Escrevo do Uruguai, a terra do “carnaval mais longo do mundo”, com 40 dias de duração. Sim, desculpem-me Pernambuco, Bahia ou Rio, mas o carnaval também é uruguaio.
Aqui, como em outras partes do mundo, boa parte da igreja evangélica olha com reprovação as festividades em torno do carnaval, em crítica, negação ou simplesmente escape em direção aos seguros retiros espirituais.
É fácil perceber a tensão que existe no olhar da igreja evangélica a certas manifestações e celebrações culturais, como o carnaval e o Halloween, por exemplo, onde é possível encontrar referências cristãs (alguns diriam que diluídas ou distorcidas) em suas origens ou na evolução de sua história.
Também, de modo até surpreendente, há outras festas que geram uma rejeição por parte de certos grupos cristãos, seja ao Natal ou a versões da Páscoa. Argumenta-se sobre suas origens pagãs em um caso, ou a sobre a contaminação com elementos estranhos a fé no outro.
Possivelmente haja riscos ao levantar em tão pouco espaço perguntas sobre essas abordagens. Mas os questionamentos, ainda que sem as respostas, poderiam nos ajudar a pensar um pouco mais sobre o tema.
Apresento aqui três possíveis aproximações de cristãos evangélicos a certas manifestações culturais, seguidas de algumas questões para provocar a reflexão.
1.A negação – Seria a atitude de ver em certa expressão cultural somente seus aspectos negativos. Para muitos cristãos, no caso do carnaval esses estariam relacionados com a libertinagem da carne (numa condenação de todos os excessos que ocorrem nesses dias), para outros com as associações com poderes malignos invisíveis, ou ainda com essa autonomia humana rebelde, alegre e independente, que busca desprender-se de qualquer prestação de contas a um Deus criador.
Perguntas: Por que somos rápidos em condenar algumas expressões do pecado e somos omissos em outras? Por outro lado, não seria correto condenar o intento humano de querer ser “livre” buscando a liberdade onde não a encontrará? Seria possível, como em muitos dilemas da vida, condenar o que está mal e afirmar o que está bem? Como escolhemos o que condenamos e o que não? Como faço para discernir o mal do bem em tantas manifestações culturais?
2.A visão utilitarista – Seria a aproximação de alguns grupos que vêem em certas festas uma oportunidade para se envolver em missão, talvez inspirados em Paulo, fazendo-se de tudo para ganhar a todos, entrando de maneira organizada nos blocos de rua, nas celebrações, mas buscando fazê-lo com uma “linguagem cristã”, com a intenção de alcançar e converter os foliões perdidos.
Perguntas: Obviamente não está mal querer cumprir o mandato missionário em todas as oportunidades que encontramos, mas não seria ingênuo achar que somente a mudança da linguagem já seria suficiente? Como nos conectamos com os demais? Somos somente aqueles outros que querem “ser diferentes” sem entender bem o porquê de ser diferentes? Qual a verdadeira “eficácia” de anunciar sem ouvir ao outro, sem servi-lo, sem compreendê-lo? Em que medida uma motivação proselitista utilitária mais atrapalha do que ajuda em meu testemunho?
3.A ressignificação – considerando que certas festas possuem uma ligação direta ou indireta com o calendário cristão, ou que se acercam de alguma maneira a valores que, vistos à parte, são identificados ou possuem pontes de contato com as crenças cristãs, como:
a.A alegria e a celebração da arte, da vida e do corpo que Deus nos deu
b.A clara vitória da vida sobre a morte (nos casos óbvios da Páscoa, mas também na origem da festa do Halloween, ou “All Hallow’s Eve”, a véspera do dia de todos os santos, em que os cristãos recordariam os seus “santos”, ou seja, todas as pessoas queridas crentes que já se foram, a sua fé, o legado que nos deixaram, zombando então do pífio poder da morte e celebrando a vitória da vida)
c.O maior milagre de todos, pelo menos para os cristãos, que é a encarnação do Deus Criador em um frágil ser humano. Não há pinheirinho ou Papai Noel que ofusquem a força dessa mensagem encarnacional de esperança e de vida.
Perguntas: Quais são possíveis caminhos para ressignificação de certas festividades populares, para compreendê-las e celebrá-las de uma nova maneira? Como ensinamos aos nossos filhos a prudência, a sensibilidade e a vivência saudável de certas manifestações de nossas culturas? Como evito o sincretismo e a ingenuidade, ao mesmo tempo em que estimulo artistas, cantores, produtores culturais, cidadãos cristãos metidos no mundo, nas diversas esferas e grupos da nossa sociedade, a cumprir seu mandato cultural e missionário?
