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10 junho 2009

A fama é um mal-entendido


“Quais são os famosos que vocês estão produzindo hoje?”. A pergunta direta fez a farofa do frango entalar. Foi em meus tempos de ministério com a ABU quando curtia um até então pacífico intervalo gastronômico nessa interessante conferência missionária em terras mineiras.

Ante meus olhos esbugalhados e atento a um ossinho galináceo pendurado em minha muda boca, meu interlocutor, um importante líder eclesiástico, aparentemente resolveu esclarecer sua indagação. “Digo, no passado, vemos que nomes hoje destacados, como Valdir Steuernagel e Robinson Cavalcanti, militaram nas bases da ABU. Quem são as pessoas famosas da próxima geração que vocês estão preparando hoje?”

A lembrança do episódio me remete a um excelente escritor uruguaio, Juan Carlos Onetti, que se estivesse vivo completaria seu centenário nesse ano de 2009. Dizem seus biógrafos que para ele a fama era obra de um mal-entendido. Em suas palavras:

“A grande maioria de nossos escritores trata de alcançar o triunfo. E a esse se chega de maneira incidental e nunca deliberada. Se alcançamos o êxito nunca seremos artistas plenamente. O destino do artista é viver uma vida imperfeita.”1

Deixo para críticos literários a avaliação se isso é algo mais do que o arroubo e o drama de um artista. Ou se há alguma verdade importante em suas palavras. Por agora, não deixo de pensar no papel dos profetas bíblicos e em seu aparente quase sempre “fracasso”.

Outros poderiam argumentar que o artista só é artista quando busca a fama e o reconhecimento público. E que talvez essa ambição seja mais comum e universal do que gostaríamos de admitir.

Pois bem, uma vez que falamos de artistas e de escritores, tomo a liberdade de abusar de sua paciência com outra citação, agora brasileira e machadiana:

“Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego…”
2


Claro, também decida o leitor porque alguém escreve e publica sobre o assunto da fama, se não é o caso que ambiciona ser lido por muitos. Não seria essa uma contradição interna? Ou pelo menos um flerte com essa tal busca pela ‘glória temporal’?

Ou seja, isso me obriga a refletir sobre a característica própria quer seja do artista, do escritor, do profeta, do pregador, ou da simples testemunha de sua fé em Cristo. Sobre essa que me parece ser uma obrigação inescapável, a de que vivam a expressão de seu ser e do que produzem para que todos vejam, para que esteja aí, na esfera pública.

Ora, nenhum crente em Cristo é chamado a esconder-se. Sempre deve expor tudo o que é e o que crê ao crivo do juízo público. É parte da essência de sua própria fé. Ou parte da própria identidade do profeta ou do artista.

Teria então razão meu nobre colega pastor que interrompeu meu seco galináceo? Creio que não. No mínimo diria que sua pergunta estava fora de foco. Isso porque penso em duas marcas necessárias do artista, profeta ou do ‘cristão comum’: integridade e compromisso público.

Primeira, a integridade que aponta à honestidade de sua própria essência interna, à fidelidade quanto à sua identidade. Para o crente ela vem dessa convicção profunda produzida pelo chamado de seu Senhor.

E a segunda, o compromisso público que tem a ver com a ‘prova’ exterior do cumprimento de seu chamado, que por sua vez sempre deve ser vivido debaixo do olhar alheio. O chamado daquele que carrega uma verdade que só é verdade quando é contada a todos. Mas que nessa exposição corre um duplo risco: o da rejeição e o da fama.

Óbvio, ambos são riscos. A desaprovação sempre é algo sofrido pessoalmente e pode levar, ou não, à revisão de sua integridade íntima. Aquele que é rejeitado pode querer ao fim abandonar sua verdade em função do acolhimento alheio. Por isso mesmo trata-se de uma tentação.

E a fama também o é, na medida em que sou levado pelo deleite da glória e da aceitação, esquecendo-me que ela é muito mais fruto de um incidente, e que também pode distrair-me de minha vocação mais sublime, que nem sempre me levará ao aplauso.

“Quais são os famosos que estamos produzindo hoje?” Não sei, nem me importa a pergunta. Mas se ajudo a formar discípulas e discípulos íntegros, fiéis ao seu chamado, em lugares ou circunstâncias que pouca atenção venha a receber dos microfones e holofotes, entendo que devo estar contente. E feliz volto ao meu frango com farofa.

1 Oneti. Perfil de un solitário Omar Prego Gadea, Ediciones de la Banda Oriental, 1986, p. 38.

2
Memórias Póstumas de Brás Cubas Machado de Assis. Agradeço ao Laion Monteiro por essa citação.


Foto: ©
Applause

Upload feito originalmente por Justin Cormack

Artigo escrito originalmente para o Portal Cristianismo Criativo

16 janeiro 2009

Retrospectiva 2008: os melhores livros


Seguindo no assunto de livros, aproveito para fazer aqui uma lista do que foram as melhores leituras de 2008.

