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03 julho 2012

Apologética pura e simples


Mariënwaerdt
Upload feito originalmente por Niquitin
Eu sei, o título é pretensioso, evoca o clássico do guru C. S. Lewis, mas bateu aquela vontade de homenageá-lo nesse exercício que traz mais perguntas que respostas. Algo que o autor do mundo de Nárnia fazia como ninguém. Vamos a elas, às perguntas?

O que seria a apologética, em especial com relação à Palavra de Deus? Do que exatamente estamos falando quando usamos essa palavra?

Na história da igreja cristã já vimos diferentes aproximações à pergunta sobre como alguém chega a crer. Houve aqueles que defenderam que é necessário “compreender para crer”, outros que defenderam o paradigma de que é preciso “crer para entender”, e movimentos mais contemporâneos que defendem que é preciso “pertencer para crer”, em uma alusão à importância do sentir-se parte de uma comunidade no caminho da fé, antes mesmo de abraçá-la.

Quem tem a razão? Possivelmente cada uma das abordagens traz suas verdades, suas fortalezas, mas também suas debilidades. Assim talvez o melhor caminho seja a sensibilidade para entender que há diferentes pessoas, diferentes gerações e culturas, reconhecendo que as rotas que traçamos nos mapas da apologética podem ser variadas.

Bem, havendo usado a palavra apologética já três vezes nesse texto (ops, quatro…) digamos que ela merece uma tentativa de definição. Aqui vai uma comumente usada:

Apologética é a ciência da defesa da fé. Tudo bem, reconheço que a palavra “ciência” aí atrás já condiciona o conceito, como se o mais importante fosse o método científico, razoável, plausível, de apresentar a fé. E, claro, a outra palavrinha, “defesa”, nos complica mais ainda. Ela nos põe na defensiva, como aquela criança pega no pulo e que tenta se explicar. Se defesa nos transmite a ideia de que a fé é culpada de algo e tem que se justificar, então busquemos outra definição.

O tal do Lewis costumava fazer algo que era bacana. Ele dizia que uma coisa não era outra coisa, ou que não era um conjunto de outras coisas, só para no final dizer então do que em verdade se tratava essa coisa. Captou?

Por exemplo, apologética não é evangelismo, porque evangelizar é compartilhar uma boa notícia, com conteúdo, começo, meio e fim, apresentar e propor uma mensagem, de preferência dessas que explicam tudo, ou quase tudo, o que alguns chamam de metanarrativa. Bem, não se complique muito com essa última palavra.

Mas se você gostou, anote aí, apologética também não é metanarrativa, porque não procura dar uma explicação ampla sobre todas as coisas, como se fosse algo definitivo, acabado, com todas as respostas. Seria ambição demais para ela, lembre-se, ela deve ser “pura e simples”.

Apologética também não é confrontação, ameaça, nem argumentos para ganhar discussão. Tampouco é tergiversar, que é aquele negócio de distorcer o que o outro acredita só para parecer mais ridículo e assim desacreditar mais facilmente a posição do outro.

Se não é isso ou aquilo, o que seria? Aqui segue uma simples aproximação: apologética é limpar o caminho, sacar os obstáculos, lavar as lentes dos óculos, tirar a cera do ouvido, remover os preconceitos e convidar a um encontro honesto e genuíno.

Para o propósito específico desse artigo, que é o da apologética relacionada à Palavra de Deus, sugiro alguns passos para que ela seja saudável, pura e simples:

1. Escutar – Quais são as percepções que as pessoas têm a respeito dos textos das Escrituras? Antes de propor algo, busque sondar o que creem, se creem em algo, como creem. Veja se já leram algo, como leram, com que lentes. Que perguntas elas tem? Essa será uma importante etapa para chegar ao próximo passo.

2. Fazer perguntas – Comece com as perguntas que as pessoas, em especial seus amigos não cristãos, fazem ao texto. Às vezes são questões que os impedem de chegar ao texto, outras vezes são perguntas que levantam quando leem o texto. Que elas venham! Se forem prévias ao texto, por exemplo ao não acreditar nas intenções de quem escreveu, busque devolver as perguntas, com sensibilidade e respeito. Por quê? Seria mesmo tudo montado? Como você vê o texto? Certa vez recordo que um amigo da universidade disse que havia muita coisa “inventada”, “adicionada”. Eu lhe perguntei “quanto por cento?”. Depois de me olhar meio estranho, disse “sei lá, pelo menos uns 30% deve ser adição feita tempos depois”. Devolvi, “estou satisfeito com 70%, vamos ler juntos?”. Aí há um ponto de partida, um começo, que é onde a pessoa está e não onde eu gostaria que ela estivesse.

3. Construir pontes – A razão tem lugar? É razoável supor que sim. A emoção também? Intuo que esta também tenha o seu lugar. E se há objeções pessoais, morais, da história de vida de alguém que a impede ou de chegar à Palavra ou de aplicar em sua vida uma verdade aí descoberta? É preciso saber construir essas pontes, limpar o caminho, ajudar a que se deem esses encontros pessoais, no estilo de cada um, com a Palavra e o Espírito que a inspirou. Nossas opiniões, interpretações ou pregações não substituem a beleza e o poder desse encontro pessoal de cada um com o Senhor através da Palavra.

4. Construir relações – Aprendi desde cedo na ABU que a Palavra também se lê e se entende em comunidade, que não é algo acessível só aos eruditos. Que ela também se lê em relação aos contextos (de quando foi escrita e os de agora), em um processo onde a realidade traz perguntas à Palavra e por sua vez as Escrituras também desafiam a realidade. É um ir e vir dinâmico, onde a comunidade é essencial porque vamos entendendo e obedecendo juntos. Apologética relacionada à Palavra é também “ler junto com” o outro.

5. Deixar a Palavra falar – Um grande perigo é achar que já sabe o que a Palavra irá dizer sobre qualquer assunto. O alerta serve para crentes e não crentes. Como saber se estou caindo nessa armadilha? Um bom indicativo é checar se você sempre está buscando no texto os argumentos que reforçam aquela sua posição já consolidada sobre algum tema. E um bom sinal positivo é se você fica encucado com um texto, se ele te desafia, se te provoca a pensar mais, a orar mais, a ver junto com outros na comunidade se é necessário rever uma postura que talvez seja mais fruto da tradição do que uma desafiadora verdade descoberta na Palavra.

Cinco sugestões sem muitos devaneios e argumentações que espero nos ajudem a entender os caminhos dessa tal apologética pura e simples.

Obs: texto originalmente publicado em "Entre Nós", uma publicação da ABUB.

