Eu sei, o título é pretensioso, evoca o clássico do guru C. S. Lewis, mas bateu aquela vontade de homenageá-lo nesse exercício que traz mais perguntas que respostas. Algo que o autor do mundo de Nárnia fazia como ninguém. Vamos a elas, às perguntas?
O que seria a apologética, em especial com relação à Palavra de Deus? Do que exatamente estamos falando quando usamos essa palavra?
Na história da igreja cristã já vimos diferentes aproximações à pergunta sobre como alguém chega a crer. Houve aqueles que defenderam que é necessário “compreender para crer”, outros que defenderam o paradigma de que é preciso “crer para entender”, e movimentos mais contemporâneos que defendem que é preciso “pertencer para crer”, em uma alusão à importância do sentir-se parte de uma comunidade no caminho da fé, antes mesmo de abraçá-la.
Quem tem a razão? Possivelmente cada uma das abordagens traz suas verdades, suas fortalezas, mas também suas debilidades. Assim talvez o melhor caminho seja a sensibilidade para entender que há diferentes pessoas, diferentes gerações e culturas, reconhecendo que as rotas que traçamos nos mapas da apologética podem ser variadas.
Bem, havendo usado a palavra apologética já três vezes nesse texto (ops, quatro…) digamos que ela merece uma tentativa de definição. Aqui vai uma comumente usada:
Apologética é a ciência da defesa da fé. Tudo bem, reconheço que a palavra “ciência” aí atrás já condiciona o conceito, como se o mais importante fosse o método científico, razoável, plausível, de apresentar a fé. E, claro, a outra palavrinha, “defesa”, nos complica mais ainda. Ela nos põe na defensiva, como aquela criança pega no pulo e que tenta se explicar. Se defesa nos transmite a ideia de que a fé é culpada de algo e tem que se justificar, então busquemos outra definição.
O tal do Lewis costumava fazer algo que era bacana. Ele dizia que uma coisa não era outra coisa, ou que não era um conjunto de outras coisas, só para no final dizer então do que em verdade se tratava essa coisa. Captou?
Por exemplo, apologética não é evangelismo, porque evangelizar é compartilhar uma boa notícia, com conteúdo, começo, meio e fim, apresentar e propor uma mensagem, de preferência dessas que explicam tudo, ou quase tudo, o que alguns chamam de metanarrativa. Bem, não se complique muito com essa última palavra.
Mas se você gostou, anote aí, apologética também não é metanarrativa, porque não procura dar uma explicação ampla sobre todas as coisas, como se fosse algo definitivo, acabado, com todas as respostas. Seria ambição demais para ela, lembre-se, ela deve ser “pura e simples”.
Apologética também não é confrontação, ameaça, nem argumentos para ganhar discussão. Tampouco é tergiversar, que é aquele negócio de distorcer o que o outro acredita só para parecer mais ridículo e assim desacreditar mais facilmente a posição do outro.
Se não é isso ou aquilo, o que seria? Aqui segue uma simples aproximação: apologética é limpar o caminho, sacar os obstáculos, lavar as lentes dos óculos, tirar a cera do ouvido, remover os preconceitos e convidar a um encontro honesto e genuíno.
Para o propósito específico desse artigo, que é o da apologética relacionada à Palavra de Deus, sugiro alguns passos para que ela seja saudável, pura e simples:
1. Escutar – Quais são as percepções que as pessoas têm a respeito dos textos das Escrituras? Antes de propor algo, busque sondar o que creem, se creem em algo, como creem. Veja se já leram algo, como leram, com que lentes. Que perguntas elas tem? Essa será uma importante etapa para chegar ao próximo passo.