Greenspan
Alan Greenspan, Wall Street y la economia mundial
Bob Woodward
Uma interessante biografia que por acaso caiu em minhas mãos (oferta de livraria de bairro) pouco antes que a crise financeira ficasse mais evidente, no segundo semestre do ano. Foi quase divertido ler a advertência de Greenspan para que o mercado não interviesse no crash de 1987, porque segundo ele tal intervenção faria com que todo o sistema tomasse rumos imprevisíveis. O que dizer agora sobre o que pode acontecer com a gigantesca intervenção na economia de tantos governos, inclusive (e talvez principalmente) dos EUA?
(versões em Português e em Inglês)

Estados Fallidos
El abuso del poder y el ataque a la democracia
Noam Chomsky
Polêmico, bombástico, revelador, um profeta incômodo. Pode-se não concordar com tudo, mas difícil ficar indiferente. Uma leitura necessária para tentar entender o mundo em que vivemos.
( versão em Inglês)

Amor líquido
Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos
Zygmunt Bauman
Comentei algo aqui sobre sua leitura. Não é fácil encontrar alguém hoje que expresse melhor o abismo de nossas angústias, sem ser totalmente pessimista. Há esperança nos escritos de Bauman, e é isso (entre outras coisas) que me levará a ler outras obras dele.
(versão em Inglês e em Português)

Las Viudas Rojas
Esteban Valenti
Escrita por um italiano radicado em Montevidéu já há algumas décadas, essa ficção te agarra e te leva por um divertido passeio de espionagem, intriga e humor, por entre os dilemas de uma geração que ficou no meio do caminho, abandonada pelo decreto do fim da utopia do socialismo real.

La Brújula Dorada
Philip Pullman
Já resenhei aqui e apenas acrescento o seguinte: para quem gosta do gênero, é muito melhor escrito e muito mais provocador do que Harry Potter. Ainda estou em dívida com as sequências: “La Daga” e “El Catalejo Lacado”.
(versões em Inglês e em Português)

Exploring Protestant Traditions
An invitation to theological hospitality
W. David Buschart
Não sei recomendar um livro melhor que esse para poder entender, sem estereótipos simplistas ou julgamentos rápidos, as diferentes tradições protestantes. É um daqueles livros indispensáveis para quem trabalha em ministérios interdenominacionais.

C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University
A. Donald MacLeod
Foi o mais sublinhado e rabiscado do ano! O melhor livro que já tive em mãos para entender a fundo a história da IFES (era esse o propósito?), em especial nos relatos das “entrelinhas”, em um fabuloso e bem honesto trabalho levado a cabo por esse excelente professor de história. Quando uma vez eu tive o privilégio de ser levado pelo Donald a um aeroporto, infelizmente eu ainda não tinha lido o livro. Uma pena, pois um pneu furado ou um vôo perdido abririam a chance de muitas perguntas e creio que uma frutífera conversa sobre seus escritos.

The Message of Samuel
Mary J. Evans
Essa excelente, profunda, mas acessível exposição do texto me fez desejar uma coisa. Se um dia Deus me chamar a escrever algo, depois de uma séria investigação bíblica, gostaria de escrever como a Mary.

Para 2009, tenho minha lista de pendências de leituras. Mas ela pode ser enriquecida com suas sugestões. Antecipadamente, agradeço.

Foto: © (07-11-24) 2:32
Upload feito originalmente por Shefaet

05 janeiro 2009

O livro do ano



A história me interessava já há um tempo. Creio que o interesse cresceu depois de haver conhecido a Roberto Canessa, o médico cardiologista infantil que realizou a façanha, junto a seu amigo Nando Parrado, da expedição final que levou 10 dias para escapar da tumba dos Andes.

Ganhei o livro “La Sociedad de La Nieve”, recém-publicado, em que pela primeira vez aparece o testemunho de todos os 16 sobreviventes, 36 anos depois do acidente, entremeados com o emocionante relato dos acontecimentos, feito pelo escritor e jornalista Pablo Vierci. Pablo, o narrador, também foi um amigo de infância dos protagonistas do livro.

E de amizades parece falar esse livro que me transbordou. De certo modo, isso parece uma ironia e um paradoxo. As reações mais comuns, como as que sucederam em especial nos momentos logo após o resgate, parecem ser as de assombro pelo fato de que sobreviveram por haverem comido os corpos de seus companheiros que não resistiram à tragédia.

Mas de alguma maneira, os vínculos que se criaram entre eles, inclusive com a memória dos amigos e com alguns parentes dos falecidos, foi o que mais impacto me causou. Lá em cima, em meio à desesperança, sofrimento e morte, brotavam os sentimentos e, principalmente, as atitudes mais sublimes de cuidado com o mais frágil, de sacrifício e de doação.