16 abril 2012

Correr faz bem à alma


Pewter Run Pendant
Upload feito originalmente por mytriathlonjewelry
Em viagens pela América Latina tenho adotado o hábito de sair para correr com estudantes. Enquanto corremos eu lhes peço para pensar em textos bíblicos que os motivam à atividade física e que compartilhem como a prática esportiva lhes ajuda em sua vida espiritual.

Antes de revelar o que ouço abro parênteses para as objeções que às vezes escuto, normalmente dos que não se animam ao tour desportivo: “O que é eu quero é correr ou esforçar-me contra a injustiça”, “prefiro dedicar-me à oração”, “o tempo é que corre e muitos estão perdidos”, “prefiro levantamento de garfo, ou de copo” e outras nessa linha. É louvável o humor imaginativo, mas é menos apreciável a habilidade para criar dicotomias desnecessárias.

Às vezes as observações são acompanhadas por citações bíblicas e uma delas é curiosamente sempre mal citada. Geralmente dizem que o Paulo das Escrituras falou algo sobre o exercício físico ser de nenhum proveito. Interessante, logo Paulo que utilizou boas metáforas sobre o atleta e que em verdade disse que o exercício físico era de “algum proveito” (1 Tim. 4:8). Possivelmente se opunha à idolatria da atividade física, fazendo uma comparação entre o que era de proveito para essa vida, o exercício físico, com a piedade, que seria de proveito tanto para essa vida como para aquela outra depois da morte. Quer ser bom mordomo da vida que Deus te dá agora? Então preste atenção à atividade física.

Sobre essa memória bíblica que nos trai, proponho um teste. Pergunte a pessoas que tenham uma familiaridade com a Bíblia: “como é mesmo aquele texto em que Paulo fala sobre se há proveito ou não na atividade física?”. Observe então quantos dirão que Paulo afirma que “nenhum proveito” há ou que citarão “para nada serve”. Aproveite e faça um segundo teste. Pergunte sobre aquele outro texto em que Paulo fala sobre “estar de pé e cair”. Anote quantos dirão “quem está de pé cuide que não caia”, citando muito mal a exortação do apóstolo que alertava que “aquele que pensa estar de pé é melhor ter cuidado para não cair” (1 Cor. 10:12, NTLH). Sutil mas fundamental diferença. Uma luz amarela para aqueles que pensam que não precisam se cuidar.

Voltando àquelas vivências de sair para correr com estudantes de diferentes países, compartilho alguns textos citados em resposta à pergunta sobre as passagens que os motivam:

“Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória”, “corram de tal maneira que ganhem o prêmio”, “o atleta que toma parte numa corrida não recebe o prêmio se não obedecer às regras da competição”, “os que confiam no Senhor... correm e não perdem as forças” (1).

É uma experiência muito interessante ouvir esses relatos, vendo as conexões que fazem e sua visão integral de uma vida saudável. Quanto à pergunta sobre como lhes ajuda a atividade física e os benefícios que essa lhes traz à sua vida, aqui vão algumas respostas que ouço:
“Ajuda-me a ter mais disciplina”, “agora consigo orar mais”, “planejo melhor minha vida e meus horários”, “conheci novas pessoas”, “me sinto mais forte para novos desafios”, “tenho mais disposição e saúde”, e por esse caminho seguem.

Para mim a motivação começou assim(2). Ela chegou em tempos de sedentarismo, de colesterol e triglicerídeos nas nuvens, de pecados preguiçosos e gastronômicos. Sim, comer mal também é pecado. Sinto muito por revelar essa verdade incômoda ao seu estômago, mas me alegro por ao menos despertar a sua acomodada alma. Também teve seus benefícios secundários importantes, como conseguir organizar-me melhor e a curiosa observação da esposa amada de que meu humor havia melhorado muito (como não consigo me lembrar se meu humor era assim tão ruim antes, talvez o esporte não tenha efeitos positivos sobre a memória).

Há tentações no caminho? Claro, somos assim, cheios de ambiguidades e defeitos. Há que tomar cuidado para evitar as comparações com os demais (o importante é que você mesmo progrida), com a competitividade extremada (reconheça seus limites), com a idolatria do corpo (cuidar é diferente de ser obsessivo) ou vigiar para não descuidar das relações, da família e das causas nobres a que te sentes chamado a cooperar com a sua vida e com a capacidade que Deus te deu.

Estou seguro que quando você decida se cuidar melhor “você salvará tanto você mesmo como os que o escutam” (1 Tim. 4:16). Busque avaliar se você já pensa que “está de pé” e que não precisa de mais esforço e de cuidado na vida. Imaginar que já estamos bem é o primeiro passo para o abismo. Cuidar, avaliar, revisar e esforçar-se pode ser um bom início ou o recomeço de uma nova e frutífera etapa na vida. Recobrará forças e assim estará mais em forma para lutar contra a injustiça, pecado e maldade no mundo.

Aproveite e compartilhe o que te anima ou o que te impede nesse caminho de cuidado com a vida. Juntos, porque a comunidade aqui também é importante, podemos correr, caminhar, nadar ou pedalar, valorizando a vida por onde o Senhor nos leva nesse mundo. Então, me diz aí, a que horas você colocará o despertador para tocar e com quem você irá correr amanhã?

1 Filipenses 3:14; 1 Coríntios 9:24; 2 Timóteo 2:5; Isaías 40:31 (NTLH)
2 Agradeço ao amigo e mestre Ziel Machado por animar-me nesse caminho.

12 fevereiro 2012

Recomeçar


Time goes by
Upload feito originalmente por Frodrig
Que princípios me guiam quando começo uma nova etapa, projeto ou desafio na vida? Em horas assim eu me identifico com aqueles discípulos que pedem a Jesus, “aumenta em nós a fé” (Luc. 17:5). Ao ver a resposta de Jesus e a sequência de eventos narrada por Lucas, encontro três princípios norteadores:

Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.

2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.

3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.

Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:

Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.

2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.

3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.

Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!

06 junho 2010

Phineas, os problemas do mundo e Powerpoints

"O que faremos hoje, Ferb?" Os iniciados nesse divertido desenho animado saberão que essa frase costuma abrir muitos dos episódios de "Phineas e Ferb". Dois irmãos desenham engenhocas criativas, com a ignorância de seus pais e para o desespero de sua irmã, que sempre tenta, em vão, revelar suas façanhas. Claro, há o vilão de nome impronunciável e motivações obscuras, além do delicioso agente Perry, o ornitorrinco, que sempre salva o dia.

Mas como não estamos aqui para falar de mamíferos ovíparos, passemos a outro Phineas, dessa vez um personagem das Escrituras. Phineas e seu imão (que não se chamava Ferb...) eram os filhos do sacerdote Eli, aquele que se desempenhou como tutor do profeta Samuel. Não foram exatamente conhecidos por sua, digamos, retidão em sua função.

