03 outubro 2012

Entre a cruz e o Papa


En Tres Cruces
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Escrevo da Bolívia, onde participo das celebrações dos 30 anos da “Comunidad Cristiana Universitária” (CCU), movimento irmão da ABU (Aliança Bíblica Universitária) no Brasil. Três décadas buscando viver e levar a mensagem do evangelho de Cristo no mundo estudantil boliviano. O Brasil se alegra por fazer parte dessa história, já que um pioneiro de CCU conheceu ao Senhor através do movimento estudantil em Minas Gerais.

Entre as várias atividades por aqui, um desafio especial. Falar na universidade em La Paz sobre o tema: “Pluralidade e Relativismo”. Em tempos de islamofobia e islamofanatismo, entre outras fobias e fanatismos que padecemos no mundo, a tarefa fica mais difícil. Cresce a opinião em diversos setores que a causa da violência, ou uma de suas principais causas, seja a religião.

Os argumentos utilizados passam pela percepção de que as religiões, em especial as monoteístas, com suas afirmações exclusivistas, ou são cúmplices com a violência ou diretamente a incitam porque provocam um abismo de confrontação entre “nós” (os que creem no único Deus verdadeiro) e os “outros”, os infiéis, os renegados.

Seria o monoteísmo o pai dessa criança, a violência? Seria a fé cristã parte dessa paternidade maldita? Pareceria que sim, vendo os maus exemplos facilmente encontrados hoje no mundo, mas por outro lado o politeísmo ou o ateísmo, entre outros ismos, também podem gerar divisão, exclusão e violência, como é possível constatar na história.

Como cristão, eu diria que parte do que devo fazer é um “mea culpa”, revisando a atitude com que minha fé ocupa o espaço público, em especial no diálogo com outras crenças e ideologias. A tarefa pode começar dentro de casa, reconsiderando como interagimos dentro de nossas próprias tradições cristãs.

Recordo um episódio recente da história uruguaia, como um exemplo que me parece emblemático. O episódio tem 30 metros de altura, toneladas de ferro e pode ser visto em um lugar público, bastante visível e central em Montevidéu. Trata-se da cruz erguida para a missa celebrada pelo Papa João Paulo II em 1987 e posteriormente instalada ali permanentemente como um marco daquela visita.

Ela se instalou não sem um longo debate público nos jornais e no Parlamento1. Depois houve outro debate, dessa vez em 2005, quando evangélicos pediram a remoção de uma estátua do Papa João Paulo II, instalada mais tarde aos pés da cruz, após a morte do Papa. Em carta enviada por setores da igreja evangélica uruguaia ao presidente da República, a crítica veemente à estátua buscou estar baseada na característica laica do estado uruguaio:

"Estamos em um Estado laico, a partir do qual não podemos deixar de manifestar nossa discordância com o ocorrido [a instalação da estátua], considerando-a uma violação do espírito de respeito no marco da ‘laicidade’ em que queremos viver todos os uruguaios e uruguaias. Os símbolos religiosos, fora das instalações de suas próprias igrejas ou instituições e em locais públicos, atentam contra a liberdade de consciência e a ‘laicidade’ do Estado, minando de maneira sutil mas profunda a convivência social ".2

Deixo a palavra “laicidade” seguindo o espanhol “laicidad”, porque traduzi-la como “secularismo” ou simplesmente como “separação entre Igreja e Estado” não comunicariam a força com que ela é utilizada no Uruguai.

É interessante ver que a referida carta busca logo em seguida defender a cruz ali instalada como uma expressão representativa de todo o cristianismo. Isso nos deixa numa situação difícil. Não só a estátua, mas também a cruz seria um alvo legítimo da mesma lógica. A outra possibilidade seria a de ler o documento com a suspeita de que a motivação básica foi a de um conflito religioso, em que cada tradição da fé cristã busca ocupar os espaços públicos, e nessa perspectiva o argumento da defesa da “laicidade” carece de credibilidade.

Se cristãos evangélicos e católicos não se entendem, quem poderia nos ajudar? Talvez um senador agnóstico, que mais tarde seria presidente do Uruguai. Suas palavras, que aparecem nos registros do debate que teve lugar no Parlamento em 1987 sobre a permanência da cruz, foram avaliadas assim:

"Foi fundamental para o debate o discurso de um senador [...] fundamentando a necessidade de viver uma nova forma de ‘laicidade’, não de negação e de combate, mas de respeito às ‘coisas do espírito’ que deveriam voltar a ter uma importância primordial na vida das pessoas.”3

Ser mais tolerantes e respeitosos quanto às expressões públicas de espiritualidade, pode ser uma boa lição que se aprende. No Uruguai precisou vir de um “não religioso”. Seria então um argumento mais para defender que todas as religiões deveriam deixar de existir? Creio que não. A violência, inclusive a verbal, essa é que deve acabar, quer a encontremos no diálogo entre religiosos e não religiosos, quer ela apareça dentro do próprio arraial de fiéis.