Aqui não tenho as respostas. Mas sou agradecido por fazer parte de uma comunidade de discípulos que humildemente segue buscando caminhos e respostas para a vida e missão, na cultura e no mundo onde o Senhor nos enviou.
12 fevereiro 2012
Recomeçar
Que princípios me guiam quando começo uma nova etapa, projeto ou desafio na vida? Em horas assim eu me identifico com aqueles discípulos que pedem a Jesus, “aumenta em nós a fé” (Luc. 17:5). Ao ver a resposta de Jesus e a sequência de eventos narrada por Lucas, encontro três princípios norteadores:
Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.
2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.
3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.
Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:
Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.
2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.
3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.
Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!
Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.
2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.
3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.
Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:
Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.
2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.
3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.
Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!
24 maio 2011
Onde traçar a linha contra a cultura da morte?
A bit of late night cross processing - Day 354 of Project 365
Upload feito originalmente por purplemattfish
Não sei se curiosa coincidência ou o quê, mas tudo aconteceu no mesmo dia. Primeiro foi aquela faixa que se agarrava dos gradis das sacadas quase francesas daquela esquina central de Montevidéu: “Legalizar o Aborto Já!”.
Não foi por indiferença, creio eu, mas segui o meu caminho. Parei. Dei meia-volta e a inspecionei. Seria uma ONG? A sede de um partido político? Não havia qualquer identificação que sugerisse algo aparentemente institucional. Apreciei então, ainda que desanimado, a coragem de quem quer que seja para manifestar-se assim publicamente sobre o seu, como se diz, “direito de escolha”.
Ao chegar a casa, vejo no noticiário a amarga história sobre uma mãe no Texas que é presa por tentar assassinar o seu filho de quatro meses. Os médicos desconfiam, a tecnologia ajuda, e uma câmara escondida revela que ela havia tentado asfixiar seu rebento. As imagens são exibidas, a notícia comove, com o pico da emoção na seqüência que mostra os enfermeiros resgatando a criança. Um é levado a salvo, a outra é levada pela polícia.
Os dois temas se mesclaram inevitavelmente em minha mente. Onde traçaria a linha para definir que algo é condenável em um caso e no outro não. A pergunta simplista, reconheço, que me martelou foi: “qual é a diferença”? Ou pelo menos para buscar entender por que me emociono em um caso e sou indiferente ou ainda defendo arduamente a causa oposta no outro?
E logo no Texas, vejam só… Foi lá que surgiu o emblemático caso “Roe vs. Wade”, depois levado a Suprema Corte, onde em 1973 foi decidido que, em toscas linhas, o aborto seria permitido até que o feto se tornasse “viável”, ou seja, até que fosse potencialmente capaz de viver fora do útero materno, sem ajuda artificial.
Então me veio a pergunta: teria sobrevivido sem ajuda (“artificial” ou não) aquele bebê de quatro meses? Refiro-me ao bebê já nascido da notícia e não aos inúmeros não nascidos, “viáveis” e “inviáveis” que morrem antes, (des)amparados ou não pela lei. Minha cabeça dá voltas. A quem o Estado deve proteger e por quê? Bebês, nascidos e não nascidos, ou as suas mães? Tanto as que desejam ter, como as que preferem abortar ou ainda aquelas que preferem uma coisa mas são coagidas por outros a fazer a outra (e isso vale tanto para as que abortam como as que não). A quem protejo? Quem merece a vida, a educação, a prevenção ou a punição pelo Estado?
Difícil, reconheço, mas sou da cultura pela vida, e nunca celebro a morte. Aliás, nem a de alguém como Bin Laden, se me permitem trazer este outro espinhoso tema à uma conversa já difícil. Emocionei-me ao ler o artigo de Donna Marsh O’Connor, “Every day is 9/11, every day is pain”. Sua filha Vanessa havia morrido no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em setembro de 2011. Ao ver a notícia da morte do assassino de sua filha, ela foi ao Facebook e escreveu: “Osama Bin Laden está morto. Vanessa também. Nós não celebramos a morte em nossa família”. Logo estava dando entrevistas na TV sobre porque seu sentimento não era o mesmo dos milhares de jovens que saíram às ruas para festejar a “operação”. Tampouco ela quis julgar esses jovens. Lembrou que eles eram muito pequenos à época do atentado e concluiu com sabedoria de mãe: “não devemos julgá-los e sim ensiná-los”.
