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03 julho 2012

Apologética pura e simples


Mariënwaerdt
Upload feito originalmente por Niquitin
Eu sei, o título é pretensioso, evoca o clássico do guru C. S. Lewis, mas bateu aquela vontade de homenageá-lo nesse exercício que traz mais perguntas que respostas. Algo que o autor do mundo de Nárnia fazia como ninguém. Vamos a elas, às perguntas?

O que seria a apologética, em especial com relação à Palavra de Deus? Do que exatamente estamos falando quando usamos essa palavra?

Na história da igreja cristã já vimos diferentes aproximações à pergunta sobre como alguém chega a crer. Houve aqueles que defenderam que é necessário “compreender para crer”, outros que defenderam o paradigma de que é preciso “crer para entender”, e movimentos mais contemporâneos que defendem que é preciso “pertencer para crer”, em uma alusão à importância do sentir-se parte de uma comunidade no caminho da fé, antes mesmo de abraçá-la.

Quem tem a razão? Possivelmente cada uma das abordagens traz suas verdades, suas fortalezas, mas também suas debilidades. Assim talvez o melhor caminho seja a sensibilidade para entender que há diferentes pessoas, diferentes gerações e culturas, reconhecendo que as rotas que traçamos nos mapas da apologética podem ser variadas.

Bem, havendo usado a palavra apologética já três vezes nesse texto (ops, quatro…) digamos que ela merece uma tentativa de definição. Aqui vai uma comumente usada:

Apologética é a ciência da defesa da fé. Tudo bem, reconheço que a palavra “ciência” aí atrás já condiciona o conceito, como se o mais importante fosse o método científico, razoável, plausível, de apresentar a fé. E, claro, a outra palavrinha, “defesa”, nos complica mais ainda. Ela nos põe na defensiva, como aquela criança pega no pulo e que tenta se explicar. Se defesa nos transmite a ideia de que a fé é culpada de algo e tem que se justificar, então busquemos outra definição.

O tal do Lewis costumava fazer algo que era bacana. Ele dizia que uma coisa não era outra coisa, ou que não era um conjunto de outras coisas, só para no final dizer então do que em verdade se tratava essa coisa. Captou?

Por exemplo, apologética não é evangelismo, porque evangelizar é compartilhar uma boa notícia, com conteúdo, começo, meio e fim, apresentar e propor uma mensagem, de preferência dessas que explicam tudo, ou quase tudo, o que alguns chamam de metanarrativa. Bem, não se complique muito com essa última palavra.

Mas se você gostou, anote aí, apologética também não é metanarrativa, porque não procura dar uma explicação ampla sobre todas as coisas, como se fosse algo definitivo, acabado, com todas as respostas. Seria ambição demais para ela, lembre-se, ela deve ser “pura e simples”.

Apologética também não é confrontação, ameaça, nem argumentos para ganhar discussão. Tampouco é tergiversar, que é aquele negócio de distorcer o que o outro acredita só para parecer mais ridículo e assim desacreditar mais facilmente a posição do outro.

Se não é isso ou aquilo, o que seria? Aqui segue uma simples aproximação: apologética é limpar o caminho, sacar os obstáculos, lavar as lentes dos óculos, tirar a cera do ouvido, remover os preconceitos e convidar a um encontro honesto e genuíno.

Para o propósito específico desse artigo, que é o da apologética relacionada à Palavra de Deus, sugiro alguns passos para que ela seja saudável, pura e simples:

1. Escutar – Quais são as percepções que as pessoas têm a respeito dos textos das Escrituras? Antes de propor algo, busque sondar o que creem, se creem em algo, como creem. Veja se já leram algo, como leram, com que lentes. Que perguntas elas tem? Essa será uma importante etapa para chegar ao próximo passo.

2. Fazer perguntas – Comece com as perguntas que as pessoas, em especial seus amigos não cristãos, fazem ao texto. Às vezes são questões que os impedem de chegar ao texto, outras vezes são perguntas que levantam quando leem o texto. Que elas venham! Se forem prévias ao texto, por exemplo ao não acreditar nas intenções de quem escreveu, busque devolver as perguntas, com sensibilidade e respeito. Por quê? Seria mesmo tudo montado? Como você vê o texto? Certa vez recordo que um amigo da universidade disse que havia muita coisa “inventada”, “adicionada”. Eu lhe perguntei “quanto por cento?”. Depois de me olhar meio estranho, disse “sei lá, pelo menos uns 30% deve ser adição feita tempos depois”. Devolvi, “estou satisfeito com 70%, vamos ler juntos?”. Aí há um ponto de partida, um começo, que é onde a pessoa está e não onde eu gostaria que ela estivesse.

3. Construir pontes – A razão tem lugar? É razoável supor que sim. A emoção também? Intuo que esta também tenha o seu lugar. E se há objeções pessoais, morais, da história de vida de alguém que a impede ou de chegar à Palavra ou de aplicar em sua vida uma verdade aí descoberta? É preciso saber construir essas pontes, limpar o caminho, ajudar a que se deem esses encontros pessoais, no estilo de cada um, com a Palavra e o Espírito que a inspirou. Nossas opiniões, interpretações ou pregações não substituem a beleza e o poder desse encontro pessoal de cada um com o Senhor através da Palavra.

4. Construir relações – Aprendi desde cedo na ABU que a Palavra também se lê e se entende em comunidade, que não é algo acessível só aos eruditos. Que ela também se lê em relação aos contextos (de quando foi escrita e os de agora), em um processo onde a realidade traz perguntas à Palavra e por sua vez as Escrituras também desafiam a realidade. É um ir e vir dinâmico, onde a comunidade é essencial porque vamos entendendo e obedecendo juntos. Apologética relacionada à Palavra é também “ler junto com” o outro.

5. Deixar a Palavra falar – Um grande perigo é achar que já sabe o que a Palavra irá dizer sobre qualquer assunto. O alerta serve para crentes e não crentes. Como saber se estou caindo nessa armadilha? Um bom indicativo é checar se você sempre está buscando no texto os argumentos que reforçam aquela sua posição já consolidada sobre algum tema. E um bom sinal positivo é se você fica encucado com um texto, se ele te desafia, se te provoca a pensar mais, a orar mais, a ver junto com outros na comunidade se é necessário rever uma postura que talvez seja mais fruto da tradição do que uma desafiadora verdade descoberta na Palavra.

Cinco sugestões sem muitos devaneios e argumentações que espero nos ajudem a entender os caminhos dessa tal apologética pura e simples.

Obs: texto originalmente publicado em "Entre Nós", uma publicação da ABUB.

16 abril 2012

Correr faz bem à alma


Pewter Run Pendant
Upload feito originalmente por mytriathlonjewelry
Em viagens pela América Latina tenho adotado o hábito de sair para correr com estudantes. Enquanto corremos eu lhes peço para pensar em textos bíblicos que os motivam à atividade física e que compartilhem como a prática esportiva lhes ajuda em sua vida espiritual.

Antes de revelar o que ouço abro parênteses para as objeções que às vezes escuto, normalmente dos que não se animam ao tour desportivo: “O que é eu quero é correr ou esforçar-me contra a injustiça”, “prefiro dedicar-me à oração”, “o tempo é que corre e muitos estão perdidos”, “prefiro levantamento de garfo, ou de copo” e outras nessa linha. É louvável o humor imaginativo, mas é menos apreciável a habilidade para criar dicotomias desnecessárias.

Às vezes as observações são acompanhadas por citações bíblicas e uma delas é curiosamente sempre mal citada. Geralmente dizem que o Paulo das Escrituras falou algo sobre o exercício físico ser de nenhum proveito. Interessante, logo Paulo que utilizou boas metáforas sobre o atleta e que em verdade disse que o exercício físico era de “algum proveito” (1 Tim. 4:8). Possivelmente se opunha à idolatria da atividade física, fazendo uma comparação entre o que era de proveito para essa vida, o exercício físico, com a piedade, que seria de proveito tanto para essa vida como para aquela outra depois da morte. Quer ser bom mordomo da vida que Deus te dá agora? Então preste atenção à atividade física.

Sobre essa memória bíblica que nos trai, proponho um teste. Pergunte a pessoas que tenham uma familiaridade com a Bíblia: “como é mesmo aquele texto em que Paulo fala sobre se há proveito ou não na atividade física?”. Observe então quantos dirão que Paulo afirma que “nenhum proveito” há ou que citarão “para nada serve”. Aproveite e faça um segundo teste. Pergunte sobre aquele outro texto em que Paulo fala sobre “estar de pé e cair”. Anote quantos dirão “quem está de pé cuide que não caia”, citando muito mal a exortação do apóstolo que alertava que “aquele que pensa estar de pé é melhor ter cuidado para não cair” (1 Cor. 10:12, NTLH). Sutil mas fundamental diferença. Uma luz amarela para aqueles que pensam que não precisam se cuidar.