Já tomei uma decisão sobre como abordarei o tema na palestra aqui na Bolívia. Não advogarei menos fé no mundo como antídoto para a violência e sim mais fé. Fé que convida ao diálogo, à tolerância e à missão com um profundo sentido de respeito pelo outro. Sim, acredito que tolerância rima com evangelismo respeitoso, mas não tenho mais espaço para explicar isso agora. Então faça o seguinte, peço-lhe o favor. Seja tolerante comigo e nos vemos no próximo artigo.
Notas:
1. Episódio narrado pelo sociólogo Nestor da Costa, em um interessante livro: “Religión y Sociedad en el Uruguay del siglo XXI – un estudio de la religiosidad en Montevideo”, Da Costa, Néstor, CLAEH, CUM, 2003, 200 p.

2. Bolioli, Oscar e Ihle, Armin, Carta enviada pela FIEU ao Sr. Presidente da República, Dr. Tabaré Vázquez, em 25 de abril de 2005.

3. Em Da Costa, Id., p. 73.

16 agosto 2012

Como incidir na sociedade


El megáfono
Upload feito originalmente por (Lolita) • 8
Fui motivado por uma demanda dos estudantes universitários uruguaios, desejosos de entender como sua fé delineia a maneira como incidimos no espaço público. Entrei então no espinhoso desafio de buscar entender como incidimos na sociedade, os possíveis caminhos, mas também as penosas dificuldades. Compartilho aqui algumas ideias iniciais, dentro dos limites do espaço e escopo de um breve artigo.

Parece que muitas vezes imaginamos que as ideias mudam o mundo. Outras vezes pensamos que os atores principais das mudanças são os indivíduos, que, no exercício de sua autonomia e razão, em especial se são gênios carismáticos, produzirão grande impacto na sociedade. Esse tipo de idealismo e individualismo algumas vezes aparece na roupagem de um certo tipo de pietismo cristão expressado no conceito de que ao “mudar as mentes e os corações das pessoas” teremos uma nova nação e sociedade. Converter o indivíduo seria então suficiente, pois tudo o mais viria como consequência.

Confesso que minha própria ação missionária por toda a minha vida tenha sido nutrida desse tipo de expectativa. Ainda admiro líderes cristãos como os irmãos Wesley e também Wilberforce, que com suas ações missionárias foram agentes de profundas mudanças em seu tempo. Vejam o caso de Wiliam Wilberforce, que somente depois de 42 anos de lutas no parlamento britânico viu seu projeto de lei que abolia a escravidão ser aprovado.

Mas como se dão essas mudanças? E seria esse o caso de um herói que agiu sozinho? Não, pois houve uma rede de homens de negócios, das igrejas, das artes e da política que se juntaram com o propósito explícito de promover reformas sociais. Esse grupo, conhecido mais tarde como “Círculo de Clapham” (“Clapham Sect” ou ainda “Clapham Saints”) foi muito influente na Inglaterra do início do século XIX.

O exemplo do grupo de Clapham reforça a ideia de alguns sociólogos(1) que defendem a tese de que não é pela força de uma ideia ou pela simples conversão de corações e mentes que chegaremos a ver mudanças nas estruturas de uma cultura e sociedade. Que na verdade essas mudanças são mais complexas, difíceis ou impossíveis de controlar e prever, mas que quando ocorrem frequentemente estão associadas a elites educadas, redes e instituições que se tornam centros de poder e influência.

Reconheço que tenho dificuldades com essa ideia, a de que as principais mudanças se dão normalmente de cima para baixo, ou do centro para fora. Penso em Jesus e seus discípulos, na periferia do mundo da época; também nas mulheres escravas que foram líderes de muitas daquelas primeiras comunidades. Mas provocado por algumas leituras, também presto atenção agora no argumento de que Paulo e a maioria dos pais da Igreja eram uma elite educada e altamente qualificada, que a fé se expandiu até atingir os centros de poder e que, desses centros de prestígio e influência, muitas vezes exercendo o poder de maneira ambígua, a fé se espalhou e se consolidou em diversas partes do mundo.

