “mudinho” e, para minha surpresa, havia um 10. Cartão lindo, novinho, nunca antes usado…. Emocionei-me, fui às nuvens. Devo ser como o vinho, conjeturei. Melhoro a cada ano que passa.

Abrupto minha amada esposa irrompe, de um peteleco vira a nota a um 7, enquanto diz “já falei pras crianças não mexerem aqui…”.

Quase acho que foi algo premeditado (vislumbrei o esboço de um sorriso maroto), se bem que nem ligo, até gostei do 7... Mas ainda confesso que tenho saudades dos tempos em que o “só a morte nos separará” já era suficiente.

1 Em “Hasta aquí llegamos”, El Observador, 10/11/2007

(Foto: © Lised Márquez)

12 novembro 2007

Carroças 2... Ainda sobre os "hurgadores"

“Espetáculo próprio dos tempos de colônia!” Assim leio em editoriais de jornais prósperos e conservadores do país, referindo-se à mesma temática do artigo anterior: os hurgadores, ou aqueles que procuram com afinco sua subsistência em meio ao lixo.

Ouço queixas acerca da falta de sinalização das carroças, dos maus-tratos aos animais, da suposta sujeira que fazem (eu pensei que eles ajudavam a diminuir o lixo, e não o contrário), do perigo no trânsito e alguns ainda apontam para a suposta ameaça inerente daqueles “outros” que remexem nosso sagrado lixo bem ali, em frente de nossas casas.

Dizem que há 8 vezes mais desses trabalhadores aqui em Montevidéu do que a média dos que se encontram em outras cidades latino-americanas.

Eu estaria longe de defender um ofício tão pouco nobre. Gostaria que fosse abolido. Desejaria que os condutores desses veículos eqüestres, muitas vezes crianças, estivessem aproveitando sua infância e adolescência de modo mais lúdico e salutar.

Mas fingir que o problema não existe ou estigmatizar quem mais sofre com essa condição não irá nos ajudar.

Uma sociedade que seja socialmente fracionada entre “nós” e os “outros” (diga-se que no Brasil o abismo infelizmente é bem maior) não possui bons prospectos para o futuro.

Falar de futuro nos remete à idéia de esperança. Tenho uma, que ainda busco alimentar. A de que o evangelho de Cristo transforme perspectivas, atitudes e políticas públicas que gerem um mundo com abismos menores e o fim de certas ocupações, que na verdade nunca deveriam ter existido.

Seria um bom começo ver esse tema sendo abordado no sermão do próximo domingo.

(Foto: © Tali KF)

11 novembro 2007

Crianças da carroça

“No te enojes! No te enojes!”. Ele a agradecia, sem lhe olhar nos olhos, repetindo essa frase que a princípio Ruth não conseguia entender.

Voltávamos à casa depois da festa de nossa filha e minha esposa resolveu entregar alguns excedentes ao “hurgador” que passava por aí.

“Hurgadores”, do verbo “hurgar”, que quer dizer “revirar, inspecionar, procurar com afinco”. Aqui, na capital do país, é cena comum cruzar com a carroça de um hurgador, muitas vezes acompanhado de menores de idade, que mais facilmente entram nos contêineres verdes onde os sacos de lixo doméstico são depositados. Há um desses recipientes em cada quadra. Buscam de tudo o que se possa aproveitar.

Diferentes estimativas dizem que há entre 5 e 10 mil hurgadores em Montevidéu. Talvez mais de 20 mil pessoas dependam economicamente dos que “procuram com afinco” no lixo.

No começo, Ruth não entendeu o que ele quis dizer. Depois caiu a ficha. Como ele havia pedido se ela também tinha alguma roupa de criança que pudesse lhe prover, ele teve medo e lhe pediu desculpas à maneira em que, traduzido livremente, seria “não se chateie ou se incomode comigo”.

Como não me incomodar com a pobreza, com a fome, com a necessidade absoluta?

