12 fevereiro 2012

Recomeçar


Time goes by
Upload feito originalmente por Frodrig
Que princípios me guiam quando começo uma nova etapa, projeto ou desafio na vida? Em horas assim eu me identifico com aqueles discípulos que pedem a Jesus, “aumenta em nós a fé” (Luc. 17:5). Ao ver a resposta de Jesus e a sequência de eventos narrada por Lucas, encontro três princípios norteadores:

Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.

2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.

3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.

Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:

Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.

2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.

3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.

Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!

24 maio 2011

Onde traçar a linha contra a cultura da morte?

(ou como foi que aborto, Bin Laden e US marines se juntaram para debater em minha pobre cabeça...)

Não sei se curiosa coincidência ou o quê, mas tudo aconteceu no mesmo dia. Primeiro foi aquela faixa que se agarrava dos gradis das sacadas quase francesas daquela esquina central de Montevidéu: “Legalizar o Aborto Já!”.

Não foi por indiferença, creio eu, mas segui o meu caminho. Parei. Dei meia-volta e a inspecionei. Seria uma ONG? A sede de um partido político? Não havia qualquer identificação que sugerisse algo aparentemente institucional. Apreciei então, ainda que desanimado, a coragem de quem quer que seja para manifestar-se assim publicamente sobre o seu, como se diz, “direito de escolha”.

Ao chegar a casa, vejo no noticiário a amarga história sobre uma mãe no Texas que é presa por tentar assassinar o seu filho de quatro meses. Os médicos desconfiam, a tecnologia ajuda, e uma câmara escondida revela que ela havia tentado asfixiar seu rebento. As imagens são exibidas, a notícia comove, com o pico da emoção na seqüência que mostra os enfermeiros resgatando a criança. Um é levado a salvo, a outra é levada pela polícia.

Os dois temas se mesclaram inevitavelmente em minha mente. Onde traçaria a linha para definir que algo é condenável em um caso e no outro não. A pergunta simplista, reconheço, que me martelou foi: “qual é a diferença”? Ou pelo menos para buscar entender por que me emociono em um caso e sou indiferente ou ainda defendo arduamente a causa oposta no outro?

E logo no Texas, vejam só… Foi lá que surgiu o emblemático caso “Roe vs. Wade”, depois levado a Suprema Corte, onde em 1973 foi decidido que, em toscas linhas, o aborto seria permitido até que o feto se tornasse “viável”, ou seja, até que fosse potencialmente capaz de viver fora do útero materno, sem ajuda artificial.

Então me veio a pergunta: teria sobrevivido sem ajuda (“artificial” ou não) aquele bebê de quatro meses? Refiro-me ao bebê já nascido da notícia e não aos inúmeros não nascidos, “viáveis” e “inviáveis” que morrem antes, (des)amparados ou não pela lei. Minha cabeça dá voltas. A quem o Estado deve proteger e por quê? Bebês, nascidos e não nascidos, ou as suas mães? Tanto as que desejam ter, como as que preferem abortar ou ainda aquelas que preferem uma coisa mas são coagidas por outros a fazer a outra (e isso vale tanto para as que abortam como as que não). A quem protejo? Quem merece a vida, a educação, a prevenção ou a punição pelo Estado?

Difícil, reconheço, mas sou da cultura pela vida, e nunca celebro a morte. Aliás, nem a de alguém como Bin Laden, se me permitem trazer este outro espinhoso tema à uma conversa já difícil. Emocionei-me ao ler o artigo de Donna Marsh O’Connor, “Every day is 9/11, every day is pain”. Sua filha Vanessa havia morrido no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em setembro de 2011. Ao ver a notícia da morte do assassino de sua filha, ela foi ao Facebook e escreveu: “Osama Bin Laden está morto. Vanessa também. Nós não celebramos a morte em nossa família”. Logo estava dando entrevistas na TV sobre porque seu sentimento não era o mesmo dos milhares de jovens que saíram às ruas para festejar a “operação”. Tampouco ela quis julgar esses jovens. Lembrou que eles eram muito pequenos à época do atentado e concluiu com sabedoria de mãe: “não devemos julgá-los e sim ensiná-los”.

Donna Marsh O’Connor é a porta-voz do grupo pacifista “September 11th Families for Peaceful Tomorrows”. Ainda que alguns possam criticar a “efetividade” da paz contra o “terrorismo”, é impossível não se perguntar se a “cultura de morte” presente na despedida dos US Marines quando saem à guerra não traria perigosas semelhanças ao “culto à morte” entre jihadistas islâmicos. Se violência, ódio e morte se retroalimentam, me alegro que haja vozes buscando alternativas para entender as causas do terrorismo, para promover educação e a consciência de novas maneiras de atuar, tanto para os indivíduos como para os estados.