Terminei de ler o livro hoje, lembrando-me do saudoso Dr. Ross Alan Douglas, pioneiro da ABU no Brasil e dono da mais vasta biblioteca pessoal que já conheci. Em meio a uma daquelas reuniões de diretoria que já começavam a entediar-lo, ele abria um livro e começava a folhear-lo sem cerimônias.

Os outros 9 ou 10 presentes faziam que nem notavam e respeitavam a “liberdade acadêmica” de nosso saudoso mestre. Numa dessas ocasiões, ainda em meio a uma discussão orçamentária, ele com prazer a ignorou e mostrou-me um interessante livro que lia sobre epistemologia, ciência e fé.

Já que tinha o aval do doutor, embarquei na conversa e em algum momento lhe perguntei se já havia terminado de ler o livro. Ele me fitou debaixo de suas grossas lentes, confessou que raras vezes lia um livro até seu final e tremeu seu corpanzil em uma gostosa risada.

Entre decepcionado e cético com o mito que eu havia construído, ouvia então sua convincente explicação de que poucos livros mereciam ser lidos por inteiro.

Ironicamente comecei a ler o “La Sociedad de La Nieve” em uma viagem de avião. Nas sete horas que separam Montevidéu do Panamá, fui algumas vezes obrigado a interromper a leitura. Lágrimas insistentes não me permitiam seguir. Na verdade, não sabia bem o porquê de minha reação.

Só agora, chegando à última página desse fabuloso relato, venho a entender melhor o que eu processava. Isso se deu quando cheguei, no final do livro, ao registro de uma reunião na casa de Canessa, essa que tive o privilégio de conhecer. E aqui me reservo a não dar mais detalhes. Se você se animar, leia. Pode ser que siga sem me entender. Tudo bem. Talvez essa seja uma cordilheira que você mesmo terá que atravessar, do seu jeito, e se você quiser.

Obrigado, caro Dr. Douglas. Esse é um daqueles livros, com certeza.


Foto: © Realtà Sottili
Upload feito originalmente por
BeneToZi

18 outubro 2008

O passado do santo e o futuro do pecador



Em meio à turbulência financeira mundial, certo personagem tem aparecido bastante e há sido citado com freqüência. Trata-se do homem mais rico do mundo, Warren Buffet.

Fala-se de suas compras de ações quando todos as estão vendendo ou de seu caráter de guru financeiro, cobiçado por ambas as campanhas presidenciais para ser algo não menos que o próximo secretário do tesouro norte-americano.

Questionado em uma entrevista acerca das vítimas e culpados da crise mundial, esquivou-se em responder. Quando pressionado, disparou: “cada santo tem um passado e todo pecador tem um futuro”.

Do alto de seus 78 longos anos, creio que o senhor Buffet regalou-nos uma frase de profunda sabedoria. Posso não concordar com a visão capitalista do homem nem ser um de seus devotos admiradores. Mas creio que é preciso reconhecer nessa resposta uma importante verdade espiritual.

Trata-se do seguinte. Por mais “santo” ou correto que eu seja, ou que busque ser, sempre ainda terei a oportunidade de enfiar o pé na jaca. Essa crua verdade deveria me levar a cultivar a humildade, a moderação e a vigilância. Ela me ajudaria a evitar a arrogância e os abismos a que ela pode me levar.

Há algo mais, não menos importante. Por mais pecador que eu seja, por mais mancadas que eu tenha cometido, o evangelho da graça e da fé em Cristo parece sempre nos apontar a possibilidade da volta, da segunda chance. Ao sinalizar o caminho de saída, nos permite um alívio, um respiro, um fio de esperança no meio da escuridão.

Uma secretária que trabalhou com o primeiro secretário geral da IFES, Stacey Woods, disse o seguinte depois de trabalhar com ele por um período, “ele é terrível em seus relacionamentos pessoais, mas possui uma tremenda visão de Deus e confiança nEle – e Deus sim trabalha através dele apesar do que ele é.” 1

“Apesar do que ele é” poderia soar algo pesado ou parecer uma crítica injusta, mas talvez seja muito melhor ser mais realista com nossos heróis, do que idealizá-los como “santos” com um passado irrepreensível. Poderíamos cair na tentação de projetar modelos que seriam inalcançáveis, talvez na mesma medida em que seriam irreais, inventados.

Quem sabe isso nos ajude, a todos nós, pobres e miseráveis pecadores, a caminhar com cuidado e confiança, porque há Aquele que nos abre um futuro e uma esperança.

1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.

Foto: © DSC06973
Upload feito originalmente por Ale J. Ven.

09 junho 2008

Foi assim que me apaixonei por aquele texto



(Série Histórias Agronômicas - I)

Apaixonei-me por um capítulo da Bíblia em um congresso científico! Foi assim. Tive que chegar antes para garantir meu assento no auditório. O Dr. Warwick Estevam Kerr estava por proferir uma palestra no Congresso Brasileiro de Genética. Era 1990, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. De todos lados chegavam estudantes e professores para ouvir aquele que trazia consigo uma invejável fama de brilhante cientista.

