06 fevereiro 2009

Ainda com os livros: idéias de leitura para 2009

Compartilho brevemente aqui algumas idéias de leitura para esse início de 2009.

Missão Transformadora
David Bosch

Depois de mais de 10 anos após ler alguns capítulos quando estudava no All Nations, creio que chegou a hora de lê-lo por inteiro e com calma.

Orientales
Una Historia Política Del Uruguay
1. De los orígenes a 1865

Lincoln Maiztegui Casas
Há que entender melhor o novo lar.

Protestantismo en el Uruguay
J. A. Piquinela
Entendendo melhor - II

La daga
Philip Pullman
Relax, e ponto.

O diabo e outras histórias
Liev Tólstoi.
Quando um autor tem que ser lido...

Reflections on Psalms
C.S.Lewis
Pela mesma razão do anterior, mas o digo sob a suspeição de ser fã.

Ética e Política
Una mirada desde C. S. Lewis
Manfred Svensson
Idem.

Entrevista sobre el siglo XXI
Eric J. Hobsbawn
No momento, levo-o na mochila. Pequena, mas imperdível leitura.

Miedo líquido
La sociedad contemporánea y sus temores
Zygmunt Bauman

Vidas Desperdiciadas
La modernidad y sus parias
Zygmunt Bauman
Comentei aqui porque valia a pena voltar a esse excelente autor.

Separei outros, mas como estou em viagem, não tenho a lista agora. Depois posso compartilhar a lista estendida. É claro, repito, ela pode e deve ser melhorada com suas sugestões.



16 janeiro 2009

Retrospectiva 2008: os melhores livros


Seguindo no assunto de livros, aproveito para fazer aqui uma lista do que foram as melhores leituras de 2008.

Greenspan
Alan Greenspan, Wall Street y la economia mundial
Bob Woodward
Uma interessante biografia que por acaso caiu em minhas mãos (oferta de livraria de bairro) pouco antes que a crise financeira ficasse mais evidente, no segundo semestre do ano. Foi quase divertido ler a advertência de Greenspan para que o mercado não interviesse no crash de 1987, porque segundo ele tal intervenção faria com que todo o sistema tomasse rumos imprevisíveis. O que dizer agora sobre o que pode acontecer com a gigantesca intervenção na economia de tantos governos, inclusive (e talvez principalmente) dos EUA?
(versões em Português e em Inglês)

Estados Fallidos
El abuso del poder y el ataque a la democracia
Noam Chomsky
Polêmico, bombástico, revelador, um profeta incômodo. Pode-se não concordar com tudo, mas difícil ficar indiferente. Uma leitura necessária para tentar entender o mundo em que vivemos.
( versão em Inglês)

Amor líquido
Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos
Zygmunt Bauman
Comentei algo aqui sobre sua leitura. Não é fácil encontrar alguém hoje que expresse melhor o abismo de nossas angústias, sem ser totalmente pessimista. Há esperança nos escritos de Bauman, e é isso (entre outras coisas) que me levará a ler outras obras dele.
(versão em Inglês e em Português)

Las Viudas Rojas
Esteban Valenti
Escrita por um italiano radicado em Montevidéu já há algumas décadas, essa ficção te agarra e te leva por um divertido passeio de espionagem, intriga e humor, por entre os dilemas de uma geração que ficou no meio do caminho, abandonada pelo decreto do fim da utopia do socialismo real.

La Brújula Dorada
Philip Pullman
Já resenhei aqui e apenas acrescento o seguinte: para quem gosta do gênero, é muito melhor escrito e muito mais provocador do que Harry Potter. Ainda estou em dívida com as sequências: “La Daga” e “El Catalejo Lacado”.
(versões em Inglês e em Português)

Exploring Protestant Traditions
An invitation to theological hospitality
W. David Buschart
Não sei recomendar um livro melhor que esse para poder entender, sem estereótipos simplistas ou julgamentos rápidos, as diferentes tradições protestantes. É um daqueles livros indispensáveis para quem trabalha em ministérios interdenominacionais.

C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University
A. Donald MacLeod
Foi o mais sublinhado e rabiscado do ano! O melhor livro que já tive em mãos para entender a fundo a história da IFES (era esse o propósito?), em especial nos relatos das “entrelinhas”, em um fabuloso e bem honesto trabalho levado a cabo por esse excelente professor de história. Quando uma vez eu tive o privilégio de ser levado pelo Donald a um aeroporto, infelizmente eu ainda não tinha lido o livro. Uma pena, pois um pneu furado ou um vôo perdido abririam a chance de muitas perguntas e creio que uma frutífera conversa sobre seus escritos.

The Message of Samuel
Mary J. Evans
Essa excelente, profunda, mas acessível exposição do texto me fez desejar uma coisa. Se um dia Deus me chamar a escrever algo, depois de uma séria investigação bíblica, gostaria de escrever como a Mary.

