Em viagens pela América Latina tenho adotado o hábito de sair para correr com estudantes. Enquanto corremos eu lhes peço para pensar em textos bíblicos que os motivam à atividade física e que compartilhem como a prática esportiva lhes ajuda em sua vida espiritual.
Antes de revelar o que ouço abro parênteses para as objeções que às vezes escuto, normalmente dos que não se animam ao tour desportivo: “O que é eu quero é correr ou esforçar-me contra a injustiça”, “prefiro dedicar-me à oração”, “o tempo é que corre e muitos estão perdidos”, “prefiro levantamento de garfo, ou de copo” e outras nessa linha. É louvável o humor imaginativo, mas é menos apreciável a habilidade para criar dicotomias desnecessárias.
Às vezes as observações são acompanhadas por citações bíblicas e uma delas é curiosamente sempre mal citada. Geralmente dizem que o Paulo das Escrituras falou algo sobre o exercício físico ser de nenhum proveito. Interessante, logo Paulo que utilizou boas metáforas sobre o atleta e que em verdade disse que o exercício físico era de “algum proveito” (1 Tim. 4:8). Possivelmente se opunha à idolatria da atividade física, fazendo uma comparação entre o que era de proveito para essa vida, o exercício físico, com a piedade, que seria de proveito tanto para essa vida como para aquela outra depois da morte. Quer ser bom mordomo da vida que Deus te dá agora? Então preste atenção à atividade física.
Sobre essa memória bíblica que nos trai, proponho um teste. Pergunte a pessoas que tenham uma familiaridade com a Bíblia: “como é mesmo aquele texto em que Paulo fala sobre se há proveito ou não na atividade física?”. Observe então quantos dirão que Paulo afirma que “nenhum proveito” há ou que citarão “para nada serve”. Aproveite e faça um segundo teste. Pergunte sobre aquele outro texto em que Paulo fala sobre “estar de pé e cair”. Anote quantos dirão “quem está de pé cuide que não caia”, citando muito mal a exortação do apóstolo que alertava que “aquele que pensa estar de pé é melhor ter cuidado para não cair” (1 Cor. 10:12, NTLH). Sutil mas fundamental diferença. Uma luz amarela para aqueles que pensam que não precisam se cuidar.
Voltando àquelas vivências de sair para correr com estudantes de diferentes países, compartilho alguns textos citados em resposta à pergunta sobre as passagens que os motivam:
“Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória”, “corram de tal maneira que ganhem o prêmio”, “o atleta que toma parte numa corrida não recebe o prêmio se não obedecer às regras da competição”, “os que confiam no Senhor... correm e não perdem as forças” (1).
É uma experiência muito interessante ouvir esses relatos, vendo as conexões que fazem e sua visão integral de uma vida saudável. Quanto à pergunta sobre como lhes ajuda a atividade física e os benefícios que essa lhes traz à sua vida, aqui vão algumas respostas que ouço:
“Ajuda-me a ter mais disciplina”, “agora consigo orar mais”, “planejo melhor minha vida e meus horários”, “conheci novas pessoas”, “me sinto mais forte para novos desafios”, “tenho mais disposição e saúde”, e por esse caminho seguem.
Para mim a motivação começou assim(2). Ela chegou em tempos de sedentarismo, de colesterol e triglicerídeos nas nuvens, de pecados preguiçosos e gastronômicos. Sim, comer mal também é pecado. Sinto muito por revelar essa verdade incômoda ao seu estômago, mas me alegro por ao menos despertar a sua acomodada alma. Também teve seus benefícios secundários importantes, como conseguir organizar-me melhor e a curiosa observação da esposa amada de que meu humor havia melhorado muito (como não consigo me lembrar se meu humor era assim tão ruim antes, talvez o esporte não tenha efeitos positivos sobre a memória).
Há tentações no caminho? Claro, somos assim, cheios de ambiguidades e defeitos. Há que tomar cuidado para evitar as comparações com os demais (o importante é que você mesmo progrida), com a competitividade extremada (reconheça seus limites), com a idolatria do corpo (cuidar é diferente de ser obsessivo) ou vigiar para não descuidar das relações, da família e das causas nobres a que te sentes chamado a cooperar com a sua vida e com a capacidade que Deus te deu.
Estou seguro que quando você decida se cuidar melhor “você salvará tanto você mesmo como os que o escutam” (1 Tim. 4:16). Busque avaliar se você já pensa que “está de pé” e que não precisa de mais esforço e de cuidado na vida. Imaginar que já estamos bem é o primeiro passo para o abismo. Cuidar, avaliar, revisar e esforçar-se pode ser um bom início ou o recomeço de uma nova e frutífera etapa na vida. Recobrará forças e assim estará mais em forma para lutar contra a injustiça, pecado e maldade no mundo.
