Cada celebração do nascimento de Jesus nos renova a oportunidade de aprender ou reaprender algo sobre o evento que transformou a história. Pensemos rápido sobre quatro elementos desse acontecimento e que lições nos ensinam:
1. O Senhor move o que quiser e quem quiser para cumprir os seus propósitos. Com um decreto, César Augusto indicou que todos deveriam se registrar em sua própria cidade (Lc 2.1-5). Assim, uma jovem prestes a se tornar mãe e seu noivo se deslocaram até Belém. As multidões, os impérios e os poderosos que nos governam muitas vezes nos fazem sentir pequenos e impotentes. Mas o personagem maior sempre atua de maneira a inclinar-se em favor do pequenino, movendo as peças para que “cedo ou tarde” seus desígnios se cumpram.
Se isso é verdade então a pergunta é se estamos atentos ao que o Senhor já vem fazendo, para que sejamos agentes privilegiados da sua ação no mundo. Busque ao Senhor e discirna onde ele já vem atuando. Se a ação é dele (em paternidade, iniciativa e controle), então o que me resta fazer é somar-me a ela com espírito humilde e agradecido.
2. O caminho do Senhor nem sempre é o mais fácil nem o mais simples. Vejam que o Senhor que move as autoridades máximas de um império aparentemente não foi capaz de reservar um alojamento para esse casal em Belém (Lc 2.6-7). Perguntamos-nos se não seria possível que movesse o coração do dono de uma estalagem ou que incitasse uma família para que fosse hospitaleira com os pais daquele bebê que viria para mudar o rumo do universo. Claro que seria possível, mas não foi esse o roteiro escolhido pelo grande chefe.
Esse bebê, quando grande, também não transformaria pedras para saciar sua fome com pães, nem daria saltos no vazio para ser acariciado por anjos. Também alertaria os desavisados de que ele não teria lugar para repousar sua cabeça. Que sua vida não seria fácil, que segui-lo tampouco implicaria em regalias e garantias. Pelo contrário, que segui-lo demandaria renúncia e levaria cada um a carregar sua própria cruz. Ele se tornou pobre por amor, para que cada um de nós se tornasse rico (2 Co 8.9), ainda que essa riqueza seja de uma natureza distinta à da nossa percepção comum. A vida nesse caminho não é fácil nem simples, mas assim é melhor, porque se trata de uma riqueza muito mais profunda e verdadeira.
3. Ele veio para que todos tivessem vida. A visita dos magos (que não eram três nem reis) foi surpreendente. Vindos do Oriente, possivelmente eram inesperados mágicos e astrólogos de nações consideradas pagãs. Esta visita antecipou quem se beneficiaria com a chegada do Messias. Não só uma família, nem só um povo, nem mesmo qualquer outro grupo de pessoas criado artificialmente por nossas próprias regras e tradições humanas. Se uma vida especial nascia naquele pequenino, essa vida era desde o princípio ofertada a todas as pessoas, de todos os grupos, de todas as nações.
Foi o próprio evangelho de Mateus, considerado como o evangelho escrito aos judeus, que deixa bem claro no seu início (por meio dos visitantes especiais), e no seu final (com o grande mandato para fazer discípulos em todos os povos), que essa vida era e é um oferecimento a toda a humanidade. Se muitos não a abraçam, talvez a culpa seja daqueles que se pensam exclusivos detentores dessa bênção. Por isso devemos ser vasos conscientes de que o que temos foi porque recebemos. Portanto somos bons mordomos que transbordam a todos os demais algo que não chegamos a ter por merecimento e que nem é “direito” exclusivo nosso.
4. Damos porque assim revelamos onde está nosso tesouro. Foi o Pai quem primeiro deu o seu próprio filho para que assim experimentássemos vida, abundante e eterna. O filho deu o seu tempo, as suas palavras, as suas ações, o seu corpo e o seu sangue... tudo também por amor a nós. Então faz sentido que um dos primeiros acontecimentos após o nascimento fosse também o ato de presentear, vindo daqueles senhores do Oriente que lhe trouxeram ouro, incenso e mirra.
Muito se diz, talvez até demasiado, sobre o significado de cada um dos presentes. Mas prestemos atenção por um momento somente naquele ato de dar. É verdade que Deus não precisa de nossos presentes, como se nossas mãos humanas pudessem dar a ele algo que realmente necessitasse (At 17.25). Não é assim que funciona. Na verdade, Deus não precisa de nada que lhe possamos oferecer. Então por que eles o presentearam e por que isso é registrado por Mateus (2.10-11)?
Parece que quando eles dão algo que lhes parece valioso, o que estão dizendo para o recém-nascido é que ele é o bem mais apreciado. O bebê é o tesouro, e não os bens preciosos que ele recebe. Assim é a nossa adoração a Deus, ou pelo menos assim deveria ser. Dou meu tempo, talentos e recursos, não porque Deus ou pessoas ao meu redor deles necessitem, mas porque, ao fazê-lo, eu declaro para Deus, para mim mesmo e para todos ao meu redor onde está meu verdadeiro tesouro.
Nesse Natal, onde está o seu tesouro? Ao longo do próximo ano buscarei aplicar essas pequenas lições em minha própria vida. Meus votos são que você também as torne concretas na sua.
21 dezembro 2012
19 novembro 2012
Quem sabe se abram os olhos
Dois episódios, envolvendo ateus, cristãos e muçulmanos, além de um documento escrito por várias mãos. Com isso encerro a breve reflexão sobre o testemunho cristão no mundo, iniciada aqui antes com dois artigos (Entre a cruz e o papa e Missão rima com diálogo). Essa curta série levanta ideias sobre como viver e comunicar bem o evangelho de Cristo no mundo de hoje.