Phineas e Hofni eram os guardadores da Arca da aliança quando ocorreu o episódio(1) em que buscaram levar a Arca para o campo de batalha contra os filisteus. Como a Arca simbolizava a presença de Deus no meio do povo, interpretaram que essa seria um poderoso amuleto em sua agenda guerreira.

Não houve esforço para discernimento ou consulta a Deus sobre o tema, em uma demonstração mais de que imaginavam poder manipular a Deus para seus próprios fins. O resultado se mostrou dramático. A Arca foi sequestrada, Phineas e Hofni morreram e até mesmo a notícia de que a Arca havia sido tomada levou também à morte de seu velho pai Eli.

Outro dia saiu uma reportagem interessante no "The New York Times", sobre generais norte-americanos saturados do uso de apresentações de PowerPoint para tentar descifrar os caminhos para a guerra no Afeganistão.

Os slides eram tão complexos que um dos generais chegou a brincar dizendo que "o dia em que entendermos esse slide ganhamos a guerra". McMaster, outro general, disse que "alguns problemas do mundo não são bullet-izable". Essa última expressão, difícil de traduzir, traz um trocadilho interessante (seria consciente?) sobre a dificuldade em classificar simplisticamente uma situação através de pontos e gráficos em um PowerPoint, mas também revelando algo sobre a limitação de querer resolver algo através das "bullets" (balas), como se um poderio militar avassalador fosse a panacéia dos problemas do mundo.

McMaster também revela uma lucidez importante ao comentar porque PowerPoints tendem a tornar-nos estúpidos. "São perigosos porque criam a ilusão de entendimento e de controle". O ponto é que o mundo tem desafios mais complexos do que enfrentar um ou outro vilão como o Dr. Doonfenshmirtz (sim, o vilão de Phineas e Ferb).

A ilusão de controle foi a que também se apoderou de Phineas (o homônimo bíblico) e seu irmão Hofni. Pena que não dá nem para criticar tanto os dois irmãos, uma vez que nossa própria relação com Deus muitas vezes se dá no marco de querer controlar o que Deus fará na história. Ou de imaginar que podemos manipular esse poder e presença para nossos próprios interesses.

Recentemente eu fui provocado pelo capítulo sobre Submissão do excelente livro de Chris Heuertz, "Simple Spirituality". Discorrendo sobre transparência, vulnerabilidade e submissão, ele afirma:

"Submissão é uma oportunidade de afirmar nossa profunda confiança em Deus, permitindo que Deus esteja no controle enquanto resistimos à compulsão de querer colocar-nos no lugar de Deus."

Sejamos criativos ao buscar soluções. A engenhosidade dos meus personagens favoritos de desenhos animados é um estimulante. Mas não sejamos ingênuos para imaginar que encontraremos caminhos fáceis, e nem tenhamos a desfaçatez de querer empurrar a Deus dentro de nossos próprios projetos. Ah, e da próxima vez pensarei duas vezes antes de colocar um sermão no PowerPoint.

(1) 1 Samuel 4

11 fevereiro 2010

O chicote do Papa e o jejum do crente



Provocou polêmica o lançamento recente de um livro que revelou a auto-flagelação do falecido Papa João Paulo II com um cinto e as noites em que dormia prostrado no chão.

Da penitência, como evangélico e ao menos em teoria, tenho pouca familiaridade. Ainda que seja um fato embaraçosamente comum em comunidades evangélicas os nossos jogos de auto-engano e as nossas vãs tentativas ao buscar compensações com o Senhor.

Essas artimanhas e negócios costumam aparecer quando tentamos oferecer nossos singelos pagamentos pelos pecados ocultos de nossa alma. Ou quando buscamos algum favor especial dos céus. Um jogo sem fim, e normalmente sem ganhadores. A não ser quando a graça e a misericórdia de nosso Senhor, que são maiores do que a vida, assim mesmo se manifestam, sempre apesar de nós mesmos.

Ainda assim, há um mistério em torno do proveito que posso ter ao abster-me de algo. É inegável que a auto-negação e a renúncia aparecem nas Escrituras muitas vezes como virtudes positivas daquele que crê. Talvez porque, entre outras coisas, provoquem o início de uma fortaleza íntima, de um controle, ainda que débil, sobre tudo aquilo que possa nos escravizar.

A começar por nossa própria natureza. Vi nesses dias o ator Hugh Jackman afirmar, em um documentário sobre o personagem Wolverine, que “não há nada melhor do que poder fazer o que quiser, na hora em que quiser, sem quaisquer regras de conduta”. Não entrarei no mérito do que essa postura pode produzir na atribulada vida de um personagem de X-Men ou na de qualquer um de nós, ordinários e não mutantes pecadores.

Vale, então, literalmente, o sacrifício? O sofrimento produz perseverança, disse Paulo aos seus irmãos da capital do Império1. Ele também esmurrava o seu corpo2, numa alusão, literal ou não, a seu exercício de auto-domínio. Mas é possível que Paulo não buscasse o sofrimento (ele já vinha sem que fosse preciso buscá-lo, por sua fidelidade a Cristo3), sendo que até mesmo pedia alívio quando esse o sufocava4. Não sei, talvez a chave esteja em minha atitude íntima, e se devo ou não fazer publicidade da disciplina que cultive.

Voltando à revelação acerca dos hábitos secretos do Papa, o que sim me pareceu interessante é que aparentemente ele guardava esse segredo para si mesmo. Não o promovia e não se promovia com isso. Ele provavelmente sabia com que fantasmas internos lutava, ainda que outros pudessem questionar seus métodos ou motivações. Mas não impôs seu exemplo, nem mesmo o revelou.

Outro dia vi uma igreja promovendo o jejum entre seus membros através de uma rede social. Havia uma não tão sutil imposição para que todos seus membros o praticassem e uma certa tentativa de fiscalizar o seu cumprimento. Lamento comentar esse exemplo de uma maneira negativa. Sou favorável ao saudável resgate dessa disciplina, entre outras esquecidas e estigmatizadas pelo nosso mundo.

No caso do jejum, por exemplo, não nos esquecendo do mui saudável princípio da discrição e da disciplina espiritual que é cultivada no segredo da alcova íntima. Quer um benefício público e visível para ela? Enviem o que economizarem em sua prática para as vítimas no Haiti ou para aquele vizinho ou familiar em necessidade. Uma doação anônima, claro.

Deixem o papa, ou sua memória, e não barganhem com Deus, ou ao menos não cobrem de seu próximo que entre em seu próprio jogo de comércio divino e auto-promoção.