Onde traçar a linha contra a cultura da morte? Até onde o Estado deve atuar, decidir, legislar ou intervir? A mesma pergunta vale para “Estados”, no plural, no que se refere à ordem global. Que devemos esperar do(s) Estado(s) ou o que fazer quando não estamos de acordo com suas políticas ou leis? Por agora lhes deixo com as perguntas e logo pretendo voltar a elas como uma desculpa para contar-lhes sobre os livros que venho lendo sobre o tema, e outros que ainda pretendo ler.

06 junho 2010

Phineas, os problemas do mundo e Powerpoints

"O que faremos hoje, Ferb?" Os iniciados nesse divertido desenho animado saberão que essa frase costuma abrir muitos dos episódios de "Phineas e Ferb". Dois irmãos desenham engenhocas criativas, com a ignorância de seus pais e para o desespero de sua irmã, que sempre tenta, em vão, revelar suas façanhas. Claro, há o vilão de nome impronunciável e motivações obscuras, além do delicioso agente Perry, o ornitorrinco, que sempre salva o dia.

Mas como não estamos aqui para falar de mamíferos ovíparos, passemos a outro Phineas, dessa vez um personagem das Escrituras. Phineas e seu imão (que não se chamava Ferb...) eram os filhos do sacerdote Eli, aquele que se desempenhou como tutor do profeta Samuel. Não foram exatamente conhecidos por sua, digamos, retidão em sua função.

Phineas e Hofni eram os guardadores da Arca da aliança quando ocorreu o episódio(1) em que buscaram levar a Arca para o campo de batalha contra os filisteus. Como a Arca simbolizava a presença de Deus no meio do povo, interpretaram que essa seria um poderoso amuleto em sua agenda guerreira.

Não houve esforço para discernimento ou consulta a Deus sobre o tema, em uma demonstração mais de que imaginavam poder manipular a Deus para seus próprios fins. O resultado se mostrou dramático. A Arca foi sequestrada, Phineas e Hofni morreram e até mesmo a notícia de que a Arca havia sido tomada levou também à morte de seu velho pai Eli.

Outro dia saiu uma reportagem interessante no "The New York Times", sobre generais norte-americanos saturados do uso de apresentações de PowerPoint para tentar descifrar os caminhos para a guerra no Afeganistão.

Os slides eram tão complexos que um dos generais chegou a brincar dizendo que "o dia em que entendermos esse slide ganhamos a guerra". McMaster, outro general, disse que "alguns problemas do mundo não são bullet-izable". Essa última expressão, difícil de traduzir, traz um trocadilho interessante (seria consciente?) sobre a dificuldade em classificar simplisticamente uma situação através de pontos e gráficos em um PowerPoint, mas também revelando algo sobre a limitação de querer resolver algo através das "bullets" (balas), como se um poderio militar avassalador fosse a panacéia dos problemas do mundo.

McMaster também revela uma lucidez importante ao comentar porque PowerPoints tendem a tornar-nos estúpidos. "São perigosos porque criam a ilusão de entendimento e de controle". O ponto é que o mundo tem desafios mais complexos do que enfrentar um ou outro vilão como o Dr. Doonfenshmirtz (sim, o vilão de Phineas e Ferb).

A ilusão de controle foi a que também se apoderou de Phineas (o homônimo bíblico) e seu irmão Hofni. Pena que não dá nem para criticar tanto os dois irmãos, uma vez que nossa própria relação com Deus muitas vezes se dá no marco de querer controlar o que Deus fará na história. Ou de imaginar que podemos manipular esse poder e presença para nossos próprios interesses.

Recentemente eu fui provocado pelo capítulo sobre Submissão do excelente livro de Chris Heuertz, "Simple Spirituality". Discorrendo sobre transparência, vulnerabilidade e submissão, ele afirma:

"Submissão é uma oportunidade de afirmar nossa profunda confiança em Deus, permitindo que Deus esteja no controle enquanto resistimos à compulsão de querer colocar-nos no lugar de Deus."

Sejamos criativos ao buscar soluções. A engenhosidade dos meus personagens favoritos de desenhos animados é um estimulante. Mas não sejamos ingênuos para imaginar que encontraremos caminhos fáceis, e nem tenhamos a desfaçatez de querer empurrar a Deus dentro de nossos próprios projetos. Ah, e da próxima vez pensarei duas vezes antes de colocar um sermão no PowerPoint.

(1) 1 Samuel 4

03 maio 2010

A conversão de um asiático nos banheiros de Lausanne.



