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16 abril 2012

Correr faz bem à alma


Pewter Run Pendant
Upload feito originalmente por mytriathlonjewelry
Em viagens pela América Latina tenho adotado o hábito de sair para correr com estudantes. Enquanto corremos eu lhes peço para pensar em textos bíblicos que os motivam à atividade física e que compartilhem como a prática esportiva lhes ajuda em sua vida espiritual.

Antes de revelar o que ouço abro parênteses para as objeções que às vezes escuto, normalmente dos que não se animam ao tour desportivo: “O que é eu quero é correr ou esforçar-me contra a injustiça”, “prefiro dedicar-me à oração”, “o tempo é que corre e muitos estão perdidos”, “prefiro levantamento de garfo, ou de copo” e outras nessa linha. É louvável o humor imaginativo, mas é menos apreciável a habilidade para criar dicotomias desnecessárias.

Às vezes as observações são acompanhadas por citações bíblicas e uma delas é curiosamente sempre mal citada. Geralmente dizem que o Paulo das Escrituras falou algo sobre o exercício físico ser de nenhum proveito. Interessante, logo Paulo que utilizou boas metáforas sobre o atleta e que em verdade disse que o exercício físico era de “algum proveito” (1 Tim. 4:8). Possivelmente se opunha à idolatria da atividade física, fazendo uma comparação entre o que era de proveito para essa vida, o exercício físico, com a piedade, que seria de proveito tanto para essa vida como para aquela outra depois da morte. Quer ser bom mordomo da vida que Deus te dá agora? Então preste atenção à atividade física.

Sobre essa memória bíblica que nos trai, proponho um teste. Pergunte a pessoas que tenham uma familiaridade com a Bíblia: “como é mesmo aquele texto em que Paulo fala sobre se há proveito ou não na atividade física?”. Observe então quantos dirão que Paulo afirma que “nenhum proveito” há ou que citarão “para nada serve”. Aproveite e faça um segundo teste. Pergunte sobre aquele outro texto em que Paulo fala sobre “estar de pé e cair”. Anote quantos dirão “quem está de pé cuide que não caia”, citando muito mal a exortação do apóstolo que alertava que “aquele que pensa estar de pé é melhor ter cuidado para não cair” (1 Cor. 10:12, NTLH). Sutil mas fundamental diferença. Uma luz amarela para aqueles que pensam que não precisam se cuidar.

Voltando àquelas vivências de sair para correr com estudantes de diferentes países, compartilho alguns textos citados em resposta à pergunta sobre as passagens que os motivam:

“Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória”, “corram de tal maneira que ganhem o prêmio”, “o atleta que toma parte numa corrida não recebe o prêmio se não obedecer às regras da competição”, “os que confiam no Senhor... correm e não perdem as forças” (1).

É uma experiência muito interessante ouvir esses relatos, vendo as conexões que fazem e sua visão integral de uma vida saudável. Quanto à pergunta sobre como lhes ajuda a atividade física e os benefícios que essa lhes traz à sua vida, aqui vão algumas respostas que ouço:
“Ajuda-me a ter mais disciplina”, “agora consigo orar mais”, “planejo melhor minha vida e meus horários”, “conheci novas pessoas”, “me sinto mais forte para novos desafios”, “tenho mais disposição e saúde”, e por esse caminho seguem.

Para mim a motivação começou assim(2). Ela chegou em tempos de sedentarismo, de colesterol e triglicerídeos nas nuvens, de pecados preguiçosos e gastronômicos. Sim, comer mal também é pecado. Sinto muito por revelar essa verdade incômoda ao seu estômago, mas me alegro por ao menos despertar a sua acomodada alma. Também teve seus benefícios secundários importantes, como conseguir organizar-me melhor e a curiosa observação da esposa amada de que meu humor havia melhorado muito (como não consigo me lembrar se meu humor era assim tão ruim antes, talvez o esporte não tenha efeitos positivos sobre a memória).

Há tentações no caminho? Claro, somos assim, cheios de ambiguidades e defeitos. Há que tomar cuidado para evitar as comparações com os demais (o importante é que você mesmo progrida), com a competitividade extremada (reconheça seus limites), com a idolatria do corpo (cuidar é diferente de ser obsessivo) ou vigiar para não descuidar das relações, da família e das causas nobres a que te sentes chamado a cooperar com a sua vida e com a capacidade que Deus te deu.