Para falar da biodiversidade, o tema de sua palestra, o Dr. Kerr nos deliciou com uma exposição da parábola do semeador! Aí estava um respeitado geneticista deixando-nos boquiabertos com sua desenvoltura ao falar de ciência usando a sabedoria dos evangelhos.


Creio que o capítulo 4 do evangelho de Marcos, onde encontramos essa parábola, é o capítulo agronômico por excelência. Antes que você pense que estou sendo tendencioso por defender a classe agronômica, observe que, nessa seção das Escrituras, Jesus nos conta três parábolas sobre as sementes como metáforas do Reino.


O Dr. Kerr é um homem brilhante, mas também muito simples. Lembro-me com carinho de sua deferência ao vir fazer comentários sobre o trabalho científico que eu, um jovem e bem inexperiente estudante, apresentava. Apesar dele conhecer meu pai já havia algumas décadas, foi fácil reconhecer que sua atenção não se deveu a essa conexão, digamos, familiar.


Bastava ver como ele pacientemente visitava cada stand, e a maneira como ele falava com cada estudante como se fosse um companheiro de longa data na labuta científica. O saber não lhe havia subido à cabeça. Perguntava-me se poderia haver outra lição que ele poderia nos dar. E ele o fazia.

Era alguém que propunha questões instigantes, provocativas, ajudando-nos a ver aspectos da investigação que antes não havíamos nos dado conta. Ou seja, sua ajuda vinha mais através de suas perguntas e provocações do que através de receitas que pudesse nos dar.


Foi assim que esse professor universitário, um cientista bem respeitado em todo o mundo, levou-me a uma paixão por algumas parábolas das Escrituras.


Falo do professor, e de como me inspirou, talvez em uma singela homenagem, antes de compartilhar com vocês algumas breves reflexões sobre as sementes e o Reino, nessa série à qual nomeio “histórias agronômicas”. Até a próxima semana!


Foto: ©
Ready for Lecture? (Version 1)
Upload feito originalmente por wbelac

06 março 2008

Do outro lado do Atlântico

(Série Entrevistas – III)1

É 1992, num dia quente em Nairóbi, Quênia. Oito mil estudantes da Universidade de Nairóbi marcham em protesto contra um governo autoritário e corrupto. Logo adiante, um batalhão de soldados os espera, armas prontas para atirar. Poucos dias antes estudantes haviam tombado vítimas de suas balas. O momento do confronto se aproxima.

Antes, porém, um grupo de estudantes se adianta de mãos dadas e interpõe-se entre seus companheiros e a tropa. Um deles caminha a passos firmes em direção ao pelotão e começa a negociar. Ele assume a responsabilidade por uma manifestação pacífica caso os policiais recuem. Seguem alguns momentos tensos e ao fim o batalhão recua. O jovem estudante então volta e persuade seus colegas a que façam um protesto não-violento.

Iniciativa e coragem, evitando outra tragédia. Duncam Olumbe, àquela época um dos estudantes cristãos que avançou de mãos dadas e o responsável pela negociação, nos relata sua história de lutas em seu envolvimento com o FOCUS, o movimento estudantil cristão equivalente à ABUB (Aliança Bíblica Universitária) no Quênia. "Nós decidimos ser uma voz para os estudantes, nos envolvendo e trazendo-lhes bom senso."

Após episódios como esse e depois de formado, Duncan teve fortes razões para continuar se dedicando ao ministério estudantil, já que conheceu a Cristo através da União Secundarista Cristã, o ramo desse movimento que atua a partir do ensino médio no Quênia. Quando ele entrou na Universidade de Nairóbi, foi natural o seu envolvimento com o ministério do FOCUS e, depois de sua graduação, tornou-se assessor do movimento. "Eu realmente desfrutei estar no 'front': pregando, visitando, trazendo-lhes questões, orientando os grupos pequenos e envolvido no ministério um a um".

Seiscentos estudantes cristãos (isso mesmo, 600!!!) faziam parte do grupo na faculdade onde Duncan mais atuava como assessor. Que desafio! Talvez não muito para Duncan. Por quê? "Eles não precisam de muito encorajamento. Eles têm a iniciativa para fazer o que precisa ser feito e são bastante dedicados na tarefa de compartilhar o evangelho com outros estudantes".

Nem tudo são flores. Os estudantes sofrem por causa da corrupção, hostilidade entre as tribos e o aumento da incidência da AIDS. "Nós precisamos ajudar os estudantes para que sejam capazes de permanecer firmes contra a corrupção. Precisamos ajudar estudantes de diferentes tribos a se relacionarem melhor. Com relação ao problema da AIDS, precisamos ajudar os estudantes do grupo a perceberem que eles têm um papel importante a desempenhar na ajuda a seus colegas com AIDS, no acolhimento, aconselhamento, no testemunho e cuidando-os em todas as suas necessidades".