Para 2009, tenho minha lista de pendências de leituras. Mas ela pode ser enriquecida com suas sugestões. Antecipadamente, agradeço.

Foto: © (07-11-24) 2:32
Upload feito originalmente por Shefaet

05 janeiro 2009

O livro do ano



A história me interessava já há um tempo. Creio que o interesse cresceu depois de haver conhecido a Roberto Canessa, o médico cardiologista infantil que realizou a façanha, junto a seu amigo Nando Parrado, da expedição final que levou 10 dias para escapar da tumba dos Andes.

Ganhei o livro “La Sociedad de La Nieve”, recém-publicado, em que pela primeira vez aparece o testemunho de todos os 16 sobreviventes, 36 anos depois do acidente, entremeados com o emocionante relato dos acontecimentos, feito pelo escritor e jornalista Pablo Vierci. Pablo, o narrador, também foi um amigo de infância dos protagonistas do livro.

E de amizades parece falar esse livro que me transbordou. De certo modo, isso parece uma ironia e um paradoxo. As reações mais comuns, como as que sucederam em especial nos momentos logo após o resgate, parecem ser as de assombro pelo fato de que sobreviveram por haverem comido os corpos de seus companheiros que não resistiram à tragédia.

Mas de alguma maneira, os vínculos que se criaram entre eles, inclusive com a memória dos amigos e com alguns parentes dos falecidos, foi o que mais impacto me causou. Lá em cima, em meio à desesperança, sofrimento e morte, brotavam os sentimentos e, principalmente, as atitudes mais sublimes de cuidado com o mais frágil, de sacrifício e de doação.

Terminei de ler o livro hoje, lembrando-me do saudoso Dr. Ross Alan Douglas, pioneiro da ABU no Brasil e dono da mais vasta biblioteca pessoal que já conheci. Em meio a uma daquelas reuniões de diretoria que já começavam a entediar-lo, ele abria um livro e começava a folhear-lo sem cerimônias.

Os outros 9 ou 10 presentes faziam que nem notavam e respeitavam a “liberdade acadêmica” de nosso saudoso mestre. Numa dessas ocasiões, ainda em meio a uma discussão orçamentária, ele com prazer a ignorou e mostrou-me um interessante livro que lia sobre epistemologia, ciência e fé.

Já que tinha o aval do doutor, embarquei na conversa e em algum momento lhe perguntei se já havia terminado de ler o livro. Ele me fitou debaixo de suas grossas lentes, confessou que raras vezes lia um livro até seu final e tremeu seu corpanzil em uma gostosa risada.

Entre decepcionado e cético com o mito que eu havia construído, ouvia então sua convincente explicação de que poucos livros mereciam ser lidos por inteiro.

Ironicamente comecei a ler o “La Sociedad de La Nieve” em uma viagem de avião. Nas sete horas que separam Montevidéu do Panamá, fui algumas vezes obrigado a interromper a leitura. Lágrimas insistentes não me permitiam seguir. Na verdade, não sabia bem o porquê de minha reação.

Só agora, chegando à última página desse fabuloso relato, venho a entender melhor o que eu processava. Isso se deu quando cheguei, no final do livro, ao registro de uma reunião na casa de Canessa, essa que tive o privilégio de conhecer. E aqui me reservo a não dar mais detalhes. Se você se animar, leia. Pode ser que siga sem me entender. Tudo bem. Talvez essa seja uma cordilheira que você mesmo terá que atravessar, do seu jeito, e se você quiser.

Obrigado, caro Dr. Douglas. Esse é um daqueles livros, com certeza.


Foto: © Realtà Sottili
Upload feito originalmente por
BeneToZi

05 dezembro 2008

...mas não sou herege



O título forte da reflexão anterior, “sou trevas”, ainda que com a ressalva de que seja o primeiro passo na direção de rejeitar o “andar em trevas”, me leva inevitavelmente ao necessário complemento: “mas não sou herege”.

Pode ser que eu me saia melhor do que estava antes da primeira linha. Ou pior, mas não me julgo, como se isso fosse possível. O juízo estará em seus olhos e em seu coração.

Contarei com a ajuda de uma testemunha a quem convido a esse tribunal. Minha memória não anda boa, mas creio que era conhecido em sua época como “abade Antão”*. Viveu lá entre o século III e IV d.C. e foi considerado um dos “pais do deserto”, nesse que foi um movimento de rejeição à mundanização da fé cristã.

Vivia como eremita, radicalizado (deveria dizer arraigado?) em seu simples estilo de vida. As pessoas vinham até ele para pedir conselhos, orientações, alguma palavra de luz que penetrasse no mundo de trevas em que jaziam.

Parece que ele sempre a tinha pronta e fresca. Mas também suponho que soubesse que seu isolamento não o deixava imune às armadilhas da tentação e do pecado. A morte tinha seus mensageiros. E ela chegou um dia disfarçada de um punhado de “discípulos”, supostamente ávidos por palavras de sabedoria, mas na verdade enredados em suas próprias más intenções.