Voltando àquelas vivências de sair para correr com estudantes de diferentes países, compartilho alguns textos citados em resposta à pergunta sobre as passagens que os motivam:

“Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória”, “corram de tal maneira que ganhem o prêmio”, “o atleta que toma parte numa corrida não recebe o prêmio se não obedecer às regras da competição”, “os que confiam no Senhor... correm e não perdem as forças” (1).

É uma experiência muito interessante ouvir esses relatos, vendo as conexões que fazem e sua visão integral de uma vida saudável. Quanto à pergunta sobre como lhes ajuda a atividade física e os benefícios que essa lhes traz à sua vida, aqui vão algumas respostas que ouço:
“Ajuda-me a ter mais disciplina”, “agora consigo orar mais”, “planejo melhor minha vida e meus horários”, “conheci novas pessoas”, “me sinto mais forte para novos desafios”, “tenho mais disposição e saúde”, e por esse caminho seguem.

Para mim a motivação começou assim(2). Ela chegou em tempos de sedentarismo, de colesterol e triglicerídeos nas nuvens, de pecados preguiçosos e gastronômicos. Sim, comer mal também é pecado. Sinto muito por revelar essa verdade incômoda ao seu estômago, mas me alegro por ao menos despertar a sua acomodada alma. Também teve seus benefícios secundários importantes, como conseguir organizar-me melhor e a curiosa observação da esposa amada de que meu humor havia melhorado muito (como não consigo me lembrar se meu humor era assim tão ruim antes, talvez o esporte não tenha efeitos positivos sobre a memória).

Há tentações no caminho? Claro, somos assim, cheios de ambiguidades e defeitos. Há que tomar cuidado para evitar as comparações com os demais (o importante é que você mesmo progrida), com a competitividade extremada (reconheça seus limites), com a idolatria do corpo (cuidar é diferente de ser obsessivo) ou vigiar para não descuidar das relações, da família e das causas nobres a que te sentes chamado a cooperar com a sua vida e com a capacidade que Deus te deu.

Estou seguro que quando você decida se cuidar melhor “você salvará tanto você mesmo como os que o escutam” (1 Tim. 4:16). Busque avaliar se você já pensa que “está de pé” e que não precisa de mais esforço e de cuidado na vida. Imaginar que já estamos bem é o primeiro passo para o abismo. Cuidar, avaliar, revisar e esforçar-se pode ser um bom início ou o recomeço de uma nova e frutífera etapa na vida. Recobrará forças e assim estará mais em forma para lutar contra a injustiça, pecado e maldade no mundo.

Aproveite e compartilhe o que te anima ou o que te impede nesse caminho de cuidado com a vida. Juntos, porque a comunidade aqui também é importante, podemos correr, caminhar, nadar ou pedalar, valorizando a vida por onde o Senhor nos leva nesse mundo. Então, me diz aí, a que horas você colocará o despertador para tocar e com quem você irá correr amanhã?

1 Filipenses 3:14; 1 Coríntios 9:24; 2 Timóteo 2:5; Isaías 40:31 (NTLH)
2 Agradeço ao amigo e mestre Ziel Machado por animar-me nesse caminho.

14 março 2012

2050 – O economista louco e o profeta


Untitled
Upload feito originalmente por Shelba
"Qualquer um que acredite em crescimento indefinido em qualquer coisa material, em um planeta finito, ou é um louco – ou é um economista”.
Kenneth Boulding, conselheiro ambiental do então presidente norte-americano John Kennedy, há cerca de 45 anos.

Certa vez o personagem de minha infância, o Chico Bento, tentou ocupar o lugar de Deus. Pelo que me lembro, se saiu mal. E se nós tentássemos esse jogo? Hipoteticamente, claro. Imaginem que tentemos elevar o nível de consumo daqueles que vivem nos chamados países em desenvolvimento ao mesmo nível dos que vivem na América do Norte, Europa, Japão e Austrália. Qual seria o resultado?

Na prática, diz o geógrafo autor de um polêmico livro(1) sobre como será o mundo em 2050, isso multiplicaria por 11 o consumo global de recursos. Seria como se a população mundial saltasse dos atuais 7 bilhões para 72 bilhões. Um pouquinho apertado, não?

Aliás, abro um breve parêntese para dizer que é hipnótico entrar em algum site da Internet que estima em tempo real a população mundial. Ver aqueles números de nascimentos e mortes dando voltas sem parar, competindo entre si como incansáveis gladiadores giratórios me deixa mareado. Aviso dado, fecho os parênteses. Perdão, me esqueci de dizer que por agora os nascimentos vão ganhando das mortes a uma taxa aparente de quase 150 a mais por minuto. Agora sim fecho o que abri, não sem antes confessar que não sei bem se isso é boa ou má notícia.

Aclaro que não é por fobia de gente que a notícia me preocupa. Se Deus as ama, não importa o número, porque eu não deveria ao menos tentar seguir seu exemplo? Mas parece que o jardim terráqueo que aquele lá do alto criou tem recursos limitados. Esse é um detalhe importante e supostamente óbvio, mas o extraordinário é que a preciosa informação sobre os recursos restritos do planeta parece não entrar na lógica de quem manda no mundo, os economistas.

Se o globo terrestre é finito por que é que continua a dominar a lógica pura e simples do crescimento econômico como a panaceia dos nossos problemas?

Voltemos à brincadeira de tentar ser Deus. Pensemos no experimento do primeiro parágrafo, mas agora buscando fazer todo esse upgrade nas condições de vida da população do planeta dentro dos próximos 40 anos. Aquele geógrafo nos diz que o resultado seria ainda pior, “então o mundo natural teria que avançar para produzir o suficiente para sustentar o equivalente a 105 bilhões de pessoas”. De onde viria toda a carne, peixe, cereais, água, energia, plástico, metal, madeira?

Mas, diria o observador arguto, “seremos tantos assim no mundo?” Não, não o seremos. É só um exercício hipotético considerando o padrão de vida e bem-estar de países desenvolvidos. Alguns indignados idealistas dirão que se isso não é uma utopia realizável então o desafio é baixar o padrão de consumo dos ricos. Outros milionários desanimados diriam que se todos serão ricos, então ninguém será rico. Um tédio total para aqueles que no final das contas queriam era se destacar da gentalha.

Veja bem que das legiões da periferia costuma sair de vez em quando um profeta. Outro dia desses ouvi um deles. Vinha do sudeste asiático, mais precisamente do Sri Lanka. O provocador Vinoth Ramachandra(2) (que profeta não é provocador?) cutucou a todos os estudantes líderes de movimentos estudantis como a ABU, vindos de vários países da América do Sul, reunidos no Paraguai. Ele disse algo mais ou menos assim, “oremos por um colapso do sistema econômico mundial”. Houve uma agitação no plenário. Muitos não engoliram bem aquela ideia. Não sei se pensavam em suas economias, já que no caso dos estudantes essas seriam meio que virtuais. Mas alguns falaram do sofrimento que isso provocaria a muitos, a perda de empregos, etc. A resposta cortante veio com outra pergunta sobre em qual mundo vivíamos, pois o sofrimento causado por sistemas econômicos injustos e opressores já é o pão diário de bilhões de pessoas.

Uma crise ou colapso, seja financeiro ou pela escassez dos recursos mundiais, ajudaria? Os profetas diriam que os exílios ou as peregrinações pelo deserto podem ajudar a despertar ouvidos que se fazem de surdos e olhos que não querem ver. Mas sei também que os próprios profetas não gostam de entregar essas mensagens, que lhes queimam e consomem por dentro. O profeta só denuncia e anuncia porque Deus assim o manda e porque faz nascer nele a esperança de que uma realidade diferente possa ser vivida.

Falando dessa outra realidade, nesses dias encontrei consolo e esperança ouvindo o excelente álbum “Ghosts Upon the Earth” (“Fantasmas sobre a Terra”), da brilhante banda Gungor. Inspirados pela alegoria de C. S. Lewis, “O Grande Abismo”, quando os seres humanos da cidade cinzenta viajam até os limites do que seria o Céu, onde descobrem que esse é surpreendente e dolorosamente muito mais real do que a sua existência atual. Vislumbram que há uma realidade possível, “mais real” do que eles imaginam ou vivem. Alguns se fascinam e entram nessa nova realidade. Outros não a suportam e voltam atrás.

Qual é a realidade, o país e o planeta em que a gente quer viver? A fantasia cinzenta irreal dos economistas do crescimento e da ilusão da fartura primeiro-mundista? Ou será que finalmente a perspectiva absolutamente real do Céu nos fará viver em obediência criativa na história hoje, ouvindo os profetas da sustentabilidade que nos são enviados?