2. Fazer perguntas – Comece com as perguntas que as pessoas, em especial seus amigos não cristãos, fazem ao texto. Às vezes são questões que os impedem de chegar ao texto, outras vezes são perguntas que levantam quando leem o texto. Que elas venham! Se forem prévias ao texto, por exemplo ao não acreditar nas intenções de quem escreveu, busque devolver as perguntas, com sensibilidade e respeito. Por quê? Seria mesmo tudo montado? Como você vê o texto? Certa vez recordo que um amigo da universidade disse que havia muita coisa “inventada”, “adicionada”. Eu lhe perguntei “quanto por cento?”. Depois de me olhar meio estranho, disse “sei lá, pelo menos uns 30% deve ser adição feita tempos depois”. Devolvi, “estou satisfeito com 70%, vamos ler juntos?”. Aí há um ponto de partida, um começo, que é onde a pessoa está e não onde eu gostaria que ela estivesse.
3. Construir pontes – A razão tem lugar? É razoável supor que sim. A emoção também? Intuo que esta também tenha o seu lugar. E se há objeções pessoais, morais, da história de vida de alguém que a impede ou de chegar à Palavra ou de aplicar em sua vida uma verdade aí descoberta? É preciso saber construir essas pontes, limpar o caminho, ajudar a que se deem esses encontros pessoais, no estilo de cada um, com a Palavra e o Espírito que a inspirou. Nossas opiniões, interpretações ou pregações não substituem a beleza e o poder desse encontro pessoal de cada um com o Senhor através da Palavra.
4. Construir relações – Aprendi desde cedo na ABU que a Palavra também se lê e se entende em comunidade, que não é algo acessível só aos eruditos. Que ela também se lê em relação aos contextos (de quando foi escrita e os de agora), em um processo onde a realidade traz perguntas à Palavra e por sua vez as Escrituras também desafiam a realidade. É um ir e vir dinâmico, onde a comunidade é essencial porque vamos entendendo e obedecendo juntos. Apologética relacionada à Palavra é também “ler junto com” o outro.
5. Deixar a Palavra falar – Um grande perigo é achar que já sabe o que a Palavra irá dizer sobre qualquer assunto. O alerta serve para crentes e não crentes. Como saber se estou caindo nessa armadilha? Um bom indicativo é checar se você sempre está buscando no texto os argumentos que reforçam aquela sua posição já consolidada sobre algum tema. E um bom sinal positivo é se você fica encucado com um texto, se ele te desafia, se te provoca a pensar mais, a orar mais, a ver junto com outros na comunidade se é necessário rever uma postura que talvez seja mais fruto da tradição do que uma desafiadora verdade descoberta na Palavra.
Cinco sugestões sem muitos devaneios e argumentações que espero nos ajudem a entender os caminhos dessa tal apologética pura e simples.
Obs: texto originalmente publicado em "Entre Nós", uma publicação da ABUB.
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03 julho 2012
31 julho 2009
A verdade nua e crua
50 cm e 3,540 Kg. Assim, direto ao ponto e com riqueza técnica recebi ontem uma chamada anunciando o nascimento de meu sobrinho.
Isso me fez pensar por que nos fascinamos com certo tipo de informação e não com outro? Por que me interessa saber quão grande nasceu o rebento (com implicações diretas para a dor da feliz mãe) e não perguntamos, por exemplo, se ele é bonito como um ou inteligente como o outro (falando dos progenitores, é claro, e deixando com os mesmos a disputa por um ou outro atributo...).
A verdade, nua e crua, é que outros detalhes são menos prazerosos e um tanto incômodos: a usual cara amassada, o choro, a dor da mãe, o cansaço do pai (ou a vergonha por ter desmaiado na sala de parto), etc.
Mas não devemos perguntar sobre o que é incômodo, ou devemos? Lembro-me dessa metáfora que Kierkegaard usou para referir-se ao que seria um evangelista. Seria aquele que fica escondido por detrás de um arbusto, e quando o transeunte passa, sai de onde está, lhe dá um pontapé no traseiro, e volta a esconder-se. O caminhante se vira, não entende o que lhe passou, e segue o seu caminho.
Mas agora sua caminhada será diferente. Estará pensativo, intrigado, tentando imaginar o que pode haver passado. Há algo mais que ele não entende, não sabe a resposta, e isso o faz questionar-se, sair de suas próprias certezas. Andará mais desconfiado e atento. Alguém o incomodou em seu mundo sólido e seguro.