"Eu me converti em um banheiro de Lausanne". O brilho de seus olhos miúdos se estendia por sua frente larga e se esparramava por suas finas cãs, as mesmas que me confidenciavam sua idade. Demorei um pouco para entender a que ele se referia quando falava de sua "conversão".

Esse simpático senhor do sudeste asiático, a quem tive o privilégio de conhecer em uma recente viagem recente, contou que isso se deu em sua juventude, quando participou do Congresso Mundial de Evangelização, em Lausanne, em julho de 1974. Entre os quase quatro mil participantes (entre delegados e observadores), estava esse jovem líder cristão do oriente. Aí se deu uma inusitada experiência que marcou para sempre sua vida e ministério.

Ela não se deu nos confortáveis e frescos recintos das plenárias e dos diferentes seminários, mas naquele vulgar lugar a que seus participantes se destinavam para que suas básicas necessidades fisiológicas encontrassem um alívio almejado, o banheiro.

É que justamente ali sua alma e seus ouvidos não encontravam esse tal alívio, e sim incômodo e iminente decepção. Se dava que saía do auditório tão animado e desafiado pelo que havia escutado, em especial de seus irmãos latino-americanos, como René Padilla e Samuel Escobar, para em seguida cair no estupor ao ouvir comentários depreciativos e apreciações não muito positivas naquela quase intimidade dos WCs de Lausanne.

Haviam intrigas e articulações tramadas bem aí, tendo como testemunhas aquelas finas divisórias que revelavam ao nosso jovem irmão oriental que a singeleza de coração encontrava seus limites nos umbrais da discordância teológica. Nesse caso, o muro virtual eram aquelas portas onde um ambicioso "Gentlemen" se lia em sua entrada.

Esse saudoso senhor nos conta que algumas das vozes que lhe causaram frustração pertenciam aos que então eram considerados por ele os "grandes nomes". Os mesmos que estampavam as solenes capas dos livros que se disputavam nas mesas dos materiais de referência, avidamente buscados para a construção da sã doutrina.

O sorriso se abriu para revelar que, por estranho que pareça, o efeito disso em sua vida foi abençoador, e não algo que haja destruído sua fé. "Me converti da devoção aos heróis que cultivava para a única devoção que importava, a Cristo e a seu evangelho radical e genuíno".

Foi nesse evento que descobriu irmãos não famosos do outro lado do mundo que buscavam viver com a integridade total do evangelho sua vida e sua missão. Essa conversão o levou a uma trajetória impressionante de relevância no ministério estudantil em seu país, à fidelidade ao Senhor em posições de destaque mais tarde no governo de sua nação, e a influenciar positivamente toda uma geração de líderes naquela região do continente asiático.

Ele prefere que não o considerem um herói hoje. Seria algo incoerente com a mudança importante provocada em sua vida por acontecimentos distantes em toaletes suiços. Talvez por coerência com seu desejo e exemplo, mantenho anônina a identidade de nosso sábio irmão.

Não é interessante ver como necessitamos de heróis? Mas suspeito que pelo menos quanto aos "heróis da fé" essa demanda seja no geral mais negativa do que positiva. Isso porque cada um de nós pode querer ser um desses protagonistas heróicos, e reproduzir assim uma busca sem fim de modelos de dependência dos líderes fortes.

Se acho que não há qualquer problema nessa busca, talvez eu deva me lembrar da sábia lição de Richard Foster, no excelente "Dinheiro, Sexo e Poder", quando dizia que o perigo não são as críticas (abertas ou sussurradas às escondidas), mas sim os elogios que venhamos a receber. Por quê? É que a principal tentação quanto aos elogios ou bajulações que recebemos, dizia Foster, é que podemos acabar acreditando no que ouvimos acerca de nós mesmos.

Daí encontrar um WC onde pessoas falam mal de mim (ou de outros!), sem dó nem piedade, pode até ser uma bênção celestial que o Senhor me envia para minha salvação. Será a santa decepção que Bonhoeffer diz que devemos ter na comunidade, uns com os outros, essa que nos permitirá que recibamos melhor a graça de Deus em nossas vidas, e que fará com que sejamos melhores portadores dela a nossos companheiros de missão, quer concordemos muito ou pouco com eles.

Vejam a ironia, já vou citando meus próprios heróis. Também preciso de conversão! Buscarei o banheiro de um próximo congresso. Pensando bem, melhor não. Espero que em uma próxima conferência esse espaço também seja um lugar de paz. Afinal, quem não gosta de sossego numa hora dessas?

Foto: ©
WC
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dusan.smolnikar

09 abril 2010

Consertar eu acho que (não) sei...