Episódio 1
Terminada a palestra na Universidade Federal de Viçosa, fui abordado por um ávido e gentil grupo de estudantes interessados em dialogar. Faziam parte de uma agrupação autodesignada “Incrédulos”. O primeiro súbito desafio: “Prove que Deus existe!”. Intuí que o caminho deveria ser outro: “Aprecio que tenham essa disposição para ouvir e conversar. Eu não posso lhes ‘provar’ que Deus exista, do mesmo modo como vocês também não poderiam ‘provar’ que não exista. Assim, o que acham de começamos de maneira diferente? Eu lhes falo sobre como cheguei a crer naquilo em que creio hoje, desde minha perspectiva existencial. Mas além de subjetiva, ela é também algo objetivo, porque se trata de uma perspectiva histórica que se constrói a partir de uma visão e compreensão dos fatos. Mas antes eu gostaria de ouvir sobre o que vocês creem ou não creem, ou ao que aderem, e como foi que chegaram às suas conclusões”.
O resultado foi uma boa e longa conversa. No final, quando nos despedíamos, animei-os a continuar lendo e investigando. Mas não somente aquilo que reforçava o que eles já pensavam – um conselho que eu também busco seguir. Então um deles me disse algo assim: “excelente diálogo; espero que voltemos a nos encontrar no futuro; pode ser que você então tenha mudado algo na sua fé como fruto de nossa interação ou que a gente também tenha revisado a nossa posição, quem sabe?”. Fui embora feliz e esperançoso. Aquele “quem sabe”, para mim, já era promissor.
Episódio 2
Minha esposa e eu estávamos, antes de nossas filhas nascerem, estudando teologia na Inglaterra. Durante um trimestre encontrava-se em nosso meio um acadêmico de uma universidade do Oriente Médio, um muçulmano convicto e estudioso das relações inter-religiosas. Depois de um período no Vaticano, sua universidade o havia enviado ali para outra etapa de estudos e observação em um instituto do ramo protestante do cristianismo. Houve debates públicos interessantes, como um com nosso professor árabe cristão sobre violência e fé. Mas o mais fascinante era o diálogo pessoal, à mesa ou logo após o momento em que cada um se dedicava, a seu modo, às orações matinais.
Perto do final de seu tempo de intercâmbio, esse brilhante e devoto estudioso convidou alguns amigos nossos para acompanhá-lo nessa hora de orações. Esses amigos cristãos não compartilhavam aquela mesma devoção do “scholar”, mas respeitosamente o acompanharam e ouviram, para sua surpresa, sua prece a “Allah”: “Abra os olhos de meus amigos para que eles vejam toda a verdade. E se há algo que eu não esteja vendo bem, abra também meus olhos para que eu entenda toda a verdade”. A intercessão pelos olhos abertos, de um ou de outro, foi uma oração que me surpreendeu com esperança.
Um documento
Há pouco recebi um documento através de uma professora que tive, a brasileira Rosalee Velloso Ewell, quem atualmente desempenha a função de diretora executiva da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial: “O Testemunho Cristão em um Mundo Multi-Religioso”, um texto produzido pela Aliança Evangélica Mundial, o Concílio Mundial de Igrejas e o Vaticano. Me pareceu uma cooperação pouco comum, mas que resultou em um documento relevante para provocar o debate e para resgatar alguns princípios para o diálogo com pessoas de outras crenças. É bem possível (ou mesmo desejável) que não se concorde com tudo o que está escrito aí, mas o fato de que seja possível o diálogo entre diferentes tradições cristãs pode ser um sinal auspicioso do caminho para que com respeito e integridade se possa viver e comunicar melhor o evangelho de Cristo entre aqueles que professam outras religiões ou o ateísmo.
Espero aprender a ouvir, a dialogar, anseio ser coerente e íntegro, na mensagem e na vida. Oro para que sempre meus olhos se abram e “quem sabe” eu consiga revisar em minha atitude e missão o que precise ser mudado ou melhorado. Aprender com a atitude de meus amigos ateus e muçulmanos pode ser um bom começo.
Episódio 1
Terminada a palestra na Universidade Federal de Viçosa, fui abordado por um ávido e gentil grupo de estudantes interessados em dialogar. Faziam parte de uma agrupação autodesignada “Incrédulos”. O primeiro súbito desafio: “Prove que Deus existe!”. Intuí que o caminho deveria ser outro: “Aprecio que tenham essa disposição para ouvir e conversar. Eu não posso lhes ‘provar’ que Deus exista, do mesmo modo como vocês também não poderiam ‘provar’ que não exista. Assim, o que acham de começamos de maneira diferente? Eu lhes falo sobre como cheguei a crer naquilo em que creio hoje, desde minha perspectiva existencial. Mas além de subjetiva, ela é também algo objetivo, porque se trata de uma perspectiva histórica que se constrói a partir de uma visão e compreensão dos fatos. Mas antes eu gostaria de ouvir sobre o que vocês creem ou não creem, ou ao que aderem, e como foi que chegaram às suas conclusões”.
O resultado foi uma boa e longa conversa. No final, quando nos despedíamos, animei-os a continuar lendo e investigando. Mas não somente aquilo que reforçava o que eles já pensavam – um conselho que eu também busco seguir. Então um deles me disse algo assim: “excelente diálogo; espero que voltemos a nos encontrar no futuro; pode ser que você então tenha mudado algo na sua fé como fruto de nossa interação ou que a gente também tenha revisado a nossa posição, quem sabe?”. Fui embora feliz e esperançoso. Aquele “quem sabe”, para mim, já era promissor.
Episódio 2
Minha esposa e eu estávamos, antes de nossas filhas nascerem, estudando teologia na Inglaterra. Durante um trimestre encontrava-se em nosso meio um acadêmico de uma universidade do Oriente Médio, um muçulmano convicto e estudioso das relações inter-religiosas. Depois de um período no Vaticano, sua universidade o havia enviado ali para outra etapa de estudos e observação em um instituto do ramo protestante do cristianismo. Houve debates públicos interessantes, como um com nosso professor árabe cristão sobre violência e fé. Mas o mais fascinante era o diálogo pessoal, à mesa ou logo após o momento em que cada um se dedicava, a seu modo, às orações matinais.
