Sou trevas, mas não caminho em trevas. Conseguiria explicar essa equação?
Não andarão em trevas aqueles que o seguirem, assim prometeu o Mestre. Um título nobre e bastante diferente os acompanharia: filhos da luz.
Ler o evangelho de João nos leva e nos traz ao redor dos dilemas e tensões da pugna entre a escuridão e a clara luz.
Uma chave pra abrir a equação nos é entregue pelo próprio “Eu Sou”. Numa de suas muitas explicações de si mesmo registradas no quarto evangelho, aparece essa em que assim se define, “eu sou a luz do mundo”.
Quando sei quem é a luz e onde está a fonte que iluminará a escuridão do mundo, conto então com a ajuda vinda do século XVI, do místico João da Cruz, para me ajudar a entender o possível e desejável encontro dessa luz comigo mesmo.
Para João da Cruz, nós somos as trevas, diante do único que é luz. E a luz, quanto mais perto dela estivermos, mais consciência provoca em nós de nossa própria escuridão.
Ou seja, quanto mais próximo estou da luz, mais reconheço o quanto de trevas há em mim. Mais consciente me torno de minhas limitações, de meu mal, de meu pecado.
Se perto da luz estou, mais pecador me percebo. Claro! Se longe da luz estivera, na penumbra ou escuridão, mais difícil seria ver o quão desconcertado e equivocado eu sou. Não conseguiria, ou pelo menos assim o fingiria, ver meus próprios erros.
Mas se me aproximo da verdadeira luz, ela me invade, penetra em minhas trevas, me expõe, e me enche com essa luz de vida e de verdade.
Penso que sou luz e que posso iluminar o mundo? Ledo auto-engano. Mas há paradoxo e esperança! Se reconheço a única luz que há, ainda que ela me invada em um doloroso processo que expõe a mim mesmo e aos outros quem de verdade eu sou, poderei ainda de alguma forma refletir essa luz, que não é minha, em um mundo que tateia no escuro.
Posso ser “filho da luz”. Posso rejeitar o “andar nas trevas” para experimentar a vida que há nessa luz. Posso até, quem diria, refletir essa luz que apontará o caminho para que outros cegos como eu sejam liberados da escravidão da escuridão.
Mas começa assim, bem simples, quando primeiro reconheço que eu sou trevas. Nada mais, nada menos, para que a luz assim cumpra o seu papel.
Foto: © IT 6
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17 novembro 2008
18 outubro 2008
O passado do santo e o futuro do pecador
Em meio à turbulência financeira mundial, certo personagem tem aparecido bastante e há sido citado com freqüência. Trata-se do homem mais rico do mundo, Warren Buffet.
Fala-se de suas compras de ações quando todos as estão vendendo ou de seu caráter de guru financeiro, cobiçado por ambas as campanhas presidenciais para ser algo não menos que o próximo secretário do tesouro norte-americano.
Questionado em uma entrevista acerca das vítimas e culpados da crise mundial, esquivou-se em responder. Quando pressionado, disparou: “cada santo tem um passado e todo pecador tem um futuro”.
Do alto de seus 78 longos anos, creio que o senhor Buffet regalou-nos uma frase de profunda sabedoria. Posso não concordar com a visão capitalista do homem nem ser um de seus devotos admiradores. Mas creio que é preciso reconhecer nessa resposta uma importante verdade espiritual.
Trata-se do seguinte. Por mais “santo” ou correto que eu seja, ou que busque ser, sempre ainda terei a oportunidade de enfiar o pé na jaca. Essa crua verdade deveria me levar a cultivar a humildade, a moderação e a vigilância. Ela me ajudaria a evitar a arrogância e os abismos a que ela pode me levar.
Há algo mais, não menos importante. Por mais pecador que eu seja, por mais mancadas que eu tenha cometido, o evangelho da graça e da fé em Cristo parece sempre nos apontar a possibilidade da volta, da segunda chance. Ao sinalizar o caminho de saída, nos permite um alívio, um respiro, um fio de esperança no meio da escuridão.