1 The World in 2050: Four Forces Shaping Civilization's Northern Future, Laurence C. Smith, Penguin Group, 2010.
2 Vinoth Ramachandra é o secretário associado de IFES para o diálogo e o compromisso social (http://vinothramachandra.wordpress.com/)

09 abril 2010

Consertar eu acho que (não) sei...



"E se alguém fizer o que está mal?", a jovem estudante me fuzilou com sua pergunta. Tudo bem que havia sido uma maneira mais elegante do que me questionar "e se alguém meter o pé na jaca?...". Mas eu não podia evitar sentir-me acurralado por seu tom de voz ligeiramente alterado e seu intrigante olhar meio enviesado. "A pergunta era pra mim?" Olhei pro lado, um pouco pra trás. "Acho que foi pro Zé Mané aqui, não foi pra mim não...".

Sem escapatória, quando dedos traidores apontaram para mim, e depois de alguns intermináveis segundos de hesitação, recordo haver balbuciado algo assim, "bem, aí temos a graça de Deus para nos restaurar...". "Ah, não, daí é fácil demais!", ela sentenciou, sem piedade das gotinhas de suor que minavam de minha fria testa e escorregavam por um saliente nariz.

Eu estava nervoso, claro. Quem havia tido a ideia de me colocar naquele painel sobre sexualidade nesse encontro de formação de líderes
(1)?! Eu era demasiado jovem (digamos "mais jovem", para ser tecnicamente correto), recém-formado, solteiro e, creia-me, sabia muito pouco sobre sexo e afins.

Tinha algumas noções sobre a teoria e, mais do que qualquer outra coisa, eu confiava na graça do Senhor para me restaurar se algo "saísse mal". Mas parecia que aquela ideia de redenção incomodava profundamente minha colega. Aparentemente, ela acreditava que o medo ou as regras seriam melhores guardadores de minha sexualidade. Eu, por outro lado, cada vez que lia e meditava mais sobre o assunto, tendia a concordar com Paulo, para quem as leis ou as regras só servem para nos condenar, mas não para nos manter no bom caminho. Também me parecia cada vez mais sábio aquele tal discípulo amado, para quem o amor seria um poder muito mais forte do que o medo.

Me parece que um dos problemas é que achamos que somos bons em consertar, em julgar e em corrigir. Mas, pensando bem, creio que não o somos. Infelizmente já vi demasiados "exemplos" de "disciplina" em igrejas que mais se parecem a exercícios públicos de humilhação e de revanche. Poucas vezes entendemos que disciplina nas Escrituras rima mais com cuidado e sanidade do que com castigo e isolamento. (uma rápida observação: a Palavra nos diz que devemos cuidar para não nos relacionarmos com aqueles que são falsos mestres, que aparentam piedade mas que de fato desviam as pessoas do Caminho; porém esse é um problema distinto e teremos que deixar esse assunto para outra hora).

Se temos dificuldades para entender a graça da redenção talvez seja porque antes, muito antes, também encontramos dificuldades para agradecer a bondade e a beleza da criação. Foi John Stott quem já disse que somos muito melhores na doutrina da redenção do que na doutrina da criação. Sem querer discordar do tio Sott, possivelmente também sejamos ruinzinhos na doutrina da redenção. Achamos presunçosamente que nós somos aqueles que sabem consertar. Essa história da graça seria, nesse caso, uma conversa mais apropriada para o bom e ingênuo sono bovino.

Pensando nisso da criação é que me deparei outro dia desses com essa interessante citação de Chesterton, esse homenzarrão católico que influenciou toda uma geração do início do século XX, entre eles nosso admirado C. S. Lewis. Ele disse o seguinte:

"Você dá graças antes das refeições,
Muito bem.
Mas eu dou graças antes de uma peça teatral e de uma ópera,
E dou graças antes de um concerto e de uma pantomina,
E dou graças antes de abrir um livro,
E dou graças antes de atuar como ator, antes de pintar,
De nadar, de esgrimir, de lutar boxe, de andar, de brincar e de dançar;
E dou graças antes de começar a escrever".
(2)

Aproveito para voltar a pensar sobre a tal sexualidade do começo dessa reflexão. Se eu conseguir ser mais agradecido ao Criador por sua bondade no desenho da sexualidade, talvez eu venha a entender melhor, e a aceitar, sua generosa oferta de restauração, naqueles tristes casos em que eu quase venha a estropiar tudo de belo que Ele fez.

Ou seja, se recebo bem o presente de sua graça e bondade na criação, talvez eu receba melhor a oferta de sua graça e misericórdia na redenção.

Consertar eu acho que não sei. Sabes Tu, Aquele que me desenhou primeiro. Aceito que me tomes pelas mãos, essas que espalmadas querem aprender a agradecer a beleza de sua criação e a generosidade de sua redenção.

(1) Era um IPL, um Instituto de Preparação de Líderes, da ABU (Aliança Bíblica Universitária), se não me engano aí pelo ano de 1993.
(2) Citado por John Stott, em A Mensagem de 1 Timóteo e Tito, da ABU Editora, p. 115.

Foto: © Autoportrait
Upload feito originalmente por
C O L ! N E .

02 maio 2009

Entre livros, mentiras e o microscópio de Satanás



Depois da tensão, houve um silêncio. Ela inclinou seu rosto e, antes de ir-se, disparou “você leu e estudou muito”. Como para ela isso não foi um elogio, e orgulhosa de sua suposta ignorância, partiu dando o assunto por encerrado.

Foi já há alguns anos. Eu estava ali, naquele lindo estado com nome de uma das pessoas da trindade, onde devia expor todo um livro da Bíblia, do começo ao fim, durante uma semana. Tudo bem, eram somente quatro capítulos, mas ainda assim uma tarefa e tanto.

A jovem estudante universitária não entrou no mérito de minha abordagem do texto bíblico que levava a cabo cada manhã. Na verdade, o que a havia incomodado era minha posição (ou a falta de) com relação a uma festa à fantasia que os estudantes haviam organizado naquele agitado evento da ABU.

Não sei bem se foi algo quanto às fantasias usadas, ou se pelo ar de festa, ou se o fato que havia alguma tímida dança, ou ainda devido a alguma das músicas tocadas. Talvez não tenha ajudado muito que ela me visse em minha improvisada e precária fantasia de Lanterna Verde. Bom, não quero me justificar, que não é do meu estilo, mas ela não era mesmo muito vistosa. Fiz o que pude com as peças verdes que casualmente havia levado ao acampamento.

Já havia perdido boa parte da festa nessa conversa. Não sei se as preocupações pastorais devem sempre vir antes do prazer, mas naquele momento em que fui "acusado" sobre minhas muitas supostas leituras, quase me arrependi de haver dado prioridade a essas tais preocupações. Além do mais, já pensava que o mais “fraco na fé” (aquele que vale seu peso em ouro e todo o cuidado que possamos oferecer) possivelmente não era, nesse caso, quem me julgava e que espetava seu dedo acusador em meu verde nariz.

Interessante essa idéia sobre como a muita leitura pode prejudicar sua fé. E olha que segundo uma investigação feita no Reino Unido, muitos mentem sobre o que lêem para buscar impressionar a alguém. E outros ainda ocultam o que de verdade lêem temendo ficar negativamente associados a alguns autores ou a certo tipo de literatura. Bizarro isso, não? Melhor que alguém não me pergunte sobre os livros que ando recomendando por aqui, ou sobre outros que leio sem mencionar. Mentirei até a morte ou até ser resgatado pelo Lanterna Verde.

Seria algo comum essa associação entre o muito estudar e a falta de fé? Unamuno nos conta desse quadro em um seminário da Companhia de Jesus, em que Satanás, pisado pelo arcanjo Miguel, tinha em suas mãos um microscópio! “No que diz respeito aos chefes daquele estabelecimento, investigar demasiado a natureza e o significado das coisas era assunto diabólico.”1

Para mim, o maior perigo é o achar-se sábio, crendo que não preciso ouvir o outro e suas percepções distintas das minhas. Por isso ainda acredito que fiz bem em dedicar meu tempo para aquela conversa. O dia em que pensar que minhas leituras e meu suposto saber me bastam, terei que arranjar uma fantasia de vilão para a próxima festa.

Falando em festa, voltei em tempo de participar do concurso de fantasias. Claro, perdi. É certo que terei que comprar e ler o “Faça sua própria fantasia com sucesso”. Quem sabe vou de arcanjo na próxima. Será melhor, e mais seguro, do que ir com um microscópio nas mãos.

1 A história sobre Unamuno e a citação são de Juan A. Mackay, em “El Otro Cristo Español”, Ediciones La Aurora, p. 127.

Foto: ©
Under the microscope
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24 março 2009

Lições de sobrevivência



Que impacto pode nos trazer um incêndio florestal ao redor de um acampamento estudantil? Minha própria resposta a essa pergunta creio que quitará o mérito do fogo, talvez não fale tanto do milagre que ali ocorreu, e centrará a busca por aprendizado nas reações de cada um dos sobreviventes.