Aproveite e compartilhe o que te anima ou o que te impede nesse caminho de cuidado com a vida. Juntos, porque a comunidade aqui também é importante, podemos correr, caminhar, nadar ou pedalar, valorizando a vida por onde o Senhor nos leva nesse mundo. Então, me diz aí, a que horas você colocará o despertador para tocar e com quem você irá correr amanhã?
1 Filipenses 3:14; 1 Coríntios 9:24; 2 Timóteo 2:5; Isaías 40:31 (NTLH)
2 Agradeço ao amigo e mestre Ziel Machado por animar-me nesse caminho.
16 abril 2012
14 março 2012
2050 – O economista louco e o profeta
"Qualquer um que acredite em crescimento indefinido em qualquer coisa material, em um planeta finito, ou é um louco – ou é um economista”.
Kenneth Boulding, conselheiro ambiental do então presidente norte-americano John Kennedy, há cerca de 45 anos.
Certa vez o personagem de minha infância, o Chico Bento, tentou ocupar o lugar de Deus. Pelo que me lembro, se saiu mal. E se nós tentássemos esse jogo? Hipoteticamente, claro. Imaginem que tentemos elevar o nível de consumo daqueles que vivem nos chamados países em desenvolvimento ao mesmo nível dos que vivem na América do Norte, Europa, Japão e Austrália. Qual seria o resultado?
Na prática, diz o geógrafo autor de um polêmico livro(1) sobre como será o mundo em 2050, isso multiplicaria por 11 o consumo global de recursos. Seria como se a população mundial saltasse dos atuais 7 bilhões para 72 bilhões. Um pouquinho apertado, não?
Aliás, abro um breve parêntese para dizer que é hipnótico entrar em algum site da Internet que estima em tempo real a população mundial. Ver aqueles números de nascimentos e mortes dando voltas sem parar, competindo entre si como incansáveis gladiadores giratórios me deixa mareado. Aviso dado, fecho os parênteses. Perdão, me esqueci de dizer que por agora os nascimentos vão ganhando das mortes a uma taxa aparente de quase 150 a mais por minuto. Agora sim fecho o que abri, não sem antes confessar que não sei bem se isso é boa ou má notícia.
Aclaro que não é por fobia de gente que a notícia me preocupa. Se Deus as ama, não importa o número, porque eu não deveria ao menos tentar seguir seu exemplo? Mas parece que o jardim terráqueo que aquele lá do alto criou tem recursos limitados. Esse é um detalhe importante e supostamente óbvio, mas o extraordinário é que a preciosa informação sobre os recursos restritos do planeta parece não entrar na lógica de quem manda no mundo, os economistas.
Se o globo terrestre é finito por que é que continua a dominar a lógica pura e simples do crescimento econômico como a panaceia dos nossos problemas?
Voltemos à brincadeira de tentar ser Deus. Pensemos no experimento do primeiro parágrafo, mas agora buscando fazer todo esse upgrade nas condições de vida da população do planeta dentro dos próximos 40 anos. Aquele geógrafo nos diz que o resultado seria ainda pior, “então o mundo natural teria que avançar para produzir o suficiente para sustentar o equivalente a 105 bilhões de pessoas”. De onde viria toda a carne, peixe, cereais, água, energia, plástico, metal, madeira?
Mas, diria o observador arguto, “seremos tantos assim no mundo?” Não, não o seremos. É só um exercício hipotético considerando o padrão de vida e bem-estar de países desenvolvidos. Alguns indignados idealistas dirão que se isso não é uma utopia realizável então o desafio é baixar o padrão de consumo dos ricos. Outros milionários desanimados diriam que se todos serão ricos, então ninguém será rico. Um tédio total para aqueles que no final das contas queriam era se destacar da gentalha.
Veja bem que das legiões da periferia costuma sair de vez em quando um profeta. Outro dia desses ouvi um deles. Vinha do sudeste asiático, mais precisamente do Sri Lanka. O provocador Vinoth Ramachandra(2) (que profeta não é provocador?) cutucou a todos os estudantes líderes de movimentos estudantis como a ABU, vindos de vários países da América do Sul, reunidos no Paraguai. Ele disse algo mais ou menos assim, “oremos por um colapso do sistema econômico mundial”. Houve uma agitação no plenário. Muitos não engoliram bem aquela ideia. Não sei se pensavam em suas economias, já que no caso dos estudantes essas seriam meio que virtuais. Mas alguns falaram do sofrimento que isso provocaria a muitos, a perda de empregos, etc. A resposta cortante veio com outra pergunta sobre em qual mundo vivíamos, pois o sofrimento causado por sistemas econômicos injustos e opressores já é o pão diário de bilhões de pessoas.