Os estudantes muçulmanos estão crescendo em número, “agora em cada
campus há uma mesquita, ou pelo menos um lugar para adoração”. No começo, os estudantes cristãos abordavam os muçulmanos de uma maneira inadequada. “Eles diziam ‘Alá não é Deus’, ‘Maomé está morto’. No mínimo, não eram sábios, porque os muçulmanos sentiam que haviam sido profundamente desrespeitados pelos cristãos”.

O bom foi que os estudantes não tiveram medo de reconhecer os seus erros, procurando melhores meios para compartilhar o evangelho. “Nós começamos um grupo de interesse sobre o Islã. Nós orávamos, líamos a respeito do que criam e aprendíamos a dialogar com os muçulmanos”.

O último desafio que Duncan compartilhou conosco tem a ver com os estudantes na sua vida pós-universidade. “O problema é: nós temos um número enorme de cristãos comprometidos nos grupos. Mas quando eles se formam, o efeito na sociedade é muito pequeno. A questão é como ajudá-los a se tornarem maduros em Cristo, de tal forma que quando eles entram na sociedade como profissionais, se tornam de maneira evidente sal para o mundo".


Vocês acham que isso também vale para a nossa realidade? Vozes e ações se levantam do outro lado do Atlântico, com suas lutas e vitórias, para nos estimular e nos ensinar em nossa missão tupiniquim.

1 Esse artigo foi escrito por ocasião de uma entrevista que fiz com meu amigo Duncam Olumbe, em 1997, quando ambos estudávamos no All Nations Christian College. Duncam adorava não ter que marcar hora para bater na porta de seus amigos brasileiros para uma boa conversa e café.

Foto: Peter Kozikowski - Copyright © 2008 TrekEarth

27 fevereiro 2008

Escravidão, Wilberforce e a carta do velhinho Wesley



Ainda não vi o filme “Amazing Grace”,* que retrata a luta de William Wilberforce contra o tráfico de escravos e depois contra o fim da própria escravidão no império britânico dos séculos XVIII e XIX.

Wilberforce, então um jovem membro do parlamento inglês, converteu-se através da pregação de John Newton. Esse, antes de se tornar pastor e autor do famoso hino que leva o nome desse filme (“Maravilhosa Graça”) após uma dramática conversão, havia dedicado boa parte de sua vida ao vil comércio de escravos.

Newton era um admirador de John Wesley, aquele que liderou um avivamento espiritual com profundas marcas de inovação e engajamento social na Inglaterra da época. Foi Wesley quem, aos 87 anos de vida, escreveu ao jovem de 31 William Wilberforce o que seria a última carta de sua vida.

Ela ficou lavrada no diário de Wesley, no dia 23 de fevereiro de 1791, pouco antes de sua morte. Ele tinha acabado de ler um livro ("Gustavus Vasa") sobre um antigo escravo de Barbados. Inspirou-se então a escrever uma palavra de encorajamento ao jovem recém-convertido William, que nesse momento estava tentado a abandonar a vida pública em troca de uma vida mais contemplativa (Mt. 17:4). Wesley o exortou assim:

“Caro senhor, a não ser que o poder divino o tenha alçado para ser um Atanásio contra mundum, não posso ver como poderá terminar Sua gloriosa empresa, opondo-se àquela execrável vilania, que é o escândalo da religião, da Inglaterra e da natureza humana. A não ser que Deus o tenha verdadeiramente erguido a essa obra, o senhor será consumido pela oposição dos homens e dos demônios. Mas se Deus for pelo senhor, quem lhe será contra? São eles todos juntos mais fortes que Deus? Não se canse de fazer o bem. Continue, em nome de Deus, e com a força do seu poder, até que a escravidão americana, a mais vil que já houve sob o sol, se desvaneça diante desse poder.
Lendo esta manhã um tratado escrito por um homem africano, me impressionou muito a circunstância de o homem com a pele escura ser maltratado pelo homem branco e não ter o direito a reclamar justiça, uma vez que há uma lei em todas as nossas colônias afirmando que o juramento de um negro contra o de um branco de nada vale. Que vilania é essa!
Que Aquele que lhe tem guiado desde sua juventude continue fortalecendo-lhe nessa e em todas as coisas. Essa é a oração de seu afetuoso servidor, John Wesley”

Dezessete anos depois dessa carta, Wilberforce viu, não sem lutas e muitas derrotas, seu projeto de lei contra o tráfico de escravos ser aprovado. E somente 42 anos depois, em 1833, três dias antes de morrer, escutou a noticia que vinha do Parlamento acerca da aprovação de seu projeto de lei que abolia a escravidão.

Na luta prévia a essa vitória, anos antes, Wesley havia enviado outra carta a Samuel Hoare, líder metodista nos EUA, dizendo:

“São pequenos passos contra essa terrível abominação. (...) Sem dúvida, vocês terão oposição forte e violenta, pois os donos de escravos são um grupo numeroso, rico e, portanto, poderoso. E quando o negócio deles está em perigo, não estão vocês tocando na menina de seus olhos?”