Estou seguro que quando você decida se cuidar melhor “você salvará tanto você mesmo como os que o escutam” (1 Tim. 4:16). Busque avaliar se você já pensa que “está de pé” e que não precisa de mais esforço e de cuidado na vida. Imaginar que já estamos bem é o primeiro passo para o abismo. Cuidar, avaliar, revisar e esforçar-se pode ser um bom início ou o recomeço de uma nova e frutífera etapa na vida. Recobrará forças e assim estará mais em forma para lutar contra a injustiça, pecado e maldade no mundo.

Aproveite e compartilhe o que te anima ou o que te impede nesse caminho de cuidado com a vida. Juntos, porque a comunidade aqui também é importante, podemos correr, caminhar, nadar ou pedalar, valorizando a vida por onde o Senhor nos leva nesse mundo. Então, me diz aí, a que horas você colocará o despertador para tocar e com quem você irá correr amanhã?

1 Filipenses 3:14; 1 Coríntios 9:24; 2 Timóteo 2:5; Isaías 40:31 (NTLH)
2 Agradeço ao amigo e mestre Ziel Machado por animar-me nesse caminho.

12 fevereiro 2012

Recomeçar


Time goes by
Upload feito originalmente por Frodrig
Que princípios me guiam quando começo uma nova etapa, projeto ou desafio na vida? Em horas assim eu me identifico com aqueles discípulos que pedem a Jesus, “aumenta em nós a fé” (Luc. 17:5). Ao ver a resposta de Jesus e a sequência de eventos narrada por Lucas, encontro três princípios norteadores:

Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.

2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.

3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.

Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:

Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.

2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.

3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.

Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!

11 fevereiro 2010

O chicote do Papa e o jejum do crente



Provocou polêmica o lançamento recente de um livro que revelou a auto-flagelação do falecido Papa João Paulo II com um cinto e as noites em que dormia prostrado no chão.

Da penitência, como evangélico e ao menos em teoria, tenho pouca familiaridade. Ainda que seja um fato embaraçosamente comum em comunidades evangélicas os nossos jogos de auto-engano e as nossas vãs tentativas ao buscar compensações com o Senhor.

Essas artimanhas e negócios costumam aparecer quando tentamos oferecer nossos singelos pagamentos pelos pecados ocultos de nossa alma. Ou quando buscamos algum favor especial dos céus. Um jogo sem fim, e normalmente sem ganhadores. A não ser quando a graça e a misericórdia de nosso Senhor, que são maiores do que a vida, assim mesmo se manifestam, sempre apesar de nós mesmos.

Ainda assim, há um mistério em torno do proveito que posso ter ao abster-me de algo. É inegável que a auto-negação e a renúncia aparecem nas Escrituras muitas vezes como virtudes positivas daquele que crê. Talvez porque, entre outras coisas, provoquem o início de uma fortaleza íntima, de um controle, ainda que débil, sobre tudo aquilo que possa nos escravizar.

A começar por nossa própria natureza. Vi nesses dias o ator Hugh Jackman afirmar, em um documentário sobre o personagem Wolverine, que “não há nada melhor do que poder fazer o que quiser, na hora em que quiser, sem quaisquer regras de conduta”. Não entrarei no mérito do que essa postura pode produzir na atribulada vida de um personagem de X-Men ou na de qualquer um de nós, ordinários e não mutantes pecadores.

Vale, então, literalmente, o sacrifício? O sofrimento produz perseverança, disse Paulo aos seus irmãos da capital do Império1. Ele também esmurrava o seu corpo2, numa alusão, literal ou não, a seu exercício de auto-domínio. Mas é possível que Paulo não buscasse o sofrimento (ele já vinha sem que fosse preciso buscá-lo, por sua fidelidade a Cristo3), sendo que até mesmo pedia alívio quando esse o sufocava4. Não sei, talvez a chave esteja em minha atitude íntima, e se devo ou não fazer publicidade da disciplina que cultive.

Voltando à revelação acerca dos hábitos secretos do Papa, o que sim me pareceu interessante é que aparentemente ele guardava esse segredo para si mesmo. Não o promovia e não se promovia com isso. Ele provavelmente sabia com que fantasmas internos lutava, ainda que outros pudessem questionar seus métodos ou motivações. Mas não impôs seu exemplo, nem mesmo o revelou.