Uma crise ou colapso, seja financeiro ou pela escassez dos recursos mundiais, ajudaria? Os profetas diriam que os exílios ou as peregrinações pelo deserto podem ajudar a despertar ouvidos que se fazem de surdos e olhos que não querem ver. Mas sei também que os próprios profetas não gostam de entregar essas mensagens, que lhes queimam e consomem por dentro. O profeta só denuncia e anuncia porque Deus assim o manda e porque faz nascer nele a esperança de que uma realidade diferente possa ser vivida.
Falando dessa outra realidade, nesses dias encontrei consolo e esperança ouvindo o excelente álbum “Ghosts Upon the Earth” (“Fantasmas sobre a Terra”), da brilhante banda Gungor. Inspirados pela alegoria de C. S. Lewis, “O Grande Abismo”, quando os seres humanos da cidade cinzenta viajam até os limites do que seria o Céu, onde descobrem que esse é surpreendente e dolorosamente muito mais real do que a sua existência atual. Vislumbram que há uma realidade possível, “mais real” do que eles imaginam ou vivem. Alguns se fascinam e entram nessa nova realidade. Outros não a suportam e voltam atrás.
Qual é a realidade, o país e o planeta em que a gente quer viver? A fantasia cinzenta irreal dos economistas do crescimento e da ilusão da fartura primeiro-mundista? Ou será que finalmente a perspectiva absolutamente real do Céu nos fará viver em obediência criativa na história hoje, ouvindo os profetas da sustentabilidade que nos são enviados?
1 The World in 2050: Four Forces Shaping Civilization's Northern Future, Laurence C. Smith, Penguin Group, 2010.
2 Vinoth Ramachandra é o secretário associado de IFES para o diálogo e o compromisso social (http://vinothramachandra.wordpress.com/)
Kenneth Boulding, conselheiro ambiental do então presidente norte-americano John Kennedy, há cerca de 45 anos.
Certa vez o personagem de minha infância, o Chico Bento, tentou ocupar o lugar de Deus. Pelo que me lembro, se saiu mal. E se nós tentássemos esse jogo? Hipoteticamente, claro. Imaginem que tentemos elevar o nível de consumo daqueles que vivem nos chamados países em desenvolvimento ao mesmo nível dos que vivem na América do Norte, Europa, Japão e Austrália. Qual seria o resultado?
Na prática, diz o geógrafo autor de um polêmico livro(1) sobre como será o mundo em 2050, isso multiplicaria por 11 o consumo global de recursos. Seria como se a população mundial saltasse dos atuais 7 bilhões para 72 bilhões. Um pouquinho apertado, não?
Aliás, abro um breve parêntese para dizer que é hipnótico entrar em algum site da Internet que estima em tempo real a população mundial. Ver aqueles números de nascimentos e mortes dando voltas sem parar, competindo entre si como incansáveis gladiadores giratórios me deixa mareado. Aviso dado, fecho os parênteses. Perdão, me esqueci de dizer que por agora os nascimentos vão ganhando das mortes a uma taxa aparente de quase 150 a mais por minuto. Agora sim fecho o que abri, não sem antes confessar que não sei bem se isso é boa ou má notícia.
Aclaro que não é por fobia de gente que a notícia me preocupa. Se Deus as ama, não importa o número, porque eu não deveria ao menos tentar seguir seu exemplo? Mas parece que o jardim terráqueo que aquele lá do alto criou tem recursos limitados. Esse é um detalhe importante e supostamente óbvio, mas o extraordinário é que a preciosa informação sobre os recursos restritos do planeta parece não entrar na lógica de quem manda no mundo, os economistas.
Se o globo terrestre é finito por que é que continua a dominar a lógica pura e simples do crescimento econômico como a panaceia dos nossos problemas?
Voltemos à brincadeira de tentar ser Deus. Pensemos no experimento do primeiro parágrafo, mas agora buscando fazer todo esse upgrade nas condições de vida da população do planeta dentro dos próximos 40 anos. Aquele geógrafo nos diz que o resultado seria ainda pior, “então o mundo natural teria que avançar para produzir o suficiente para sustentar o equivalente a 105 bilhões de pessoas”. De onde viria toda a carne, peixe, cereais, água, energia, plástico, metal, madeira?