1 Romanos 5:3b
2 1 Corintios 9:27
3 1 Coríntios 11:23-27
4 2 Coríntios 12:8


Foto: ©
Prayer
Upload feito originalmente por
Kaj Bjurman

16 janeiro 2009

Retrospectiva 2008: os melhores livros


Seguindo no assunto de livros, aproveito para fazer aqui uma lista do que foram as melhores leituras de 2008.

Greenspan
Alan Greenspan, Wall Street y la economia mundial
Bob Woodward
Uma interessante biografia que por acaso caiu em minhas mãos (oferta de livraria de bairro) pouco antes que a crise financeira ficasse mais evidente, no segundo semestre do ano. Foi quase divertido ler a advertência de Greenspan para que o mercado não interviesse no crash de 1987, porque segundo ele tal intervenção faria com que todo o sistema tomasse rumos imprevisíveis. O que dizer agora sobre o que pode acontecer com a gigantesca intervenção na economia de tantos governos, inclusive (e talvez principalmente) dos EUA?
(versões em Português e em Inglês)

Estados Fallidos
El abuso del poder y el ataque a la democracia
Noam Chomsky
Polêmico, bombástico, revelador, um profeta incômodo. Pode-se não concordar com tudo, mas difícil ficar indiferente. Uma leitura necessária para tentar entender o mundo em que vivemos.
( versão em Inglês)

Amor líquido
Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos
Zygmunt Bauman
Comentei algo aqui sobre sua leitura. Não é fácil encontrar alguém hoje que expresse melhor o abismo de nossas angústias, sem ser totalmente pessimista. Há esperança nos escritos de Bauman, e é isso (entre outras coisas) que me levará a ler outras obras dele.
(versão em Inglês e em Português)

Las Viudas Rojas
Esteban Valenti
Escrita por um italiano radicado em Montevidéu já há algumas décadas, essa ficção te agarra e te leva por um divertido passeio de espionagem, intriga e humor, por entre os dilemas de uma geração que ficou no meio do caminho, abandonada pelo decreto do fim da utopia do socialismo real.

La Brújula Dorada
Philip Pullman
Já resenhei aqui e apenas acrescento o seguinte: para quem gosta do gênero, é muito melhor escrito e muito mais provocador do que Harry Potter. Ainda estou em dívida com as sequências: “La Daga” e “El Catalejo Lacado”.
(versões em Inglês e em Português)

Exploring Protestant Traditions
An invitation to theological hospitality
W. David Buschart
Não sei recomendar um livro melhor que esse para poder entender, sem estereótipos simplistas ou julgamentos rápidos, as diferentes tradições protestantes. É um daqueles livros indispensáveis para quem trabalha em ministérios interdenominacionais.

C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University
A. Donald MacLeod
Foi o mais sublinhado e rabiscado do ano! O melhor livro que já tive em mãos para entender a fundo a história da IFES (era esse o propósito?), em especial nos relatos das “entrelinhas”, em um fabuloso e bem honesto trabalho levado a cabo por esse excelente professor de história. Quando uma vez eu tive o privilégio de ser levado pelo Donald a um aeroporto, infelizmente eu ainda não tinha lido o livro. Uma pena, pois um pneu furado ou um vôo perdido abririam a chance de muitas perguntas e creio que uma frutífera conversa sobre seus escritos.

The Message of Samuel
Mary J. Evans
Essa excelente, profunda, mas acessível exposição do texto me fez desejar uma coisa. Se um dia Deus me chamar a escrever algo, depois de uma séria investigação bíblica, gostaria de escrever como a Mary.

Para 2009, tenho minha lista de pendências de leituras. Mas ela pode ser enriquecida com suas sugestões. Antecipadamente, agradeço.

Foto: © (07-11-24) 2:32
Upload feito originalmente por Shefaet

17 novembro 2008

Sou trevas



Sou trevas, mas não caminho em trevas. Conseguiria explicar essa equação?

Não andarão em trevas aqueles que o seguirem, assim prometeu o Mestre. Um título nobre e bastante diferente os acompanharia: filhos da luz.

Ler o evangelho de João nos leva e nos traz ao redor dos dilemas e tensões da pugna entre a escuridão e a clara luz.

Uma chave pra abrir a equação nos é entregue pelo próprio “Eu Sou”. Numa de suas muitas explicações de si mesmo registradas no quarto evangelho, aparece essa em que assim se define, “eu sou a luz do mundo”.

Quando sei quem é a luz e onde está a fonte que iluminará a escuridão do mundo, conto então com a ajuda vinda do século XVI, do místico João da Cruz, para me ajudar a entender o possível e desejável encontro dessa luz comigo mesmo.

Para João da Cruz, nós somos as trevas, diante do único que é luz. E a luz, quanto mais perto dela estivermos, mais consciência provoca em nós de nossa própria escuridão.

Ou seja, quanto mais próximo estou da luz, mais reconheço o quanto de trevas há em mim. Mais consciente me torno de minhas limitações, de meu mal, de meu pecado.

Se perto da luz estou, mais pecador me percebo. Claro! Se longe da luz estivera, na penumbra ou escuridão, mais difícil seria ver o quão desconcertado e equivocado eu sou. Não conseguiria, ou pelo menos assim o fingiria, ver meus próprios erros.

Mas se me aproximo da verdadeira luz, ela me invade, penetra em minhas trevas, me expõe, e me enche com essa luz de vida e de verdade.

Penso que sou luz e que posso iluminar o mundo? Ledo auto-engano. Mas há paradoxo e esperança! Se reconheço a única luz que há, ainda que ela me invada em um doloroso processo que expõe a mim mesmo e aos outros quem de verdade eu sou, poderei ainda de alguma forma refletir essa luz, que não é minha, em um mundo que tateia no escuro.

Posso ser “filho da luz”. Posso rejeitar o “andar nas trevas” para experimentar a vida que há nessa luz. Posso até, quem diria, refletir essa luz que apontará o caminho para que outros cegos como eu sejam liberados da escravidão da escuridão.

Mas começa assim, bem simples, quando primeiro reconheço que eu sou trevas. Nada mais, nada menos, para que a luz assim cumpra o seu papel.


Foto: © IT 6
Upload feito originalmente por ir_photos

28 julho 2008

Responsabilidade rima com generosidade


(Série Histórias Agronômicas - VIII)

“…as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc. 4:32)

O que teve seu início no cuidado, proteção e amor das mãos de quem semeou, ao fim também produz bênção para outros.

O que era pequeno teria se tornado grande e importante? Sim, mas veja bem que isso se deu através de certos critérios. E eles são o do serviço e o da adequação ao seu chamado.

Primeiro, o serviço. Se algo não servir para abençoar a outros, então para nada serve. Como tanta coisa no Reino, aquilo que se retém, se perde. Aquilo que se gasta e se investe na vida de outros, ao contrário, tem grande proveito.