Quando dou aulas sobre evangelismo, animo os alunos a seguir a metáfora do dinamarquês. Saiam e dêem seus pequenos pontapés! “O cara me disse que os crentes são pobres”. “Claro, diz pra ele que somos todos pobres, eu, você, ele, todo mundo! Ou ele acha que é algum tipo de faraó que levará pro além dinheiro, servos e concubinas?” Se digo pra alguém que somente quando reconheço minha pobreza absoluta posso então encontrar a riqueza verdadeira, esse é um bom cutucão em seu orgulhoso traseiro.
“Ah, esses religiosos abraçam sua fé como uma tábua de salvação, são uns fracos!” “Claro, e eu racionalmente te explico que você abraça a tábua de sua razão como uma bóia e ídolo, sem admitir sua idolatria, enquanto eu reconheço que abraço minha fé, aceitando que ela é razoável, mas que também é baseada em uma revelação que vai além do racional. Se respeitosamente assentimos que cada um tem a sua bóia, então podemos conversar aberta e honestamente sobre onde encontramos a que cada um leva debaixo de seu braço e aonde esperamos chegar com elas”. E antes que eu me esqueça, foi o mesmo Kierkegaard quem disse que somos todos fracos, que há só um que é “o forte”. Mas volto a esse ponto em outro momento.
Como foi que saímos de um bebê e fomos parar em pontapés filosóficos nos traseiros alheios? Acho que o nexo foi esse de aprender a cortesmente incomodar o outro sobre as verdades mais profundas e importantes da vida, certamente um bom e saudável exercício.
Concluindo, devo dizer, a crua verdade é que o garoto de fato nasceu bonito! Teria puxado o tio? Não, melhor deixar essa ilusão vaidosa, antes que me dêm um pontapé...
Foto: © Life seems harder than we think
Upload feito originalmente por Alexandre Bertin
Isso me fez pensar por que nos fascinamos com certo tipo de informação e não com outro? Por que me interessa saber quão grande nasceu o rebento (com implicações diretas para a dor da feliz mãe) e não perguntamos, por exemplo, se ele é bonito como um ou inteligente como o outro (falando dos progenitores, é claro, e deixando com os mesmos a disputa por um ou outro atributo...).
A verdade, nua e crua, é que outros detalhes são menos prazerosos e um tanto incômodos: a usual cara amassada, o choro, a dor da mãe, o cansaço do pai (ou a vergonha por ter desmaiado na sala de parto), etc.
Mas não devemos perguntar sobre o que é incômodo, ou devemos? Lembro-me dessa metáfora que Kierkegaard usou para referir-se ao que seria um evangelista. Seria aquele que fica escondido por detrás de um arbusto, e quando o transeunte passa, sai de onde está, lhe dá um pontapé no traseiro, e volta a esconder-se. O caminhante se vira, não entende o que lhe passou, e segue o seu caminho.
Mas agora sua caminhada será diferente. Estará pensativo, intrigado, tentando imaginar o que pode haver passado. Há algo mais que ele não entende, não sabe a resposta, e isso o faz questionar-se, sair de suas próprias certezas. Andará mais desconfiado e atento. Alguém o incomodou em seu mundo sólido e seguro.
Quando dou aulas sobre evangelismo, animo os alunos a seguir a metáfora do dinamarquês. Saiam e dêem seus pequenos pontapés! “O cara me disse que os crentes são pobres”. “Claro, diz pra ele que somos todos pobres, eu, você, ele, todo mundo! Ou ele acha que é algum tipo de faraó que levará pro além dinheiro, servos e concubinas?” Se digo pra alguém que somente quando reconheço minha pobreza absoluta posso então encontrar a riqueza verdadeira, esse é um bom cutucão em seu orgulhoso traseiro.