Mas, diria o observador arguto, “seremos tantos assim no mundo?” Não, não o seremos. É só um exercício hipotético considerando o padrão de vida e bem-estar de países desenvolvidos. Alguns indignados idealistas dirão que se isso não é uma utopia realizável então o desafio é baixar o padrão de consumo dos ricos. Outros milionários desanimados diriam que se todos serão ricos, então ninguém será rico. Um tédio total para aqueles que no final das contas queriam era se destacar da gentalha.
Veja bem que das legiões da periferia costuma sair de vez em quando um profeta. Outro dia desses ouvi um deles. Vinha do sudeste asiático, mais precisamente do Sri Lanka. O provocador Vinoth Ramachandra(2) (que profeta não é provocador?) cutucou a todos os estudantes líderes de movimentos estudantis como a ABU, vindos de vários países da América do Sul, reunidos no Paraguai. Ele disse algo mais ou menos assim, “oremos por um colapso do sistema econômico mundial”. Houve uma agitação no plenário. Muitos não engoliram bem aquela ideia. Não sei se pensavam em suas economias, já que no caso dos estudantes essas seriam meio que virtuais. Mas alguns falaram do sofrimento que isso provocaria a muitos, a perda de empregos, etc. A resposta cortante veio com outra pergunta sobre em qual mundo vivíamos, pois o sofrimento causado por sistemas econômicos injustos e opressores já é o pão diário de bilhões de pessoas.
Uma crise ou colapso, seja financeiro ou pela escassez dos recursos mundiais, ajudaria? Os profetas diriam que os exílios ou as peregrinações pelo deserto podem ajudar a despertar ouvidos que se fazem de surdos e olhos que não querem ver. Mas sei também que os próprios profetas não gostam de entregar essas mensagens, que lhes queimam e consomem por dentro. O profeta só denuncia e anuncia porque Deus assim o manda e porque faz nascer nele a esperança de que uma realidade diferente possa ser vivida.
Falando dessa outra realidade, nesses dias encontrei consolo e esperança ouvindo o excelente álbum “Ghosts Upon the Earth” (“Fantasmas sobre a Terra”), da brilhante banda Gungor. Inspirados pela alegoria de C. S. Lewis, “O Grande Abismo”, quando os seres humanos da cidade cinzenta viajam até os limites do que seria o Céu, onde descobrem que esse é surpreendente e dolorosamente muito mais real do que a sua existência atual. Vislumbram que há uma realidade possível, “mais real” do que eles imaginam ou vivem. Alguns se fascinam e entram nessa nova realidade. Outros não a suportam e voltam atrás.
Qual é a realidade, o país e o planeta em que a gente quer viver? A fantasia cinzenta irreal dos economistas do crescimento e da ilusão da fartura primeiro-mundista? Ou será que finalmente a perspectiva absolutamente real do Céu nos fará viver em obediência criativa na história hoje, ouvindo os profetas da sustentabilidade que nos são enviados?
1 The World in 2050: Four Forces Shaping Civilization's Northern Future, Laurence C. Smith, Penguin Group, 2010.
2 Vinoth Ramachandra é o secretário associado de IFES para o diálogo e o compromisso social (http://vinothramachandra.wordpress.com/)
12 fevereiro 2012
Carnaval: negar, “utilizar” ou ressignificar?
Escrevo do Uruguai, a terra do “carnaval mais longo do mundo”, com 40 dias de duração. Sim, desculpem-me Pernambuco, Bahia ou Rio, mas o carnaval também é uruguaio.
Aqui, como em outras partes do mundo, boa parte da igreja evangélica olha com reprovação as festividades em torno do carnaval, em crítica, negação ou simplesmente escape em direção aos seguros retiros espirituais.
É fácil perceber a tensão que existe no olhar da igreja evangélica a certas manifestações e celebrações culturais, como o carnaval e o Halloween, por exemplo, onde é possível encontrar referências cristãs (alguns diriam que diluídas ou distorcidas) em suas origens ou na evolução de sua história.
Também, de modo até surpreendente, há outras festas que geram uma rejeição por parte de certos grupos cristãos, seja ao Natal ou a versões da Páscoa. Argumenta-se sobre suas origens pagãs em um caso, ou a sobre a contaminação com elementos estranhos a fé no outro.