Segundo, a adequação à sua proposta ou chamado. Não se pode esperar de uma hortaliça o que só um carvalho pode oferecer. Sempre é preciso revisar as expectativas para checar se elas estão em saudável perspectiva.

Concluímos essa série voltando ao interlúdio entre as parábolas agronômicas (Mc. 4:21-25), que nos revela que aprendizagem tem a ver com responsabilidade.

Que fazemos com o que aprendemos? Que
fazer com algo precioso que alguém recebe em suas mãos?

A metáfora da luz nos fala de diligência. Por isso o “se tem ouvidos para ouvir, ouça!” Se escutaram, se aprenderam, ponham em prática, assumam responsabilidade pelo aprendido, multipliquem-no.

O critério uma vez mais será o benefício de muitos. Ponham a luz em “um lugar apropriado”, para que ilumine bem, para que chegue a mais gente, para que ela sirva a um propósito útil.

Jesus conclui nos indicando que responsabilidade rima com generosidade (Mc. 4: 24-25). À primeira leitura, soam difíceis essas palavras de Jesus quanto ao princípio da reciprocidade.

Talvez aceitemos mais facilmente essa lógica quanto aos julgamentos. Se formos duros ao julgar, assim também seremos julgados. Parece razoável. E, pensando bem, também parece bem justo que a reciprocidade seja aplicada à generosidade.

Ou seja, se somos generosos ao dar e oferecer, ainda mais nos será dado. Esse recebido também será oferecido e assim sucessivamente segue o ciclo. Note que é algo distinto da sutil, ainda que terrível, distorção da “teologia da prosperidade”, onde o foco se dá na ganância de querer ganhar e acumular, algo voltado para si mesmo e seu próprio benefício.

Como todas as parábolas agronômicas nos confirmam, o foco deve ser o de produzir, multiplicar e abençoar. Quanto mais damos, mais recebemos, e é claro que isso demandará um processo de maturidade e crescimento na fé.

Assim termino o que parecia uma interminável série de pequenas reflexões sobre o capítulo mais agronômico de todos. Se algo lhe foi útil, aplique a lição. Seja generoso ao repartir, cultivar, melhorar, fazer crescer e aprofundar aquilo que apenas foi plantado. Quanto mais cabeças e mãos pensarem e trabalharem juntas, mais oportunidades a rima do título terá para funcionar.


Foto: © Sunset, upload feito originalmente por surplus-to-requirements-stan.

22 julho 2008

Nossa atitude com as coisas pequenas


(Série Histórias Agronômicas - VII)

“...é a menor semente que se planta na terra”. (Marcos 4:31b)


Quem já não passou pela experiência de ver um esforço pessoal ou uma pequena iniciativa ser minimizado ou mesmo desprezado?


E quem também já não teve atitude semelhante consigo mesmo ao desistir de algo por pensar que nunca chegaria a ser algo relevante?


Aquelas mãos que crêem e que sabem esperar são também as mesmas mãos que tomam a “menor semente” e a plantam na terra. Com esse pequeno ato e gesto, dão um enorme passo de fé.


“Uma vez plantado” (4:32a), ou seja, o ato de semear se junta ao poder latente da semente, e se transforma em uma ação conjunta de “fé” + “potência latente” para a grande obra que será realizada, exatamente graças a essa conjunção de fatores.


As mãos que “cultivam e guardam” (Gêneses 2:15) são as que, devido ao tamanho da semente, mais cuidado e proteção brindarão à pequenina. Mas também, e esse é um lindo paradoxo, mais confiança e fé nela terão quando a semearem, pois crerão no muito que daí poderá surgir.


Um diferencial importante se dá já desde o início. E esse tem a ver com a percepção do que é pequeno, da perspectiva e do olhar que cada um tem da situação. Se aplicarmos critérios “convencionais”, a semente seria algo pequeno e sem valor.


Por outro lado, uma atitude mais adequada poderia considerar o que já vem com a semente, e que muitos não vêem ou não valorizam. Reconhecer essa riqueza embutida, quase escondida, e seu potencial para crescer, produzir e multiplicar-se.


Também há algo mais além do poder da semente. Trata-se da experiência e conhecimento do semeador, que já viu o que acontece depois da semeadura, que aprendeu quando é melhor semeá-la, em que condições e de que maneira.


Esse é o conhecimento que vem da tradição e da vida. Nenhuma nova tecnologia poderá substituir a importância desse saber. Nem minimizá-lo, nem dizer que é de “pequeno” alcance.


Ao fim das contas (e da colheita), o que parece pequeno se tornará grande, mas nesse pequenino texto já não há mais espaço para pensar nos critérios para dizer se algo é pequeno ou grande.


Fica para a próxima, numa promessa latente, como a semente. Espero que você creia. Em mim? Não! Nela, na semente.

(Continua...)

Foto: © Marquicio Pagola

14 julho 2008

Fazer bem leva tempo


(Série Histórias Agronômicas - VI)


“…primeiro o talo, depois a espiga e, então, o grão cheio na espiga”. (Marcos 4: 28)


Às vezes me pergunto quando é que desejaria ver os resultados de um trabalho com o qual esteja envolvido. Minha primeira reação, e é bom que seja assim, é a de desejar vê-los rapidamente. Quero me certificar de que estou indo na direção certa, que vale a pena todo o empenho.


Entretanto, e acredito que assim o seja em uma ampla variedade de situações, demora-se até que seja possível discernir os primeiros frutos concretos de um esforço. Às vezes até me pergunto se um dia o veremos.


Essa parábola me ajuda a valorizar a importância das etapas, a reconhecer que comumente há um processo até que se possa chegar lá. Há que esperar para que o grão fique “maduro” (v. 29). Mesmo que seja difícil, é necessário aguardar o “tempo da colheita”.


Três rápidas lições. Primeira, é preciso perseverar ao longo dos processos, também levar em conta que freqüentemente são demorados, e assim não desanimar no meio do caminho (lembre-se de Eugene Peterson, para quem a perseverança é sinônimo de “longa obediência em um mesmo caminho”).


Segunda, é necessário desenvolver uma saudável capacidade de avaliar os processos, reconhecer os avanços e retrocessos, ser capaz de revisar com propriedade e sabedoria os passos e os meios pelos quais desejamos chegar aos resultados (em outro momento penso em voltar ao tema dos critérios que devemos usar em avaliações).


Terceira, a perspectiva da colheita é algo que alimenta nossa esperança. Isso acontece quando a escatologia não é usada como um escape e sim como alento e alimento na obediência prática e concreta do presente.


Como está sua disposição para perseverar sem que veja o resultado de seus esforços?