“Ah, esses religiosos abraçam sua fé como uma tábua de salvação, são uns fracos!” “Claro, e eu racionalmente te explico que você abraça a tábua de sua razão como uma bóia e ídolo, sem admitir sua idolatria, enquanto eu reconheço que abraço minha fé, aceitando que ela é razoável, mas que também é baseada em uma revelação que vai além do racional. Se respeitosamente assentimos que cada um tem a sua bóia, então podemos conversar aberta e honestamente sobre onde encontramos a que cada um leva debaixo de seu braço e aonde esperamos chegar com elas”. E antes que eu me esqueça, foi o mesmo Kierkegaard quem disse que somos todos fracos, que há só um que é “o forte”. Mas volto a esse ponto em outro momento.
Como foi que saímos de um bebê e fomos parar em pontapés filosóficos nos traseiros alheios? Acho que o nexo foi esse de aprender a cortesmente incomodar o outro sobre as verdades mais profundas e importantes da vida, certamente um bom e saudável exercício.
Concluindo, devo dizer, a crua verdade é que o garoto de fato nasceu bonito! Teria puxado o tio? Não, melhor deixar essa ilusão vaidosa, antes que me dêm um pontapé...
Foto: © Life seems harder than we think
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29 abril 2009
Uma deusa, intelectuais e um manual
Não sou economista, nem adivinho o futuro, mas confesso que gostaria de viver em um mundo melhor, para mim, para minhas filhas, e para os outros bilhões de pessoas como a gente que dividem a vida nesse planeta.
Também confesso que fico encasquetado com os mitos e dogmas em volta da deusa que comanda tudo ao redor nosso, e que parece ditar se meu desejo pode ou não tornar-se realidade: a poderosa deusa Economia.
Foi assim, entre desencantado e incrédulo que li a notícia da euforia (possivelmente passageira) que tomou hoje o mundo financeiro com os dados que apontam uma retomada do consumo entre cidadãos norte-americanos.
A lógica é bastante simples. Ou pelo menos parece ser. Com mais consumo (vida breve aos poupadores!), mais demanda de produtos, mais emprego para todos (bem, na verdade não todos, porque, segundo a tal deusa, é adequado ao sistema que haja um percentual da força de trabalho assim, digamos, fora do sistema, mas vendendo sua alma para entrar...).
A riqueza produzida cresce e todos ficam felizes. É claro que há um grupo seleto que fica mais contente, aqueles que conseguem receber e concentrar parte substancial dessa riqueza. Alguns até poderiam argumentar que mesmo o historiador marxista Hobsbawm já reconheceu algumas benesses da ideologia do neoliberalismo de mercado livre:
“Seu objetivo não era abolir a pobreza, ou redistribuir recursos e gerar justiça social; ainda assim, apesar de tantas injustiças como existem, até os pobres viram sua situação melhorar, ao ponto de aceitar o atual estado das coisas.”1 (ou seja, em uma humilde paráfrase: mais qualidade de vida para todos não necessariamente rima com justiça social).
O que ainda fico pensando é se devemos aceitar, entre tantos mitos que os profetas da deusa nos pregam todos os dias, que consumir desenfreadamente seria a solução. Ou se faz algum sentido desejar que os PIBs de cada nação do planeta continuem a crescer indefinidamente, em um ritmo insano de ganância e de expropriação do mundo em que vivemos.
Uma sugestão: leia a entrevista que saiu já há um tempo na que é a melhor revista que apareceu nos últimos tempos (Vida Simples). O entrevistado é o economista e filósofo francês Serge Latouche, falando sobre decrescimento sustentável. Pode soar loucura, idealista e não factível, mas me pergunto se as verdades mais sanas do mundo, como as do evangelho de Jesus, não parecem exatamente ser feitas desse mesmo componente tão utópico, mas tão profundamente real e necessário.
Também veja e compartilhe um manual bem interessante que orienta acerca de estilos de vidas saudáveis, baseados em padrões de consumo sustentáveis.2
Pode ser pouco, pode ser pequeno, mas já imaginou se muita gente começa a pensar e a agir diferente?