Montevidéu aparece hoje em manuais de “missão” com especial destaque para a chamada área menos alcançada com o evangelho, talvez de todas as Américas. Desde Punta Carretas até Carrasco, passando pelo bairro judeu de Pocitos (mistura de Copacabana-Leme-Leblon), concentra-se a população mais rica do país, com uma quantidade ínfima de igrejas evangélicas ou supostamente de cristãos espalhados por essa zona.

Uma boa quantidade de recursos das “missões evangélicas” é mobilizada para essa área. Novos missionários, especialmente de países mais ricos, com recursos para manter projetos nessa vizinhança, vão aos poucos sendo atraídos para a região.

Os resultados ainda são tímidos. Há que investir mais. Os ricos também sofrem, têm carências, também precisam de salvação.

O pobre hurgador segue seu caminho. Quase culpado por nos incomodar com seus pedidos e necessidades.

Fico aqui pensando se Deus não pensa em pregar uma peça na laica e culta sociedade uruguaia. Já pensou se ele usa esses homens, mulheres e crianças da carroça para revolucionar esse país com o evangelho de Cristo?

Eu não me “incomodaria”. Continuo “procurando com afinco” uma melhor explicação para nossos preconceitos e estratégias missionárias.

(Foto: © Ivon Ruiz)

08 novembro 2007

Parabéns, do Mario

Foi um encontro inesperado. Justo naquele dia em que celebro a certeza dos anos que já passaram e o incerto dos que virão.

Ele moveu-se ligeiro da esquina da estante direto ao sofá da sala. Resolvi papear. Na verdade, mais ouvir do que falar.

Em uma tacada ele me disse, “Feliz Aniversário”. Levantei os olhos incrédulo. Como ele sabia?

Mario é desses personagens controversos e apaixonantes. Criticado por seus vínculos com a esquerda radical (qual esquerda de verdade não o é, para o bem e para o mal?), sempre foi habilidoso como poucos, bem poucos, com a pena na mão. Digo “pena”, confesso a malvadez, por causa de seu longo percurso.

Quatro anos depois que a I Guerra Mundial acabara (não faça as contas, que é deselegante, o Mario pode se chatear) nascia o homem em Paso de los Toros, Uruguai. Lido e apreciado pela juventude de numerosos rincões. Viveu 60 anos com o amor de sua vida, Luz López Alegre, que partiu não faz muito. Não quero parecer desrespeitoso, mas como poderiam ser infelizes no matrimônio com esse nome?

Deixemos atrás o devanear e voltemos à sala, cenário do colóquio. O Mario, ao me felicitar, foi desusado e me falou da morte. Logo hoje? Narrou-me seus dilemas, angústias, suas indagações sem resposta.

Ao fim, depois daquela pausa que os poetas sabem fazer (às vezes eu tento arremedar, mas fica apenas parecendo que observo a sujeira da parede, que cochilei ou engasguei…), concluiu que ao menos sente algum consolo em seguir perguntando.

Eu me calei. Razão simples. Se eu não conseguir ouvir as perguntas que ele me faz (boas questões formula o tipo) nunca poderei ambicionar qualquer resposta.

Sabe dar bom presentes esse Mario. Veja o que ele me regalou.

Happy Birthday

¿Cómo será el mundo cuando no pueda yo mirarlo
ni escucharlo ni tocarlo ni olerlo ni gustarlo?
¿cómo serán los demás sin este servidor?
¿o existirán tal como yo existo
sin los demás que se me fueron?
sin embargo
¿por qué algunos de éstos son una foto en sepia
y otros una nube en los ojos
y otros la mano de mi brazo?
¿cómo seremos todos sin nosotros?
¿qué color qué ruidos qué piel suave qué sabor
qué aroma
tendrá el ben(mal)dito mundo?
¿qué sentido tendrá llegar a ser protagonista del
silencio?
¿vanguardia del olvido?
¿qué será del amor y el sol de las once
y el crepúsculo triste sin causa valedera?
¿o acaso estas preguntas son las mismas
cada vez que alguien llegue a los sesenta?

ya sabemos cómo es sin las respuestas
mas ¿cómo será el mundo sin las preguntas?

Happy Birthday em Inventario Uno, Editorial Sudamericana, © 1995 Mario Benedetti
Agarrei o livro do Mario e me deparei súbito com esse poema, logo quando celebrava meu natalício.