Isso me leva a outro ponto relacionado ao tema da incidência na sociedade. O que fazer com a aspiração de alguns por uma “nação cristã”? Seria possível ou mesmo desejável? Sem entrar no mérito da discussão se sequer já tivemos alguma “nação cristã” na história, sugiro que muitas vezes esse caminho está talhado pela ambição de que certos valores ou princípios sejam impostos pela coerção, imposição ou pela lei. É perigosa a ideia de que se pode mudar o comportamento das pessoas pela força de uma política de estado. Parece que muitos cristãos, seja à direita ou à esquerda, creem que a principal maneira de incidir na sociedade se dá através da mobilização política, do referendo, do voto ou da lei.

Ainda que leis ou políticas públicas mais justas sejam desejáveis, o ideal seria a ação de cristãos que defendam em todas as áreas de ação o bem comum de todos, em especial dos menos favorecidos e sem voz, e não simplesmente a defesa dos “seus direitos como cristãos”. Liberdade religiosa ou de expressão é um bem para todos; a defesa da vida digna também.

Mas como entrar nesse debate a partir de uma perspectiva da fé? Se adequadamente excluo a coerção e os interesses sectários, então surge o espaço para a investigação (não a arrogância de achar que já se tem a resposta para todos os problemas), o debate respeitoso (não o ataque com ânsias de destruir o outro), o diálogo (não a tergiversação a respeito do que crê o outro), a persuasão (com humildade e responsabilidade compartilhando o que se crê), levando a ações baseadas não só em valores abstratos, mas em uma presença cristã humilde, fiel e atuante nas diversas esferas da sociedade.

As cosmovisões e as matrizes de cada cultura, ainda que dinâmicas e sempre em mudança, não se transformam da noite para o dia, nem qualquer grupo deve acreditar ingenuamente que tenha em suas mãos as chaves para conduzir essas mudanças. Evangelismo, ações políticas, mobilizações sociais, todo tipo de produção cultural em várias esferas da sociedade, serão por si só positivos, mas não necessariamente ou separadamente a panaceia para desafios enfrentados ou os caminhos certos para as mudanças esperadas.

As ações mais significativas sempre serão as menos interessadas no poder e mais interessadas nos beneficiários de um almejado bem comum, menos enfocadas na dominação de uma agenda ou de “seus direitos” e mais dirigidas aos “direitos de todos”, em especial dos mais excluídos e à margem. No final das contas, muda-se uma sociedade (se é que chegamos a ver o final de certos processos) menos por estar interessado nessas mudanças como um fim em si mesmo do que por estar sacrificialmente comprometido com o serviço, a doação e preservação da vida.

Nota:
(1) Como o excelente e, às vezes, polêmico livro de James Davison Hunter, “To Change the World: The Irony, Tragedy, and Possibility of Christianity in the Late Modern World”, Oxford University Press, 2010.

03 julho 2012

Apologética pura e simples


Mariënwaerdt
Upload feito originalmente por Niquitin
Eu sei, o título é pretensioso, evoca o clássico do guru C. S. Lewis, mas bateu aquela vontade de homenageá-lo nesse exercício que traz mais perguntas que respostas. Algo que o autor do mundo de Nárnia fazia como ninguém. Vamos a elas, às perguntas?

O que seria a apologética, em especial com relação à Palavra de Deus? Do que exatamente estamos falando quando usamos essa palavra?

Na história da igreja cristã já vimos diferentes aproximações à pergunta sobre como alguém chega a crer. Houve aqueles que defenderam que é necessário “compreender para crer”, outros que defenderam o paradigma de que é preciso “crer para entender”, e movimentos mais contemporâneos que defendem que é preciso “pertencer para crer”, em uma alusão à importância do sentir-se parte de uma comunidade no caminho da fé, antes mesmo de abraçá-la.

Quem tem a razão? Possivelmente cada uma das abordagens traz suas verdades, suas fortalezas, mas também suas debilidades. Assim talvez o melhor caminho seja a sensibilidade para entender que há diferentes pessoas, diferentes gerações e culturas, reconhecendo que as rotas que traçamos nos mapas da apologética podem ser variadas.