1 Entrevista sobre el siglo XXI, Eric J. Hobsbawm, Biblioteca de Bolsillo, Crítica, 2004, p. 110.
2 Agradeço a meu amigo Lissânder pela dica desse excelente material.
Foto: © Concentración
Upload feito originalmente por Pachakutik
Também confesso que fico encasquetado com os mitos e dogmas em volta da deusa que comanda tudo ao redor nosso, e que parece ditar se meu desejo pode ou não tornar-se realidade: a poderosa deusa Economia.
Foi assim, entre desencantado e incrédulo que li a notícia da euforia (possivelmente passageira) que tomou hoje o mundo financeiro com os dados que apontam uma retomada do consumo entre cidadãos norte-americanos.
A lógica é bastante simples. Ou pelo menos parece ser. Com mais consumo (vida breve aos poupadores!), mais demanda de produtos, mais emprego para todos (bem, na verdade não todos, porque, segundo a tal deusa, é adequado ao sistema que haja um percentual da força de trabalho assim, digamos, fora do sistema, mas vendendo sua alma para entrar...).
A riqueza produzida cresce e todos ficam felizes. É claro que há um grupo seleto que fica mais contente, aqueles que conseguem receber e concentrar parte substancial dessa riqueza. Alguns até poderiam argumentar que mesmo o historiador marxista Hobsbawm já reconheceu algumas benesses da ideologia do neoliberalismo de mercado livre:
“Seu objetivo não era abolir a pobreza, ou redistribuir recursos e gerar justiça social; ainda assim, apesar de tantas injustiças como existem, até os pobres viram sua situação melhorar, ao ponto de aceitar o atual estado das coisas.”1 (ou seja, em uma humilde paráfrase: mais qualidade de vida para todos não necessariamente rima com justiça social).
O que ainda fico pensando é se devemos aceitar, entre tantos mitos que os profetas da deusa nos pregam todos os dias, que consumir desenfreadamente seria a solução. Ou se faz algum sentido desejar que os PIBs de cada nação do planeta continuem a crescer indefinidamente, em um ritmo insano de ganância e de expropriação do mundo em que vivemos.
Uma sugestão: leia a entrevista que saiu já há um tempo na que é a melhor revista que apareceu nos últimos tempos (Vida Simples). O entrevistado é o economista e filósofo francês Serge Latouche, falando sobre decrescimento sustentável. Pode soar loucura, idealista e não factível, mas me pergunto se as verdades mais sanas do mundo, como as do evangelho de Jesus, não parecem exatamente ser feitas desse mesmo componente tão utópico, mas tão profundamente real e necessário.
Também veja e compartilhe um manual bem interessante que orienta acerca de estilos de vidas saudáveis, baseados em padrões de consumo sustentáveis.2
Pode ser pouco, pode ser pequeno, mas já imaginou se muita gente começa a pensar e a agir diferente?
1 Entrevista sobre el siglo XXI, Eric J. Hobsbawm, Biblioteca de Bolsillo, Crítica, 2004, p. 110.
2 Agradeço a meu amigo Lissânder pela dica desse excelente material.
Foto: © Concentración
Upload feito originalmente por Pachakutik
16 abril 2009
Sobre rótulos e ídolos
“Você é conservador?” Foi assim, na lata, que um aluno procurou arrancar de mim uma confissão. Voltávamos juntos no ônibus, depois daquela primeira aula. Uma vez que recém havíamos nos conhecido, quis sondar em que “time” eu jogava.
“Bem, depende do quê você está falando e do que você entende por essa palavra”, lhe devolvi em meio a um sorriso quase dissimulado.
Nesse dia voltei a pensar em nossa necessidade de definir de antemão quem são nossos interlocutores. Sobre esse desejo de conhecer de onde falam, a que tribo pertencem, e assim supostamente preparar-me para melhor escutá-los. Na verdade, para alguns, essa inclusive é a senha para escolher a quem eu dedicarei, ou não, meu precioso tempo.
Se já consigo adivinhar ou enquadrar a fulana em algum grupo, e se essa linha de pensamento em particular não me atrai, se me desgosta, então não a ouço, não a leio, ou ainda o faço mas com o objetivo de refutar-la desde minha cômoda e confortável posição já bem definida.