Perto do final de seu tempo de intercâmbio, esse brilhante e devoto estudioso convidou alguns amigos nossos para acompanhá-lo nessa hora de orações. Esses amigos cristãos não compartilhavam aquela mesma devoção do “scholar”, mas respeitosamente o acompanharam e ouviram, para sua surpresa, sua prece a “Allah”: “Abra os olhos de meus amigos para que eles vejam toda a verdade. E se há algo que eu não esteja vendo bem, abra também meus olhos para que eu entenda toda a verdade”. A intercessão pelos olhos abertos, de um ou de outro, foi uma oração que me surpreendeu com esperança.
Um documento
Há pouco recebi um documento através de uma professora que tive, a brasileira Rosalee Velloso Ewell, quem atualmente desempenha a função de diretora executiva da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial: “O Testemunho Cristão em um Mundo Multi-Religioso”, um texto produzido pela Aliança Evangélica Mundial, o Concílio Mundial de Igrejas e o Vaticano. Me pareceu uma cooperação pouco comum, mas que resultou em um documento relevante para provocar o debate e para resgatar alguns princípios para o diálogo com pessoas de outras crenças. É bem possível (ou mesmo desejável) que não se concorde com tudo o que está escrito aí, mas o fato de que seja possível o diálogo entre diferentes tradições cristãs pode ser um sinal auspicioso do caminho para que com respeito e integridade se possa viver e comunicar melhor o evangelho de Cristo entre aqueles que professam outras religiões ou o ateísmo.
Espero aprender a ouvir, a dialogar, anseio ser coerente e íntegro, na mensagem e na vida. Oro para que sempre meus olhos se abram e “quem sabe” eu consiga revisar em minha atitude e missão o que precise ser mudado ou melhorado. Aprender com a atitude de meus amigos ateus e muçulmanos pode ser um bom começo.
16 outubro 2012
Missão rima com diálogo
Terminada a palestra, vejo uma mão levantada no fundo do auditório. Sem saber se a pergunta vinha de um estudante crente, ateu ou agnóstico, ouço ansioso a pergunta. Logo descubro, não sem antes ficar desconcertado ao ouvir: “Você não vai falar sobre a segunda vinda do Senhor Jesus?”
Lancei rápidos olhares ao resto do auditório, buscando rastrear quem mais ali seria do clube dos crentes (aliás, ao qual pertenço) ou quem também estaria ali como eu, meio perdido com a questão. Logo vi um, aparentemente descrente, com uma cara que parecia dizer “como diabos apareceu essa pergunta e o que ela tem a ver com o debate sobre ‘Pluralidade e relativismo’?”. Bem, esse companheiro incrédulo tampouco creria no diabo, mas isso é conversa para outro momento.
Isso aconteceu na universidade pública em La Paz, Bolívia, naquela atividade a que me referi no artigo anterior. Quando tudo terminou, pude conversar pessoalmente com o piedoso estudante da “indagatória”. Ele parecia muito angustiado porque eu não havia pregado sobre a segunda vinda naquela hora e lugar. Sua aparente motivação era seu ardente desejo de que muitos fossem salvos. Quando eu lhe disse que possivelmente muitos não entenderiam a mensagem do evangelho se eu começasse por aí, veio então seu comentário que terminou por desconcertar-me, “é assim mesmo, muitos rejeitarão o evangelho!”.
Recuperado de minha surpresa, lhe disse algo mais ou menos assim: “se estás de fato interessado com a salvação de seus colegas, é melhor que se preocupe com a maneira com que lhes comunica o evangelho de vida em Cristo. Certamente muitos o rejeitarão, mas não devemos nos esconder detrás de uma pobre e imperfeita apresentação do evangelho. Nosso dever é construir pontes, viver e comunicar bem esse evangelho. Com certeza haverá rejeição, mas pelo menos teremos feito a nossa parte e o resto a gente deixa para o Espírito.”
Construir pontes foi o que o apóstolo Paulo fez em muitas ocasiões, mas aqueles que trabalham entre estudantes se maravilham em especial com o que ele fez em Atenas (Atos 17.16-34). Vejam como Paulo lidou com as aparentes barreiras ou obstáculos que encontrou ali: a idolatria, o interesse aparentemente fútil pelas novidades, um santuário meio engraçado no caminho, uma intelectualidade soberba dos atenienses. Em tudo o que poderia ser visto como obstáculos, barreiras, Paulo, ao contrário, viu oportunidades para construir pontes e comunicar o evangelho.
Interessados nas novidades? Conversemos, todos os dias. Idolatria? Que bom que estão em uma busca espiritual. Orgulhosos de seus autores e de suas escolas filosóficas? Também os li e posso comentar a respeito de certos conceitos ou mesmo fazer citações de textos onde acertaram no alvo. Aquele altar por ali? Justo a partir dele lhes explicarei algo bem importante. Ou seja, para Paulo, cada uma das dificuldades era vista como uma oportunidade e um excelente ponto de partida para construir pontes de comunicação.
No final das contas sempre se chega a partes da mensagem em que há desacordos. É natural, algo que se espera em qualquer diálogo honesto. E que nos leva a duas perguntas extras. Primeira: como é que chegamos a esses momentos de confrontação, de que maneira? E a segunda: é possível que essa confrontação seja legitimamente respeitosa?