Uma secretária que trabalhou com o primeiro secretário geral da IFES, Stacey Woods, disse o seguinte depois de trabalhar com ele por um período, “ele é terrível em seus relacionamentos pessoais, mas possui uma tremenda visão de Deus e confiança nEle – e Deus sim trabalha através dele apesar do que ele é.” 1
“Apesar do que ele é” poderia soar algo pesado ou parecer uma crítica injusta, mas talvez seja muito melhor ser mais realista com nossos heróis, do que idealizá-los como “santos” com um passado irrepreensível. Poderíamos cair na tentação de projetar modelos que seriam inalcançáveis, talvez na mesma medida em que seriam irreais, inventados.
Quem sabe isso nos ajude, a todos nós, pobres e miseráveis pecadores, a caminhar com cuidado e confiança, porque há Aquele que nos abre um futuro e uma esperança.
1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.
Foto: © DSC06973
Upload feito originalmente por Ale J. Ven.
Fala-se de suas compras de ações quando todos as estão vendendo ou de seu caráter de guru financeiro, cobiçado por ambas as campanhas presidenciais para ser algo não menos que o próximo secretário do tesouro norte-americano.
Questionado em uma entrevista acerca das vítimas e culpados da crise mundial, esquivou-se em responder. Quando pressionado, disparou: “cada santo tem um passado e todo pecador tem um futuro”.
Do alto de seus 78 longos anos, creio que o senhor Buffet regalou-nos uma frase de profunda sabedoria. Posso não concordar com a visão capitalista do homem nem ser um de seus devotos admiradores. Mas creio que é preciso reconhecer nessa resposta uma importante verdade espiritual.
Trata-se do seguinte. Por mais “santo” ou correto que eu seja, ou que busque ser, sempre ainda terei a oportunidade de enfiar o pé na jaca. Essa crua verdade deveria me levar a cultivar a humildade, a moderação e a vigilância. Ela me ajudaria a evitar a arrogância e os abismos a que ela pode me levar.
Há algo mais, não menos importante. Por mais pecador que eu seja, por mais mancadas que eu tenha cometido, o evangelho da graça e da fé em Cristo parece sempre nos apontar a possibilidade da volta, da segunda chance. Ao sinalizar o caminho de saída, nos permite um alívio, um respiro, um fio de esperança no meio da escuridão.
Uma secretária que trabalhou com o primeiro secretário geral da IFES, Stacey Woods, disse o seguinte depois de trabalhar com ele por um período, “ele é terrível em seus relacionamentos pessoais, mas possui uma tremenda visão de Deus e confiança nEle – e Deus sim trabalha através dele apesar do que ele é.” 1
“Apesar do que ele é” poderia soar algo pesado ou parecer uma crítica injusta, mas talvez seja muito melhor ser mais realista com nossos heróis, do que idealizá-los como “santos” com um passado irrepreensível. Poderíamos cair na tentação de projetar modelos que seriam inalcançáveis, talvez na mesma medida em que seriam irreais, inventados.
Quem sabe isso nos ajude, a todos nós, pobres e miseráveis pecadores, a caminhar com cuidado e confiança, porque há Aquele que nos abre um futuro e uma esperança.
1 Citado em "C. Stacey Woods and the Evangelical Rediscovery of the University", A. Donald MacLeod, IVP Academic.
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06 outubro 2008
Genes adúlteros
Você já notou esse modo comum e curioso de dar uma notícia que atribui a fenômenos naturais características ou condutas que são humanas? Por exemplo, manchetes como “chuva intensa causa morte na Dutra”, ou “a neblina provocou vários acidentes na Marginal”.
Ora, é sabido que a chuva ou a neblina não são malévolas, nem tampouco se pode atribuir a elas características inerentes de psicopatas assassinos em série.
O que esse modo de dar as notícias esconde é a real responsabilidade humana de gente que foi imprudente diante de condições meteorológicas adversas. Se os condutores não tomam as devidas precauções debaixo de circunstâncias desfavoráveis, ou se o governo não cuida bem do pavimento das estradas, então não se pode ocultar a responsabilidade humana e social envolvidas.
Não faz muito tempo saiu uma reportagem em um jornal uruguaio acerca da descoberta do gene da infidelidade masculina. Segundo essa investigação, é possível duvidar da capacidade dos homens que possuem uma variante do gene 334 de manter uma relação estável com sua esposa.