Outro dia vi uma igreja promovendo o jejum entre seus membros através de uma rede social. Havia uma não tão sutil imposição para que todos seus membros o praticassem e uma certa tentativa de fiscalizar o seu cumprimento. Lamento comentar esse exemplo de uma maneira negativa. Sou favorável ao saudável resgate dessa disciplina, entre outras esquecidas e estigmatizadas pelo nosso mundo.

No caso do jejum, por exemplo, não nos esquecendo do mui saudável princípio da discrição e da disciplina espiritual que é cultivada no segredo da alcova íntima. Quer um benefício público e visível para ela? Enviem o que economizarem em sua prática para as vítimas no Haiti ou para aquele vizinho ou familiar em necessidade. Uma doação anônima, claro.

Deixem o papa, ou sua memória, e não barganhem com Deus, ou ao menos não cobrem de seu próximo que entre em seu próprio jogo de comércio divino e auto-promoção.

1 Romanos 5:3b
2 1 Corintios 9:27
3 1 Coríntios 11:23-27
4 2 Coríntios 12:8


Foto: ©
Prayer
Upload feito originalmente por
Kaj Bjurman

23 abril 2009

O padre e nosso pecado




– Você, sabe, Zé, que a Uruguai muitas vezes lhe chamam Paraguai...
– Sim.
– Pois é...
– E...
– Já pensou se nosso presidente fosse aquele padre?
– Ô, Mané, você não está querendo julgar o homem, está?
– Julgar? Quem sou eu? Talvez invejar...
– Opa, deixa a Menê saber disso.
– Não, deixa minha mulher fora disso. Escapou, só isso. Na verdade não queria nem morto estar metido nesse rolo. Mas fico pensando, Zé.
– Em quê? Nos pecados do homem?
– Mais ou menos. Fico matutando sobre como ele pecou.
– Ah, agora mesmo é que eu falo com a Menê. Está é fantasiando em cima das aventuras do dito cujo.
– Não, não é isso, Zé.
– Então, que é?
– Sei lá, fico aqui me perguntando, e se ele tivesse usado aquilo?
– Aquilo o quê?
– Ora, o negócio, o preservativo.
Zé balançou seu corpanzil, apertou seus olhos, hesitou por um momento, mas atirou de volta:
– Mas isso é pecado, Mané.
– E aquilo outro, ou as outras, sei lá, tudo isso não é também?
– Sim, mas... talvez ele e inclusive elas, não pensassem assim. Era amor, e amor não pode ser pecado. Bem, não estou bem certo, e você nunca vai contar isso pra Astrô, deixa minha mulher fora disso. Mas se supormos que eles pensavam que o que faziam era algo sublime, até tem um, digamos, fruto, com o nome do saudoso papa. É certo que para eles era algo mais elevado, mais nobre. Colocar essa coisa de camisinha aí no meio seria pecado e ponto.
Foi a vez de Mané balançar a cabeça, visivelmente contrariado.
– Ainda não entendo as divisões que a gente faz sobre o que é e o que não é pecado... São essas nossas contradições e incoerências. Tem razão aquele salmista ou profeta, nem me lembro mais, que diz que o nosso tal coração é muito enganoso. A gente se engana, Zé, pra fazer o que no fundo sei que está mal. Acho mesmo que a gente passa a acreditar que nem é algo tão ruim assim, ou até mesmo reconstruímos, recontamos a história no nosso coração de modo que acho que é justificado, nobre, ou que eu não tinha outra alternativa se não esse caminho...
– Que puseram nesse seu mate, Mané?
– Nada, nada...
...
– Zé!
– Quê, Mané? Já quer voltar a falar do padre?
– Não! Faz tempo que nem penso mais nele. Estou pensando em mim...
– E...
– Sabe, Zé, você me faz um favor?
– Diga!
– No dia em que eu estiver fazendo algo achando que estou tudo beleza, quando na verdade eu estiver metendo o pé na... você sabe...
– Na lama.
– Isso, pode ser, na lama. Você me dá uma mão?
– Como?
– Bom, talvez não me deixando só. Pode, e deve, me perguntar, provocar, questionar, puxar meu tapete, não deixe eu me enganar!
– Hmmm... Será que funciona?
– Na verdade, não sei, mas se é para vigiar e cuidar, creio que com dois será melhor que com um sozinho.
– Certo... E se for uns vinte?
– Embora, Zé!
...