Quanto à primeira, recordo do livro que li avidamente em minha época de estudante universitário quando eu buscava compartilhar minha fé com meus companheiros. Nessa obra de Dostoiévski, o atormentado personagem de “Memórias do subsolo”, fechado em seu próprio mundo, diz em determinado momento:
“Destruí os meus desejos, apagai os meus ideais, mostrai-me algo melhor, e hei de vos seguir. Direis que talvez não vale a pena mesmo ocupar-se disso; mas, neste caso, posso responder-vos de modo idêntico. Estamos argumentando a sério; mas, se não quiserdes dignar a dirigir-me a vossa atenção, não serei o primeiro a inclinar a cabeça. Tenho o meu subsolo”.1
No texto vemos o personagem em um lampejo de abertura, deixando de estar encerrado em si mesmo, e disposto a considerar “algo melhor” e a “seguir” esse caminho. Mas será que eu estaria disposto a ocupar-me dessa tarefa, a esforçar-me para dialogar com esse que é diametralmente oposto a mim? A chave está na inclinação da cabeça. Se creio que não devo prestar atenção ao outro e àquelas que me parecem bobagens ou enganos em que ele tão piamente acredita, então posso esperar que naturalmente suceda essa ação reflexa de sua parte, um pescoço duro, um ouvido fechado e um coração trancado em seu próprio subsolo.
Custa tanto assim ouvir e interessar-se genuinamente pelo outro? Entendo que muitas vezes haja o desejo para rapidamente chegar aos pontos de desacordo e confrontação. E é possível que uma urgência se faça necessária, por exemplo, quando se trata de cuidar e preservar a vida, em especial do mais vulnerável. Mas não podemos deixar de lado a força do caminhar junto com o outro, o inclinar a cabeça em sua direção, escutar, tolerar, dialogar e nesse processo construir pontes para o “algo melhor” que você acredita ter a oferecer. Ou para revisar algo em sua postura e posição se necessário for.
Aquele estudante em La Paz que cria haver uma só maneira de apresentar o evangelho me fez voltar a pensar no poder das pontes de diálogo para a missão cristã. Voltarei a uns princípios para esse diálogo e sobre se é possível fazê-lo de uma maneira “legitimamente respeitosa” no próximo texto.
Nota:
1. Dostoiévski, Memórias do Subsolo, Ed. Paulicéia, p. 96.
Lancei rápidos olhares ao resto do auditório, buscando rastrear quem mais ali seria do clube dos crentes (aliás, ao qual pertenço) ou quem também estaria ali como eu, meio perdido com a questão. Logo vi um, aparentemente descrente, com uma cara que parecia dizer “como diabos apareceu essa pergunta e o que ela tem a ver com o debate sobre ‘Pluralidade e relativismo’?”. Bem, esse companheiro incrédulo tampouco creria no diabo, mas isso é conversa para outro momento.
Isso aconteceu na universidade pública em La Paz, Bolívia, naquela atividade a que me referi no artigo anterior. Quando tudo terminou, pude conversar pessoalmente com o piedoso estudante da “indagatória”. Ele parecia muito angustiado porque eu não havia pregado sobre a segunda vinda naquela hora e lugar. Sua aparente motivação era seu ardente desejo de que muitos fossem salvos. Quando eu lhe disse que possivelmente muitos não entenderiam a mensagem do evangelho se eu começasse por aí, veio então seu comentário que terminou por desconcertar-me, “é assim mesmo, muitos rejeitarão o evangelho!”.
Recuperado de minha surpresa, lhe disse algo mais ou menos assim: “se estás de fato interessado com a salvação de seus colegas, é melhor que se preocupe com a maneira com que lhes comunica o evangelho de vida em Cristo. Certamente muitos o rejeitarão, mas não devemos nos esconder detrás de uma pobre e imperfeita apresentação do evangelho. Nosso dever é construir pontes, viver e comunicar bem esse evangelho. Com certeza haverá rejeição, mas pelo menos teremos feito a nossa parte e o resto a gente deixa para o Espírito.”
Construir pontes foi o que o apóstolo Paulo fez em muitas ocasiões, mas aqueles que trabalham entre estudantes se maravilham em especial com o que ele fez em Atenas (Atos 17.16-34). Vejam como Paulo lidou com as aparentes barreiras ou obstáculos que encontrou ali: a idolatria, o interesse aparentemente fútil pelas novidades, um santuário meio engraçado no caminho, uma intelectualidade soberba dos atenienses. Em tudo o que poderia ser visto como obstáculos, barreiras, Paulo, ao contrário, viu oportunidades para construir pontes e comunicar o evangelho.
Interessados nas novidades? Conversemos, todos os dias. Idolatria? Que bom que estão em uma busca espiritual. Orgulhosos de seus autores e de suas escolas filosóficas? Também os li e posso comentar a respeito de certos conceitos ou mesmo fazer citações de textos onde acertaram no alvo. Aquele altar por ali? Justo a partir dele lhes explicarei algo bem importante. Ou seja, para Paulo, cada uma das dificuldades era vista como uma oportunidade e um excelente ponto de partida para construir pontes de comunicação.
No final das contas sempre se chega a partes da mensagem em que há desacordos. É natural, algo que se espera em qualquer diálogo honesto. E que nos leva a duas perguntas extras. Primeira: como é que chegamos a esses momentos de confrontação, de que maneira? E a segunda: é possível que essa confrontação seja legitimamente respeitosa?
Quanto à primeira, recordo do livro que li avidamente em minha época de estudante universitário quando eu buscava compartilhar minha fé com meus companheiros. Nessa obra de Dostoiévski, o atormentado personagem de “Memórias do subsolo”, fechado em seu próprio mundo, diz em determinado momento:
“Destruí os meus desejos, apagai os meus ideais, mostrai-me algo melhor, e hei de vos seguir. Direis que talvez não vale a pena mesmo ocupar-se disso; mas, neste caso, posso responder-vos de modo idêntico. Estamos argumentando a sério; mas, se não quiserdes dignar a dirigir-me a vossa atenção, não serei o primeiro a inclinar a cabeça. Tenho o meu subsolo”.1
No texto vemos o personagem em um lampejo de abertura, deixando de estar encerrado em si mesmo, e disposto a considerar “algo melhor” e a “seguir” esse caminho. Mas será que eu estaria disposto a ocupar-me dessa tarefa, a esforçar-me para dialogar com esse que é diametralmente oposto a mim? A chave está na inclinação da cabeça. Se creio que não devo prestar atenção ao outro e àquelas que me parecem bobagens ou enganos em que ele tão piamente acredita, então posso esperar que naturalmente suceda essa ação reflexa de sua parte, um pescoço duro, um ouvido fechado e um coração trancado em seu próprio subsolo.