Penso nos possíveis desdobramentos dessa “descoberta”. O marido chega a casa tarde e diz para a esposa, “foi mal, querida, mas meus genes me levaram a isso, não tive culpa”. E a esposa, muito compreensiva e ciente das recentes pesquisas científicas, lhe devolve “não liga, amor, sei que são seus genes...”.
Isso me faz lembrar quando eu flagrava uma de minhas filhas beliscando a irmã e com ar de inocência se justificava, “não fui eu, foi meu braço que fez isso”. O pior é que aparentemente ela acreditava ser essa uma boa explicação.
Talvez o mesmo possa acontecer com esses pobres e ímpios seres humanos destinados ao pecado por sua carga genética. Passam a acreditar que são certas circunstâncias do destino que o levam a um ou outro comportamento perverso. “E quem disse que é perverso? Somos assim, e ponto”.
“Estou cansado”, “ando insatisfeito”, “ela não me corresponde como eu gostaria”, e por assim segue a infindável descrição de “causas” para nosso comportamento e escolhas. Sempre algo exterior, circunstancial, uma culpa atribuída às condições externas ou depositada sobre a atitude do outro.
Creio que ainda que se comprove uma real influência de genes específicos sobre certos tipos de comportamento, ainda sempre poderemos falar de nossa determinante responsabilidade humana quanto às escolhas que fazemos. Mesmo que algo possa influir, ainda tenho o poder de construir, cuidar, levar em conta as condições adversas e assumir responsabilidade pelos caminhos tomados.
Menos mal que uma das pesquisadoras da tal investigação afirmou que “um homem que sabe que tem esse gene em seu cérebro pode manejar ou utilizar seu conhecimento e caráter para fazer frente e resistir a essa inquietação que faz tremer o matrimônio ou a relação do casal”.
Não será a chuva, neblina ou os genes que farão com que deixe de cuidar, prevenir e assumir o que faço.
Foto: © zeitnot
Upload feito originalmente por SeBa MaYa
Ora, é sabido que a chuva ou a neblina não são malévolas, nem tampouco se pode atribuir a elas características inerentes de psicopatas assassinos em série.
O que esse modo de dar as notícias esconde é a real responsabilidade humana de gente que foi imprudente diante de condições meteorológicas adversas. Se os condutores não tomam as devidas precauções debaixo de circunstâncias desfavoráveis, ou se o governo não cuida bem do pavimento das estradas, então não se pode ocultar a responsabilidade humana e social envolvidas.
Não faz muito tempo saiu uma reportagem em um jornal uruguaio acerca da descoberta do gene da infidelidade masculina. Segundo essa investigação, é possível duvidar da capacidade dos homens que possuem uma variante do gene 334 de manter uma relação estável com sua esposa.
Penso nos possíveis desdobramentos dessa “descoberta”. O marido chega a casa tarde e diz para a esposa, “foi mal, querida, mas meus genes me levaram a isso, não tive culpa”. E a esposa, muito compreensiva e ciente das recentes pesquisas científicas, lhe devolve “não liga, amor, sei que são seus genes...”.
Isso me faz lembrar quando eu flagrava uma de minhas filhas beliscando a irmã e com ar de inocência se justificava, “não fui eu, foi meu braço que fez isso”. O pior é que aparentemente ela acreditava ser essa uma boa explicação.
Talvez o mesmo possa acontecer com esses pobres e ímpios seres humanos destinados ao pecado por sua carga genética. Passam a acreditar que são certas circunstâncias do destino que o levam a um ou outro comportamento perverso. “E quem disse que é perverso? Somos assim, e ponto”.
“Estou cansado”, “ando insatisfeito”, “ela não me corresponde como eu gostaria”, e por assim segue a infindável descrição de “causas” para nosso comportamento e escolhas. Sempre algo exterior, circunstancial, uma culpa atribuída às condições externas ou depositada sobre a atitude do outro.
Creio que ainda que se comprove uma real influência de genes específicos sobre certos tipos de comportamento, ainda sempre poderemos falar de nossa determinante responsabilidade humana quanto às escolhas que fazemos. Mesmo que algo possa influir, ainda tenho o poder de construir, cuidar, levar em conta as condições adversas e assumir responsabilidade pelos caminhos tomados.