Era o penúltimo dia do encontro nacional de capacitação do GBU Chile, nesse lindo acampamento que GBU possui em Río Quino, cerca de 8 horas ao sul de Santiago.

Eu havia sido convidado a dar estudos sobre a espiritualidade do coração e do cotidiano, a partir da vida de Davi em 1 e 2 Samuel. Lindo desafio!

Na véspera de terminar o encontro, fomos surpreendidos com um incêndio que se acercava às instalações. Ao tentar mobilizar uma equipe para cortar o caminho do fogo, rapidamente tivemos que mudar de idéia e evacuar a todos no menor tempo possível, pois o fogo já havia tomado os abundantes arbustos e as árvores que rodeiam a área do acampamento.

Com muito vento, e o fogo literalmente saltando ao nosso redor, víamos uma única possibilidade. Refugiar-nos no rio, em um local onde ele é um pouco mais largo, a cerca de 15 minutos de nossas cabanas.

A última imagem gravada em nossa retina em meio à escapada foi a de um fogo alto que tomou por completo toda a área em que estavam os prédios do acampamento.

Ficamos cerca de 1 hora e meia, nesse ponto mais baixo, literalmente dentro do rio, sem saber bem o que acontecia ao redor. Escutávamos o fogo, víamos a fumaça e também o helicóptero que combatia o incêndio, mas não podíamos fazer muito mais do que esperar.

Quando dois bombeiros chegaram até onde estávamos e nos disseram que havíamos que sair rapidamente dali foi, confesso, quando mais temor senti. O grupo já estava cansado, física e emocionalmente, e haveria que evacuá-los uma vez mais, em meio a uma zona de incêndio.

Depois de um longo recorrido por terreno acidentado, cercas e fumaça, chegamos a salvo na margem da autopista onde se havia originado o fogo. No total, 3 horas literalmente correndo pela vida. Lições? Creio que muitos ainda estão processando, como eu, tudo o que passou. Assim mesmo me arrisco a algumas observações.

Valor de cada um

Creio que Deus fez com que, em meio da crise, o valor e os dons que Ele dá a cada um se fizessem evidentes para o bem comum. Houve quem orasse, cantasse, quem cuidou daqueles que necessitavam de calma, quem ajudou quem não se sustentava no rio, e os que se apoiaram na fuga em terreno acidentado.

Tomo a liberdade de nomear a uma pessoa, Carmen Castillo, secretária geral de GBU Chile. Ainda que seu esposo, sua filhinha e sogra estivessem em uma casa muito próxima ao acampamento que foi tomado pelo incêndio, e sem saber mais notícias deles, de algum lugar ela arrancou forças e espírito de liderança para conduzir todo o grupo em segurança. Creio que bem poucos conseguiriam fazer o que ela fez num momento de tensão como esse.

Entrega e desprendimento

A primeira coisa que fizemos quando chegamos à estrada foi orar e agradecer por nossas vidas, mesmo que supostamente havendo perdido tudo. É que nossa última “fotografia” do local nos fazia crer que tudo se havia queimado. Foi só quando os bombeiros nos permitiram voltar que atestamos com nossos próprios olhos que os prédios e cabanas de madeira ainda estavam ali.

Para mim a prova mais importante aí foi testar nossa capacidade de entregar o que temos, mesmo que seja algo valioso e querido por nós. Inclusive o próprio acampamento, um espaço com certeza usado por Deus para abençoar. E se ele se queimasse? Bom, creio que Deus faria o que lhe é próprio, seguir com sua obra, reconstruir, utilizar-nos, com ou sem prédios, com ou sem recursos. Bom, na verdade com um recurso primordial, nossa vida em suas mãos.

Um livramento

Até para um cético pouco afeito a milagres como eu, o livramento que Deus nos proporcionou foi algo forte. O fogo passou literalmente a centímetros das cabanas de madeira, também protegeu com mão firme e misericordiosa alguns poucos que haviam ficado para trás, incluindo a família de Carmem, o caseiro e 2 estudantes que voltaram para ajudar a combater o fogo. Deus sempre nos livra dos perigos? Creio que não. Mas aí claramente nos livrou e ainda há que meditar nas lições e oportunidades que se abrem para nossa maturidade espiritual com esse livramento.

Sacrifício

Poucas vezes, ou talvez nunca antes em minha vida, tenha visto tanta gente jovem trabalhar tão duro como o fizeram na madrugada e dia seguintes ao incêndio. Estavam cansados, esgotados, e ainda assim não dormiram, vigiando e apagando focos de incêndio que voltavam a aparecer, com pás e enxadas nas mãos e carregando pesados baldes de água em largas distâncias. Sem reclamar e me parece que mesmo sem medir o tamanho do esforço que faziam.

Certamente que foi toda uma experiência, muito vigorosa e intensa. As lições? Ainda se necessitará tempo para pensar em tudo o que se aprende, e há que passar esse testemunho às próximas gerações estudantis. Destaco aqui, por enquanto, essas rápidas lições:

• Se estivermos nas mãos de Deus, Ele pode sacar o melhor de nós em meio a uma crise (infelizmente, o oposto também é verdade);
• O recurso mais importante que podemos ter não são nossos bens ou recursos, mas nossas vidas nas mãos de Deus;
• Mesmo que Deus não nos livre sempre dos perigos, há que reconhecer quando Ele com suas mãos intervêm em nossas vidas e meditar sobre as oportunidades que Ele nos dá;
• Quando a mão do Senhor está comigo posso fazer coisas que humanamente pensava que não estavam a meu alcance fazê-las.

Viu como as “mãos de Deus” apareceram em cada uma dessas 4 lições? Creio que foram elas que mudaram vento, protegeram, sustentaram no rio e nos levaram em cada momento. Veja só, até um cético como eu foi capaz de enxergar essas mãos. Obrigado, Senhor!

Fotos: Sandra Aravena (GBU Chile)

05 agosto 2008

"Nós nunca contamos almas"



A grande área envidraçada do auditório deixava ver a batalha das folhas verdes com o vento frio da primavera do Rhön.

Era maio de 2006, e minha atenção deixou por alguns momentos os embates da natureza nessa bela região da Alemanha. Creio que foi pelo desconforto com o que acabara de ouvir.

Observe que a expositora tinha excelentes credenciais. Apresentada como consultora de clientes como Tony Blair e Shell, não havia como negar o brilhantismo de sua exposição.

Ainda assim, o suor frio de minhas mãos e minha leve taquicardia denunciavam secretas intenções. Eu queria discordar! Ousadia ou tolice, não sei bem, e ainda podia ser um preciosismo de minha parte. Talvez fosse melhor concordar, ser desafiado por novas perspectivas, essas coisas.

Mas a mão impulsiva se levantou antes que minha cabeça pensasse bem. Quando vi já estava com o microfone em mãos, gaguejando e buscando fazer um contraponto à exposição.

Basicamente, foi uma reação ao uso de metodologias quantitativas para a avaliação da efetividade do ministério estudantil. Em resumo, tentei dizer o seguinte: os números não nos dizem tudo! Ou seja, podemos ter bons números e, na verdade, estar indo na direção equivocada. Ou, o oposto também é verdadeiro, números pouco expressivos mas ainda assim estar fazendo o que deveríamos fazer.

É uma questão delicada, mas quis dizer que os números, sem uma adequada interpretação dos mesmos e do contexto, podem nos enganar.

Sentei-me. Já quase sabia o que vinha. De maneira bondosa, bem explicativa, quase condescendente, fui desafiado a “abrir” meu entendimento e buscar meios mais efetivos de avaliar meu rendimento.

Foi aí que aquele senhor, em seus 81 anos, pediu a palavra e disse três frases: “Eu concordo com o jovenzinho. Nós nunca deveríamos contar almas! A única coisa que contamos é dinheiro!” (“I agree with the young boy. We should never count souls! The only thing we count is money!”).

Era Sir Fred Catherwood. Por muitos anos tesoureiro da IFES, genro do saudoso Martyn Lloyd-Jones, antes de se aposentar Sir Fred destacou-se no Parlamento Europeu, onde chegou a ocupar a vice-presidência.

Não preciso dizer que havia ganho o dia. Na hora do intervalo, deixei o casaco dentro do auditório e saí para respirar fundo o ar da fria Baviera (e chamam isso de primavera!). O coração já estava aquecido. Podia ser tolice, ou vã vaidade, mas o sentimento era bom, por certo que era.

Ano passado voltei a encontrar-me com Sir Fred. Lembrei-lhe do episódio. Ele se recordava do que havia passado. Mas não se lembrava que eu era aquele “jovenzinho".