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Upload feito originalmente por drcursor

05 dezembro 2008

...mas não sou herege



O título forte da reflexão anterior, “sou trevas”, ainda que com a ressalva de que seja o primeiro passo na direção de rejeitar o “andar em trevas”, me leva inevitavelmente ao necessário complemento: “mas não sou herege”.

Pode ser que eu me saia melhor do que estava antes da primeira linha. Ou pior, mas não me julgo, como se isso fosse possível. O juízo estará em seus olhos e em seu coração.

Contarei com a ajuda de uma testemunha a quem convido a esse tribunal. Minha memória não anda boa, mas creio que era conhecido em sua época como “abade Antão”*. Viveu lá entre o século III e IV d.C. e foi considerado um dos “pais do deserto”, nesse que foi um movimento de rejeição à mundanização da fé cristã.

Vivia como eremita, radicalizado (deveria dizer arraigado?) em seu simples estilo de vida. As pessoas vinham até ele para pedir conselhos, orientações, alguma palavra de luz que penetrasse no mundo de trevas em que jaziam.

Parece que ele sempre a tinha pronta e fresca. Mas também suponho que soubesse que seu isolamento não o deixava imune às armadilhas da tentação e do pecado. A morte tinha seus mensageiros. E ela chegou um dia disfarçada de um punhado de “discípulos”, supostamente ávidos por palavras de sabedoria, mas na verdade enredados em suas próprias más intenções.

Logo quiseram informar seu “amado mestre” o que ouviam a seu respeito. Algo assim, “amado mestre, desculpe-nos a ousadia, mas é que ouvimos dizer que tu és um mentiroso”. Antão deixa sua inseparável cuia e colher a um lado, levanta os olhos, franze os lábios pensativo e lhes responde “sim, é verdade”.

Surpresos, mas não totalmente desprevenidos, seus “discípulos” continuam, “também ouvimos dizer que tu és cobiçoso”. Antão passa então a mão por sua única e puída túnica antes de lhes responder, “é verdade, sou cobiçoso”.

Um pouco confusos, mas sem dar trégua, seus “amigos” seguem, “e também imagine que ouvimos dizer que tu és adúltero”. O eremita passa os olhos pela parede rochosa da cova onde havia decidido viver sozinho, antes de respirar fundo e dizer “também é verdade que sou adúltero”.

Sem saber bem o que passava, ainda atiram uma última pedra, “também ouvimos que és um herege”. Rápido o profeta lhes atira de volta, “não, não sou herege”.

Após um silêncio embaraçoso e alguma troca de olhares, talvez o mais sábio e humilde de seus visitantes, lhe propõe “não entendemos, pode nos explicar?”.

Antão olha-os com amor, antes de lhes esclarecer, “as primeiras acusações eu as faço a mim mesmo todos os dias, em confissão, arrependimento, para que a luz do Senhor invada as minhas trevas e me salve”. “E a acusação de ser herege?”, insistem. “Herege é aquele que está afastado de Deus, longe de sua Palavra. E não estou assim, porque minha confissão e meu arrependimento me levam todos os dias para perto dele.”

Em silêncio se vão. Também aqui me calo, para poder voltar à saudável e diária disciplina da confissão e do arrependimento.


* em minha época de estudante universitário li esse livreto, que se não me engano tinha por nome “Os Pais do Deserto”. Pode ser que o nome do profeta eremita seja outro (seria abade Agatão?) e minha memória subjetiva me leva a reconstruir essa versão pessoal que lhes apresento da história. Desde então busco carregar comigo essa importante lição espiritual desse longínquo mestre do deserto.


Foto: ©
The wind blows where it wishes. You hear the sound of it, but to where it goes you cannot tell. So is it with everyone who is born of the Spirit.
Upload feito originalmente por Instrumental Illness

17 novembro 2008

Sou trevas



Sou trevas, mas não caminho em trevas. Conseguiria explicar essa equação?

Não andarão em trevas aqueles que o seguirem, assim prometeu o Mestre. Um título nobre e bastante diferente os acompanharia: filhos da luz.

Ler o evangelho de João nos leva e nos traz ao redor dos dilemas e tensões da pugna entre a escuridão e a clara luz.

Uma chave pra abrir a equação nos é entregue pelo próprio “Eu Sou”. Numa de suas muitas explicações de si mesmo registradas no quarto evangelho, aparece essa em que assim se define, “eu sou a luz do mundo”.