Menos mal que uma das pesquisadoras da tal investigação afirmou que “um homem que sabe que tem esse gene em seu cérebro pode manejar ou utilizar seu conhecimento e caráter para fazer frente e resistir a essa inquietação que faz tremer o matrimônio ou a relação do casal”.
Não será a chuva, neblina ou os genes que farão com que deixe de cuidar, prevenir e assumir o que faço.
Foto: © zeitnot
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20 setembro 2008
O Nordeste é ali
A noite avançava enquanto a fresca brisa do mar carioca abrandava o cansaço da já longa reunião. Jovens lideranças evangélicas intercambiavam idéias e reflexões acerca de um futuro conclave da juventude evangélica nacional.
Chegou-se o momento de discutir o local do tal evento. Meu bom amigo carioca, anfitrião dessa tertúlia, propôs com firmeza “o encontro tem que ser no Nordeste!”. “O Nordeste é longe!”, rebateu outro nobre companheiro. Sem titubear, meu amigo contra-atacou “longe pra quem?”.
O olhar espantado do interlocutor acerca do supostamente distante e inacessível Nordeste me fazia suspeitar que ele ainda não tivesse se dado conta do quanto seu comentário havia sido geograficamente autocentrado.
Ao fim, e resumindo, esse encontro não se realizou no Nordeste, o que foi uma pena. Prevaleceu uma péssima lógica sulista paulista que infelizmente valoriza apenas o que acontece em latitudes capricornianas.
Minha confissão de hoje é a seguinte. Sou paulista, como meu colega da proposta que prevaleceu. Nunca me achei lá muito preconceituoso, ainda que meu grande amigo carioca vivesse me alertando sobre como os paulistas pensam que São Paulo é o centro do mundo. E nem adiantava contestar. Se um bom bêbado nunca admite sua embriaguez, um bom paulista nunca deve admitir seu etnocentrismo.
Tinha sempre o benefício ou a possibilidade de mudar o endereço da crítica e transferir a acusação aos paulistanos. Eu, do interior, pensava o mesmo dos esnobes da capital, algo parecido à opinião dos argentinos em geral acerca dos portenhos (aí a piada óbvia e imperdível é que nesse caso eles estão certíssimos; mas como o objetivo aqui não é falar mal dos vizinhos tangueiros, volto à auto-crítica).
Foi só quando vivi na Inglaterra que tive a oportunidade de ver essas coisas sob uma perspectiva diferente. Talvez tenha se dado por sofrer na própria pele o preconceito. Os olhares, os comentários, o dito e o não dito. Sentia-me mal, e lembrava-me das queixas de amigos nordestinos. Eles tinham razão! Dói na alma ser discriminado e diminuído.
Posso ter meus defeitos, quem não os têm, mas ouvi-los da boca do estranho que se vê, ou se imagina superior a mim, provoca aqui dentro imediata reação.
Lembro-me dos comentários daquele nosso professor inglês acerca da corrupção na América Latina. Ele tinha razão, não havia como negar. Mas como não é bom ouvir críticas a alguém de casa por um desconhecido arrogante, a resposta veio rápida. Deliciei-me ao vê-lo tentar responder à forte reação de minha querida esposa, mencionando em classe os inconvenientes morais acerca do que os suíços fizeram com o ouro dos judeus roubado pelos nazistas, e outros pecadilhos europeus.
Se for para falar dos defeitos alheios, que nos lambuzemos antes no reconhecimento de nossos próprios. Creio que assim se pode chegar a uma perspectiva mais honesta e autocrítica da realidade.
Meu bom amigo carioca desfruta nesse momento de uma especial experiência de vida em terras catalãs. Já eu vivo e curto o auto-exílio em terras mais ao Sul. Seriam protestos silenciosos acerca de um Brasil que cada vez mais esparrama suas ambições de poder no mundo? Não, não estamos para tanto. Nem nós, tampouco o Brasil. Mas se o país estivesse mesmo com essa bola toda, ficaria louco de vontade de propor o Nordeste para a próxima sede da ONU.