(Foto: do Mario, claro - © Copyright 1996-2000 Clarin.com)

27 outubro 2007

Ela está à espera

“Não acredito mais em Deus”. Assim, brusco, tentou cortar a conversa com Ruth. Mas ela voltou e seguiu “meu marido sempre foi um homem bom, justo e há 20 anos ele não sai da cama.” As rugas apertaram o rosto, o olhar subiu os centímetros do orgulho que lhe restava e concluiu “então, não acredito mais”.

Aquela velha senhora com quem Ruth (a minha senhora, e não tão velha, ainda...) conversou assina o rol dos mais de 12% declaradamente “ateus convencidos” da população de Montevideo.

Não gosto muito de números, estastísticas. A gente simplifica, começa a desfiar dados com ares daquela sabedoria que interpreta toda a realidade. Sem dúvidas. Apenas classificações. E tem mais. É tentador começar a descrever o mundo através deles. Quer ver como funciona e como sou cúmplice?

Quase 35% dos “montevideanos” se considera indiferente à religião. Um em cada quatro crê na reencarnação. Somente 8,8% da população acredita que para ser um bom religioso deve-se ir à igreja todas as semanas. Um imponente 86% crê o contrário.

Apesar de mais da metade da população da capital uruguaia se considerar católica, as letras miúdas da pesquisa sociológica nos mostram que apenas 14% desses crê na infalibilidade papal. Isso mesmo, o Papa não é “pop”.

Podia lhes dar mais números, mas não o farei. Hoje eles me deram uma surra. Um estimado missionário de um país mais ao norte quis saber o alcance numérico de nosso trabalho entre estudantes. Bom, ele não achou lá essas coisas.

Voltei a pensar na senhora, não a minha, a outra com quem ela conversou. Acredito que ela está à espera. Esperando por alguém que não a veja como um número a mais ou a menos.

Se me decidir a ir nessa direção, por certo terei dor de cabeça. Gastarei tempo, atenção, energia, e não terei aquele tempo de sobra para poder dedicar-me a fazer crescer as estatísticas do alcance do meu trabalho.

Fecho meu livro de sociologia. Quero ir dormir, mas será difícil. A imagem dela não me sai da cabeça.

(Fonte: "Religión y sociedad en el Uruguay del siglo XXI: un estudio de la religiosidad en Montevideo" / Da Costa, Néstor. -- Montevideo: CLAEH, Centro Unesco de Montevideo, 2003) Foto: © Marcelo Castro.

26 outubro 2007

Entre táxis e beijos

Andar em táxi é barato por aqui. Ainda que não tão barato nem culturalmente instigante como os ônibus públicos da cidade. Neles sempre têm gente vendendo de tudo, cantando, tocando, contando histórias, recitando poesias. E se vê como o uruguaio é solidário. As moedinhas sempre aparecem em socorro do vendedor ou artista equilibrista. Já viu um cara tocando violão, cantando e trocando o pé de apoio em cada curva? É de se admirar e vale o ingresso.

Voltando aos táxis. Tomei um outro dia. No banco da frente, que o detrás sempre tem um vidro e uma incômoda placa separando-nos do condutor. Pois é, acham a vida insegura por aqui. Quem nunca foi ao inferno não sabe o que é o paraíso.

O taxista logo me confrontou. “O que o Lula quer fazer com o Uruguai?” Não respondi, inseguro por não ter ouvido os últimos esclarecedores discursos de Lula nem de Celso Amorim. Ele avançou, “o Brasil não tem que temer um paisinho insignificante de 3 milhões de habitantes!”. Achei que ele não devia chamar o Uruguai assim, “insignificante”, mas a prudência me alertou que não retrucara.

Aos poucos tomei coragem e resolvi lhe dizer minhas humildes opiniões acerca da justiça nas relações internacionais. Contei-lhe o que vim fazer, algo acerca do meu trabalho, do meu interesse na juventude do país, em ver crescer as boas oportunidades para que os jovens encontrem sentido na vida, vocações dignas, melhores oportunidades, etc. Tudo bem, talvez tenha exagerado um pouquinho no alcance de nosso pequeno ministério entre estudantes. Mas talvez tenha ajudado.