Custa tanto assim ouvir e interessar-se genuinamente pelo outro? Entendo que muitas vezes haja o desejo para rapidamente chegar aos pontos de desacordo e confrontação. E é possível que uma urgência se faça necessária, por exemplo, quando se trata de cuidar e preservar a vida, em especial do mais vulnerável. Mas não podemos deixar de lado a força do caminhar junto com o outro, o inclinar a cabeça em sua direção, escutar, tolerar, dialogar e nesse processo construir pontes para o “algo melhor” que você acredita ter a oferecer. Ou para revisar algo em sua postura e posição se necessário for.
Aquele estudante em La Paz que cria haver uma só maneira de apresentar o evangelho me fez voltar a pensar no poder das pontes de diálogo para a missão cristã. Voltarei a uns princípios para esse diálogo e sobre se é possível fazê-lo de uma maneira “legitimamente respeitosa” no próximo texto.
Nota:
1. Dostoiévski, Memórias do Subsolo, Ed. Paulicéia, p. 96.
03 outubro 2012
Entre a cruz e o Papa
Escrevo da Bolívia, onde participo das celebrações dos 30 anos da “Comunidad Cristiana Universitária” (CCU), movimento irmão da ABU (Aliança Bíblica Universitária) no Brasil. Três décadas buscando viver e levar a mensagem do evangelho de Cristo no mundo estudantil boliviano. O Brasil se alegra por fazer parte dessa história, já que um pioneiro de CCU conheceu ao Senhor através do movimento estudantil em Minas Gerais.
Entre as várias atividades por aqui, um desafio especial. Falar na universidade em La Paz sobre o tema: “Pluralidade e Relativismo”. Em tempos de islamofobia e islamofanatismo, entre outras fobias e fanatismos que padecemos no mundo, a tarefa fica mais difícil. Cresce a opinião em diversos setores que a causa da violência, ou uma de suas principais causas, seja a religião.
Os argumentos utilizados passam pela percepção de que as religiões, em especial as monoteístas, com suas afirmações exclusivistas, ou são cúmplices com a violência ou diretamente a incitam porque provocam um abismo de confrontação entre “nós” (os que creem no único Deus verdadeiro) e os “outros”, os infiéis, os renegados.
Seria o monoteísmo o pai dessa criança, a violência? Seria a fé cristã parte dessa paternidade maldita? Pareceria que sim, vendo os maus exemplos facilmente encontrados hoje no mundo, mas por outro lado o politeísmo ou o ateísmo, entre outros ismos, também podem gerar divisão, exclusão e violência, como é possível constatar na história.
Como cristão, eu diria que parte do que devo fazer é um “mea culpa”, revisando a atitude com que minha fé ocupa o espaço público, em especial no diálogo com outras crenças e ideologias. A tarefa pode começar dentro de casa, reconsiderando como interagimos dentro de nossas próprias tradições cristãs.
Recordo um episódio recente da história uruguaia, como um exemplo que me parece emblemático. O episódio tem 30 metros de altura, toneladas de ferro e pode ser visto em um lugar público, bastante visível e central em Montevidéu. Trata-se da cruz erguida para a missa celebrada pelo Papa João Paulo II em 1987 e posteriormente instalada ali permanentemente como um marco daquela visita.
Ela se instalou não sem um longo debate público nos jornais e no Parlamento1. Depois houve outro debate, dessa vez em 2005, quando evangélicos pediram a remoção de uma estátua do Papa João Paulo II, instalada mais tarde aos pés da cruz, após a morte do Papa. Em carta enviada por setores da igreja evangélica uruguaia ao presidente da República, a crítica veemente à estátua buscou estar baseada na característica laica do estado uruguaio:
"Estamos em um Estado laico, a partir do qual não podemos deixar de manifestar nossa discordância com o ocorrido [a instalação da estátua], considerando-a uma violação do espírito de respeito no marco da ‘laicidade’ em que queremos viver todos os uruguaios e uruguaias. Os símbolos religiosos, fora das instalações de suas próprias igrejas ou instituições e em locais públicos, atentam contra a liberdade de consciência e a ‘laicidade’ do Estado, minando de maneira sutil mas profunda a convivência social ".2
Deixo a palavra “laicidade” seguindo o espanhol “laicidad”, porque traduzi-la como “secularismo” ou simplesmente como “separação entre Igreja e Estado” não comunicariam a força com que ela é utilizada no Uruguai.
É interessante ver que a referida carta busca logo em seguida defender a cruz ali instalada como uma expressão representativa de todo o cristianismo. Isso nos deixa numa situação difícil. Não só a estátua, mas também a cruz seria um alvo legítimo da mesma lógica. A outra possibilidade seria a de ler o documento com a suspeita de que a motivação básica foi a de um conflito religioso, em que cada tradição da fé cristã busca ocupar os espaços públicos, e nessa perspectiva o argumento da defesa da “laicidade” carece de credibilidade.
Se cristãos evangélicos e católicos não se entendem, quem poderia nos ajudar? Talvez um senador agnóstico, que mais tarde seria presidente do Uruguai. Suas palavras, que aparecem nos registros do debate que teve lugar no Parlamento em 1987 sobre a permanência da cruz, foram avaliadas assim:
"Foi fundamental para o debate o discurso de um senador [...] fundamentando a necessidade de viver uma nova forma de ‘laicidade’, não de negação e de combate, mas de respeito às ‘coisas do espírito’ que deveriam voltar a ter uma importância primordial na vida das pessoas.”3
Ser mais tolerantes e respeitosos quanto às expressões públicas de espiritualidade, pode ser uma boa lição que se aprende. No Uruguai precisou vir de um “não religioso”. Seria então um argumento mais para defender que todas as religiões deveriam deixar de existir? Creio que não. A violência, inclusive a verbal, essa é que deve acabar, quer a encontremos no diálogo entre religiosos e não religiosos, quer ela apareça dentro do próprio arraial de fiéis.