Veja bem que foram suas palavras. E, acredite, minha maior alegria foi pelo “we never count souls”, e não por sua percepção de minha juventude. Desconfio que seus óculos o traíram quanto aos anos de vida que me atribuiu. A diferença entre seu palpite e minha real idade? Nem me lembro, não conto mais, “the only thing we count is money!”.


Foto: ©
Counting money
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14 julho 2008

Fazer bem leva tempo


(Série Histórias Agronômicas - VI)


“…primeiro o talo, depois a espiga e, então, o grão cheio na espiga”. (Marcos 4: 28)


Às vezes me pergunto quando é que desejaria ver os resultados de um trabalho com o qual esteja envolvido. Minha primeira reação, e é bom que seja assim, é a de desejar vê-los rapidamente. Quero me certificar de que estou indo na direção certa, que vale a pena todo o empenho.


Entretanto, e acredito que assim o seja em uma ampla variedade de situações, demora-se até que seja possível discernir os primeiros frutos concretos de um esforço. Às vezes até me pergunto se um dia o veremos.


Essa parábola me ajuda a valorizar a importância das etapas, a reconhecer que comumente há um processo até que se possa chegar lá. Há que esperar para que o grão fique “maduro” (v. 29). Mesmo que seja difícil, é necessário aguardar o “tempo da colheita”.


Três rápidas lições. Primeira, é preciso perseverar ao longo dos processos, também levar em conta que freqüentemente são demorados, e assim não desanimar no meio do caminho (lembre-se de Eugene Peterson, para quem a perseverança é sinônimo de “longa obediência em um mesmo caminho”).


Segunda, é necessário desenvolver uma saudável capacidade de avaliar os processos, reconhecer os avanços e retrocessos, ser capaz de revisar com propriedade e sabedoria os passos e os meios pelos quais desejamos chegar aos resultados (em outro momento penso em voltar ao tema dos critérios que devemos usar em avaliações).


Terceira, a perspectiva da colheita é algo que alimenta nossa esperança. Isso acontece quando a escatologia não é usada como um escape e sim como alento e alimento na obediência prática e concreta do presente.


Como está sua disposição para perseverar sem que veja o resultado de seus esforços?


Compartilho algo que me ajuda. Espero que também lhe sirva. Busco imaginar como é que as próximas gerações de estudantes universitários se beneficiarão do trabalho que estamos desenvolvendo agora. Que tipo de ministério estudantil cristão encontrarão na universidade os estudantes que nela entrarem daqui a 5, 15 ou 30 anos? Como é que o que plantamos agora poderá lhes ser útil para que eles enfrentem com fidelidade e criatividade os desafios de seu tempo?


Pense nisso. Ficarei feliz ao ouvir suas idéias.


(Continua...)


Foto: © Yan Seiler

09 junho 2008

Foi assim que me apaixonei por aquele texto



(Série Histórias Agronômicas - I)

Apaixonei-me por um capítulo da Bíblia em um congresso científico! Foi assim. Tive que chegar antes para garantir meu assento no auditório. O Dr. Warwick Estevam Kerr estava por proferir uma palestra no Congresso Brasileiro de Genética. Era 1990, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. De todos lados chegavam estudantes e professores para ouvir aquele que trazia consigo uma invejável fama de brilhante cientista.

Para falar da biodiversidade, o tema de sua palestra, o Dr. Kerr nos deliciou com uma exposição da parábola do semeador! Aí estava um respeitado geneticista deixando-nos boquiabertos com sua desenvoltura ao falar de ciência usando a sabedoria dos evangelhos.


Creio que o capítulo 4 do evangelho de Marcos, onde encontramos essa parábola, é o capítulo agronômico por excelência. Antes que você pense que estou sendo tendencioso por defender a classe agronômica, observe que, nessa seção das Escrituras, Jesus nos conta três parábolas sobre as sementes como metáforas do Reino.


O Dr. Kerr é um homem brilhante, mas também muito simples. Lembro-me com carinho de sua deferência ao vir fazer comentários sobre o trabalho científico que eu, um jovem e bem inexperiente estudante, apresentava. Apesar dele conhecer meu pai já havia algumas décadas, foi fácil reconhecer que sua atenção não se deveu a essa conexão, digamos, familiar.


Bastava ver como ele pacientemente visitava cada stand, e a maneira como ele falava com cada estudante como se fosse um companheiro de longa data na labuta científica. O saber não lhe havia subido à cabeça. Perguntava-me se poderia haver outra lição que ele poderia nos dar. E ele o fazia.

Era alguém que propunha questões instigantes, provocativas, ajudando-nos a ver aspectos da investigação que antes não havíamos nos dado conta. Ou seja, sua ajuda vinha mais através de suas perguntas e provocações do que através de receitas que pudesse nos dar.


Foi assim que esse professor universitário, um cientista bem respeitado em todo o mundo, levou-me a uma paixão por algumas parábolas das Escrituras.


Falo do professor, e de como me inspirou, talvez em uma singela homenagem, antes de compartilhar com vocês algumas breves reflexões sobre as sementes e o Reino, nessa série à qual nomeio “histórias agronômicas”. Até a próxima semana!


Foto: ©
Ready for Lecture? (Version 1)
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27 maio 2008

Um estudante coerente

Hoje me deparei com um estudante coerente. Aconteceu em uma dessas reuniões da Comunidade Bíblica Universitária do Uruguai. Um grupo relativamente pequeno, seis ao todo, mas em um fascinante encontro.

Todos ansiosos por compartilhar sua fé com seus colegas não-cristãos, em um esforço comunitário, com método e dinâmica que buscam ser adequados a esse contexto.

Eu disse todos? Bem, um deles talvez não tanto. Foi assim. Ele me pediu uma conversa reservada ao fim de nosso encontro. Seu objetivo, explicar-me as razões pelas quais não participaria do grupo.

Não lhes revelarei os detalhes. Não desejo lhes passar uma imagem negativa de meu novo amigo. Posso sim lhes dizer que ele foi coerente com a tradição de fé onde foi criado. Sugeriu-me que nosso esforço evangelístico seria algo incompleto. A razão era que nos faltariam elementos importantes “da verdade”.

Intrigado, pedi-lhe um exemplo. Ao ouvir sua resposta, tentei argumentar que eram coisas secundárias, doutrinas de sua igreja, e que havia que focar no essencial quando se tratava de um esforço missionário interdenominacional. “Aqui estamos para que aqueles que não conheçam a Jesus possam dele se acercar”, disse. “Depois, pela graça de Deus, cada um vai naturalmente se conectando em diferentes comunidades e congregações cristãs, onde poderão crescer e amadurecer sua fé”.

Mas eu via que essa idéia de cada um se conectar a uma igreja diferente era algo que o incomodava. Explicitamente sugeriu que esse seria um "problema".

Resolvi então confrontar-lo com a lógica de Francis Schaeffer. Ou seja, levá-lo a experimentar ou a assumir as conseqüências de sua maneira de pensar. Fazer com que ele seguisse seu próprio raciocínio e visse aonde isso o levava. Desafiei-lhe, “assim, se você for coerente com seu pensamento, você deveria me evangelizar, porque essa é a necessidade absoluta decorrente de sua maneira de pensar”.

Momentos de tensão e silêncio, olhar fixo um nos olhos do outro. Passados alguns instantes, ele se volta, abre sua mochila, agarra um material bíblico que aí levava, e faz exatamente isso, começa a me “evangelizar”. Entre atônito e surpreso, eu o ouvi.

Quando terminou a conversa, vim embora trazendo o material comigo. Prometi voltar a vê-lo em uma semana e dizer-lhe o que penso daquilo. Não sei onde essa conversa irá nos levar, e confesso que estou agora mais preocupado com seus colegas não-cristãos.

Mas devo reconhecer que fazia tempos que não encontrava alguém tão decidido e coerente. Não concordar com ele agora era um detalhe. Saí pensando em como posso ser mais coerente com o que penso e acredito. E também em como posso animar os outros estudantes a experimentar essa coerência e valentia em sua fé e missão.

Preciso revisar meus velhos livros do Schaeffer e ver se ele me diz alguma coisa sobre os próximos passos em situações como essas. Até a próxima!

Foto: © Tali KF - Copyright © 2008 TrekEarth

11 maio 2008

Mandou-o ao inferno

Desde a época em que um estudante universitário em conflito me relatou em uma longa carta de 16 páginas (sim, ainda não existia e-mail...) seus horrores com a maneira em que ele havia sido “evangelizado”, tenho dificuldades em “usar” o conceito ou a realidade do inferno em conversas com não-cristãos.

Interessante notar que quando Jesus falou do conceito de punição e justiça, o fez com os religiosos, mas não o usava em seus encontros com os aflitos necessitados da graça.