Paramos em frente de casa. O tempo foi passando, 5, 10, 15 minutos, e o galego-espanhol-uruguaio não me deixava ir embora. Fazia perguntas. Queria saber o que levava esse brasileiro a viver aqui. Finalmente desci. Ele também. Deu a volta no táxi. Ele era enorme. Me deu um forte abraço, e me beijou. Agradeceu-me por ter escolhido o Uruguai para viver. Quase achei que seus olhos começavam a marear. Mas foi embora antes que eu pudesse comprovar.

Entrei em casa matutando no que havia mudado o rumo da conversa. Ainda não sei bem.

Interesse genuíno ou predador? Ar superior ou disposto a ouvir e servir? Diferenças que abrem ou fecham portas. E que te fazem ganhar beijos! Ok, talvez não custe dizer que a saudação entre homens com um beijo na bochecha é absolutamente normal em terras uruguaias.

Vou me acostumando... Mas que seja bochecha contra bochecha. Minha aclimatação cultural dificilmente irá além disso.

(Foto: © Daniel Schweimler)

16 outubro 2007

"Você não é mais inteligente do que eu!"

Era uma vendinha dessas de bairro. Mal entrei e meu sotaque me denunciou. O velho senhor, dono da loja, me perguntou “de que parte do Brasil você é?”. E o fez em um Português claro, sem sotaque.

Ele havia morado no Rio quando pequeno, no fim dos anos 40 e começo dos anos 50. Sim, você imaginou certo, ele estava lá, no Maracanaço. Para quem tem pouca cultura futebolística, explico que a coisa tem a ver com 200 mil brasileiros em certo estádio carioca, experimentando uma enorme, inexplicável frustração, enquanto 11 uruguaios, inclusive aquele cuja pronúncia traz calafrios (Ghiggia…), recebiam a taça da copa de 50. Jules Rimet, o francês organizador da copa que lhes entregou o prêmio, chegou a dizer “O silêncio era absoluto, às vezes difícil de acreditar”.

Voltando à vendinha. Conversa vai, conversa vem, começamos a falar sobre a violência, grande no Brasil, muito menor no Uruguai. Daí o senhor levantou um dedo e me disse “Ojo!” (como um bom uruguaio lhe diz “preste atenção”). “O problema da insegurança é culpa minha e sua!”. Me disse quase em tom de ameaça e pousou sua mão em minha barriga. Eu quis comentar algo sobre injustiças, quando ele me interrompeu “Você não é mais inteligente do que eu! Só porque você é engenheiro não quer dizer que você deva ganhar mais do que eu ganho.” E voltou a botar a mão na minha pança (seria ela a prova da desigualdade social?...).

Desconcertado, calei. Ele seguiu, “dizem que sou comunista, e não sou”. “Mas têm coisas no mundo que não estão certas”. Daí seguimos uma agradável conversação sobre política, o atual governo do Uruguai (o primeiro considerado de esquerda na história do país), sobre como ele uma vez havia dito ao médico de seus filhos que o doutor se tornaria um dia o presidente da república (de fato, Dr. Tabaré Vásquez acabou chegando lá e é o primeiro presidente supostamente de esquerda na história do país).

Para se conectar de verdade em outra cultura, você precisa conhecê-la, do futebol à política, da religião à história, buscando bons professores, como os taxistas e os velhos desejosos de contar suas histórias.

Além desses bons professores, arranjei uns outros, bons livros de autores uruguaios, sociólogos e historiadores, novelistas e poetas. Aos poucos (eu, no caso, vou apenas arranhando a superfície) vou conhecendo as peculiaridades e idiossincrasias desse “hermoso” país.

Política e futebol se discutem sim. Um estrangeiro pode aprender muito desse tipo de conversa.

Ah, e aquela mão tocando minha protuberância abdominal? Tenho uma teoria acerca da construção de pontes de comunicação. Ainda a testarei um dia.

(Foto: © Diego Zalduondo)