Fico me perguntando como anda a nossa coragem para identificar e enfrentar os poderosos e suas meninas dos olhos de nosso tempo. Pode ser que esse filme não seja uma obra-prima*, ou mesmo que contenha suas incorreções históricas, mas espero que sirva a mim e a muitos outros como alerta e inspiração, assim como deve ter sido a carta do bom velhinho Wesley.

Foto: ©
Flora's profile
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* Update: vi o filme, muito bom, e já o utilizamos em algumas discussões em grupo. Vale a pena!

Veja um clipe do filme “Amazing Grace”:

11 dezembro 2007

Que língua eu devo aprender?




O povo caminhava em silêncio pelas ruas calçadas de pedras desniveladas da pequena Araguari, no interior de Minas Gerais. Chefiando a procissão, o padre da cidade proferia incompreensíveis palavras em latim. Um senhor bem vestido, forasteiro na cidade, aproximou-se e começou a caminhar logo após o padre, entre esse e a multidão. Para cada frase pronunciada, o estranho anunciava sua tradução em português, para espanto e deleite dos moradores da pequena cidade outrora chamada Brejo Alegre.

Ao fim da cerimônia, cada um foi tomando seu rumo de volta às suas casas. Um casal se deteve. Buscaram então aquela misteriosa e culta figura. Encontraram-no e após uma rápida conversa decidiram estudar juntos a Bíblia.

Assim a religiosidade exterior e superficial se transformou em uma fé compreensível, através da Palavra lida e estudada em sua própria língua. Eram os primeiros anos do século XX quando se deu a descoberta da Bíblia pelo jovem casal. Eram os avós de um amigo pessoal que hoje, na terceira geração de evangélicos de sua família, exerce o ministério pastoral.

Aquele viajante hábil nas línguas era Salomão Ginsburg, um judeu nascido onde hoje é a Polônia, convertido à fé cristã ainda moço, e que decidiu vir ao Brasil através do convite da pioneira da evangelização no Brasil, Sarah Poulton Kalley, viúva do médico missionário Dr. Robert Kalley.

Salomão despertou algumas polêmicas em sua época, por sua insistência com os cultos ao ar livre e em seu incentivo para que as mulheres assumissem integralmente seus dons no ministério da igreja e na obra da evangelização. Olhe que essa “briga” foi comprada aí por volta de 1890!

Interessante ou triste perceber que foi seu impulso às mulheres crentes que lhe rendeu, ao menos oficialmente, o rompimento com a Igreja Evangélica Fluminense, pioneira da evangelização em português no Brasil, que o havia acolhido e depois o enviado em missão ao Recife.

Mais tarde esse colportor e evangelista apaixonado se uniu ao ministério dos batistas, e foi assim que exerceu seus dons lingüísticos e de evangelista pouco convencional em terras mineiras e em outros grotões desse Brasil.

Ginsburg trabalhou tanto em grandes centros urbanos como em pequenos povoados. Parece que em países como Brasil ou Uruguai (de onde esse vosso servidor lhes escreve) os problemas sociais pungentes e desagregadores da vida social da metrópole se mesclam com a realidade de pequenas cidades interioranas onde os efeitos da modernização teimam em chegar e a afetar significativamente a vida das pessoas.

Nesse cenário, o povo chamado cristão tem buscado novos métodos em sua arte evangelizadora. Há o crescente uso de mídia, quer seja através das "velhas" TV e rádio, como também na "nova" Internet. "Criativos" novos materiais são impressos. Quem sabe faz, e mostra seu talento em apresentações artísticas, na música, dança ou teatro.

Mas eu me pergunto se muitas vezes uma aparente variedade não oculta uma linguagem hermética, voltada para dentro, em que apenas aqueles que são do “gueto evangélico”, familiarizados com essa sub-cultura, entendem e apreciam. Parece que não se consegue romper muitas barreiras nessa “comunicação”.

Fica pendente o desafio de redescobrir nessa tarefa a prática dos relacionamentos pessoais, da amizade, do ouvido atento, do se dispor a caminhar junto com as pessoas, mesmo ou principalmente as mais improváveis de se converterem ao evangelho de Jesus. Talvez seja essencialmente para essas pessoas à margem e além, fora dos padrões evangélicos, amarradas em vícios, solidão, idolatrias, estilos de vida auto-destrutivos, aprisionadas ao dinheiro ou esmagadas pela falta dele, fechadas em diversas tribos urbanas ou em suas mentalidades provincianas, a quem o evangelho deva ser compartilhado uma vez mais, mas agora de uma maneira que ao menos o entendam…

Que língua eu preciso aprender, como Ginsburg fez com o latim, para ser apaixonado, eficiente, sensível e integral em comunicar e viver essas verdades?