Possivelmente haja riscos ao levantar em tão pouco espaço perguntas sobre essas abordagens. Mas os questionamentos, ainda que sem as respostas, poderiam nos ajudar a pensar um pouco mais sobre o tema.
Apresento aqui três possíveis aproximações de cristãos evangélicos a certas manifestações culturais, seguidas de algumas questões para provocar a reflexão.
1.A negação – Seria a atitude de ver em certa expressão cultural somente seus aspectos negativos. Para muitos cristãos, no caso do carnaval esses estariam relacionados com a libertinagem da carne (numa condenação de todos os excessos que ocorrem nesses dias), para outros com as associações com poderes malignos invisíveis, ou ainda com essa autonomia humana rebelde, alegre e independente, que busca desprender-se de qualquer prestação de contas a um Deus criador.
Perguntas: Por que somos rápidos em condenar algumas expressões do pecado e somos omissos em outras? Por outro lado, não seria correto condenar o intento humano de querer ser “livre” buscando a liberdade onde não a encontrará? Seria possível, como em muitos dilemas da vida, condenar o que está mal e afirmar o que está bem? Como escolhemos o que condenamos e o que não? Como faço para discernir o mal do bem em tantas manifestações culturais?
2.A visão utilitarista – Seria a aproximação de alguns grupos que vêem em certas festas uma oportunidade para se envolver em missão, talvez inspirados em Paulo, fazendo-se de tudo para ganhar a todos, entrando de maneira organizada nos blocos de rua, nas celebrações, mas buscando fazê-lo com uma “linguagem cristã”, com a intenção de alcançar e converter os foliões perdidos.
Perguntas: Obviamente não está mal querer cumprir o mandato missionário em todas as oportunidades que encontramos, mas não seria ingênuo achar que somente a mudança da linguagem já seria suficiente? Como nos conectamos com os demais? Somos somente aqueles outros que querem “ser diferentes” sem entender bem o porquê de ser diferentes? Qual a verdadeira “eficácia” de anunciar sem ouvir ao outro, sem servi-lo, sem compreendê-lo? Em que medida uma motivação proselitista utilitária mais atrapalha do que ajuda em meu testemunho?
3.A ressignificação – considerando que certas festas possuem uma ligação direta ou indireta com o calendário cristão, ou que se acercam de alguma maneira a valores que, vistos à parte, são identificados ou possuem pontes de contato com as crenças cristãs, como:
a.A alegria e a celebração da arte, da vida e do corpo que Deus nos deu
b.A clara vitória da vida sobre a morte (nos casos óbvios da Páscoa, mas também na origem da festa do Halloween, ou “All Hallow’s Eve”, a véspera do dia de todos os santos, em que os cristãos recordariam os seus “santos”, ou seja, todas as pessoas queridas crentes que já se foram, a sua fé, o legado que nos deixaram, zombando então do pífio poder da morte e celebrando a vitória da vida)
c.O maior milagre de todos, pelo menos para os cristãos, que é a encarnação do Deus Criador em um frágil ser humano. Não há pinheirinho ou Papai Noel que ofusquem a força dessa mensagem encarnacional de esperança e de vida.
Perguntas: Quais são possíveis caminhos para ressignificação de certas festividades populares, para compreendê-las e celebrá-las de uma nova maneira? Como ensinamos aos nossos filhos a prudência, a sensibilidade e a vivência saudável de certas manifestações de nossas culturas? Como evito o sincretismo e a ingenuidade, ao mesmo tempo em que estimulo artistas, cantores, produtores culturais, cidadãos cristãos metidos no mundo, nas diversas esferas e grupos da nossa sociedade, a cumprir seu mandato cultural e missionário?
Aqui não tenho as respostas. Mas sou agradecido por fazer parte de uma comunidade de discípulos que humildemente segue buscando caminhos e respostas para a vida e missão, na cultura e no mundo onde o Senhor nos enviou.
Aqui, como em outras partes do mundo, boa parte da igreja evangélica olha com reprovação as festividades em torno do carnaval, em crítica, negação ou simplesmente escape em direção aos seguros retiros espirituais.
É fácil perceber a tensão que existe no olhar da igreja evangélica a certas manifestações e celebrações culturais, como o carnaval e o Halloween, por exemplo, onde é possível encontrar referências cristãs (alguns diriam que diluídas ou distorcidas) em suas origens ou na evolução de sua história.
Também, de modo até surpreendente, há outras festas que geram uma rejeição por parte de certos grupos cristãos, seja ao Natal ou a versões da Páscoa. Argumenta-se sobre suas origens pagãs em um caso, ou a sobre a contaminação com elementos estranhos a fé no outro.