Logo quiseram informar seu “amado mestre” o que ouviam a seu respeito. Algo assim, “amado mestre, desculpe-nos a ousadia, mas é que ouvimos dizer que tu és um mentiroso”. Antão deixa sua inseparável cuia e colher a um lado, levanta os olhos, franze os lábios pensativo e lhes responde “sim, é verdade”.

Surpresos, mas não totalmente desprevenidos, seus “discípulos” continuam, “também ouvimos dizer que tu és cobiçoso”. Antão passa então a mão por sua única e puída túnica antes de lhes responder, “é verdade, sou cobiçoso”.

Um pouco confusos, mas sem dar trégua, seus “amigos” seguem, “e também imagine que ouvimos dizer que tu és adúltero”. O eremita passa os olhos pela parede rochosa da cova onde havia decidido viver sozinho, antes de respirar fundo e dizer “também é verdade que sou adúltero”.

Sem saber bem o que passava, ainda atiram uma última pedra, “também ouvimos que és um herege”. Rápido o profeta lhes atira de volta, “não, não sou herege”.

Após um silêncio embaraçoso e alguma troca de olhares, talvez o mais sábio e humilde de seus visitantes, lhe propõe “não entendemos, pode nos explicar?”.

Antão olha-os com amor, antes de lhes esclarecer, “as primeiras acusações eu as faço a mim mesmo todos os dias, em confissão, arrependimento, para que a luz do Senhor invada as minhas trevas e me salve”. “E a acusação de ser herege?”, insistem. “Herege é aquele que está afastado de Deus, longe de sua Palavra. E não estou assim, porque minha confissão e meu arrependimento me levam todos os dias para perto dele.”

Em silêncio se vão. Também aqui me calo, para poder voltar à saudável e diária disciplina da confissão e do arrependimento.


* em minha época de estudante universitário li esse livreto, que se não me engano tinha por nome “Os Pais do Deserto”. Pode ser que o nome do profeta eremita seja outro (seria abade Agatão?) e minha memória subjetiva me leva a reconstruir essa versão pessoal que lhes apresento da história. Desde então busco carregar comigo essa importante lição espiritual desse longínquo mestre do deserto.


Foto: ©
The wind blows where it wishes. You hear the sound of it, but to where it goes you cannot tell. So is it with everyone who is born of the Spirit.
Upload feito originalmente por Instrumental Illness

17 novembro 2008

Sou trevas



Sou trevas, mas não caminho em trevas. Conseguiria explicar essa equação?

Não andarão em trevas aqueles que o seguirem, assim prometeu o Mestre. Um título nobre e bastante diferente os acompanharia: filhos da luz.

Ler o evangelho de João nos leva e nos traz ao redor dos dilemas e tensões da pugna entre a escuridão e a clara luz.

Uma chave pra abrir a equação nos é entregue pelo próprio “Eu Sou”. Numa de suas muitas explicações de si mesmo registradas no quarto evangelho, aparece essa em que assim se define, “eu sou a luz do mundo”.

Quando sei quem é a luz e onde está a fonte que iluminará a escuridão do mundo, conto então com a ajuda vinda do século XVI, do místico João da Cruz, para me ajudar a entender o possível e desejável encontro dessa luz comigo mesmo.

Para João da Cruz, nós somos as trevas, diante do único que é luz. E a luz, quanto mais perto dela estivermos, mais consciência provoca em nós de nossa própria escuridão.

Ou seja, quanto mais próximo estou da luz, mais reconheço o quanto de trevas há em mim. Mais consciente me torno de minhas limitações, de meu mal, de meu pecado.

Se perto da luz estou, mais pecador me percebo. Claro! Se longe da luz estivera, na penumbra ou escuridão, mais difícil seria ver o quão desconcertado e equivocado eu sou. Não conseguiria, ou pelo menos assim o fingiria, ver meus próprios erros.

Mas se me aproximo da verdadeira luz, ela me invade, penetra em minhas trevas, me expõe, e me enche com essa luz de vida e de verdade.

Penso que sou luz e que posso iluminar o mundo? Ledo auto-engano. Mas há paradoxo e esperança! Se reconheço a única luz que há, ainda que ela me invada em um doloroso processo que expõe a mim mesmo e aos outros quem de verdade eu sou, poderei ainda de alguma forma refletir essa luz, que não é minha, em um mundo que tateia no escuro.

Posso ser “filho da luz”. Posso rejeitar o “andar nas trevas” para experimentar a vida que há nessa luz. Posso até, quem diria, refletir essa luz que apontará o caminho para que outros cegos como eu sejam liberados da escravidão da escuridão.

Mas começa assim, bem simples, quando primeiro reconheço que eu sou trevas. Nada mais, nada menos, para que a luz assim cumpra o seu papel.


Foto: © IT 6
Upload feito originalmente por ir_photos