Já tomei uma decisão sobre como abordarei o tema na palestra aqui na Bolívia. Não advogarei menos fé no mundo como antídoto para a violência e sim mais fé. Fé que convida ao diálogo, à tolerância e à missão com um profundo sentido de respeito pelo outro. Sim, acredito que tolerância rima com evangelismo respeitoso, mas não tenho mais espaço para explicar isso agora. Então faça o seguinte, peço-lhe o favor. Seja tolerante comigo e nos vemos no próximo artigo.
Notas:
1. Episódio narrado pelo sociólogo Nestor da Costa, em um interessante livro: “Religión y Sociedad en el Uruguay del siglo XXI – un estudio de la religiosidad en Montevideo”, Da Costa, Néstor, CLAEH, CUM, 2003, 200 p.
2. Bolioli, Oscar e Ihle, Armin, Carta enviada pela FIEU ao Sr. Presidente da República, Dr. Tabaré Vázquez, em 25 de abril de 2005.
3. Em Da Costa, Id., p. 73.
Entre as várias atividades por aqui, um desafio especial. Falar na universidade em La Paz sobre o tema: “Pluralidade e Relativismo”. Em tempos de islamofobia e islamofanatismo, entre outras fobias e fanatismos que padecemos no mundo, a tarefa fica mais difícil. Cresce a opinião em diversos setores que a causa da violência, ou uma de suas principais causas, seja a religião.
Os argumentos utilizados passam pela percepção de que as religiões, em especial as monoteístas, com suas afirmações exclusivistas, ou são cúmplices com a violência ou diretamente a incitam porque provocam um abismo de confrontação entre “nós” (os que creem no único Deus verdadeiro) e os “outros”, os infiéis, os renegados.
Seria o monoteísmo o pai dessa criança, a violência? Seria a fé cristã parte dessa paternidade maldita? Pareceria que sim, vendo os maus exemplos facilmente encontrados hoje no mundo, mas por outro lado o politeísmo ou o ateísmo, entre outros ismos, também podem gerar divisão, exclusão e violência, como é possível constatar na história.
Como cristão, eu diria que parte do que devo fazer é um “mea culpa”, revisando a atitude com que minha fé ocupa o espaço público, em especial no diálogo com outras crenças e ideologias. A tarefa pode começar dentro de casa, reconsiderando como interagimos dentro de nossas próprias tradições cristãs.
Recordo um episódio recente da história uruguaia, como um exemplo que me parece emblemático. O episódio tem 30 metros de altura, toneladas de ferro e pode ser visto em um lugar público, bastante visível e central em Montevidéu. Trata-se da cruz erguida para a missa celebrada pelo Papa João Paulo II em 1987 e posteriormente instalada ali permanentemente como um marco daquela visita.
Ela se instalou não sem um longo debate público nos jornais e no Parlamento1. Depois houve outro debate, dessa vez em 2005, quando evangélicos pediram a remoção de uma estátua do Papa João Paulo II, instalada mais tarde aos pés da cruz, após a morte do Papa. Em carta enviada por setores da igreja evangélica uruguaia ao presidente da República, a crítica veemente à estátua buscou estar baseada na característica laica do estado uruguaio:
"Estamos em um Estado laico, a partir do qual não podemos deixar de manifestar nossa discordância com o ocorrido [a instalação da estátua], considerando-a uma violação do espírito de respeito no marco da ‘laicidade’ em que queremos viver todos os uruguaios e uruguaias. Os símbolos religiosos, fora das instalações de suas próprias igrejas ou instituições e em locais públicos, atentam contra a liberdade de consciência e a ‘laicidade’ do Estado, minando de maneira sutil mas profunda a convivência social ".2
Deixo a palavra “laicidade” seguindo o espanhol “laicidad”, porque traduzi-la como “secularismo” ou simplesmente como “separação entre Igreja e Estado” não comunicariam a força com que ela é utilizada no Uruguai.
É interessante ver que a referida carta busca logo em seguida defender a cruz ali instalada como uma expressão representativa de todo o cristianismo. Isso nos deixa numa situação difícil. Não só a estátua, mas também a cruz seria um alvo legítimo da mesma lógica. A outra possibilidade seria a de ler o documento com a suspeita de que a motivação básica foi a de um conflito religioso, em que cada tradição da fé cristã busca ocupar os espaços públicos, e nessa perspectiva o argumento da defesa da “laicidade” carece de credibilidade.
Se cristãos evangélicos e católicos não se entendem, quem poderia nos ajudar? Talvez um senador agnóstico, que mais tarde seria presidente do Uruguai. Suas palavras, que aparecem nos registros do debate que teve lugar no Parlamento em 1987 sobre a permanência da cruz, foram avaliadas assim:
"Foi fundamental para o debate o discurso de um senador [...] fundamentando a necessidade de viver uma nova forma de ‘laicidade’, não de negação e de combate, mas de respeito às ‘coisas do espírito’ que deveriam voltar a ter uma importância primordial na vida das pessoas.”3
Ser mais tolerantes e respeitosos quanto às expressões públicas de espiritualidade, pode ser uma boa lição que se aprende. No Uruguai precisou vir de um “não religioso”. Seria então um argumento mais para defender que todas as religiões deveriam deixar de existir? Creio que não. A violência, inclusive a verbal, essa é que deve acabar, quer a encontremos no diálogo entre religiosos e não religiosos, quer ela apareça dentro do próprio arraial de fiéis.
Já tomei uma decisão sobre como abordarei o tema na palestra aqui na Bolívia. Não advogarei menos fé no mundo como antídoto para a violência e sim mais fé. Fé que convida ao diálogo, à tolerância e à missão com um profundo sentido de respeito pelo outro. Sim, acredito que tolerância rima com evangelismo respeitoso, mas não tenho mais espaço para explicar isso agora. Então faça o seguinte, peço-lhe o favor. Seja tolerante comigo e nos vemos no próximo artigo.