Possivelmente haja riscos ao levantar em tão pouco espaço perguntas sobre essas abordagens. Mas os questionamentos, ainda que sem as respostas, poderiam nos ajudar a pensar um pouco mais sobre o tema.
Apresento aqui três possíveis aproximações de cristãos evangélicos a certas manifestações culturais, seguidas de algumas questões para provocar a reflexão.
1.A negação – Seria a atitude de ver em certa expressão cultural somente seus aspectos negativos. Para muitos cristãos, no caso do carnaval esses estariam relacionados com a libertinagem da carne (numa condenação de todos os excessos que ocorrem nesses dias), para outros com as associações com poderes malignos invisíveis, ou ainda com essa autonomia humana rebelde, alegre e independente, que busca desprender-se de qualquer prestação de contas a um Deus criador.
Perguntas: Por que somos rápidos em condenar algumas expressões do pecado e somos omissos em outras? Por outro lado, não seria correto condenar o intento humano de querer ser “livre” buscando a liberdade onde não a encontrará? Seria possível, como em muitos dilemas da vida, condenar o que está mal e afirmar o que está bem? Como escolhemos o que condenamos e o que não? Como faço para discernir o mal do bem em tantas manifestações culturais?
2.A visão utilitarista – Seria a aproximação de alguns grupos que vêem em certas festas uma oportunidade para se envolver em missão, talvez inspirados em Paulo, fazendo-se de tudo para ganhar a todos, entrando de maneira organizada nos blocos de rua, nas celebrações, mas buscando fazê-lo com uma “linguagem cristã”, com a intenção de alcançar e converter os foliões perdidos.
Perguntas: Obviamente não está mal querer cumprir o mandato missionário em todas as oportunidades que encontramos, mas não seria ingênuo achar que somente a mudança da linguagem já seria suficiente? Como nos conectamos com os demais? Somos somente aqueles outros que querem “ser diferentes” sem entender bem o porquê de ser diferentes? Qual a verdadeira “eficácia” de anunciar sem ouvir ao outro, sem servi-lo, sem compreendê-lo? Em que medida uma motivação proselitista utilitária mais atrapalha do que ajuda em meu testemunho?
3.A ressignificação – considerando que certas festas possuem uma ligação direta ou indireta com o calendário cristão, ou que se acercam de alguma maneira a valores que, vistos à parte, são identificados ou possuem pontes de contato com as crenças cristãs, como:
a.A alegria e a celebração da arte, da vida e do corpo que Deus nos deu
b.A clara vitória da vida sobre a morte (nos casos óbvios da Páscoa, mas também na origem da festa do Halloween, ou “All Hallow’s Eve”, a véspera do dia de todos os santos, em que os cristãos recordariam os seus “santos”, ou seja, todas as pessoas queridas crentes que já se foram, a sua fé, o legado que nos deixaram, zombando então do pífio poder da morte e celebrando a vitória da vida)
c.O maior milagre de todos, pelo menos para os cristãos, que é a encarnação do Deus Criador em um frágil ser humano. Não há pinheirinho ou Papai Noel que ofusquem a força dessa mensagem encarnacional de esperança e de vida.
Perguntas: Quais são possíveis caminhos para ressignificação de certas festividades populares, para compreendê-las e celebrá-las de uma nova maneira? Como ensinamos aos nossos filhos a prudência, a sensibilidade e a vivência saudável de certas manifestações de nossas culturas? Como evito o sincretismo e a ingenuidade, ao mesmo tempo em que estimulo artistas, cantores, produtores culturais, cidadãos cristãos metidos no mundo, nas diversas esferas e grupos da nossa sociedade, a cumprir seu mandato cultural e missionário?
Aqui não tenho as respostas. Mas sou agradecido por fazer parte de uma comunidade de discípulos que humildemente segue buscando caminhos e respostas para a vida e missão, na cultura e no mundo onde o Senhor nos enviou.
Recomeçar
Que princípios me guiam quando começo uma nova etapa, projeto ou desafio na vida? Em horas assim eu me identifico com aqueles discípulos que pedem a Jesus, “aumenta em nós a fé” (Luc. 17:5). Ao ver a resposta de Jesus e a sequência de eventos narrada por Lucas, encontro três princípios norteadores:
Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.
2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.
3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.
Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:
Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.
2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.
3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.
Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!