Lembro-me de outro amigo, um bom companheiro de moradia enquanto éramos estudantes na universidade. Ele me revelou sua luta interna mais ou menos assim: “Não posso imaginar que abraçarei uma fé que me leve a crer que aquelas pessoas queridas de minha família, algumas das quais já morreram, e que não abraçaram essa mesma fé, irão para algum tipo de sofrimento eterno.”

Era um dilema real, honesto e humano. Não me recordo bem das palavras com que lhe respondi, mas foram algo na direção de que esse Deus em quem eu cria era muito mais justo do que qualquer noção de justiça que pudéssemos ter. E que Ele saberia resolver esse “problema” melhor do que nós mesmos. Nossa parte era confiar e abraçar o que nos parecia correto, verdadeiro, o que nos levava à vida.

Esse dilema também atingiu a Charles Darwin. No final de sua vida, escreveu em sua autobiografia que não podia “entender como alguém devesse desejar que o Cristianismo fosse verdade”. Caso fosse, a linguagem do Novo Testamento “parecia mostrar que os homens que não têm fé, e isso incluiria meu pai, irmãos, e quase todos meus melhores amigos, seriam eternamente punidos. E essa era uma doutrina abominável”.1

Talvez fosse interessante perguntar por que supostamente só os amigos ou parentes mereceriam tal compaixão. Mas é fato que primeiro sofremos com eles e por eles. E isso pode se tornar, no caso de não se tratar de uma desculpa ou escape vil, em um elemento legítimo de crise que embaça ou bloqueia o caminho para que alguém experimente a misericórdia e a graça.

Parte desse problema, creio eu, se dá porque a muitos cristãos lhes parece importante determinar o destino eterno de alguém, em especial dos incrédulos.

Não desejo entrar aqui em águas ou chamas perigosas da doutrina do inferno. Podem me chamar de covarde, que a crítica me cairá bem. Mas queria sim levantar alguma reflexão sobre o uso que fazemos desse ensinamento ou acerca de nossa ânsia por ter “controle” sobre o assunto, dizendo de antemão e com segurança a quem caberá o quê.

Graça e misericórdia não existem sem a noção de justiça, isso é certo. Mas reluto em ser como Jonas quanto aos ninivitas. Porque se acho que posso ser mais justo do que Deus, toda minha injustiça e egoísmo ficarão dolorosamente expostos.

O universitário do início do texto hoje segue a Jesus com alegria. Não foi o obscurantismo dos filmes de terror “evangélicos” que o “evangelizaram”. Não foi quando lhe enviaram ao inferno que ele conheceu a Jesus.

Foi assim. Ele ouviu uma batida na porta e uma voz que do outro lado lhe chamava. Relutante abriu, e logo com confiança andou, levado por aquele que lhe tomou pela mão.

1 Darwin: a vida de um evolucionista atormentado, Geração Editorial, p. 643

Foto: © Adilson Faltz - 2008 TrekEarth

03 maio 2008

Você enviaria seu filho a uma faculdade cristã?



Como você responderia à pergunta do título? Veja bem que você pode fazer amigos ou inimigos dependendo de como a responde.

Por um lado, poderia cair no equívoco de desconsiderar o valor que se deu à educação em séculos de missão cristã no mundo. Também poderia, caso fosse alguém conhecido e dessem ouvidos à sua opinião, afetar os interesses econômicos e mesmo a viabilidade de várias instituições.

Vendo por outro lado, poderia ser um saudável exercício de questionar as motivações por que um indivíduo (ou sua família) prefere ir estudar em um centro de estudos conhecido por sua confessionalidade ou por suas tradições cristãs. O que buscariam ao refugiar-se em uma escola assim?

O tema é complexo, suscita paixões e polêmicas. Talvez por isso é que Stacey Woods, há mais de 60 anos, precisamente em 1944, tenha escrito um artigo usando um pseudônimo, na revista HIS, da IVCF-USA, com o sugestivo título “Deveria ir a uma Faculdade Cristã nesse outono?”.1

Stacey foi esse entusiasta australiano que assumiu como o primeiro secretário geral dos movimentos estudantis cristãos debaixo do guarda-chuva da IFES, e que à época desse artigo estava ainda “somente” liderando os movimentos estudantis da IVCF-USA e IVCF-Canadá, ao mesmo tempo!

No referido artigo, após animar jovens estudantes cristãos a escolherem uma faculdade “não-cristã”, ele lançou o alerta: “Cuidado com o perigo de viver em outro mundo, falhando em entender o mundo dos homens e mulheres não convertidos, com os quais ao fim você terá que conviver, e diante dos quais você terá que testemunhar.”

Ele então concluiu com as retumbantes palavras: “Porque o campus secular é o seu campo de missão e sua gloriosa oportunidade. Deus o colocou aí para ser Sua testemunha – Seu missionário – Seu embaixador.”

Em meu caso, se me permitem a confissão, fico pensando se não deveria eu mesmo escrever esse breve artigo usando também um pseudônimo. É porque eu estudei em uma faculdade cristã e desfrutei da experiência. Mas também poderia defender-me dizendo que já estudei em uma universidade “secular” e que essa foi a mais significativa experiência de aprendizado (inclusive quanto à maturidade cristã) de minha vida.

Ou então a incoerência maior viria por minhas filhas. Ambas estudam em uma escola confessional cristã e que ainda por cima é vinculada à comunidade cristã onde nos congregamos.
Ora, ao fim, poderia desavergonhadamente dizer que me proponho aqui a levantar perguntas, inclusive para mim mesmo, e não a tentar ser coerente. E que talvez revisando nossas motivações e “estratégias” possamos todos, cada um em sua praia, vocação e caminho, sermos as tais testemunhas e missionários a que o Stacey se referiu.

Ou ainda ser um bom “embaixador do evangelho”, como Woods concluiu em seu artigo lá dos anos 40. Só uma última e rápida dica: sugiro não usar esse singelo nome para seu grupo estudantil na tal universidade não-cristã. Abraço e até a próxima!

1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.

Foto: © Rice
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18 abril 2008

Profetas “para dentro” e “para fora” - 2


Encaro a tal promessa feita no artigo passado. Se você não acompanha tão assiduamente o blog como o faz a tia Dorotéia, eu lhe explico do que se trata. Impensadamente eu prometi continuar a explorar as causas sobre o porquê supostamente temos sido mais profetas “para dentro” do que “para fora” da igreja.

Sigo nessa exploração através de um exercício de auto-crítica. Era o começo da década de 90 e eu me havia proposto a preparar uma apostila para um curso de formação de líderes da ABU. O tema era um exagero ambicioso, e aqui uso a palavra ambição no sentido negativo que lhe podemos atribuir. Propunha-me a explorar o singelo assunto dos “desafios da (pós) modernidade”.

O fato de ter usado o “pós” entre parênteses não sucedeu por qualquer requinte conceitual. Era dúvida mesmo, simples e crua, se me acercava dos desafios da tal modernidade que tanto nos modelou e ainda nos modela, ou se me aproximava dos conceitos que não entendia bem (sigo sem saber dominá-los) da chamada pós-modernidade.

Apresentei um primeiro esboço da empreitada a alguns amigos. Lembro-me da reação da boa amiga Lígia Pupo. Ela me perguntou assim, sem rodeios, “que leitores não-cristãos você leu acerca do tema?”. Fiquei meio assim sem saber como responder, talvez porque ela acabava de expôr meu tendão mortal, enquanto continuou paciente e didaticamente, “digo esses autores que representam, em seus livros, seu pensamento, o que foi ou é o modo de pensar de uma geração”.

Touché! Fora atingido no elo mais fraco, e teria que admitir meu fracasso. Não é o caso de que eu não estivesse lendo coisa boa. Era a época de minha descoberta de autores fabulosos como Lesslie Newbigin ou Jacques Ellul. Preciso, e talvez muitos entre nós também, ler ou reler obras de autores como esses dois para que aprendamos a ser profetas de verdade no meio de nossa geração e realidade.

O problema é que eu não posso deixar de fazer a lição de casa que eles próprios tentaram nos ensinar. A de que só terei alguma chance de ser relevante no que digo à sociedade ao meu redor, no debate público que nenhum cristão pode se furtar, se eu de fato conhecer a mentalidade reinante, seus esquemas, seus pressupostos aceitos e muitas vezes ocultos, e conhecê-los em primeira mão, desenvolvendo meu próprio olhar crítico. Isso porque o que recebo já mastigado traz as marcas da dentadura de um que já ruminou o negócio. Tenho que sentir o gosto eu mesmo, desenvolver a habilidade de um copeiro real, saber cheirar a intriga e desvendar a charada antes que ela me envolva de tal maneira que aceite e coma qualquer coisa que seja colocada diante de mim.