Quando sei quem é a luz e onde está a fonte que iluminará a escuridão do mundo, conto então com a ajuda vinda do século XVI, do místico João da Cruz, para me ajudar a entender o possível e desejável encontro dessa luz comigo mesmo.

Para João da Cruz, nós somos as trevas, diante do único que é luz. E a luz, quanto mais perto dela estivermos, mais consciência provoca em nós de nossa própria escuridão.

Ou seja, quanto mais próximo estou da luz, mais reconheço o quanto de trevas há em mim. Mais consciente me torno de minhas limitações, de meu mal, de meu pecado.

Se perto da luz estou, mais pecador me percebo. Claro! Se longe da luz estivera, na penumbra ou escuridão, mais difícil seria ver o quão desconcertado e equivocado eu sou. Não conseguiria, ou pelo menos assim o fingiria, ver meus próprios erros.

Mas se me aproximo da verdadeira luz, ela me invade, penetra em minhas trevas, me expõe, e me enche com essa luz de vida e de verdade.

Penso que sou luz e que posso iluminar o mundo? Ledo auto-engano. Mas há paradoxo e esperança! Se reconheço a única luz que há, ainda que ela me invada em um doloroso processo que expõe a mim mesmo e aos outros quem de verdade eu sou, poderei ainda de alguma forma refletir essa luz, que não é minha, em um mundo que tateia no escuro.

Posso ser “filho da luz”. Posso rejeitar o “andar nas trevas” para experimentar a vida que há nessa luz. Posso até, quem diria, refletir essa luz que apontará o caminho para que outros cegos como eu sejam liberados da escravidão da escuridão.

Mas começa assim, bem simples, quando primeiro reconheço que eu sou trevas. Nada mais, nada menos, para que a luz assim cumpra o seu papel.


Foto: © IT 6
Upload feito originalmente por ir_photos

18 outubro 2008

O passado do santo e o futuro do pecador



Em meio à turbulência financeira mundial, certo personagem tem aparecido bastante e há sido citado com freqüência. Trata-se do homem mais rico do mundo, Warren Buffet.

Fala-se de suas compras de ações quando todos as estão vendendo ou de seu caráter de guru financeiro, cobiçado por ambas as campanhas presidenciais para ser algo não menos que o próximo secretário do tesouro norte-americano.

Questionado em uma entrevista acerca das vítimas e culpados da crise mundial, esquivou-se em responder. Quando pressionado, disparou: “cada santo tem um passado e todo pecador tem um futuro”.

Do alto de seus 78 longos anos, creio que o senhor Buffet regalou-nos uma frase de profunda sabedoria. Posso não concordar com a visão capitalista do homem nem ser um de seus devotos admiradores. Mas creio que é preciso reconhecer nessa resposta uma importante verdade espiritual.

Trata-se do seguinte. Por mais “santo” ou correto que eu seja, ou que busque ser, sempre ainda terei a oportunidade de enfiar o pé na jaca. Essa crua verdade deveria me levar a cultivar a humildade, a moderação e a vigilância. Ela me ajudaria a evitar a arrogância e os abismos a que ela pode me levar.

Há algo mais, não menos importante. Por mais pecador que eu seja, por mais mancadas que eu tenha cometido, o evangelho da graça e da fé em Cristo parece sempre nos apontar a possibilidade da volta, da segunda chance. Ao sinalizar o caminho de saída, nos permite um alívio, um respiro, um fio de esperança no meio da escuridão.

Uma secretária que trabalhou com o primeiro secretário geral da IFES, Stacey Woods, disse o seguinte depois de trabalhar com ele por um período, “ele é terrível em seus relacionamentos pessoais, mas possui uma tremenda visão de Deus e confiança nEle – e Deus sim trabalha através dele apesar do que ele é.” 1

“Apesar do que ele é” poderia soar algo pesado ou parecer uma crítica injusta, mas talvez seja muito melhor ser mais realista com nossos heróis, do que idealizá-los como “santos” com um passado irrepreensível. Poderíamos cair na tentação de projetar modelos que seriam inalcançáveis, talvez na mesma medida em que seriam irreais, inventados.

Quem sabe isso nos ajude, a todos nós, pobres e miseráveis pecadores, a caminhar com cuidado e confiança, porque há Aquele que nos abre um futuro e uma esperança.

1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.

Foto: © DSC06973
Upload feito originalmente por Ale J. Ven.