Foto: © Caatinga
Upload feito originalmente por Marcio Fernando
Chegou-se o momento de discutir o local do tal evento. Meu bom amigo carioca, anfitrião dessa tertúlia, propôs com firmeza “o encontro tem que ser no Nordeste!”. “O Nordeste é longe!”, rebateu outro nobre companheiro. Sem titubear, meu amigo contra-atacou “longe pra quem?”.
O olhar espantado do interlocutor acerca do supostamente distante e inacessível Nordeste me fazia suspeitar que ele ainda não tivesse se dado conta do quanto seu comentário havia sido geograficamente autocentrado.
Ao fim, e resumindo, esse encontro não se realizou no Nordeste, o que foi uma pena. Prevaleceu uma péssima lógica sulista paulista que infelizmente valoriza apenas o que acontece em latitudes capricornianas.
Minha confissão de hoje é a seguinte. Sou paulista, como meu colega da proposta que prevaleceu. Nunca me achei lá muito preconceituoso, ainda que meu grande amigo carioca vivesse me alertando sobre como os paulistas pensam que São Paulo é o centro do mundo. E nem adiantava contestar. Se um bom bêbado nunca admite sua embriaguez, um bom paulista nunca deve admitir seu etnocentrismo.
Tinha sempre o benefício ou a possibilidade de mudar o endereço da crítica e transferir a acusação aos paulistanos. Eu, do interior, pensava o mesmo dos esnobes da capital, algo parecido à opinião dos argentinos em geral acerca dos portenhos (aí a piada óbvia e imperdível é que nesse caso eles estão certíssimos; mas como o objetivo aqui não é falar mal dos vizinhos tangueiros, volto à auto-crítica).
Foi só quando vivi na Inglaterra que tive a oportunidade de ver essas coisas sob uma perspectiva diferente. Talvez tenha se dado por sofrer na própria pele o preconceito. Os olhares, os comentários, o dito e o não dito. Sentia-me mal, e lembrava-me das queixas de amigos nordestinos. Eles tinham razão! Dói na alma ser discriminado e diminuído.
Posso ter meus defeitos, quem não os têm, mas ouvi-los da boca do estranho que se vê, ou se imagina superior a mim, provoca aqui dentro imediata reação.
Lembro-me dos comentários daquele nosso professor inglês acerca da corrupção na América Latina. Ele tinha razão, não havia como negar. Mas como não é bom ouvir críticas a alguém de casa por um desconhecido arrogante, a resposta veio rápida. Deliciei-me ao vê-lo tentar responder à forte reação de minha querida esposa, mencionando em classe os inconvenientes morais acerca do que os suíços fizeram com o ouro dos judeus roubado pelos nazistas, e outros pecadilhos europeus.
Se for para falar dos defeitos alheios, que nos lambuzemos antes no reconhecimento de nossos próprios. Creio que assim se pode chegar a uma perspectiva mais honesta e autocrítica da realidade.
Meu bom amigo carioca desfruta nesse momento de uma especial experiência de vida em terras catalãs. Já eu vivo e curto o auto-exílio em terras mais ao Sul. Seriam protestos silenciosos acerca de um Brasil que cada vez mais esparrama suas ambições de poder no mundo? Não, não estamos para tanto. Nem nós, tampouco o Brasil. Mas se o país estivesse mesmo com essa bola toda, ficaria louco de vontade de propor o Nordeste para a próxima sede da ONU.
Foto: © Caatinga
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04 setembro 2008
Amor líquido como sabão
“O fracasso de uma relação é com freqüência um fracasso de comunicação”
Zygmunt Bauman
Confesso que fiquei tentado em colocar o seguinte título nesse texto: “Uma garotinha de 5 anos resenha livro de Zygmunt Bauman”. Depois pensei melhor, imaginei que poderia suscitar incontáveis visitas ao blog pela curiosidade que tal frase provocaria nos mecanismos de busca na Internet, e daí optei por esse que está aí. Conto-lhes como ele surgiu.
Carolina, a tal garotinha do título abortado, que sucede ser minha filha caçula, viu um exemplar de “Amor líquido” descansando em minha mesinha de cabeceira. Curiosa, e dando seus primeiros passinhos com as letras, leu-me em voz alta a capa.