Então, faça o controle na sua lista de livros e programas que você vê e ouve. Não se alimente só do que é “seguro” e “bom” para a sua alma. Você não chegará à vacina se não se arriscar a provar um pouco desse veneno. Como não se perder ou morrer no meio do caminho? Bom, se você acreditou na promessa anterior e leu essa seqüência do tema, talvez não seja difícil que eu lhe engabele uma vez mais e convide-o a voltar por aqui e ver até onde podemos ou queremos chegar. Até lá!


Foto: ©
Revolving Doors.
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11 março 2008

Como (não) falar em público


O microfone enorme me intimidava mais do que o repleto e desconhecido auditório. Disfarcei o nervosismo, puxei todo o ar que pude e de uma vez soltei bem forte a saudação Akurhula ka Hossi (“A Paz do Senhor”).

Silêncio no salão. Seria minha pronúncia tão ruim assim? Rápido, porque não basta ter confiança, é preciso transmitir confiança, engatei uma segunda frase, Xikwembu xi ku Katikisse (“Que Deus os abençoe”, ou “Que a presença de Deus esteja aqui com vocês”).

Mais silêncio, olhares raros e tenho quase a certeza de ter ouvido alguma risadinha. Posso estar enganado, aliás, nem estava seguro ou confiante como queria parecer.

Foi aí que uma alma caridosa, na primeira fila, me sussurrou algo assim, “Você está falando em Shangana, e os estudantes aqui em sua maioria falam Sena”. Foi um misto de alívio e de vergonha. Na verdade, mais dessa última quando soube que a mesma palavra usada para Deus em uma língua significa chuva em outra, e ainda “pessoa de raça branca” nas línguas faladas por outros estudantes ali.

Ou seja, desejar que todos ali se ensopassem na chuva ou ainda dizer que o branco (estrangeiro, colonizador) os abençoasse com sua presença, não eram as saudações de ouro que pretendia usar no início de um congresso estudantil em terras estrangeiras.

Era a primeira conferência nacional para estudantes universitários cristãos organizada pela Aliança Bíblica Estudantil de Moçambique (ABEMO). Tínhamos sido convidados a ir com um grupo do Brasil para apoiá-los nessa iniciativa pioneira.

Desfrutamos de semanas de aprendizado sem igual, muito mais para nós do que para aqueles a quem supostamente tínhamos ido ajudar. Não tenho como descrever a maneira como fomos abençoados pela generosidade, carinho e criatividade em meio à adversidade de nossos irmãos moçambicanos.

Além da conferência em si, diversas outras oportunidades para falar em público apareceram, a pequenos e grandes grupos, bem variados, em diferentes situações, e em circunstâncias que apareciam como que sobre o momento.

Pensei em compartilhar com vocês algumas rápidas dicas acerca de como preparar-se um pouco melhor para falar em público, e em especial em situações de improviso. Algumas sugestões:

• Faça perguntas sobre o público, quem são, pelo que se interessam, porque estão ali, o que supostamente já conhecem sobre o tema (tudo bem, também não custa perguntar que língua falam, para o caso de querer fazer uma graça... mais seguro ainda seria deixar de lado a graça e usar o expediente do humor em outra ocasião, com um público mais conhecido);

• Se a oportunidade surgiu em cima da hora, peça um tempo e faça um pequeno esboço, mental ou de preferência em notas discretas, sobre o que falará;

• Sempre leve consigo algumas notas de palestras e de temas que você já maneja bem. Melhor se forem textos completos, sem que você os leia ao falar, mas que o ajudem a memorizar, ou pelo menos a manter uma linha de raciocínio, sempre acompanhados de esboços mais acessíveis à rápida consulta. Eles poderão te salvar. E não custa dizer, não tente se aventurar, ainda mais de improviso, em águas ou temas não antes navegados;

• Nunca deixe que os recursos audiovisuais “falem” mais alto do que o ponto que você quer enfatizar. Se um recurso não ajuda, ou se tira o foco do ponto principal (qual era ele mesmo?...), deixe-o de lado. Três coisas são mais importantes do que a tecnologia: conteúdo, conteúdo e conteúdo;

• Conte uma história, dê um exemplo relevante e obviamente ligado ao tema, busque ser divertido. O humor deve ser comedido, sem exageros e, não custa dizer, há situações em que não convém usar esse expediente. Por exemplo, em uma cultura bem diferente da sua, ou num momento solene, ou em um velório, bem, já pegaram o ponto. A história ou o humor devem servir somente de apoio à boa comunicação. É verdade que um bom conteúdo, quando mal apresentado, é pouco ou nada aproveitado;

• Não queira dizer tudo de uma só vez. Querer falar muito e acerca de tudo pode ser pouco produtivo. Ainda mais quando se pode deixar um gostinho de "quero mais", um desejo de ouvir a próxima parte, quando...


Foto: © Pablo Nogueira
123 Probando!
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06 março 2008

Do outro lado do Atlântico

(Série Entrevistas – III)1

É 1992, num dia quente em Nairóbi, Quênia. Oito mil estudantes da Universidade de Nairóbi marcham em protesto contra um governo autoritário e corrupto. Logo adiante, um batalhão de soldados os espera, armas prontas para atirar. Poucos dias antes estudantes haviam tombado vítimas de suas balas. O momento do confronto se aproxima.

Antes, porém, um grupo de estudantes se adianta de mãos dadas e interpõe-se entre seus companheiros e a tropa. Um deles caminha a passos firmes em direção ao pelotão e começa a negociar. Ele assume a responsabilidade por uma manifestação pacífica caso os policiais recuem. Seguem alguns momentos tensos e ao fim o batalhão recua. O jovem estudante então volta e persuade seus colegas a que façam um protesto não-violento.

Iniciativa e coragem, evitando outra tragédia. Duncam Olumbe, àquela época um dos estudantes cristãos que avançou de mãos dadas e o responsável pela negociação, nos relata sua história de lutas em seu envolvimento com o FOCUS, o movimento estudantil cristão equivalente à ABUB (Aliança Bíblica Universitária) no Quênia. "Nós decidimos ser uma voz para os estudantes, nos envolvendo e trazendo-lhes bom senso."

Após episódios como esse e depois de formado, Duncan teve fortes razões para continuar se dedicando ao ministério estudantil, já que conheceu a Cristo através da União Secundarista Cristã, o ramo desse movimento que atua a partir do ensino médio no Quênia. Quando ele entrou na Universidade de Nairóbi, foi natural o seu envolvimento com o ministério do FOCUS e, depois de sua graduação, tornou-se assessor do movimento. "Eu realmente desfrutei estar no 'front': pregando, visitando, trazendo-lhes questões, orientando os grupos pequenos e envolvido no ministério um a um".

Seiscentos estudantes cristãos (isso mesmo, 600!!!) faziam parte do grupo na faculdade onde Duncan mais atuava como assessor. Que desafio! Talvez não muito para Duncan. Por quê? "Eles não precisam de muito encorajamento. Eles têm a iniciativa para fazer o que precisa ser feito e são bastante dedicados na tarefa de compartilhar o evangelho com outros estudantes".

Nem tudo são flores. Os estudantes sofrem por causa da corrupção, hostilidade entre as tribos e o aumento da incidência da AIDS. "Nós precisamos ajudar os estudantes para que sejam capazes de permanecer firmes contra a corrupção. Precisamos ajudar estudantes de diferentes tribos a se relacionarem melhor. Com relação ao problema da AIDS, precisamos ajudar os estudantes do grupo a perceberem que eles têm um papel importante a desempenhar na ajuda a seus colegas com AIDS, no acolhimento, aconselhamento, no testemunho e cuidando-os em todas as suas necessidades".

Os estudantes muçulmanos estão crescendo em número, “agora em cada
campus há uma mesquita, ou pelo menos um lugar para adoração”. No começo, os estudantes cristãos abordavam os muçulmanos de uma maneira inadequada. “Eles diziam ‘Alá não é Deus’, ‘Maomé está morto’. No mínimo, não eram sábios, porque os muçulmanos sentiam que haviam sido profundamente desrespeitados pelos cristãos”.

O bom foi que os estudantes não tiveram medo de reconhecer os seus erros, procurando melhores meios para compartilhar o evangelho. “Nós começamos um grupo de interesse sobre o Islã. Nós orávamos, líamos a respeito do que criam e aprendíamos a dialogar com os muçulmanos”.

O último desafio que Duncan compartilhou conosco tem a ver com os estudantes na sua vida pós-universidade. “O problema é: nós temos um número enorme de cristãos comprometidos nos grupos. Mas quando eles se formam, o efeito na sociedade é muito pequeno. A questão é como ajudá-los a se tornarem maduros em Cristo, de tal forma que quando eles entram na sociedade como profissionais, se tornam de maneira evidente sal para o mundo".


Vocês acham que isso também vale para a nossa realidade? Vozes e ações se levantam do outro lado do Atlântico, com suas lutas e vitórias, para nos estimular e nos ensinar em nossa missão tupiniquim.