Notas:
1. Episódio narrado pelo sociólogo Nestor da Costa, em um interessante livro: “Religión y Sociedad en el Uruguay del siglo XXI – un estudio de la religiosidad en Montevideo”, Da Costa, Néstor, CLAEH, CUM, 2003, 200 p.
2. Bolioli, Oscar e Ihle, Armin, Carta enviada pela FIEU ao Sr. Presidente da República, Dr. Tabaré Vázquez, em 25 de abril de 2005.
3. Em Da Costa, Id., p. 73.
16 agosto 2012
Como incidir na sociedade
Fui motivado por uma demanda dos estudantes universitários uruguaios, desejosos de entender como sua fé delineia a maneira como incidimos no espaço público. Entrei então no espinhoso desafio de buscar entender como incidimos na sociedade, os possíveis caminhos, mas também as penosas dificuldades. Compartilho aqui algumas ideias iniciais, dentro dos limites do espaço e escopo de um breve artigo.
Parece que muitas vezes imaginamos que as ideias mudam o mundo. Outras vezes pensamos que os atores principais das mudanças são os indivíduos, que, no exercício de sua autonomia e razão, em especial se são gênios carismáticos, produzirão grande impacto na sociedade. Esse tipo de idealismo e individualismo algumas vezes aparece na roupagem de um certo tipo de pietismo cristão expressado no conceito de que ao “mudar as mentes e os corações das pessoas” teremos uma nova nação e sociedade. Converter o indivíduo seria então suficiente, pois tudo o mais viria como consequência.
Confesso que minha própria ação missionária por toda a minha vida tenha sido nutrida desse tipo de expectativa. Ainda admiro líderes cristãos como os irmãos Wesley e também Wilberforce, que com suas ações missionárias foram agentes de profundas mudanças em seu tempo. Vejam o caso de Wiliam Wilberforce, que somente depois de 42 anos de lutas no parlamento britânico viu seu projeto de lei que abolia a escravidão ser aprovado.
Mas como se dão essas mudanças? E seria esse o caso de um herói que agiu sozinho? Não, pois houve uma rede de homens de negócios, das igrejas, das artes e da política que se juntaram com o propósito explícito de promover reformas sociais. Esse grupo, conhecido mais tarde como “Círculo de Clapham” (“Clapham Sect” ou ainda “Clapham Saints”) foi muito influente na Inglaterra do início do século XIX.
O exemplo do grupo de Clapham reforça a ideia de alguns sociólogos(1) que defendem a tese de que não é pela força de uma ideia ou pela simples conversão de corações e mentes que chegaremos a ver mudanças nas estruturas de uma cultura e sociedade. Que na verdade essas mudanças são mais complexas, difíceis ou impossíveis de controlar e prever, mas que quando ocorrem frequentemente estão associadas a elites educadas, redes e instituições que se tornam centros de poder e influência.
Reconheço que tenho dificuldades com essa ideia, a de que as principais mudanças se dão normalmente de cima para baixo, ou do centro para fora. Penso em Jesus e seus discípulos, na periferia do mundo da época; também nas mulheres escravas que foram líderes de muitas daquelas primeiras comunidades. Mas provocado por algumas leituras, também presto atenção agora no argumento de que Paulo e a maioria dos pais da Igreja eram uma elite educada e altamente qualificada, que a fé se expandiu até atingir os centros de poder e que, desses centros de prestígio e influência, muitas vezes exercendo o poder de maneira ambígua, a fé se espalhou e se consolidou em diversas partes do mundo.
Isso me leva a outro ponto relacionado ao tema da incidência na sociedade. O que fazer com a aspiração de alguns por uma “nação cristã”? Seria possível ou mesmo desejável? Sem entrar no mérito da discussão se sequer já tivemos alguma “nação cristã” na história, sugiro que muitas vezes esse caminho está talhado pela ambição de que certos valores ou princípios sejam impostos pela coerção, imposição ou pela lei. É perigosa a ideia de que se pode mudar o comportamento das pessoas pela força de uma política de estado. Parece que muitos cristãos, seja à direita ou à esquerda, creem que a principal maneira de incidir na sociedade se dá através da mobilização política, do referendo, do voto ou da lei.
Ainda que leis ou políticas públicas mais justas sejam desejáveis, o ideal seria a ação de cristãos que defendam em todas as áreas de ação o bem comum de todos, em especial dos menos favorecidos e sem voz, e não simplesmente a defesa dos “seus direitos como cristãos”. Liberdade religiosa ou de expressão é um bem para todos; a defesa da vida digna também.
Mas como entrar nesse debate a partir de uma perspectiva da fé? Se adequadamente excluo a coerção e os interesses sectários, então surge o espaço para a investigação (não a arrogância de achar que já se tem a resposta para todos os problemas), o debate respeitoso (não o ataque com ânsias de destruir o outro), o diálogo (não a tergiversação a respeito do que crê o outro), a persuasão (com humildade e responsabilidade compartilhando o que se crê), levando a ações baseadas não só em valores abstratos, mas em uma presença cristã humilde, fiel e atuante nas diversas esferas da sociedade.
As cosmovisões e as matrizes de cada cultura, ainda que dinâmicas e sempre em mudança, não se transformam da noite para o dia, nem qualquer grupo deve acreditar ingenuamente que tenha em suas mãos as chaves para conduzir essas mudanças. Evangelismo, ações políticas, mobilizações sociais, todo tipo de produção cultural em várias esferas da sociedade, serão por si só positivos, mas não necessariamente ou separadamente a panaceia para desafios enfrentados ou os caminhos certos para as mudanças esperadas.