Bem, havendo usado a palavra apologética já três vezes nesse texto (ops, quatro…) digamos que ela merece uma tentativa de definição. Aqui vai uma comumente usada:

Apologética é a ciência da defesa da fé. Tudo bem, reconheço que a palavra “ciência” aí atrás já condiciona o conceito, como se o mais importante fosse o método científico, razoável, plausível, de apresentar a fé. E, claro, a outra palavrinha, “defesa”, nos complica mais ainda. Ela nos põe na defensiva, como aquela criança pega no pulo e que tenta se explicar. Se defesa nos transmite a ideia de que a fé é culpada de algo e tem que se justificar, então busquemos outra definição.

O tal do Lewis costumava fazer algo que era bacana. Ele dizia que uma coisa não era outra coisa, ou que não era um conjunto de outras coisas, só para no final dizer então do que em verdade se tratava essa coisa. Captou?

Por exemplo, apologética não é evangelismo, porque evangelizar é compartilhar uma boa notícia, com conteúdo, começo, meio e fim, apresentar e propor uma mensagem, de preferência dessas que explicam tudo, ou quase tudo, o que alguns chamam de metanarrativa. Bem, não se complique muito com essa última palavra.

Mas se você gostou, anote aí, apologética também não é metanarrativa, porque não procura dar uma explicação ampla sobre todas as coisas, como se fosse algo definitivo, acabado, com todas as respostas. Seria ambição demais para ela, lembre-se, ela deve ser “pura e simples”.

Apologética também não é confrontação, ameaça, nem argumentos para ganhar discussão. Tampouco é tergiversar, que é aquele negócio de distorcer o que o outro acredita só para parecer mais ridículo e assim desacreditar mais facilmente a posição do outro.

Se não é isso ou aquilo, o que seria? Aqui segue uma simples aproximação: apologética é limpar o caminho, sacar os obstáculos, lavar as lentes dos óculos, tirar a cera do ouvido, remover os preconceitos e convidar a um encontro honesto e genuíno.

Para o propósito específico desse artigo, que é o da apologética relacionada à Palavra de Deus, sugiro alguns passos para que ela seja saudável, pura e simples:

1. Escutar – Quais são as percepções que as pessoas têm a respeito dos textos das Escrituras? Antes de propor algo, busque sondar o que creem, se creem em algo, como creem. Veja se já leram algo, como leram, com que lentes. Que perguntas elas tem? Essa será uma importante etapa para chegar ao próximo passo.

2. Fazer perguntas – Comece com as perguntas que as pessoas, em especial seus amigos não cristãos, fazem ao texto. Às vezes são questões que os impedem de chegar ao texto, outras vezes são perguntas que levantam quando leem o texto. Que elas venham! Se forem prévias ao texto, por exemplo ao não acreditar nas intenções de quem escreveu, busque devolver as perguntas, com sensibilidade e respeito. Por quê? Seria mesmo tudo montado? Como você vê o texto? Certa vez recordo que um amigo da universidade disse que havia muita coisa “inventada”, “adicionada”. Eu lhe perguntei “quanto por cento?”. Depois de me olhar meio estranho, disse “sei lá, pelo menos uns 30% deve ser adição feita tempos depois”. Devolvi, “estou satisfeito com 70%, vamos ler juntos?”. Aí há um ponto de partida, um começo, que é onde a pessoa está e não onde eu gostaria que ela estivesse.

3. Construir pontes – A razão tem lugar? É razoável supor que sim. A emoção também? Intuo que esta também tenha o seu lugar. E se há objeções pessoais, morais, da história de vida de alguém que a impede ou de chegar à Palavra ou de aplicar em sua vida uma verdade aí descoberta? É preciso saber construir essas pontes, limpar o caminho, ajudar a que se deem esses encontros pessoais, no estilo de cada um, com a Palavra e o Espírito que a inspirou. Nossas opiniões, interpretações ou pregações não substituem a beleza e o poder desse encontro pessoal de cada um com o Senhor através da Palavra.

4. Construir relações – Aprendi desde cedo na ABU que a Palavra também se lê e se entende em comunidade, que não é algo acessível só aos eruditos. Que ela também se lê em relação aos contextos (de quando foi escrita e os de agora), em um processo onde a realidade traz perguntas à Palavra e por sua vez as Escrituras também desafiam a realidade. É um ir e vir dinâmico, onde a comunidade é essencial porque vamos entendendo e obedecendo juntos. Apologética relacionada à Palavra é também “ler junto com” o outro.

5. Deixar a Palavra falar – Um grande perigo é achar que já sabe o que a Palavra irá dizer sobre qualquer assunto. O alerta serve para crentes e não crentes. Como saber se estou caindo nessa armadilha? Um bom indicativo é checar se você sempre está buscando no texto os argumentos que reforçam aquela sua posição já consolidada sobre algum tema. E um bom sinal positivo é se você fica encucado com um texto, se ele te desafia, se te provoca a pensar mais, a orar mais, a ver junto com outros na comunidade se é necessário rever uma postura que talvez seja mais fruto da tradição do que uma desafiadora verdade descoberta na Palavra.