(essa é uma versão revisada de um artigo que escrevi, publicado na Revista Evangelizar, edição 9, novembro de 2006, da AMME)


Foto:
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Alguns direitos reservados.
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07 dezembro 2007

John Wesley e a louça do Escobar



A pia engordurada servia de plataforma de onde se erigia a pilha de louça suja. Queria fugir, mas não dava, havia chegado o meu turno. Para minha surpresa, um senhor chegou ao meu lado e ofereceu-se para enfrentar essa batalha comigo. Era Samuel Escobar.

Já se vão 15 anos desse encontro. Eu, um imberbe (tudo bem, sigo assim…) candidato a engenheiro em seu último ano na universidade. Ao meu lado, o Samuel, esse renomado teólogo peruano, que por anos têm nos ajudado a abraçar o evangelho de maneira integral.

A hostil louça se transformou em uma longa e prazerosa tarefa enquanto viajávamos pelo tema principal de nossa conversa: a vida e a obra de John Wesley.

Eu vinha com a minha empolgação juvenil de quem havia lido na adolescência os diários e os sermões de Wesley. Fui motivado pela pura curiosidade de conhecer aquele que foi inspiração para um sonho que minha mãe teve na noite de meu nascimento, e que levou meus pais a incluírem Wesley em meu nome. Do outro lado, Escobar aportava com sua bem embasada reflexão acadêmica, lastreada por sua vasta experiência no campo da teologia da missão.

Entre uma panela vencida e a próxima, Escobar irrompeu com algo que não me esqueci em todos esses anos: “Em um contexto como o nosso, na América Latina, precisamos muito estudar o que aconteceu no avivamento que houve na Inglaterra do século XVIII, com os irmãos Wesley. Talvez esse seja o modelo na história da igreja com as lições mais preciosas para nosso contexto latino-americano. Precisamos fazer pontes com o que aconteceu ‘lá e então’ com o que vivemos hoje, nos desafios para a missão em nossa realidade.”

Aquilo foi um sopro de ânimo para que eu voltasse a refletir sobre aquelee momento da história da igreja cristã. Ao longo dos anos após aquela conversa, engendrei uma busca por livros que narrassem aqueles acontecimentos e outros que buscassem refletir e articular as lições acerca daquele movimento.

Confesso que encontrei material de todo tipo. Biografias que endeusavam o homem, e outras que o caracterizavam como um apóstata e herege. Mas também vi material equilibrado, mais honesto e humano acerca da pessoa de Wesley e daquele momento da história.

Acredito que o livro de Stephen Tomkins, “John Wesley, A Biography”, esteja nessa última categoria. Ele apresenta Wesley como uma figura vívida, especial, mas também bastante humano e polêmico.

Recomendo-a como uma leitura bem interessante e acessível para se aproximar dessa figura e do que aconteceu na história da Inglaterra naquele período.

As lições podem ser distintas, as opiniões também, mas não há como ficar indiferente a um personagem radical como Wesley ou a um movimento que levou o evangelho para fora das portas dos templos, que teve um forte ardor missionário, que juntou a mística do poder do Espírito com um profundo engajamento social, que valorizou o ministério dos leigos e das mulheres, que produziu uma hinologia que influenciou geração após geração e que provocou transformações profundas nas pessoas e nas sociedades em ondas de impacto sentidas ainda hoje.

Diversos grupos cristãos que conhecemos reconhecem sua identidade e suas raízes a partir do que aconteceu naqueles dias. Na verdade, muitos se identificam com essa herança sem conhecer de perto e com intimidade o que aconteceu na história do chamado avivamento metodista. O livro de Tomkins é bem-vindo para ajudar a suprir essa lacuna. Espero que logo apareça uma edição em Português!

Foto: © Hanna Leppänen -
Dirty dishes
Upload feito originalmente por m0nni

23 novembro 2007

Precisamos de heróis, Roberto

Logo estacionamos em frente à sua casa. Obviamente eu estava ansioso, e grato pela oportunidade de conhecer a Roberto. Fomos com um grupo de estudantes, graças a uma impagável gentileza de nosso anfitrião.

Trinta e cinco anos atrás, esse simpático médico cardiologista foi um dos sobreviventes do avião bimotor Fairchild F-227 da Força Aérea Uruguaia que caiu no meio dos Andes. O filme "Vivos" de Frank Marshall (1993) retomou um interesse pela história, que ainda fascina 35 anos depois do ocorrido.

Eram 45 ao todo, em sua maioria jovens jogadores de rugby do Old Christians Club. Morreram 16 no dia do acidente. Outros tantos não resistiram os ferimentos, a fome, o frio e as avalanches. Foram 16 os que sobreviveram aos 72 dias de isolamento na montanha.

Depois de ouvirem pelo rádio que as buscas haviam se encerrado, e depois de várias tentativas de escapar da prisão de gelo, três deles partiram para o que seria a derradeira missão em busca de ajuda. Um deles regressou ao acampamento e Roberto Canessa foi um dos dois que seguiu adiante. Após 10 dias de extenuante jornada encontraram o tropeiro chileno que os levou de volta à civilização.