As ações mais significativas sempre serão as menos interessadas no poder e mais interessadas nos beneficiários de um almejado bem comum, menos enfocadas na dominação de uma agenda ou de “seus direitos” e mais dirigidas aos “direitos de todos”, em especial dos mais excluídos e à margem. No final das contas, muda-se uma sociedade (se é que chegamos a ver o final de certos processos) menos por estar interessado nessas mudanças como um fim em si mesmo do que por estar sacrificialmente comprometido com o serviço, a doação e preservação da vida.
Nota:
(1) Como o excelente e, às vezes, polêmico livro de James Davison Hunter, “To Change the World: The Irony, Tragedy, and Possibility of Christianity in the Late Modern World”, Oxford University Press, 2010.
Parece que muitas vezes imaginamos que as ideias mudam o mundo. Outras vezes pensamos que os atores principais das mudanças são os indivíduos, que, no exercício de sua autonomia e razão, em especial se são gênios carismáticos, produzirão grande impacto na sociedade. Esse tipo de idealismo e individualismo algumas vezes aparece na roupagem de um certo tipo de pietismo cristão expressado no conceito de que ao “mudar as mentes e os corações das pessoas” teremos uma nova nação e sociedade. Converter o indivíduo seria então suficiente, pois tudo o mais viria como consequência.
Confesso que minha própria ação missionária por toda a minha vida tenha sido nutrida desse tipo de expectativa. Ainda admiro líderes cristãos como os irmãos Wesley e também Wilberforce, que com suas ações missionárias foram agentes de profundas mudanças em seu tempo. Vejam o caso de Wiliam Wilberforce, que somente depois de 42 anos de lutas no parlamento britânico viu seu projeto de lei que abolia a escravidão ser aprovado.
Mas como se dão essas mudanças? E seria esse o caso de um herói que agiu sozinho? Não, pois houve uma rede de homens de negócios, das igrejas, das artes e da política que se juntaram com o propósito explícito de promover reformas sociais. Esse grupo, conhecido mais tarde como “Círculo de Clapham” (“Clapham Sect” ou ainda “Clapham Saints”) foi muito influente na Inglaterra do início do século XIX.
O exemplo do grupo de Clapham reforça a ideia de alguns sociólogos(1) que defendem a tese de que não é pela força de uma ideia ou pela simples conversão de corações e mentes que chegaremos a ver mudanças nas estruturas de uma cultura e sociedade. Que na verdade essas mudanças são mais complexas, difíceis ou impossíveis de controlar e prever, mas que quando ocorrem frequentemente estão associadas a elites educadas, redes e instituições que se tornam centros de poder e influência.
Reconheço que tenho dificuldades com essa ideia, a de que as principais mudanças se dão normalmente de cima para baixo, ou do centro para fora. Penso em Jesus e seus discípulos, na periferia do mundo da época; também nas mulheres escravas que foram líderes de muitas daquelas primeiras comunidades. Mas provocado por algumas leituras, também presto atenção agora no argumento de que Paulo e a maioria dos pais da Igreja eram uma elite educada e altamente qualificada, que a fé se expandiu até atingir os centros de poder e que, desses centros de prestígio e influência, muitas vezes exercendo o poder de maneira ambígua, a fé se espalhou e se consolidou em diversas partes do mundo.
Isso me leva a outro ponto relacionado ao tema da incidência na sociedade. O que fazer com a aspiração de alguns por uma “nação cristã”? Seria possível ou mesmo desejável? Sem entrar no mérito da discussão se sequer já tivemos alguma “nação cristã” na história, sugiro que muitas vezes esse caminho está talhado pela ambição de que certos valores ou princípios sejam impostos pela coerção, imposição ou pela lei. É perigosa a ideia de que se pode mudar o comportamento das pessoas pela força de uma política de estado. Parece que muitos cristãos, seja à direita ou à esquerda, creem que a principal maneira de incidir na sociedade se dá através da mobilização política, do referendo, do voto ou da lei.
Ainda que leis ou políticas públicas mais justas sejam desejáveis, o ideal seria a ação de cristãos que defendam em todas as áreas de ação o bem comum de todos, em especial dos menos favorecidos e sem voz, e não simplesmente a defesa dos “seus direitos como cristãos”. Liberdade religiosa ou de expressão é um bem para todos; a defesa da vida digna também.
Mas como entrar nesse debate a partir de uma perspectiva da fé? Se adequadamente excluo a coerção e os interesses sectários, então surge o espaço para a investigação (não a arrogância de achar que já se tem a resposta para todos os problemas), o debate respeitoso (não o ataque com ânsias de destruir o outro), o diálogo (não a tergiversação a respeito do que crê o outro), a persuasão (com humildade e responsabilidade compartilhando o que se crê), levando a ações baseadas não só em valores abstratos, mas em uma presença cristã humilde, fiel e atuante nas diversas esferas da sociedade.
As cosmovisões e as matrizes de cada cultura, ainda que dinâmicas e sempre em mudança, não se transformam da noite para o dia, nem qualquer grupo deve acreditar ingenuamente que tenha em suas mãos as chaves para conduzir essas mudanças. Evangelismo, ações políticas, mobilizações sociais, todo tipo de produção cultural em várias esferas da sociedade, serão por si só positivos, mas não necessariamente ou separadamente a panaceia para desafios enfrentados ou os caminhos certos para as mudanças esperadas.
As ações mais significativas sempre serão as menos interessadas no poder e mais interessadas nos beneficiários de um almejado bem comum, menos enfocadas na dominação de uma agenda ou de “seus direitos” e mais dirigidas aos “direitos de todos”, em especial dos mais excluídos e à margem. No final das contas, muda-se uma sociedade (se é que chegamos a ver o final de certos processos) menos por estar interessado nessas mudanças como um fim em si mesmo do que por estar sacrificialmente comprometido com o serviço, a doação e preservação da vida.
Nota:
(1) Como o excelente e, às vezes, polêmico livro de James Davison Hunter, “To Change the World: The Irony, Tragedy, and Possibility of Christianity in the Late Modern World”, Oxford University Press, 2010.
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