Donna Marsh O’Connor é a porta-voz do grupo pacifista “September 11th Families for Peaceful Tomorrows”. Ainda que alguns possam criticar a “efetividade” da paz contra o “terrorismo”, é impossível não se perguntar se a “cultura de morte” presente na despedida dos US Marines quando saem à guerra não traria perigosas semelhanças ao “culto à morte” entre jihadistas islâmicos. Se violência, ódio e morte se retroalimentam, me alegro que haja vozes buscando alternativas para entender as causas do terrorismo, para promover educação e a consciência de novas maneiras de atuar, tanto para os indivíduos como para os estados.
Onde traçar a linha contra a cultura da morte? Até onde o Estado deve atuar, decidir, legislar ou intervir? A mesma pergunta vale para “Estados”, no plural, no que se refere à ordem global. Que devemos esperar do(s) Estado(s) ou o que fazer quando não estamos de acordo com suas políticas ou leis? Por agora lhes deixo com as perguntas e logo pretendo voltar a elas como uma desculpa para contar-lhes sobre os livros que venho lendo sobre o tema, e outros que ainda pretendo ler.
06 junho 2010
Phineas, os problemas do mundo e Powerpoints

"O que faremos hoje, Ferb?" Os iniciados nesse divertido desenho animado saberão que essa frase costuma abrir muitos dos episódios de "Phineas e Ferb". Dois irmãos desenham engenhocas criativas, com a ignorância de seus pais e para o desespero de sua irmã, que sempre tenta, em vão, revelar suas façanhas. Claro, há o vilão de nome impronunciável e motivações obscuras, além do delicioso agente Perry, o ornitorrinco, que sempre salva o dia.
Mas como não estamos aqui para falar de mamíferos ovíparos, passemos a outro Phineas, dessa vez um personagem das Escrituras. Phineas e seu imão (que não se chamava Ferb...) eram os filhos do sacerdote Eli, aquele que se desempenhou como tutor do profeta Samuel. Não foram exatamente conhecidos por sua, digamos, retidão em sua função.
Phineas e Hofni eram os guardadores da Arca da aliança quando ocorreu o episódio(1) em que buscaram levar a Arca para o campo de batalha contra os filisteus. Como a Arca simbolizava a presença de Deus no meio do povo, interpretaram que essa seria um poderoso amuleto em sua agenda guerreira.
Não houve esforço para discernimento ou consulta a Deus sobre o tema, em uma demonstração mais de que imaginavam poder manipular a Deus para seus próprios fins. O resultado se mostrou dramático. A Arca foi sequestrada, Phineas e Hofni morreram e até mesmo a notícia de que a Arca havia sido tomada levou também à morte de seu velho pai Eli.
Outro dia saiu uma reportagem interessante no "The New York Times", sobre generais norte-americanos saturados do uso de apresentações de PowerPoint para tentar descifrar os caminhos para a guerra no Afeganistão.
Os slides eram tão complexos que um dos generais chegou a brincar dizendo que "o dia em que entendermos esse slide ganhamos a guerra". McMaster, outro general, disse que "alguns problemas do mundo não são bullet-izable". Essa última expressão, difícil de traduzir, traz um trocadilho interessante (seria consciente?) sobre a dificuldade em classificar simplisticamente uma situação através de pontos e gráficos em um PowerPoint, mas também revelando algo sobre a limitação de querer resolver algo através das "bullets" (balas), como se um poderio militar avassalador fosse a panacéia dos problemas do mundo.
McMaster também revela uma lucidez importante ao comentar porque PowerPoints tendem a tornar-nos estúpidos. "São perigosos porque criam a ilusão de entendimento e de controle". O ponto é que o mundo tem desafios mais complexos do que enfrentar um ou outro vilão como o Dr. Doonfenshmirtz (sim, o vilão de Phineas e Ferb).
A ilusão de controle foi a que também se apoderou de Phineas (o homônimo bíblico) e seu irmão Hofni. Pena que não dá nem para criticar tanto os dois irmãos, uma vez que nossa própria relação com Deus muitas vezes se dá no marco de querer controlar o que Deus fará na história. Ou de imaginar que podemos manipular esse poder e presença para nossos próprios interesses.
Recentemente eu fui provocado pelo capítulo sobre Submissão do excelente livro de Chris Heuertz, "Simple Spirituality". Discorrendo sobre transparência, vulnerabilidade e submissão, ele afirma:
"Submissão é uma oportunidade de afirmar nossa profunda confiança em Deus, permitindo que Deus esteja no controle enquanto resistimos à compulsão de querer colocar-nos no lugar de Deus."