Entramos, nos sentamos em silêncio, meio constrangidos. Na estante uma foto dos sobreviventes na neve. Na poltrona, sentada à minha frente estava sua velha mãe, atenta à história que seu filho contava pela enésima vez.

Roberto foi nos desvelando algo do drama com uma honestidade e simplicidade que me surpreenderam. Tomei coragem e lhe perguntei qual havia sido o momento mais difícil. Rápido devolveu “ah, foi depois do deslizamento”, fazendo menção à avalanche que os atingiu 16 dias depois do acidente. Mais oito companheiros morreram nesse dia. Parecia que qualquer esperança se esvaíra junto.

Queria lhe perguntar também qual havia sido seu momento de maior esperança, mas hesitei e não consegui. Na verdade, a pergunta se tornou desnecessária. Quando ele nos relatava as agruras da fuga das montanhas, contou-nos como foi do cansaço e desespero a uma experiência de renascimento da fé. Numa noite, ao entrar em seu saco de dormir, costurado com o isolante térmico da fuselagem do avião, viu uma lua gigantesca surgir por detrás da montanha. Também identificou as Três Marias. E pensou, “isso é o mesmo que vejo em casa, a casa onde eu quero chegar e para chegar lá eu preciso continuar nesse caminho”.

Suas muitas menções a Deus provocaram a pergunta de uma estudante, “se você não cresse em Deus, pensa que teria sobrevivido?”. “Não sei, pergunte isso a Ele. Quanto a mim, penso que não crer em Deus é um ato de grande soberba”.

Hora de ir. No jardim, ele me diz “incrível como essa história chama tanto a atenção”. Precisamos de heróis, Roberto. Hoje quisemos que você cumprisse esse papel. Vou embora pensando se talvez não devêssemos lhe pedir desculpas por isso.

Foto: © Copyright Viven 2007

08 novembro 2007

Parabéns, do Mario

Foi um encontro inesperado. Justo naquele dia em que celebro a certeza dos anos que já passaram e o incerto dos que virão.

Ele moveu-se ligeiro da esquina da estante direto ao sofá da sala. Resolvi papear. Na verdade, mais ouvir do que falar.

Em uma tacada ele me disse, “Feliz Aniversário”. Levantei os olhos incrédulo. Como ele sabia?

Mario é desses personagens controversos e apaixonantes. Criticado por seus vínculos com a esquerda radical (qual esquerda de verdade não o é, para o bem e para o mal?), sempre foi habilidoso como poucos, bem poucos, com a pena na mão. Digo “pena”, confesso a malvadez, por causa de seu longo percurso.

Quatro anos depois que a I Guerra Mundial acabara (não faça as contas, que é deselegante, o Mario pode se chatear) nascia o homem em Paso de los Toros, Uruguai. Lido e apreciado pela juventude de numerosos rincões. Viveu 60 anos com o amor de sua vida, Luz López Alegre, que partiu não faz muito. Não quero parecer desrespeitoso, mas como poderiam ser infelizes no matrimônio com esse nome?

Deixemos atrás o devanear e voltemos à sala, cenário do colóquio. O Mario, ao me felicitar, foi desusado e me falou da morte. Logo hoje? Narrou-me seus dilemas, angústias, suas indagações sem resposta.

Ao fim, depois daquela pausa que os poetas sabem fazer (às vezes eu tento arremedar, mas fica apenas parecendo que observo a sujeira da parede, que cochilei ou engasguei…), concluiu que ao menos sente algum consolo em seguir perguntando.

Eu me calei. Razão simples. Se eu não conseguir ouvir as perguntas que ele me faz (boas questões formula o tipo) nunca poderei ambicionar qualquer resposta.

Sabe dar bom presentes esse Mario. Veja o que ele me regalou.

Happy Birthday

¿Cómo será el mundo cuando no pueda yo mirarlo
ni escucharlo ni tocarlo ni olerlo ni gustarlo?
¿cómo serán los demás sin este servidor?
¿o existirán tal como yo existo
sin los demás que se me fueron?
sin embargo
¿por qué algunos de éstos son una foto en sepia
y otros una nube en los ojos
y otros la mano de mi brazo?
¿cómo seremos todos sin nosotros?
¿qué color qué ruidos qué piel suave qué sabor
qué aroma
tendrá el ben(mal)dito mundo?
¿qué sentido tendrá llegar a ser protagonista del
silencio?
¿vanguardia del olvido?
¿qué será del amor y el sol de las once
y el crepúsculo triste sin causa valedera?
¿o acaso estas preguntas son las mismas
cada vez que alguien llegue a los sesenta?

ya sabemos cómo es sin las respuestas
mas ¿cómo será el mundo sin las preguntas?

Happy Birthday em Inventario Uno, Editorial Sudamericana, © 1995 Mario Benedetti
Agarrei o livro do Mario e me deparei súbito com esse poema, logo quando celebrava meu natalício.

(Foto: do Mario, claro - © Copyright 1996-2000 Clarin.com)