1 Esse artigo foi escrito por ocasião de uma entrevista que fiz com meu amigo Duncam Olumbe, em 1997, quando ambos estudávamos no All Nations Christian College. Duncam adorava não ter que marcar hora para bater na porta de seus amigos brasileiros para uma boa conversa e café.

Foto: Peter Kozikowski - Copyright © 2008 TrekEarth

01 março 2008

O ensimesmado e suas tentações



(Série Entrevistas - I)

Ernesto Sabato uma vez disse que “uma entrevista quase sempre inclui ao menos duas pessoas ensimesmadas tratando de entender-se”
1.

Há alguns anos, uma repórter de um jornal chamado “Expressão Nacional” me entrevistou. Propunha uma pauta sobre as “tentações na universidade”. Eu não me sentia tentado pela pauta e tentava (haja trocadilho...) levá-la em outra direção.

Conversa vai, conversa vem, saiu uma matéria e a entrevista no tal jornal (não me recordo agora se era um jornal do ministério
Palavra da Fé ou da Internacional da Graça, algo assim...). E se você está curioso por saber, saiu um título em letras garrafais assim: “Jovens são tentados na universidade”.

Se o Sabato tem razão e mesmo assim você ainda tem a paciência de ler uma entrevista, deixo-lhe com o relato. O perigo está em que eu me anime e reproduza aqui outras entrevistas que estou descobrindo no porão... Desculpe-me, fazer o quê, devo ser mais um desses ensimesmados, caindo em suas próprias tentações...

EN – O ambiente universitário, por sua filosofia humanista, dificulta a vivência de crentes. Que cuidados um estudante evangélico deve tomar ao ingressar na faculdade?

Acredito que o problema não seja tanto certa ‘filosofia’ defendida na universidade, e sim essa ‘mística’ do que representa o ambiente universitário e como o estudante encara esse momento de sua vida. Para muitos, esse é um momento de deixar a casa dos pais, de assumir maior autonomia em sua
vida, de tomar decisões e de assumir convicções que provavelmente o acompanharão pelo resto de suas vidas. Assim, se a cabeça não estiver bem resolvida e algumas convicções não estiverem bem assentadas, o estudante pode vir a ser tentado a simplesmente acompanhar ou fazer o que a maioria faz, buscando aceitação, integração, ou a experimentar o que considera ‘adrenalina’ e ‘aventura’ da vida universitária.

EN – Quais são os principais focos de tentações neste meio?

As tentações não são diferentes das que todos experimentamos no mundo. De novo, o problema se dá com o momento de vida da pessoa, e se suas convicções são superficiais ou se são adquiridas e assimiladas. Por causa da faixa etária em que normalmente essa entrada na universidade se dá, diria que muitos nessa época estão em construção do que crêem, de como vêem sua fé, a vida, as suas relações e o que desejam para o futuro. Assim, de fato, é um momento crítico, em que experimentar o novo pode ser muito tentador.
Quando falamos de tentações, é preciso falar também de oportunidades. Assim, equilibramos o cuidado necessário em firmar a nossa fé com o mandamento de colocar nossa fé à prova, compartilhando-a com outros no contexto onde estamos. Assim, o jovem evangélico ao entrar na universidade deve ser chamado não apenas a guardar a sua fé, mas ser desafiado a viver sua fé junto com irmãos que ali encontrar, compartilhando-a de maneira contextualizada e ousada no campo de missão onde o Senhor o colocou.

EN – Existem organizações que se interessem em aconselhar estes jovens universitários?
Há ministérios de capelania universitária, e movimentos estudantis cristãos, como a Aliança Bíblica Universitária (ABU), ministério com o qual eu trabalho. Talvez mais do que aconselhar os estudantes, um movimento como esse se propõe a ser missionário, onde os próprios estudantes são desafiados a assumir a responsabilidade de serem testemunhas de Cristo nesse ambiente onde estão inseridos. E a ABU, por exemplo, se propõe a estar na retaguarda, em encontros de capacitação, fornecendo assessoria e boa literatura, procurando apoiar o estudante em seu ‘front’ de missão. Creio que o desafio de vivenciar e compartilhar sua fé, junto a outros estudantes
cristãos, por si será uma experiência muito rica de conhecer melhor a Deus e ter sua fé provada e aprofundada.

EN – A Igreja tem apoiado essas iniciativas?

Um movimento como a ABU se vê como parte da Igreja, como uma extensão dessa fazendo missão dentro da universidade. Se pudesse resumir em poucas palavras, diria que é um movimento estudantil, evangélico, interdenominacional e missionário. Quando passamos para a realidade de cada igreja local, as posturas são bem variadas. Há muitas que têm a visão de apoiar seus jovens nesse esforço missionário, em retaguarda de oração, discipulado e acolhimento dos novos convertidos. Outras, nem tanto. Mas talvez o principal problema se dê com a linguagem e a postura em muitas igrejas. Fala-se muito de fugir das tentações do mundo, inclusive as do mundo universitário, mas pouco em como fazer pontes de boa comunicação do evangelho, em como ser sal e luz nesse contexto.


EN – Além dos cuidados extra-classe, como o jovem universitário deve se prevenir para não ser enlaçado pela filosofia anti-bíblica ministrada durante as aulas?

Em nossa experiência, boa literatura e espaço para reflexão em grupos de estudo bíblico, onde se discute também os temas da atualidade, são uma boa ajuda. Agora é preciso ler e ouvir de tudo, de maneira crítica, aprendendo a questionar e a construir uma visão de mundo bíblica, sólida, inteligente e articulada. E essa leitura crítica também é necessária para a chamada ‘literatura evangélica’, porque muito do que se escreve reforça preconceitos e estereótipos, não ajudando na formação de uma boa mente cristã.


Foto: ©
stark doing his thing
Upload feito originalmente por sergio_recabarren


1 Em: Medio Siglo con Sabato – Julia Constela, Textos Libres.

22 fevereiro 2008

Uma necessidade, um sonho, um chamado

“Por que você veio ao Uruguai?”. Assim, direto, veio a pergunta de meu amigo uruguaio.

Voltei então a pensar sobre as idas e voltas que nossa vida faz. E cheguei à conclusão de que a resposta mais simples à pergunta tem a ver com uma necessidade, um sonho e um chamado.

Comecemos com o último. A primeira reação ao meu amigo foi assim, na lata, “Porque Deus me mandou vir aqui”. Seu olhar falou mais do que seu silêncio. Então, sob o escrutínio de dois olhos cheios de perguntas, resolvi desenvolver um pouco mais a resposta.

Quando falo de chamado, penso em algo que vai além da distorção da idéia como sendo algo somente para os monges, freiras, pastores e missionários.

Já comentei aqui algo sobre isso, tergiversando sobre aquela conferência em Pindorama sem "heróis transculturais", e também quando propus que todos nos chamássemos missionários. Como não desejo ser mais repetitivo do que já sou, apenas volto a dizer que a idéia de que “Deus nos chama”, para qualquer e toda vocação e atividade que desenvolvamos em nossa vida, é algo fundamental em toda a geografia e em qualquer área de exercício do labor humano.

Segundo, o que faço deve ter a ver com sonhos que carregamos. Eu e minha esposa Ruth sempre tivemos o sonho comum de apoiar em um contexto pioneiro de trabalho transcultural.

É verdade que esse sonho muitas vezes teve que ser purificado de suas concepções às vezes românticas ou por demais idealistas. Mas é ainda mais verdadeiro o fato de que nossa barriga tem que gelar e nossos olhos têm que brilhar quando falamos do que Deus tem nos chamado a fazer, onde quer que seja.

Também houve uma dimensão mais mística, em que tanto eu como Ruth encontramos a graça de pequenos sinais (ainda que não creia serem eles necessários), inclusive sonhos de verdade (isso mesmo, aqueles que temos enquanto dormimos...), que foram como que confirmando nossos planos.

Terceiro, a necessidade. Seria bom que mais pessoas tivessem uma percepção mais realista da obra a ser realizada. Algo inclusive mais pragmático. Escuto uma notícia, oro sobre essa necessidade, e corro o “risco” de me tornar a resposta à minha própria oração.

Isso tudo esteve no nosso caminho até aqui. Desejos antigos, sonhos literais (não faz mal a ninguém estar mais espiritualmente sensível às diferentes maneiras em que Deus pode nos falar), a percepção de uma necessidade concreta, de que com nossos dons podíamos ajudar de alguma maneira, e por último a convicção íntima do chamado de Deus.

Cada vez que um estudante nos diz algo assim, “estava orando por uma oportunidade para fazer algo na universidade”, sorrimos no íntimo e agradecemos a Deus por seu chamado e caminho que nos abriu.

(Foto: © Diego Zalduondo)