Compartilho algo que me ajuda. Espero que também lhe sirva. Busco imaginar como é que as próximas gerações de estudantes universitários se beneficiarão do trabalho que estamos desenvolvendo agora. Que tipo de ministério estudantil cristão encontrarão na universidade os estudantes que nela entrarem daqui a 5, 15 ou 30 anos? Como é que o que plantamos agora poderá lhes ser útil para que eles enfrentem com fidelidade e criatividade os desafios de seu tempo?


Pense nisso. Ficarei feliz ao ouvir suas idéias.


(Continua...)


Foto: © Yan Seiler

07 julho 2008

Quando “não saber” é uma virtude

(Série Histórias Agronômicas - V)

O poder da semente que sempre nasce e cresce é um mistério que o agricultor não entende (Mc. 4:27). Tampouco nós chegamos a entender.


Daí surge na memória o que Jesus disse acerca de Deus decidir revelar as verdades mais profundas do evangelho aos humildes de coração, ocultando-as dos supostamente mais sábios e entendidos.


Poderíamos então chegar à libertadora percepção de que o “não saber” aponta não somente para uma limitação de nossa capacidade, mas também para algo desejável para uma sã espiritualidade?


Examinemos rapidamente quando o “não saber” se tornaria uma virtude.


Um desses casos nos é revelado pela parábola da erva daninha (Mateus 13:24-30;36-43). Ela nos impede que nos coloquemos em uma posição de juízes, pois em verdade não o somos. Há somente um. Quando pensamos que “sabemos”, arriscamo-nos a arrancar a planta que cresceu da boa semente junto com a nefasta.


“Não saber” também é algo que nos ajuda a não nos afogarmos em uma tentadora necessidade de controlar os processos e os resultados, essa que acaba nos levando a uma ansiedade absurda. Evitando essa armadilha, podemos desenvolver essa confiança mais leve e descansada no Senhor.


Por fim, se pudéssemos entender tudo acerca do poder e do mistério embutido na semente que é a Palavra, poderia suceder que víssemos a nós mesmos como grandes e que percebêssemos a Deus e sua Palavra como pequenos e manipuláveis de acordo com nossos próprios interesses.


Difícil imaginar algo mais perigoso do que a religiosidade como instrumento de poder para que uma pessoa ou grupo levem a cabo suas próprias agendas.


Há muita virtude em confiar naquele poder que faz com que “a terra por si produza o grão” (v. 28).


(Continua...)


Foto: ©
Isaac Bonyuet - 2008 TrekEarth

30 junho 2008

Estaria o poder em minhas mãos?



(Série Histórias Agronômicas - IV)

O Reino de Deus é mais uma vez comparado a um homem que lança a semente na terra. (Marcos 4: 26-29)

Ao voltar a falar do trabalho como metáfora do Reino, Jesus nos comunica que a idéia do esforço que alguém investe em alguma coisa para produzir algo é um conceito importante no Reino de Deus.

O trabalho não seria fruto da Queda. Ele já estava antes, na mente e nos desígnios de Deus para a raça humana. No início, Deus plantou a humanidade em um jardim, para o “cultivar e guardar” (Gên. 2:15).

O que se passa depois do pecado e da desobediência crucial do homem e da mulher é que o trabalho passa a ser um processo que nos custará muito (Gên. 3:17). Haverá que trabalhar duro e muitas vezes parecerá que se trata de um esforço em vão (Eclesiastes).

Em nosso cotidiano, onde experimentamos frustrações em nossa experiência de trabalho, como é importante escutar as palavras de Jesus que resgatam o valor e a importância do trabalhador e de seu esforço.

Essas palavras de ânimo tornam-se ainda mais vitais quando reconhecemos a enormidade da tarefa, o muito que há por fazer, e os obstáculos no caminho.

Agora, uma ênfase em nosso esforço e no trabalho de nossas mãos não pode fazer com que creiamos que todo o poder e responsabilidade estejam nela, em nossas mãos. Pensar assim nos levaria à arrogância e à auto-suficiência.

“Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado” (Mc. 4:27a), vemos que o que determina o fruto não é o nosso esforço (“dormindo ou acordado”) nem tampouco as circunstâncias (“noite e dia”).

Não há que carregar uma responsabilidade ou peso maior do que o que nos cabe ou do que podemos levar. Certamente isso nos arrastaria a uma experiência de culpa, desânimo, cansaço e frustração.

Também evita que pensemos que há que esperar pelas circunstâncias supostamente ideais ou mais adequadas para nosso trabalho e esforço. Infelizmente, essas “circunstâncias ideais” nunca chegam, sem falar de que podemos nos equivocar em sua avaliação.

“A terra por si produz o grão”, ou, em outra versão, “a semente sempre nasce e cresce” (Mc. 4:28a), é um consolo importante e uma esperança firme em um poder que não está em nossas mãos.

(Continua...)

Foto: © Jon Block -
Goldsmith
Upload feito originalmente por Jon Block

23 junho 2008

Dificuldades, mas alegria



(Série Histórias Agronômicas - III)

Muita gente necessitada veio escutar essas parábolas que Jesus lhes contou. Ficavam de pé, à beira da praia, ansiosos por ouvir algo acerca do caminho. O Semeador então lhes falou que na vida há uma luta ativa contra: o esquecimento, a superficialidade e as tentações.

As sementes ao largo do caminho são o esquecimento. Elas nos falam da indiferença, da insensibilidade, da apatia. Também do perigo do “roubo” da Palavra e da esperança semeada.

As sementes no meio das pedras são a superficialidade. Aquela que se revela na falta de um bom fundamento, de sólidas motivações, de bons marcos de referência. Que brota da inconsistência e da falta de perseverança diante das dificuldades.

As sementes entre espinhos são as tentações. Até coisas boas, quando mal usadas ou mal enfocadas, tornam-se um desvio e um problema. Daí surgem as tentações da ilusão e do engano das “soluções” rápidas. Vem a atração do poder, e a tentação de usá-lo para si e não para o benefício dos outros (Marcos 10:42-45), afogando assim qualquer pretensão de bom fruto.

Talvez para animar-lhes a vencer essas dificuldades, o Semeador fecha a história com a alegria das sementes que produzem. Sua palavra final é uma de ânimo, para nos encher de esperança, apesar das dificuldades.

Humanamente, e visto pela lógica da produtividade, o semeador foi bastante ineficiente. Dos quatro tipos de terrenos, somente um produziu. Mas a lógica desse Semeador parece ser distinta.

De acordo com Ele, deve haver muita alegria com o que se passa com essas sementes: essas que escutam, aceitam e produzem.