Sejamos criativos ao buscar soluções. A engenhosidade dos meus personagens favoritos de desenhos animados é um estimulante. Mas não sejamos ingênuos para imaginar que encontraremos caminhos fáceis, e nem tenhamos a desfaçatez de querer empurrar a Deus dentro de nossos próprios projetos. Ah, e da próxima vez pensarei duas vezes antes de colocar um sermão no PowerPoint.
(1) 1 Samuel 4
03 maio 2010
A conversão de um asiático nos banheiros de Lausanne.
"Eu me converti em um banheiro de Lausanne". O brilho de seus olhos miúdos se estendia por sua frente larga e se esparramava por suas finas cãs, as mesmas que me confidenciavam sua idade. Demorei um pouco para entender a que ele se referia quando falava de sua "conversão".
Esse simpático senhor do sudeste asiático, a quem tive o privilégio de conhecer em uma recente viagem recente, contou que isso se deu em sua juventude, quando participou do Congresso Mundial de Evangelização, em Lausanne, em julho de 1974. Entre os quase quatro mil participantes (entre delegados e observadores), estava esse jovem líder cristão do oriente. Aí se deu uma inusitada experiência que marcou para sempre sua vida e ministério.
Ela não se deu nos confortáveis e frescos recintos das plenárias e dos diferentes seminários, mas naquele vulgar lugar a que seus participantes se destinavam para que suas básicas necessidades fisiológicas encontrassem um alívio almejado, o banheiro.
É que justamente ali sua alma e seus ouvidos não encontravam esse tal alívio, e sim incômodo e iminente decepção. Se dava que saía do auditório tão animado e desafiado pelo que havia escutado, em especial de seus irmãos latino-americanos, como René Padilla e Samuel Escobar, para em seguida cair no estupor ao ouvir comentários depreciativos e apreciações não muito positivas naquela quase intimidade dos WCs de Lausanne.
Haviam intrigas e articulações tramadas bem aí, tendo como testemunhas aquelas finas divisórias que revelavam ao nosso jovem irmão oriental que a singeleza de coração encontrava seus limites nos umbrais da discordância teológica. Nesse caso, o muro virtual eram aquelas portas onde um ambicioso "Gentlemen" se lia em sua entrada.
Esse saudoso senhor nos conta que algumas das vozes que lhe causaram frustração pertenciam aos que então eram considerados por ele os "grandes nomes". Os mesmos que estampavam as solenes capas dos livros que se disputavam nas mesas dos materiais de referência, avidamente buscados para a construção da sã doutrina.
O sorriso se abriu para revelar que, por estranho que pareça, o efeito disso em sua vida foi abençoador, e não algo que haja destruído sua fé. "Me converti da devoção aos heróis que cultivava para a única devoção que importava, a Cristo e a seu evangelho radical e genuíno".
Foi nesse evento que descobriu irmãos não famosos do outro lado do mundo que buscavam viver com a integridade total do evangelho sua vida e sua missão. Essa conversão o levou a uma trajetória impressionante de relevância no ministério estudantil em seu país, à fidelidade ao Senhor em posições de destaque mais tarde no governo de sua nação, e a influenciar positivamente toda uma geração de líderes naquela região do continente asiático.
Ele prefere que não o considerem um herói hoje. Seria algo incoerente com a mudança importante provocada em sua vida por acontecimentos distantes em toaletes suiços. Talvez por coerência com seu desejo e exemplo, mantenho anônina a identidade de nosso sábio irmão.
Não é interessante ver como necessitamos de heróis? Mas suspeito que pelo menos quanto aos "heróis da fé" essa demanda seja no geral mais negativa do que positiva. Isso porque cada um de nós pode querer ser um desses protagonistas heróicos, e reproduzir assim uma busca sem fim de modelos de dependência dos líderes fortes.
Se acho que não há qualquer problema nessa busca, talvez eu deva me lembrar da sábia lição de Richard Foster, no excelente "Dinheiro, Sexo e Poder", quando dizia que o perigo não são as críticas (abertas ou sussurradas às escondidas), mas sim os elogios que venhamos a receber. Por quê? É que a principal tentação quanto aos elogios ou bajulações que recebemos, dizia Foster, é que podemos acabar acreditando no que ouvimos acerca de nós mesmos.
Daí encontrar um WC onde pessoas falam mal de mim (ou de outros!), sem dó nem piedade, pode até ser uma bênção celestial que o Senhor me envia para minha salvação. Será a santa decepção que Bonhoeffer diz que devemos ter na comunidade, uns com os outros, essa que nos permitirá que recibamos melhor a graça de Deus em nossas vidas, e que fará com que sejamos melhores portadores dela a nossos companheiros de missão, quer concordemos muito ou pouco com eles.