"E se alguém fizer o que está mal?", a jovem estudante me fuzilou com sua pergunta. Tudo bem que havia sido uma maneira mais elegante do que me questionar "e se alguém meter o pé na jaca?...". Mas eu não podia evitar sentir-me acurralado por seu tom de voz ligeiramente alterado e seu intrigante olhar meio enviesado. "A pergunta era pra mim?" Olhei pro lado, um pouco pra trás. "Acho que foi pro Zé Mané aqui, não foi pra mim não...".

Sem escapatória, quando dedos traidores apontaram para mim, e depois de alguns intermináveis segundos de hesitação, recordo haver balbuciado algo assim, "bem, aí temos a graça de Deus para nos restaurar...". "Ah, não, daí é fácil demais!", ela sentenciou, sem piedade das gotinhas de suor que minavam de minha fria testa e escorregavam por um saliente nariz.

Eu estava nervoso, claro. Quem havia tido a ideia de me colocar naquele painel sobre sexualidade nesse encontro de formação de líderes
(1)?! Eu era demasiado jovem (digamos "mais jovem", para ser tecnicamente correto), recém-formado, solteiro e, creia-me, sabia muito pouco sobre sexo e afins.

Tinha algumas noções sobre a teoria e, mais do que qualquer outra coisa, eu confiava na graça do Senhor para me restaurar se algo "saísse mal". Mas parecia que aquela ideia de redenção incomodava profundamente minha colega. Aparentemente, ela acreditava que o medo ou as regras seriam melhores guardadores de minha sexualidade. Eu, por outro lado, cada vez que lia e meditava mais sobre o assunto, tendia a concordar com Paulo, para quem as leis ou as regras só servem para nos condenar, mas não para nos manter no bom caminho. Também me parecia cada vez mais sábio aquele tal discípulo amado, para quem o amor seria um poder muito mais forte do que o medo.

Me parece que um dos problemas é que achamos que somos bons em consertar, em julgar e em corrigir. Mas, pensando bem, creio que não o somos. Infelizmente já vi demasiados "exemplos" de "disciplina" em igrejas que mais se parecem a exercícios públicos de humilhação e de revanche. Poucas vezes entendemos que disciplina nas Escrituras rima mais com cuidado e sanidade do que com castigo e isolamento. (uma rápida observação: a Palavra nos diz que devemos cuidar para não nos relacionarmos com aqueles que são falsos mestres, que aparentam piedade mas que de fato desviam as pessoas do Caminho; porém esse é um problema distinto e teremos que deixar esse assunto para outra hora).

Se temos dificuldades para entender a graça da redenção talvez seja porque antes, muito antes, também encontramos dificuldades para agradecer a bondade e a beleza da criação. Foi John Stott quem já disse que somos muito melhores na doutrina da redenção do que na doutrina da criação. Sem querer discordar do tio Sott, possivelmente também sejamos ruinzinhos na doutrina da redenção. Achamos presunçosamente que nós somos aqueles que sabem consertar. Essa história da graça seria, nesse caso, uma conversa mais apropriada para o bom e ingênuo sono bovino.

Pensando nisso da criação é que me deparei outro dia desses com essa interessante citação de Chesterton, esse homenzarrão católico que influenciou toda uma geração do início do século XX, entre eles nosso admirado C. S. Lewis. Ele disse o seguinte:

"Você dá graças antes das refeições,
Muito bem.
Mas eu dou graças antes de uma peça teatral e de uma ópera,
E dou graças antes de um concerto e de uma pantomina,
E dou graças antes de abrir um livro,
E dou graças antes de atuar como ator, antes de pintar,
De nadar, de esgrimir, de lutar boxe, de andar, de brincar e de dançar;
E dou graças antes de começar a escrever".
(2)

Aproveito para voltar a pensar sobre a tal sexualidade do começo dessa reflexão. Se eu conseguir ser mais agradecido ao Criador por sua bondade no desenho da sexualidade, talvez eu venha a entender melhor, e a aceitar, sua generosa oferta de restauração, naqueles tristes casos em que eu quase venha a estropiar tudo de belo que Ele fez.

Ou seja, se recebo bem o presente de sua graça e bondade na criação, talvez eu receba melhor a oferta de sua graça e misericórdia na redenção.

Consertar eu acho que não sei. Sabes Tu, Aquele que me desenhou primeiro. Aceito que me tomes pelas mãos, essas que espalmadas querem aprender a agradecer a beleza de sua criação e a generosidade de sua redenção.

(1) Era um IPL, um Instituto de Preparação de Líderes, da ABU (Aliança Bíblica Universitária), se não me engano aí pelo ano de 1993.
(2) Citado por John Stott, em A Mensagem de 1 Timóteo e Tito, da ABU Editora, p. 115.

Foto: © Autoportrait
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C O L ! N E .