31 março 2008

Talvez demore, mas espero que você veja



Todo mundo tem uma ambição. Ou várias. Boas e más, se é que já me permite de entrada emitir um juízo de valor acerca daquela que você tem.

Hoje não falarei das suas. Revelarei uma das minhas. Sabe, é pessoal, mas pode ser esse o espaço e o momento para a confissão.

Talvez demore, mas espero que você veja Cristo em mim. Pronto, disse, e agora não tem volta. Serei julgado e analisado por essa desmedida ambição. Posso me explicar, ou ao menos tentar. Passo então a essa delicada tarefa.

Foi em algum momento da vida, desculpe-me se não sei precisá-lo bem, em que tive essa, digamos, iluminação. Aí estava um ponto bem importante da fé que eu abraçava. Diria crucial. O de que em Cristo eu via a Deus, esse conceito e pessoa tão grande e tão difícil de abarcar, mas também via como eu deveria ser.

Abro um parêntese. Se você me disser que já entende tudo do Proprietário lá de cima (lá de baixo, dono do passado, do futuro, de tudo e daquele mais um pouco...) avise-me e lhe acendo uma vela. Mudo de devoção. Na verdade, talvez não, mas ficarei tentado diante de tal sapiência. Bom, fecho o que abri.

Ora, se em Cristo eu vislumbro algo desse Deus, ou ainda melhor, encontro-me com a essência e o coração do antes indecifrável, vou descobrindo que não existe melhor disciplina espiritual no mundo do que aproximar-me desse Cristo histórico e existencial, objetivo e apaixonadamente pessoal.

Depois de vê-lo, não há como continuar o mesmo. Não me achego a ele e saio assim sem aviso ou sem marcas dessa experiência.

Parte das cicatrizes do impacto que esse encontro produz me levam a uma simples conclusão e uma decisiva ambição. A de que quero ser parecido com ele. Confesso, na verdade, que essa é a minha construção e versão da história. O melhor seria dizer que foi ele quem, ao me atrair a esse encontro, queria isso desde o princípio. Creio que era sua a primeira ambição, a de que eu fosse mais parecido com ele.

Daí confesso algo mais. Só ele mesmo para enxugar minhas lágrimas quando reconheço quão longe estou dessa Sua ambição. Minha natureza parece que não combina com a ambição do Cristo. Eu, egoísta, avaro, indiferente, impulsivo, perfeccionista vaidoso e obstinado orgulhoso (que orgulhoso não pensa que sempre está correto e que teimoso não chega a padecer de orgulho?).

Então por isso penso que talvez demore até que você veja Cristo em mim. Viu como minha vaidade e meu orgulho me traíram, agora e no título desse artigo? Por certo que o melhor seria dizer “tenho certeza que tardará para que você veja Cristo em mim”.

Pode demorar, ou é certo que demorará. Agora lhe digo que nem ligo. Só confio. Espero naquele que disse que a semente leva seu tempo, primeiro o talo, depois a espiga, e só depois o grão que enche a espiga. E no mesmo agronômico capítulo 4 do evangelho de Marcos surge a promessa da ignorância. Diz lá que o agricultor dorme e acorda, noite e dia, sem poder saber como acontece a poderosa transformação. Mas, esperança, chega a hora da colheita!

Então depois você me conta quando conseguir vir Cristo em mim. Pensando bem, melhor não! É bom respeitar as fraquezas de cada um, aquele orgulho e vaidade ainda perambulam por aqui. Então me faz o seguinte. Por que não me conta a sua ambição? Abraço e até a próxima.

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© And time goes by....
Upload feito originalmente por paueti

23 março 2008

Não siga meu exemplo

Não vendo conselhos. Tampouco os empresto, nem mesmo lhes dou. Podem me chamar de egoísta, nem ligo. É para o benefício alheio que assim procedo.

A experiência de cada um é única, e ninguém quer (eu acho, mas posso estar enganado, aliás, muitas vezes estou) fomentar discípulos que buscam emular a experiência de outros em sua própria vida.

Bem, tal introdução se faz necessária antes de afirmar que não lhes direi como organizo minha vida de oração. Isso porque me pergunto que interesse pode haver para alguém querer entrar na intimidade de duas pessoas tão diferentes, um mortal e falível ser humano e o Todo Outro, o transcendente.