Outro dia tive uma grata surpresa ao ler um artigo de um excelente historiador uruguaio, Lincoln Maiztegui Casas. Tenho admirado a qualidade e o rigor de seus escritos, que vêm me apresentando uma faceta interessante da história política do Uruguai. Escreve bem, além de desfilar sua integridade intelectual.
Essa última foi mais uma vez atestada outro dia quando ele, que é rotulado como um autor mais à direita no espectro político, digamos que um “conservador”, nos regalou um breve e interessante artigo sobre a queda de um de seus “ídolos” (La irresistible caída de Paul Johnson) .
Ao revelar sua admiração pelo historiador britânico, mostrou-nos como ler bem e criticamente. Ao fazê-lo nos confessou sua descoberta. Seu herói veio ao chão. Não dava mais para tragar os equívocos ou os preconceitos desvelados por uma cuidadosa leitura. Bem-vinda lição de que a simpatia ou adesão a uma ideologia não devem quitar nosso juízo crítico.
Se me contento apenas com a primeira impressão, ou se aceito qualquer coisa apenas pela imagem e pelo nome de quem veio a opinião, caio em armadilhas causadas pela preguiça intelectual.
Então os rótulos são assim. Evitam que eu “leia” bem a vida e os aportes que o outro tem para me oferecer, para me desafiar. Por isso tenho que encontrar-me com aquilo que me incomoda, que me tira de minha posição cômoda, que me faz pensar e amadurecer naquilo que sou e em que creio.
Meu aluno ficou sem resposta. Por uma desventura, ou para minha felicidade, meu destino chegou logo depois daquela capciosa pergunta. Melhor assim. Através de seus olhos e de sua “leitura”, mais do que ele espero ganhar eu novas percepções de minha própria identidade, crescendo e amadurecendo, como na vida deve ser.
Foto: © Paris, 26/04/2008.
Upload feito originalmente por DPC★313
“Bem, depende do quê você está falando e do que você entende por essa palavra”, lhe devolvi em meio a um sorriso quase dissimulado.
Nesse dia voltei a pensar em nossa necessidade de definir de antemão quem são nossos interlocutores. Sobre esse desejo de conhecer de onde falam, a que tribo pertencem, e assim supostamente preparar-me para melhor escutá-los. Na verdade, para alguns, essa inclusive é a senha para escolher a quem eu dedicarei, ou não, meu precioso tempo.
Se já consigo adivinhar ou enquadrar a fulana em algum grupo, e se essa linha de pensamento em particular não me atrai, se me desgosta, então não a ouço, não a leio, ou ainda o faço mas com o objetivo de refutar-la desde minha cômoda e confortável posição já bem definida.
Outro dia tive uma grata surpresa ao ler um artigo de um excelente historiador uruguaio, Lincoln Maiztegui Casas. Tenho admirado a qualidade e o rigor de seus escritos, que vêm me apresentando uma faceta interessante da história política do Uruguai. Escreve bem, além de desfilar sua integridade intelectual.
Essa última foi mais uma vez atestada outro dia quando ele, que é rotulado como um autor mais à direita no espectro político, digamos que um “conservador”, nos regalou um breve e interessante artigo sobre a queda de um de seus “ídolos” (La irresistible caída de Paul Johnson) .
Ao revelar sua admiração pelo historiador britânico, mostrou-nos como ler bem e criticamente. Ao fazê-lo nos confessou sua descoberta. Seu herói veio ao chão. Não dava mais para tragar os equívocos ou os preconceitos desvelados por uma cuidadosa leitura. Bem-vinda lição de que a simpatia ou adesão a uma ideologia não devem quitar nosso juízo crítico.
Se me contento apenas com a primeira impressão, ou se aceito qualquer coisa apenas pela imagem e pelo nome de quem veio a opinião, caio em armadilhas causadas pela preguiça intelectual.