Ao escutar, elas abrem espaço verdadeiro para que a Palavra faça sentido em suas vidas. Dialogam, interagem, guardam-na e preservam-na como um tesouro precioso.

Ao aceitar, talvez isso nos fale de um recebimento genuíno da Palavra, um acolhimento que abarca sua vida e que lhe dá novo rumo, novo sentido e novo norte.

Ao produzir, revela o que era mais importante para o Semeador. Foi Ele mesmo quem disse, ao terminar essa desafiante história, “o que tem ouvidos para ouvir, que ouça”. “Escutar” era o equivalente a “colocar em prática” o que se ouviu. Essa seria uma comprovação de que de fato a escutou.

A boa terra produz uma colheita variada (30, 60 e 100 por um) e abundante. Ao produzir, cada uma dessas sementes é agora multiplicadora dessa mudança e dessa vida em outros terrenos. Que outros? Ora, há muitos outros como aqueles que ao início dessa história estavam ansiosos, de pé, à beira da praia.

Aqueles que buscavam são então chamados a ser a resposta a muitos outros que também, em suas necessidades, seguem buscando.

(Continua...)


Foto: © Tim Kahane 2006- 0138 Waiting in a field
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16 junho 2008

Em todos os terrenos



(Série Histórias Agronômicas - II)

No capítulo mais agronômico* de todas as Escrituras, a primeira das parábolas chega para contar-nos acerca de um semeador com uma tarefa. Essa consiste basicamente em fazer um recorrido por vários tipos de terrenos, semeando em cada um deles.

Entre tantas e tão importantes lições, hoje fico com uma que me parece pouco notada. A de que o semeador passa por vários terrenos.

A pergunta, bem simples, seria essa. Por que ele passa por diversos terrenos, inclusive aqueles com “poucas chances”?

Estaria o semeador em busca daquele terreno ideal, em uma espécie de caça ao tesouro perdido, para que quando o encontre, abandone os demais?

Será que lhe faltou uma pesquisa prévia de mercado, para saber dos interesses de seus potenciais consumidores, e assim tentar prever o impacto de seu produto no mercado?

Teria lhe faltado orientação profissional e seria ele somente um inexperiente amador que precisa preparar-se melhor para essa tarefa?

Ou não seria simplesmente uma indicação de que não se deve fazer uma “pré-seleção do terreno”? Fico pensando se a ação do semeador poderia nos revelar a lição de que não há que buscar definir de antemão, como se isso fosse possível, donde seremos exitosos e donde não. Por essa lógica, alguém pensaria que poderia escolher semear e trabalhar somente onde imagina, ou aposta, que tudo lhe sairá bem.

O problema é que não é possível, nem desejável, alcançar essa certeza.

Não é possível porque não sabemos tudo, não temos o controle de todas as variáveis e circunstâncias. Também porque há outros elementos, assim o veremos nessas parábolas, que envolvem esse ato de semear com nossas frágeis mãos.

Também não é desejável porque não podemos excluir ou decidir que esse sim e que esse não. Ao contrário, Jesus nos ofereceu um modelo de compaixão por todas as pessoas, em todas suas necessidades. A paz e a vida são presentes oferecidos a todos, sem distinção.

(Continua...)

* Marcos 4

Foto: ©
Countryside: Crops
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09 junho 2008

Foi assim que me apaixonei por aquele texto



(Série Histórias Agronômicas - I)

Apaixonei-me por um capítulo da Bíblia em um congresso científico! Foi assim. Tive que chegar antes para garantir meu assento no auditório. O Dr. Warwick Estevam Kerr estava por proferir uma palestra no Congresso Brasileiro de Genética. Era 1990, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. De todos lados chegavam estudantes e professores para ouvir aquele que trazia consigo uma invejável fama de brilhante cientista.

Para falar da biodiversidade, o tema de sua palestra, o Dr. Kerr nos deliciou com uma exposição da parábola do semeador! Aí estava um respeitado geneticista deixando-nos boquiabertos com sua desenvoltura ao falar de ciência usando a sabedoria dos evangelhos.


Creio que o capítulo 4 do evangelho de Marcos, onde encontramos essa parábola, é o capítulo agronômico por excelência. Antes que você pense que estou sendo tendencioso por defender a classe agronômica, observe que, nessa seção das Escrituras, Jesus nos conta três parábolas sobre as sementes como metáforas do Reino.


O Dr. Kerr é um homem brilhante, mas também muito simples. Lembro-me com carinho de sua deferência ao vir fazer comentários sobre o trabalho científico que eu, um jovem e bem inexperiente estudante, apresentava. Apesar dele conhecer meu pai já havia algumas décadas, foi fácil reconhecer que sua atenção não se deveu a essa conexão, digamos, familiar.


Bastava ver como ele pacientemente visitava cada stand, e a maneira como ele falava com cada estudante como se fosse um companheiro de longa data na labuta científica. O saber não lhe havia subido à cabeça. Perguntava-me se poderia haver outra lição que ele poderia nos dar. E ele o fazia.

Era alguém que propunha questões instigantes, provocativas, ajudando-nos a ver aspectos da investigação que antes não havíamos nos dado conta. Ou seja, sua ajuda vinha mais através de suas perguntas e provocações do que através de receitas que pudesse nos dar.


Foi assim que esse professor universitário, um cientista bem respeitado em todo o mundo, levou-me a uma paixão por algumas parábolas das Escrituras.


Falo do professor, e de como me inspirou, talvez em uma singela homenagem, antes de compartilhar com vocês algumas breves reflexões sobre as sementes e o Reino, nessa série à qual nomeio “histórias agronômicas”. Até a próxima semana!


Foto: ©
Ready for Lecture? (Version 1)
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26 abril 2008

O outro lado da cerca



Cercas são necessárias. Tanto para crianças como, perdão pela comparação, para animais. Em ambos falta juízo. Pensando nas crianças e no seu bem, cercas e protetores de tomadas são úteis para que não se machuquem. É proteção em sua essência.

Também é verdade que as protegemos se removemos as cercas na medida em que elas crescem. Quando a meta é responsabilidade e maturidade, continuar “protegendo” para sempre será um desserviço ao caminho do crescimento.

Do mesmo modo funciona a jornada para a maturidade na fé cristã. As cercas podem e devem funcionar em algum momento. Caso reconheçamos que acreditar em algo é primário e duvidar é secundário, como ao menos deveria ser, então é bom que se construa alguma base sólida inicial, antes da época dos enfrentamentos. Mas, depois, se essa fé não for desafiada pelo mundo, nas confrontações “fáceis” e “difíceis” da vida, ela não chegará a ser tal desejado alicerce.

Uma confrontação “fácil” seria muitas vezes aquela em que o oponente se coloca tão claramente contrário à visão de mundo de sua fé, que não custa muito identificar as áreas de discordância e para onde cada um está apontando.