Então nem lhe direi que, depois de frustradas tentativas de modelos e receitas que busquei, encontrei já há alguns anos a fórmula com a qual estruturo esse encontro tão desigual chamado tempo devocional.

Meu resumido roteiro espiritual segue o seguinte esquema. Em uma pequena folha (para que sempre esteja à mão) registro debaixo de sete áreas gerais os temas pelos quais estarei orando todo dia. No mês seguinte reviso e renovo, ou não, os itens pelos quais estive orando no mês anterior.

Já que comecei, exponho-me e lhe revelo os tais temas: Devoção Pessoal (onde desejo crescer no conhecimento da Graça), Família (há que orar para que me aturem e me amem), Ministério Estudantil (se não oro pela gente e assuntos de meu trabalho, por certo que devo buscar outro emprego), Igreja (como posso e devo melhor servir na diversidade do Corpo), Nação (orar pelos temas da nação é algo que me conecta ao lugar onde vivo e sirvo) e Mundo (acreditando que minha oração pode mudar meu coração e, quem sabe, a história).

Caso haja checado, viu que até agora foram seis. Falta um. É simples. Chamo-o de Outros. Cabe qualquer coisa aí, porque assim são as coisas de caráter pessoal. Usualmente preparo uma lista de nomes. São as pessoas que nesse mês em especial se tornarão alvo das orações que apresentarei ao Dono lá de cima.

Sei que não me perguntou, ainda assim lhe explico como faço. Vou lendo o que escrevi, faço pausas, adiciono algo, tento escutar. Parece que nem sempre capto o que deveria nesses momentos de escuta, ou talvez não tenha ainda aprendido a “ler” esses silêncios do alto. Mesmo assim ligo o receptor e mantenho-me atento.


Ao ligar a antena, tem me ajudado muito manter essa disciplina de explorar uma ampla e variada gama de temas. Orar por mais, e não por menos. Clamar mais pelos outros do que solicitar para mim mesmo. Agradecer mais do que pedir. Escutar mais do que falar. Buscar mais a agenda daquele com quem me encontro do que impor a minha própria.

Disse que não dava conselhos e acabei dando. Melhor, mudei de idéia. Na verdade, eu vendo! Se você leu até aqui, sinto muito, está em débito comigo. Você pode argumentar em contrário e dizer que isso aqui não vale muito. Bem, pode ter razão, mas já que não aceito devoluções, faça seu preço! Passe no caixa. Depois a gente se fala. Até a próxima.

Foto: © Gary Pumfrett - 2008 TrekEarth

05 novembro 2007

Mãos que trabalham também descansam?

“Você se lembra de nossa última conversa?” Não, não era razoável que pudesse recordar. Eu era uns tantos quilos mais novo, estava por sair da universidade. Fazem exatos 15 anos.

Voltei a ver o Sr. Jacques Beney em um recente ajuntamento mundial da IFES. Não o havia visto durante todo esse tempo. Logo o reconheci, e decidi revelar-lhe como havia me abençoado àquela época e, na verdade, desde então.

Contei-lhe como sua dica simples me havia ajudado tanto. Resumindo, ele me ensinou a orar a cada manhã, com as palmas das mãos viradas para cima, recebendo de Deus o chamado que Ele tinha para minha vida, assim como as forças e a sabedoria para cumpri-lo nesse dia.

Antes de dormir deveria voltar a orar, com o mesmo gesto das mãos, dessa vez devolvendo ao Senhor o chamado, que é dEle, e assim entregando tudo em suas mãos, para que pudesse dormir em paz.

Disciplina e gesto tão simples, mas reveladores de uma profunda verdade. Tudo o que faço na vida deve beber dessa fonte que é o chamado de nosso Deus. E preciso saber descansar, recordando-me sempre que o trabalho é dEle, e que não me cabe a última palavra ou responsabilidade.

Meu caro amigo suíço Sr. Jacques, devo lhe dizer que fui desobediente algumas vezes. Já abracei causas e preocupações como se fossem somente minhas. De um modo que, pensava eu, o fim do mundo pronto chegaria por minha ação ou omissão. Pura tolice. E arrogância.

Minhas mãos aos poucos delatam as marcas da lide diária. Elas sofrem mais quando não as estendo pelas manhãs e ao deitar-me. Mãos que laboram precisam descansar. E elas o farão quando aprenderem a receber, e a entregar.

Descanse feliz, minha cara mão.

(Foto: © Hercules Milas)