Então os rótulos são assim. Evitam que eu “leia” bem a vida e os aportes que o outro tem para me oferecer, para me desafiar. Por isso tenho que encontrar-me com aquilo que me incomoda, que me tira de minha posição cômoda, que me faz pensar e amadurecer naquilo que sou e em que creio.
Meu aluno ficou sem resposta. Por uma desventura, ou para minha felicidade, meu destino chegou logo depois daquela capciosa pergunta. Melhor assim. Através de seus olhos e de sua “leitura”, mais do que ele espero ganhar eu novas percepções de minha própria identidade, crescendo e amadurecendo, como na vida deve ser.
Foto: © Paris, 26/04/2008.
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20 novembro 2007
Visões laicas
Você já deve saber que o Uruguai é um país laico. O que muitos não sabem é que esse é um processo que remonta à gênese da identidade do país, no final do século XIX e início do século XX.
Essa gestação da identidade nacional ocorreu não sem tensões e lutas, na administração de cemitérios e hospitais, na educação e registro civil, na formação das leis do país (uma lei aprovando o divórcio, considerando a vontade da mulher ao pedí-lo, data de 1907!) e em confrontações públicas, às vezes hilárias, se não fossem desrespeitosas...
Na década de 20 do século passado, anúncios colocados nos principais jornais do país convidavam a população a churrascos grátis, ao ar livre. O detalhe geográfico e temporal impressiona. A carne era assada na praça em frente à catedral, justo na sexta-feira santa. A fumaça da gordura racionalista da época penetrava nos vãos do templo barroco e enlouquecia igualmente a clérigos e ovelhas (aquelas ironicamente chamadas pela igreja de “leigos”, do latim laicu, numa triste e irônica coincidência…ou não…).
Atrás das churrasqueiras estava uma elite intelectual e política que bebeu em sua formação do liberalismo e positivismo francês, além da maçonaria, e que estava em aberta luta contra o poder da Igreja Romana. Histórias interessantes às quais voltarei em momento oportuno.
Por agora, queria lhe deixar um excerto do saudoso Norberto Bobbio a respeito da diferença entre uma visão religiosa do mundo e da história, distinta de uma visão de mundo laica. Que seriam essas visões laicas da realidade? Para conhecer o outro, nada melhor do que deixar ele mesmo se apresentar e falar de si. Deixo-lhe então com o Norberto. Desculpe-me o texto longo. Como da última vez você desligou a máquina e descansou os olhos, imagino que deva estar mais disposto agora. Boa leitura e até a próxima!
“Para dizer a verdade, mais que de uma ética laica, deveríamos falar de uma visão laica do mundo e da história, distinta de uma visão religiosa. Pode-se também falar, com uma linguagem compreensível por todos, de distinção entre uma concepção sagrada e uma concepção profana ou desconsagrada, ou ainda, como se prefere dizer hoje, dessacralizada do mundo e da história, distinção que teria tido sua origem no início da era moderna, no período weberianamente chamado de ‘desencantamento’.
Segundo o cristão, ao lado da história profana existe uma história sagrada, da qual o único guia seguro é a Igreja ou as diversas igrejas que retiram sua inspiração das Sagradas Escrituras.
Para o laico, a história é uma só, e é a história em que estamos imersos, com nossas dúvidas não resolvidas e com as nossas questões inelimináveis, cujo guia é a nossa razão, de modo algum infalível, que extrai da experiência os dados a partir dos quais se pode refletir.
Esta é uma história por detrás da qual e acima da qual não há nenhuma outra história da qual esta nossa história seria apenas uma prefiguração imperfeita, um reflexo infiel ou mesmo enganoso.
Na visão do laico, falta a dimensão da esperança em um resgate final, em uma redenção, em uma palingênese, numa palavra, na salvação. Não pode haver salvação numa visão do mundo em que não existe sequer a idéia de uma culpa originária, que teria maculado para sempre toda a humanidade desde a origem e ao longo dos séculos.