Ela saiu dali intrigada. Creio que o subtítulo não a ajudou muito, “Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos”. Sim, minha versão é em espanhol e a pobre criatura ainda tem que aprender a ler em dois idiomas. O mundo é assim mesmo, cruel e injusto.
Passamos os dois ao banheiro, com o nobre propósito de lavar as mãos antes do almoço. Seu olhinho se iluminou, apontou para o pote de sabonete líquido e aí me disse triunfante “Amor líquido como sabão!”. Que pai, por mais insensível que fosse não concordaria com a brilhante e breve resenha que sua jovem filha acabara de fazer do livro de Bauman?
Estou apenas no começo do que me parece ser um excelente ensaio. O primeiro capítulo sobre como a gente se enamora e se desenamora (como se diz isso em português?) em nosso mundo é fabuloso. Creio que tem muito a ver com aquela estranha idéia, comentada aqui anteriormente, de colocar prazo de validade nos casamentos.
Foi outro dia, quando cruzei ao outro lado do rio e visitei minha livraria preferida, que resolvi acabar com essa pendência com o catedrático em sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Adquiri então esses quatro títulos: Amor líquido, Miedo líquido (la sociedad contemporânea y sus temores), Modernidad líquida, Vidas desperdiciadas (la modernidad y sus parias).
Tudo bem, reconheço que há muito “líquido” nesse pacote. Não tem problema, estou em dieta mesmo. Não por razões estéticas, claro. Nem porque minha esposa tenha insinuado que eu precisasse. Ou será que ela o fez e eu não entendi o que ela tentava me dizer? Espero que o Bauman resolva meu dilema no próximo capítulo.
Foto: © The soap dispenser formerly known as Gonzo
Upload feito originalmente por Andreas Reinhold
Zygmunt Bauman
Confesso que fiquei tentado em colocar o seguinte título nesse texto: “Uma garotinha de 5 anos resenha livro de Zygmunt Bauman”. Depois pensei melhor, imaginei que poderia suscitar incontáveis visitas ao blog pela curiosidade que tal frase provocaria nos mecanismos de busca na Internet, e daí optei por esse que está aí. Conto-lhes como ele surgiu.
Carolina, a tal garotinha do título abortado, que sucede ser minha filha caçula, viu um exemplar de “Amor líquido” descansando em minha mesinha de cabeceira. Curiosa, e dando seus primeiros passinhos com as letras, leu-me em voz alta a capa.
Ela saiu dali intrigada. Creio que o subtítulo não a ajudou muito, “Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos”. Sim, minha versão é em espanhol e a pobre criatura ainda tem que aprender a ler em dois idiomas. O mundo é assim mesmo, cruel e injusto.
Passamos os dois ao banheiro, com o nobre propósito de lavar as mãos antes do almoço. Seu olhinho se iluminou, apontou para o pote de sabonete líquido e aí me disse triunfante “Amor líquido como sabão!”. Que pai, por mais insensível que fosse não concordaria com a brilhante e breve resenha que sua jovem filha acabara de fazer do livro de Bauman?
Estou apenas no começo do que me parece ser um excelente ensaio. O primeiro capítulo sobre como a gente se enamora e se desenamora (como se diz isso em português?) em nosso mundo é fabuloso. Creio que tem muito a ver com aquela estranha idéia, comentada aqui anteriormente, de colocar prazo de validade nos casamentos.
Foi outro dia, quando cruzei ao outro lado do rio e visitei minha livraria preferida, que resolvi acabar com essa pendência com o catedrático em sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Adquiri então esses quatro títulos: Amor líquido, Miedo líquido (la sociedad contemporânea y sus temores), Modernidad líquida, Vidas desperdiciadas (la modernidad y sus parias).
Tudo bem, reconheço que há muito “líquido” nesse pacote. Não tem problema, estou em dieta mesmo. Não por razões estéticas, claro. Nem porque minha esposa tenha insinuado que eu precisasse. Ou será que ela o fez e eu não entendi o que ela tentava me dizer? Espero que o Bauman resolva meu dilema no próximo capítulo.
Foto: © The soap dispenser formerly known as Gonzo
Upload feito originalmente por Andreas Reinhold
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