Princípios
1. Fortalecer a fé cultivando um coração agradecido
Lucas descreve a cura dos dez portadores de hanseníase em que somente um deles, o marginalizado samaritano, volta para agradecer. A ele Jesus diz “a tua fé te salvou” (Lc 17.19). Ora, os outros também haviam sido curados, mas a diferença com esse é que houve reconhecimento e gratidão quanto ao que havia passado. Para ele então haverá fé fortalecida e reafirmada para enfrentar o que virá. Gratidão e fé andam de mãos dadas. Quem é capaz de reconhecer tudo o de bom que já passou consegue ver com mais sossego e confiança aquilo que ainda virá.
2. Cuidar e vigiar a minha vida
Em seguida aparece a pergunta sobre a vinda do Reino de Deus. Jesus se contrapõe à arrogância de quem diz que o “o Reino está aqui ou ali” com uma curiosa receita. Ele diz que em verdade o Reino já “está entre vocês”. Assim os prepara para os tempos de aflição que chegarão. Não mais expectativa e especulação sobre o que virá, mas alerta para que cuidem e vigiem o que já está, a sua vida. Ecoa a exortação que apareceu antes, “tomem cuidado” (Lc 17.3), a mesma de Paulo a Timóteo (“cuide de você mesmo e tenha cuidado com o que ensina”, 1 Tm 4:16). Cuidar e vigiar sempre, e mais ainda quando tudo vai bem, quando sou bem-sucedido e em experiências de poder e influência. Cuidado e humildade serão bom acompanhamento para tudo o que está por vir.
3. Perseverar na confiança em um Deus bom e justo
Uma viúva insistente e um mau juiz nos trazem o terceiro princípio (Lc 18.1-8). Essa mulher luta por justiça. Quem pode trazê-la é indiferente e iníquo. Ela não se importa, nem desanima, ao contrário, persevera, consegue que se atenda o seu pleito. A lição? Se um juiz assim promove a justiça, quanto mais não o fará um Deus que é bom e justo. A perseverança muitas vezes é tudo o que nos resta. Sem resposta, sem inclusive sinais de que ela chegará, só nos cabe a obediência simples de seguir no mesmo correto caminho, confiando no Deus de justiça.
Contextos
Também vejo na Palavra três contextos em que somos chamados a cumprir uma tarefa. Eles são a necessidade (Gn. 2.5, “não havia ninguém para cultivar o solo”), a falta de esperança (Ez 37.11, “nossa esperança desvaneceu-se”) e o medo (Jo 20.19). Em cada um desses episódios o elemento comum é o sopro do Senhor, que nos comunica três verdades fundamentais:
Verdades
1. Deus nos dá a vida e a sustenta.
Quando o Espírito do Senhor sopra sobre o homem, lhe dá fôlego de vida, mas não só isso, lhe dá um sentido e um propósito à vida, cultivar e guardar esse jardim onde foi plantado. Não só minha vida, mas as tarefas e os projetos terão novo sentido com o sopro de poder daquele que me criou. A necessidade pode até ser um elemento importante de nosso chamado, mas essencial em verdade será o doce propósito sussurrado por esse sopro.
2. Deus renova todas as coisas
Os ossos sequíssimos são o símbolo inapelável da desesperação. Mas o sopro é a evidência de que a desesperança não tem a palavra final. Em um processo, em etapas, os ossos ganham carne, tendões, pele, e ao final o sopro de vida. Nada está tão seco ou estragado que não possa ser restaurado. Parece que os mais jovens tendem a crer que um erro ou tragédia seja o final da história. Por outro lado parece que muitos anciãos conseguem desenvolver essa capacidade de crer que um equívoco, mesmo que grande, não nos determina. É preciso recuperar a capacidade de confiar em um Deus que renova com o seu sopro todas as coisas.
3. Jesus nos envia na sua paz e no poder do Espírito
Jesus morto e ressuscitado, mas as dúvidas e as perseguições atemorizam os discípulos. Reunidos a portas fechadas, Jesus os visita, e por três vezes lhes diz: “Paz seja com vocês”. Assim os consola antes de soprar sobre eles enviando-os da mesma maneira que o Pai lhe havia enviado (Jo 20.21). O medo será natural, moeda corrente, mas o sopro nos conduzirá em paz, no seu poder, no aprendizado do estilo de Jesus para a vida e a missão.
Três princípios, três contextos, três verdades que fundamentam novos projetos. Que sopre sobre nós o bom vento do Senhor!
24 maio 2011
Onde traçar a linha contra a cultura da morte?