Cinco sugestões sem muitos devaneios e argumentações que espero nos ajudem a entender os caminhos dessa tal apologética pura e simples.

Obs: texto originalmente publicado em "Entre Nós", uma publicação da ABUB.

19 junho 2012

É fácil pecar?


É Proibido
Upload feito originalmente por Elisa Martins
Ainda me surpreendo, com o meu pecado e o alheio. Não deixo de notar que meu coração segue entranhado no mal, minha língua continua rápida para ferir e minhas mãos ainda são rápidas para fazer o que não devo e ágeis para se omitir onde e quando deveriam atuar.

Talvez por isso minha surpresa ao deparar-me outra vez com essa pequena frase da primeira carta João ao preparar as exposições bíblicas para o recente congresso nacional da ABU (Aliança Bíblica Universitária): “seus mandamentos não são pesados” ou, em outra tradução, “seus mandamentos não são difíceis de obedecer”*. Como assim? Eu, e aqueles estudantes universitários com quem eu me reunia para estudar a Palavra sabemos que facilmente nos enredamos no mal. E que muitas vezes só com dificuldade alcançamos seguir o bem e a justiça.

Como resolver essa equação? Devo confessar e reconhecer que minha cabeça de engenheiro segue uma lógica linear, bem diferente da lógica circular do texto da carta. João tem essa mania de dar voltas, de repetir-se, de dificultar a nossa tarefa de tentar preparar uma exposição e esboço mais lineares, concatenados e objetivos.

Minha esposa adorou saber que a lógica de 1 João é mais circular. Parece que isso tem a ver com os momentos da vida privada do casal quando já cheguei a lhe dizer algo como “não tem lógica esse seu argumento”. “É só uma lógica diferente”, dizia ela. Agora, inclusive, ela anda contente com essa aparente “base bíblica”, sugerindo de forma marota que seus argumentos seguem “uma lógica como a de João”.

Voltemos ao tema do pecado, de onde saímos. Como resolvo o dilema, esse sobre se seria fácil pecar, como minha experiência e a de muitos sugere ou se seria fácil obedecer, como sugere o apóstolo amado?

O caminho das equações, das razões e proporções me oferece uma luz. Me parece que quanto mais perto do Senhor, em íntima e cultivada relação, mais fácil é para mim obedecer. E quanto mais longe do Senhor, quanto mais distante de seu coração e de seus propósitos para mim, mais pesados serão os seus mandamentos e, por conseguinte, mais fácil será pecar.

Abro parênteses para sugerir que paremos de ver o pecado como algo que esteja fora de nós, para o qual olhamos e analisamos a partir de um ponto de vista frio, objetivo e imparcial. Nossa natureza é pecaminosa. Assim o comum e o natural são a maldade, a injustiça e a omissão que brotam de nosso coração. O ponto de partida sempre deve ser o reconhecimento de nosso estado e nossa confissão. Assim se pavimenta a rota para a santidade e a retidão.

Seja na ecologia, na economia, na sexualidade ou na devoção, peco mais fácil quando me afasto da luz e me perco nas trevas. Na escuridão eu não consigo ver a realidade ao meu redor, não sei para onde estou indo e ainda faço com que outros tropecem**. Mas quando me aproximo de Deus e de sua Palavra, seus mandamentos não pesam e a obediência me leva à paz e à justiça nas micro-relações pessoais, na relação com Deus e na vida ética do povo de Deus no mundo onde o Senhor nos colocou. Fácil pecar ou fácil obedecer? Depende de você, do que você se alimenta e por onde você anda.

Notas
* 1 João 5.3b, NVI e NTLH
** 1 João 2.10,11

28 maio 2012

Lições da África


Cape Coast castle
Upload feito originalmente por Andy_Bmore
“Use sua imaginação”, nos disse o guia, ao passar pela “porta sem volta” (“door of no return”) no Castelo da Costa do Cabo (“Cape Coast Castle”) em Gana, na África Ocidental. “Busque pensar no que passava pela cabeça daqueles que saíam daqui para nunca mais regressar à sua terra e família”.