Esse simpático senhor do sudeste asiático, a quem tive o privilégio de conhecer em uma recente viagem recente, contou que isso se deu em sua juventude, quando participou do Congresso Mundial de Evangelização, em Lausanne, em julho de 1974. Entre os quase quatro mil participantes (entre delegados e observadores), estava esse jovem líder cristão do oriente. Aí se deu uma inusitada experiência que marcou para sempre sua vida e ministério.
Ela não se deu nos confortáveis e frescos recintos das plenárias e dos diferentes seminários, mas naquele vulgar lugar a que seus participantes se destinavam para que suas básicas necessidades fisiológicas encontrassem um alívio almejado, o banheiro.
É que justamente ali sua alma e seus ouvidos não encontravam esse tal alívio, e sim incômodo e iminente decepção. Se dava que saía do auditório tão animado e desafiado pelo que havia escutado, em especial de seus irmãos latino-americanos, como René Padilla e Samuel Escobar, para em seguida cair no estupor ao ouvir comentários depreciativos e apreciações não muito positivas naquela quase intimidade dos WCs de Lausanne.
Haviam intrigas e articulações tramadas bem aí, tendo como testemunhas aquelas finas divisórias que revelavam ao nosso jovem irmão oriental que a singeleza de coração encontrava seus limites nos umbrais da discordância teológica. Nesse caso, o muro virtual eram aquelas portas onde um ambicioso "Gentlemen" se lia em sua entrada.
Esse saudoso senhor nos conta que algumas das vozes que lhe causaram frustração pertenciam aos que então eram considerados por ele os "grandes nomes". Os mesmos que estampavam as solenes capas dos livros que se disputavam nas mesas dos materiais de referência, avidamente buscados para a construção da sã doutrina.
O sorriso se abriu para revelar que, por estranho que pareça, o efeito disso em sua vida foi abençoador, e não algo que haja destruído sua fé. "Me converti da devoção aos heróis que cultivava para a única devoção que importava, a Cristo e a seu evangelho radical e genuíno".
Foi nesse evento que descobriu irmãos não famosos do outro lado do mundo que buscavam viver com a integridade total do evangelho sua vida e sua missão. Essa conversão o levou a uma trajetória impressionante de relevância no ministério estudantil em seu país, à fidelidade ao Senhor em posições de destaque mais tarde no governo de sua nação, e a influenciar positivamente toda uma geração de líderes naquela região do continente asiático.
Ele prefere que não o considerem um herói hoje. Seria algo incoerente com a mudança importante provocada em sua vida por acontecimentos distantes em toaletes suiços. Talvez por coerência com seu desejo e exemplo, mantenho anônina a identidade de nosso sábio irmão.
Não é interessante ver como necessitamos de heróis? Mas suspeito que pelo menos quanto aos "heróis da fé" essa demanda seja no geral mais negativa do que positiva. Isso porque cada um de nós pode querer ser um desses protagonistas heróicos, e reproduzir assim uma busca sem fim de modelos de dependência dos líderes fortes.
Se acho que não há qualquer problema nessa busca, talvez eu deva me lembrar da sábia lição de Richard Foster, no excelente "Dinheiro, Sexo e Poder", quando dizia que o perigo não são as críticas (abertas ou sussurradas às escondidas), mas sim os elogios que venhamos a receber. Por quê? É que a principal tentação quanto aos elogios ou bajulações que recebemos, dizia Foster, é que podemos acabar acreditando no que ouvimos acerca de nós mesmos.
Daí encontrar um WC onde pessoas falam mal de mim (ou de outros!), sem dó nem piedade, pode até ser uma bênção celestial que o Senhor me envia para minha salvação. Será a santa decepção que Bonhoeffer diz que devemos ter na comunidade, uns com os outros, essa que nos permitirá que recibamos melhor a graça de Deus em nossas vidas, e que fará com que sejamos melhores portadores dela a nossos companheiros de missão, quer concordemos muito ou pouco com eles.
Vejam a ironia, já vou citando meus próprios heróis. Também preciso de conversão! Buscarei o banheiro de um próximo congresso. Pensando bem, melhor não. Espero que em uma próxima conferência esse espaço também seja um lugar de paz. Afinal, quem não gosta de sossego numa hora dessas?
Foto: © WC
Upload feito originalmente por dusan.smolnikar
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