A bit of late night cross processing - Day 354 of Project 365
Upload feito originalmente por purplemattfish
Não sei se curiosa coincidência ou o quê, mas tudo aconteceu no mesmo dia. Primeiro foi aquela faixa que se agarrava dos gradis das sacadas quase francesas daquela esquina central de Montevidéu: “Legalizar o Aborto Já!”.
Não foi por indiferença, creio eu, mas segui o meu caminho. Parei. Dei meia-volta e a inspecionei. Seria uma ONG? A sede de um partido político? Não havia qualquer identificação que sugerisse algo aparentemente institucional. Apreciei então, ainda que desanimado, a coragem de quem quer que seja para manifestar-se assim publicamente sobre o seu, como se diz, “direito de escolha”.
Ao chegar a casa, vejo no noticiário a amarga história sobre uma mãe no Texas que é presa por tentar assassinar o seu filho de quatro meses. Os médicos desconfiam, a tecnologia ajuda, e uma câmara escondida revela que ela havia tentado asfixiar seu rebento. As imagens são exibidas, a notícia comove, com o pico da emoção na seqüência que mostra os enfermeiros resgatando a criança. Um é levado a salvo, a outra é levada pela polícia.
Os dois temas se mesclaram inevitavelmente em minha mente. Onde traçaria a linha para definir que algo é condenável em um caso e no outro não. A pergunta simplista, reconheço, que me martelou foi: “qual é a diferença”? Ou pelo menos para buscar entender por que me emociono em um caso e sou indiferente ou ainda defendo arduamente a causa oposta no outro?
E logo no Texas, vejam só… Foi lá que surgiu o emblemático caso “Roe vs. Wade”, depois levado a Suprema Corte, onde em 1973 foi decidido que, em toscas linhas, o aborto seria permitido até que o feto se tornasse “viável”, ou seja, até que fosse potencialmente capaz de viver fora do útero materno, sem ajuda artificial.
Então me veio a pergunta: teria sobrevivido sem ajuda (“artificial” ou não) aquele bebê de quatro meses? Refiro-me ao bebê já nascido da notícia e não aos inúmeros não nascidos, “viáveis” e “inviáveis” que morrem antes, (des)amparados ou não pela lei. Minha cabeça dá voltas. A quem o Estado deve proteger e por quê? Bebês, nascidos e não nascidos, ou as suas mães? Tanto as que desejam ter, como as que preferem abortar ou ainda aquelas que preferem uma coisa mas são coagidas por outros a fazer a outra (e isso vale tanto para as que abortam como as que não). A quem protejo? Quem merece a vida, a educação, a prevenção ou a punição pelo Estado?
Difícil, reconheço, mas sou da cultura pela vida, e nunca celebro a morte. Aliás, nem a de alguém como Bin Laden, se me permitem trazer este outro espinhoso tema à uma conversa já difícil. Emocionei-me ao ler o artigo de Donna Marsh O’Connor, “Every day is 9/11, every day is pain”. Sua filha Vanessa havia morrido no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em setembro de 2011. Ao ver a notícia da morte do assassino de sua filha, ela foi ao Facebook e escreveu: “Osama Bin Laden está morto. Vanessa também. Nós não celebramos a morte em nossa família”. Logo estava dando entrevistas na TV sobre porque seu sentimento não era o mesmo dos milhares de jovens que saíram às ruas para festejar a “operação”. Tampouco ela quis julgar esses jovens. Lembrou que eles eram muito pequenos à época do atentado e concluiu com sabedoria de mãe: “não devemos julgá-los e sim ensiná-los”.
Donna Marsh O’Connor é a porta-voz do grupo pacifista “September 11th Families for Peaceful Tomorrows”. Ainda que alguns possam criticar a “efetividade” da paz contra o “terrorismo”, é impossível não se perguntar se a “cultura de morte” presente na despedida dos US Marines quando saem à guerra não traria perigosas semelhanças ao “culto à morte” entre jihadistas islâmicos. Se violência, ódio e morte se retroalimentam, me alegro que haja vozes buscando alternativas para entender as causas do terrorismo, para promover educação e a consciência de novas maneiras de atuar, tanto para os indivíduos como para os estados.
Onde traçar a linha contra a cultura da morte? Até onde o Estado deve atuar, decidir, legislar ou intervir? A mesma pergunta vale para “Estados”, no plural, no que se refere à ordem global. Que devemos esperar do(s) Estado(s) ou o que fazer quando não estamos de acordo com suas políticas ou leis? Por agora lhes deixo com as perguntas e logo pretendo voltar a elas como uma desculpa para contar-lhes sobre os livros que venho lendo sobre o tema, e outros que ainda pretendo ler.
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