Já os conflitos “difíceis” seriam aqueles em que o lado de lá da cerca apresenta argumentos que nos parecem apropriados, sensatos, coerentes. Quase dá vontade de estar do “outro lado”, defendendo exatamente os mesmos pontos, ou pelo menos quase isso. A questão é que, ao examinar mais de perto, escrutinando os fundamentos de suas posições e levando ao limite as conseqüências de seus argumentos, pode-se muitas vezes perceber que na verdade há um profundo hiato, uma batalha de cosmovisões.

Posso não saber muito como argumentar de volta (quase nunca o sei) mas vem o sentimento e a percepção de que há algo fundamentalmente diferente entre as concepções de mundo desse "outro" e as minhas próprias.

Claro que posso sempre querer usar o tentador expediente do “homem de palha”, ao tentar simplificar e reduzir a opinião alheia a algo tão fraco ou estúpido que facilmente posso derrubar. Mas isso não seria honesto nem uma ajuda apropriada à causa de minha fé.

Chego então ao ponto principal. O de que toda verdade é ou não verdade de fato se passa pelo crivo do debate no espaço público. Se a verdade do evangelho que eu acredito não vem para essa esfera do questionamento, da dúvida, da suspeita, da argumentação contrária, então ela não foi nem nunca será verdade. Pode até ser uma verdade do ponto de vista conceitual, abstrato, mas nunca o foi para mim, se é que não a “arrisco” na arena pública. Ou não seria melhor dizer “se não me arrisco”?

Ainda não tenho bem claro para mim se nesse espaço público devemos nos dedicar mais à pregação ou à persuasão. Sou um fã das duas, e não me parece adequado abrir mão de uma ou de outra. Anúncio ou diálogo? Exposição bem elaborada ou ouvido mais atento? Proclamar ou buscar persuadir? Talvez se substituirmos o “ou” das três perguntas anteriores por um “e
podemos ir tateando um possível caminho.

Enquanto isso, diz-me aí de que lado da cerca você está. O pasto verdinho do lado de cá é mesmo tentador para ruminar, em tranqüila e indiferente pasmaceira. O lado de lá é um debate “arriscado”, de perguntas e confrontações. Posso apanhar naquele lado, e até ser mal visto por haver “atravessado a cerca”. Então lhe digo, se estiver preparado, pule a cerca! Mas veja bem para que salte essa e não aquela outra. Não aceitarei a desculpa de que fui eu quem lhe induziu ao mau caminho. Pelo menos seu marido ou esposa não deveria aceitá-la. Até a próxima!


Foto: © Pablo Nogueira - El viaje hacia el mar
Upload feito originalmente por nogue

05 abril 2008

Especialistas

Uma amiga uruguaia me fez a seguinte pergunta outro dia: “Ricardo, você que é um especialista em Bíblia, saberia me dizer qual foi o meio de transporte que Noemi e Rute usaram em sua viagem a Palestina?”

Demorei alguns segundos para tentar engatar uma resposta. Não tanto pela minha assumida falta de conhecimento acerca dos meios de transporte no Meio Oriente do século XI ou XII a. C., e sim por ficar pensando na palavra que ela usou para referir-se a mim, “especialista”.


Junto com a surpresa veio rápido à minha mente que poderia ter sido eu mesmo o culpado pela disseminação
de tal propaganda enganosa. Devo ter irresponsavelmente incluído essa expressão em algum breve currículo de minha curta vida acadêmica ou usado-a em alguma apresentação pessoal onde tenha desejado melhorar o verniz de minha imagem pública.

Suei frio. Seria eu um especialista? Imagino que não. Desejaria ser um? Daí comecei a titubear.


Imagino que muita gente que se dispõe a dar conferências, escrever um livro, um artigo ou uma série de artigos, por exemplo, em um blog (qualquer semelhança com o que você vê aqui não é casual coincidência), possivelmente se trata de alguém que se vê como “especialista” em um tema e assim se dispõe a “ensinar” a outros.


Desculpem-me por esse público exercício de autocrítica, mas inclusive pretendo ampliar o escopo desse crivo crítico.


Suspeito que uma comunidade que Jesus modelou não deveria ser composta por “especialistas”. Há um interessante comentário naquele livro que lhes recomendei ler tempos atrás (“Que tal ler um livro?”), que fala do “compromisso radical dos Anabatistas com a crença de que em todos os cristãos, independente de educação ou profissão, habita o Espírito Santo e assim legitimamente todos podem e devem interpretar a Bíblia. [Para eles] Não há o pressuposto de que os acadêmicos [ou ‘scholars’, ou ‘especialistas’] deveriam ter a última palavra em matérias de fé e vida.”1


Junto à ela há também outra provocativa citação de um autor Menonita, Thomas Finger, dizendo que “a imersão em livros nos rouba tempo dos atos de misericórdia”.


São palavras que devem ser lidas em seu contexto, e que as entendo como também proferidas contra mim, que aqui estou escrevendo um artigo e recomendando livros no mesmo momento em que supostamente poderia estar exercendo misericórdia para com meu vizinho. Meu consolo, se é que há algum, está no fato de que apenas posso receber essa exortação do Thomas, contrária à especialização mais “acadêmica” ou “teológica”, porque ele também escreveu isso em algum lugar e eu, por minha vez, investi tempo e energia para lê-lo.


Fecho a digressão para concordar que o melhor seria se não tivéssemos tantos especialistas. Ou que então todos fôssemos “especialistas”, em uma óbvia e irônica contradição. Talvez necessária, para denunciar os modelos de dependência de alguns poucos e para encorajar uma interpretação da Palavra mais comunitária. Também para que tivéssemos mais livros (ou blogs) escritos por várias mãos, mais dinâmicas de formação e aprendizado que privilegiem o protagonismo daquele que aprende, mais trabalho em equipe, mais confiança na cooperação de muitos do que no estrelismo de poucos.


Qual seria então o papel reservado aos chamados líderes e mestres? Que seria desejável ou recomendável para as pessoas que estão, por diferentes razões, em posições onde influenciam a outros?


Parecem-me boas perguntas, mas a autocrítica a que me propus me inibe, ao menos por agora, de tentar respondê-las. Apenas peço-lhe socorro quanto à primeira pergunta desse artigo. Quem sabe você me ajuda a salvar minha reputação, se é que essa seja uma ação louvável depois do que conversamos por aqui. Até a próxima, a cavalo, camelo, burrinho, ou à pé mesmo.


1
“Exploring Protestant Traditions, an invitation to theological hospitality”, de W. David Buschart (IVP, 2006), p. 71.

Foto: © Ivon Ruiz