Por ali passaram inúmeros dos milhões de africanos capturados para o trabalho escravo nas Américas. Antes haviam sido armazenados em condições inumanas nos escuros porões de pedra desse castelo mantido ativo pelos britânicos de 1665 a 1807, o principal centro “exportador” que alimentava o tráfico escravo transatlântico.

A voz do guia quase sumia quando meu pensamento voava pelas datas indo até os cristãos britânicos daquela época. Era difícil me concentrar, me mareava, sem saber o que pensar caminhando por pequenos e sombrios calabouços onde metiam 200 a 300 pessoas. Amontoados e rebaixados à degradação, seres humanos feitos à imagem de Deus, o mesmo Criador em quem professava sua fé a maioria dos habitantes da nação responsável por administrar esse centro de horrores.

Esse havia sido meu dia “livre”, de “passeio”. Mais tarde, regressei à consulta em que participava com muitas perguntas, um tanto incomodado e perturbado. O encontro com 30 representantes de todas as regiões do mundo era para discutir como deve se dar a formação de estudantes e profissionais para que sejam fiéis ao Senhor e relevantes em sua geração. Voltei então às minhas notas e separei três frases que escutei durante a consulta e que me ajudaram a delinear agendas para o caminho adiante.

“Nosso principal objetivo é investir em pessoas”. Foi a frase que recordo ter escutado bem ao início do encontro, a primeira que escrevi em meu caderno. Daniel Bourdanné, o atual líder da equipe internacional da comunidade (IFES) que congrega mais de 150 movimentos estudantis cristãos em todo o mundo, como a ABU no Brasil.

Prédios, livros, currículos, programas, somente possuem sentido se houver um foco na transformação integral da pessoa. Não basta só enfocar o desenvlvimento de sua capacidade intelectual ou a quantidade de conteúdo que dominará. Ou ajudamos a formar discípulos que são integralmente transformados e agentes de mudança ou então de nada serve o esforço. Cada processo de formação tem que ser pessoal, preocupado com o caráter, com as relações e com a conexão do indivíduo e sua comunidade com o seu mundo.

“Recuso que a vilania seja necessária”. Foi um privilégio ter o missiólogo Andrew Walls, do alto de 80 anos de vida e experiência, contando em prosa fácil as lições da história da igreja, na África, na China e também de sua terra natal, o Reino Unido. Daí essa sua frase acima, uma citação de John Wesley (“Pensamentos sobre a escravidão”, de 1774).

O tráfico de seres humanos era altamente rentável no século XVIII. Assim como os motores da economia que hoje produzem o aquecimento global (para o caso de ser um dos céticos no tema, pense pelo menos na exploração indevida e na destruição dos recursos naturais do mundo que deixam como legado um mundo bem pior para as futuras gerações). Ou ainda como a lucrativa exploração sexual de mulheres, de imigrantes não documentados e de crianças. Rentável como os negócios dos senhores das drogas ou dos mestres das especulações financeiras que na atualidade desempregam a milhões e deixam a outros bilhões excluídos do sistema.

Que fazemos com a vilania? Consultas, como a que eu estive, para “discutir” o assunto? Claro que nada de errado há com as reuniões, mas algo está muito mal quando gente morre nos porões dos castelos contemporâneos de escravidão, passando por portas muitas vezes sem volta, sem que nos preocupemos, oremos e nos mobilizemos em obediência missionária transformadora.

“Alimentamos-nos da história ao caminhar para o futuro”. Quando ouvi Pete Lowman (esse estimado irmão que já escreveu um livro sobre a história do movimento estudantil cristão no mundo) dizer essa frase, tomei a resolução de buscar aprender mais com os erros e os acertos do passado. Não para grudar nostálgico no retrovisor, nem para ler acriticamente ou ingenuamente a história. Mas para reconhecer que cada geração tem os seus problemas e precisamos aprender em comunidade a responder aos desafios dessa que nos cabe viver. Carecemos do trabalho precioso dos historiadores ao examinar o passado! Necessitamos da sensibilidade e coragem dos profetas para os passos que damos no presente, aqueles que seguramente determinarão o nosso futuro.

Sem aprender do passado me torno arrogante, sem obediência no presente me torno negligente e sem enfrentar o futuro me torno irrelevante. Essas são portas perigosas, a arrogância, a negligência, a irrelevância, quase sem retorno. Outra vez ouço o convite daquele guia, “use sua imaginação”. Uso-a agora para sonhar que voltamos à Palavra de Deus com humildade, diligência e antenados com o nosso tempo. Para que em comunidade saibamos formar os discípulos e discípulas de Jesus que no mundo de hoje serão relevantes em missão.