Para o laico, a história não se desenrola segundo um percurso predeterminado, e já traçado desde o início, entre uma culpa original e uma redenção final. É uma história de eventos de que se pode, ainda que nem sempre, encontrar a concatenação das causas, mas em que não se pode chegar à atribuição de culpas.
É uma história da qual é inútil procurar um sentido último, porque um sentido último não existe ou ainda não se revelou de modo claro o suficiente para nos levar à aprovação.”


Alguns direitos reservados.
Essa gestação da identidade nacional ocorreu não sem tensões e lutas, na administração de cemitérios e hospitais, na educação e registro civil, na formação das leis do país (uma lei aprovando o divórcio, considerando a vontade da mulher ao pedí-lo, data de 1907!) e em confrontações públicas, às vezes hilárias, se não fossem desrespeitosas...
Na década de 20 do século passado, anúncios colocados nos principais jornais do país convidavam a população a churrascos grátis, ao ar livre. O detalhe geográfico e temporal impressiona. A carne era assada na praça em frente à catedral, justo na sexta-feira santa. A fumaça da gordura racionalista da época penetrava nos vãos do templo barroco e enlouquecia igualmente a clérigos e ovelhas (aquelas ironicamente chamadas pela igreja de “leigos”, do latim laicu, numa triste e irônica coincidência…ou não…).
Atrás das churrasqueiras estava uma elite intelectual e política que bebeu em sua formação do liberalismo e positivismo francês, além da maçonaria, e que estava em aberta luta contra o poder da Igreja Romana. Histórias interessantes às quais voltarei em momento oportuno.
Por agora, queria lhe deixar um excerto do saudoso Norberto Bobbio a respeito da diferença entre uma visão religiosa do mundo e da história, distinta de uma visão de mundo laica. Que seriam essas visões laicas da realidade? Para conhecer o outro, nada melhor do que deixar ele mesmo se apresentar e falar de si. Deixo-lhe então com o Norberto. Desculpe-me o texto longo. Como da última vez você desligou a máquina e descansou os olhos, imagino que deva estar mais disposto agora. Boa leitura e até a próxima!
“Para dizer a verdade, mais que de uma ética laica, deveríamos falar de uma visão laica do mundo e da história, distinta de uma visão religiosa. Pode-se também falar, com uma linguagem compreensível por todos, de distinção entre uma concepção sagrada e uma concepção profana ou desconsagrada, ou ainda, como se prefere dizer hoje, dessacralizada do mundo e da história, distinção que teria tido sua origem no início da era moderna, no período weberianamente chamado de ‘desencantamento’.
Segundo o cristão, ao lado da história profana existe uma história sagrada, da qual o único guia seguro é a Igreja ou as diversas igrejas que retiram sua inspiração das Sagradas Escrituras.
Para o laico, a história é uma só, e é a história em que estamos imersos, com nossas dúvidas não resolvidas e com as nossas questões inelimináveis, cujo guia é a nossa razão, de modo algum infalível, que extrai da experiência os dados a partir dos quais se pode refletir.
Esta é uma história por detrás da qual e acima da qual não há nenhuma outra história da qual esta nossa história seria apenas uma prefiguração imperfeita, um reflexo infiel ou mesmo enganoso.
Na visão do laico, falta a dimensão da esperança em um resgate final, em uma redenção, em uma palingênese, numa palavra, na salvação. Não pode haver salvação numa visão do mundo em que não existe sequer a idéia de uma culpa originária, que teria maculado para sempre toda a humanidade desde a origem e ao longo dos séculos.
Para o laico, a história não se desenrola segundo um percurso predeterminado, e já traçado desde o início, entre uma culpa original e uma redenção final. É uma história de eventos de que se pode, ainda que nem sempre, encontrar a concatenação das causas, mas em que não se pode chegar à atribuição de culpas.
É uma história da qual é inútil procurar um sentido último, porque um sentido último não existe ou ainda não se revelou de modo claro o suficiente para nos levar à aprovação.”
Norberto Bobbio, em Elogio da serenidade e outros escritos morais, UNESP, 2002.
Foto: Palácio Legislativo, Montevidéu- Legislación
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